DEFININDO O OBJETO DE ESTUDO
I. 3.3.3 Troca de have por be
Considerando ainda a estrutura de construções de auxiliar + particípio passado:
(181/63) ... BE D/P° AGRS T AGRO V…
Se D/P° se incorpora a BE, o resultado é HAVE. Até agora não houve interação entre D/P° e o V mais baixo. Consideremos agora o seguinte: D/P° não se alça até BE, mas o próprio V mais baixo se alça até D/P° , e o V particípio mais baixo é ele próprio BE. Isso poderia resultar no seguinte: haveria um constituinte [D/P° + V] comparável ao constituinte produzido pela incorporação de D/P° ao BE mais alto. Em outras palavras, se uma língua permite o V mais baixo se alçar até D/P° , então se o V mais baixo é BE, poderia se esperar que " BE D/P° ... BE " aparecesse como "BE HAVE ...[e]", ao invés do familiar "HAVE [e] .... BE", como em "John has been ill". Esse tipo de língua parece existir:
(182/64)
CONCLUSÃO
Neste capítulo, defini meu objeto de estudo a partir de três pontos: (1) o processo de redobramento sintático e a questão da minioração, (2) a gramaticalização, e (3) a auxiliarização, como resultado da gramaticalização de verbos plenos.
As gramáticas tradicionais sempre consideraram o redobramento sintático pronominal como um fato marginal, não passando de uma mera questão de ênfase. Ao ser estudado mais detalhadamente, e levando-se em conta uma perspectiva teórica, o redobramento sintático revelou-se como um processo muito importante, pois pode ocasionar a mudança tipológica de uma língua, além de mudanças em alguns setores da língua.
O redobramento sintático pronominal é composto por um pronome fraco e por um pronome tônico, que pode ser preposicionado ou não. Os dois pronomes se correspondem e estão contidos numa mesma fronteira sintática, sendo que a sentença é vista aqui como estando dentro da abrangência da categoria CP. E mais, o pronome fraco duplica o pronome tônico, preposicionado ou não.
Kato (1999) divide a classe dos pronominais em fortes ou fracos, e os fracos podem ser pronomes livres, clíticos ou afixos de concordância. Os pronomes fracos nunca podem ser Foco nem "aparecer em posição periférica de reduplicação", e podem ser expletivos.
O pronome fraco corresponde a clíticos como o acusativo o, o dativo lhe, os ablativos/locativos hi/en, o genitivo/partitivo en, pronomes pessoais do tipo eu>o,
você>ocê/cê, ele>ei no PB, a pronomes reflexivos do tipo se, a pronomes possessivos
como sa/sua,seu, ao pronome demonstrativo neutro do tipo o, ou a um pronome não- realizado foneticamente, entre outros.
Os pronomes fortes podem aparecer como foco, como pronome deslocado num caso de duplicação, como duplicado por um pronome fraco, não podem ser expletivos, já que são referenciais, e têm o caso "default nominativo no PB e PE14”. E mais, tanto os pronomes fortes como os fracos podem ser homófonos a um pronome fraco, como, por exemplo, o inglês:HIM/him, e o PB: ELE/ele.
O pronome tônico corresponde a pronomes ou sintagmas nominais preposicionados, representado por PPs do tipo acusativo a ele // a NP, dativo a ele/a NP, ablativo/locativo em NP/de NP, genitivo/partitivo de NP, ou pronome pessoal do tipo ELE, também existente no PB, ou pronome possessivo do tipo de ele/de NP.
A minioração, cuja teoria foi formulada por Stowell (1995), é a projeção lexical de um predicado. O predicado pode ser um verbo não-flexionado (gerúndio, infinitivo ou particípio), um adjetivo, uma preposição ou um nome. O seu sujeito ocupa o lugar de especificador dessa projeção lexical.
As miniorações podem ser de dois tipos: (i) as que contém o traço [+V], miniorações verbal e adjetiva, e (ii) as que possuem o traço [-V], miniorações nominal e prepositiva. Podem ter a função gramatical de complemento, de adjunto ou ser atributiva.
Existe um tipo de minioração que é diferente da atributiva e se chama equativa. Ela é constituída de dois DPs definidos, sendo que um é seu predicado, e o outro, seu sujeito, que pode ser um pronome resumptivo forte ou um clítico; o SPEC do DP predicado não pode estar preenchido por um pronome. Seus constituintes podem ser invertidos, o que não acontece na minioração atributiva. Não possui cópula.
Nesta tese vou trabalhar com o locativo redobrado hi, que é um clítico e que redobra um PP iniciado pela preposição em. Esse locativo redobrado constitui um tipo especial de minioração - a minioração equativa - , na qual o predicado é uma preposição e o sujeito , o clítico hi.
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Em muitas línguas é comum encontrar-se verbos plenos e temáticos que passaram a verbos atemáticos. Essa alteração que ocorre em verbos é chamada de gramaticalização.
Roberts (1993) propõe que um verbo, quando está se gramaticalizando, passa por alguns estágios: (i) inicialmente é um verbo pleno e tem conteúdo lexical, (ii) quando perde o conteúdo lexical passa a ser um verbo predicativo, (iii) em seguida passa a fazer parte de uma construção perifrástica, na qual é somente suporte de tempo e pessoa, e (iv) por fim se aglutina a um outro verbo, como um morfema. Os verbos plenos atribuem papel-θ aos seus argumentos e não se movem com tanta liberdade como os verbos auxiliares, que não estabelecem relações temáticas com os argumentos.
O verbo latino habere teria passado, segundo Roberts, pelos estágios citados acima até chegar ao ponto de constituir o futuro perifrástico românico: (i) habere como verbo autônomo, no latim clássico, tinha vários sentidos e sobreviveu como verbo autônomo em várias línguas românicas: fr. avoir, it. avere, etc.; (ii) seguido de um infinitivo, habere se torna um auxiliar funcional, pois não atribui mais papel-θ aos seus argumentos, e o infinitivo, possuindo um conteúdo lexical, passa a ser o verbo principal; (iii) habere, entre os séculos VII e VIII já é um marcador de futuro; e (iv) habere, por volta de 842, aparece como afixo no francês.
Lightfoot (1979), estuda um grupo de verbos que se gramaticalizaram no inglês. No Inglês Antigo e Medieval havia um grupo de verbos, os pré-modais sculan, willan,
magan, cunnan, motan, que tinham todas as propriedades de verbos autônomos, plenos:
(i) possuíam paradigma completo de número/pessoa, (ii) se posicionavam como os outros verbos em relação à negação e inversão, (iii) podiam ocorrer adjacentes uns aos outros, (iv) podiam aparecer como gerúndio ou infinitivo, (v) podiam ocorrer em posição final de sentença, como qualquer verbo neste estágio do inglês, quando a ordem básica era SOV, e (vi) podiam ter complementos como objeto direto. Esses verbos sofreram modificações significativas, e no Inglês Moderno eles pertencem à classe dos auxiliares, com as
seguintes propriedades: (i) não possuem concordância de número, (ii) não podem ocorrer adjacentes uns aos outros, (iii) não podem ocorrer como infinitivo ou gerúndio, e (iv) não possuem complementos.
O verbo estar começou a se modificar quando passou a interagir com a
minioração equativa que continha o clítico locativo hi e seu redobro. A gramaticalização desse verbo foi muito lenta e se iniciou ainda no latim. Ela pode ser resumida em três etapas: (i) no latim, estar era um verbo pleno e temático, (ii) ainda no latim e em contato com o locativo hi, estar começa a adquirir traços de um verbo predicativo com um predicado do tipo locativo; na fase romance e na primeira fase do português medieval,
estar também passa a admitir outros tipos de predicados: adjetivos/particípios/PPs
adjetivais, e advérbios/adverbiais modais, (iii) no PM, estar se aproxima de formas nominais como o gerúndio e o infinitivo preposicionado, passando então a ser um auxiliar e constitui com elas as perífrases de estar + -ndo e a –r, que expressam o aspecto progressivo em português.
Concentrando-me na questão da auxiliarização, repassei os argumentos de Kayne (1993), para quem a alternância entre o auxiliar have e o auxiliar be é a cláusula de particípio que é o complemento deles. Have e be devem diferir um do outro em pelo menos um ponto, pois have incorporou uma preposição abstrata. A par disso, problemas com a cláusula de particípio são centrais: (i) se é uma "full clause", com um T°, um AGRS° e o equivalente a um C°, ou se é uma "reduced clause" com apenas AGRO°, (ii) se AGRO° pode se alçar ou não, e a que traços de pessoa ele é sensível, (iii) se T° precisa ser alçado ou não, (iv) se Esp, AGRO pode se mover ou não, (v) quantos argumentos o V tem que precisam ser licenciados por Caso, etc.
No Cap. II estudo o redobramento do locativo hi, dando por encerrada uma das linhas da tese.