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2.2 Turismo e as Redes no Turismo

2.2.1 Turismo como Setor Econômico e sua Cadeia Produtiva

O turismo vem sendo pensado de maneira reflexiva neste período contemporâneo, por conta de recentes estudos e por apresentar disparidades que geram contestações entre as diferentes correntes de estudiosos do tema. Isso confere ao turismo um caráter de "atividade conflitante" que revela o estado atual do conhecimento na área e a sua enorme potencialidade no plano prático e no limite reflexivo (ACERENZA, 2002). Alguns estudos não conferem ao turismo o caráter de “setor” econômico, já que os componentes do processo produtivo do turismo são heterogêneos e gerados por fontes muito diferentes (SILVA, 2004).

Na literatura está explícito que a importância econômica das atividades turísticas e seus impactos sobre as economias, sociedades e ambientes são suficientemente significativos, porém a conceituação do turismo como setor é confusa e sem ponderações aprofundadas, gerando dificuldades analíticas ao se pensar em redes interorganizacionais e mesmo em competitividade setorial (COSTA, 2005). Essas dificuldades, segundo Beni, (2003), ocorrem pela multissetorialidade da atividade, mas podem ser superadas à medida que se compreenda a cadeia produtiva do turismo. O turismo é apresentado corriqueiramente na literatura, em estudos e na academia como setor sem ponderações consistentes:

A criação de postos de trabalho no setor de turismo exige investimentos de menor vulto se comparados com outros setores da atividade econômica (...) [grifo nosso] (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2003, p.05).

Apesar do turismo constituir-se, nos dias de hoje, em um dos mais importantes instrumentos de geração de emprego e renda em todo o mundo, a atividade ainda não deixou de ser encarada como um setor menor da economia produtiva (...) [grifo nosso] (CARVALHO in BENI, 2003, P.10).

O turismo é apresentado hoje como um setor capaz de promover a aceleração econômica e o incremento nas áreas social, cultural e ambiental (...) [grifo nosso] (BARBOSA; ZAMOT, 2004, p. 01)

Beni (2003, p. 34) afirma que existem polêmicas quanto ao significado econômico conciso do turismo. É possível encontrar referência à atividade como uma indústria, um fenômeno econômico e social, setor econômico ou atividade econômica e social. O conceito

proposto pela Secretaria da UNCTAD7, apresentado por Acerenza (2002), é aceito para suprir a falta de coesão sobre a definição econômica do turismo.

[...] não se pode elaborar um conceito formal do “setor turístico”, mas sim concebê-lo, em linhas gerais, como o conjunto das atividades industriais e comerciais que produzem bens e serviços, consumidos total ou parcialmente por turistas (UNCTAD, 1971 apud ACERENZA, 2002, p. 42).

Depois de trinta e cinco anos deste apontamento da UNCTA e avanços nos estudos do turismo, sente-se a necessidade de uma definição para a atividade turística a fim de proporcionar a operacionalização de pesquisas acadêmicas e aplicadas. Observa-se que não há um consenso que possa ser adotado para o conceito econômico do turismo, como é corrente em diversas conceituações desse campo de estudo.

A conceituação do turismo é complexa e abrangente, gerando muitos questionamentos, como os realizados por Costa (2005) e Munoz de Escalona (2002 apud SILVA, 2004). Assim, ao considerar a falta de precisão no conceito do turismo, Costa (2005) questiona o conceito de empresa turística: deveria esta ser pertencente ao mesmo setor (no caso, o setor turístico)? Ou deveriam ser consideradas como negócios de diferentes setores (hospedagem, transporte, entretenimento, alimentação, etc.) e que completam a produção de um serviço (no caso da produção de serviços complementares a um mesmo turista)? Para Munoz de Escalona (2002 apud SILVA, 2004), a questão é definir se o turismo é um fenômeno social ou uma atividade econômica. Se de fato o é, qual seu tipo? Para esclarecer o questionamento, aquele autor raciocina a partir do que consiste uma atividade econômica:

a que tem por finalidade satisfazer necessidades humanas destinando para tal fim recursos escassos suscetíveis de usos alternativos. O turismo não pode ser considerado como uma única atividade produtiva e sim um heterogêneo e complexo grupo de atividades produtivas, tal assertividade é uma conseqüência direta da consideração do turismo como atividade consultiva, derivada de sua concepção como fenômeno social [...] (MUNOZ DE ESCALONA, 2002 apud SILVA, 2004, p. 278)

Com base na teoria “multisetorial” da produção turística, o mesmo autor enaltece que “[...] são potencialmente turísticos qualquer empresa e qualquer setor, mas isso equivale a negar a existência do produto turístico como tal” (MUNOZ DE ESCALONA, 2002 apud SILVA, 2004, p. 278).

Em sua tese sobre “Turismo, Crescimento e Desenvolvimento: uma análise urbano- regional baseada em cluster”, Silva (2004) destaca a necessidade de uma disciplina no âmbito

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global para a operacionalização do turismo, a fim de que o setor adote uma racionalidade econômica que permita a administração das variáveis envolvidas, para a obtenção integral do desenvolvimento das suas potencialidades. Isso se justifica por dois problemas básicos: sua má distribuição no tempo e sua polarização no espaço, quando o turismo se apresenta como uma corrente massiva que se desloca desde um mercado de origem até um núcleo receptor.

Os autores Eadington e Redman (1991) afirmam que o turismo é um fenômeno econômico, pois consideram dois pontos da economia, sendo que o primeiro está focado na microanálise, ponderando os recursos envolvidos no processo de produção e consumo de atividades turísticas e o entendimento do que determina o mercado turístico. O segundo está focado na perspectiva de macroanálise ao focalizar a sua atenção na utilização que o turismo faz dos recursos da sociedade, como nas trocas e relações econômicas com vários países.

Através de seus estudos, Leiper (2003) faz críticas ao conceito de turismo, visto não como setor econômico, mas como sistema integrado no qual interagem várias partes intimamente relacionadas por apresentar semelhanças com os setores que produzem e utilizam tecnologias similares. Paralelamente, o Ministério do Turismo do Brasil (2003) define o turismo como um setor estruturado por vários segmentos, como produtores, distribuidores e intermediários, sem deixar evidente as balizas de limitação entre os agentes que o realizam (COMISIÓN EUROPEA, 2003). Para Costa (2005), esta abordagem é reflexo tanto da necessidade de integração horizontal e vertical, como da indefinição acerca de o turismo ser realmente um setor econômico.

A OMT (2006) e a Comisión Europea (2003) tratam com maior amplitude a economia do turismo, considerando empresas ligadas direta e indiretamente às atividades turísticas através de seus efeitos transversais produzidos pelos 55 setores econômicos (empresas de impressos, bancos, saneamentos, imobiliárias, indústria automobilística e aeronáutica, informática, alimentação, lavanderias, combustíveis, construção, entre outros) que de alguma maneira são influenciados por esta atividade e que freqüentemente são utilizados como argumento para apresentar a projeção do turismo, bem como, seu potencial econômico. Para este estudo será admitido o turismo como um setor composto por empresas diretamente ligadas à atividade turística: empresas de hospedagem, fornecedores, restaurantes, entretenimento, transportes e outros serviços relacionados com viagens. Sendo essa visão também compartilhada pela Embratur (2006), que destaca esta conceituação em suas pesquisas acerca do desempenho do setor turístico no Brasil (Figura 02).

Figura 02 – Esquema Básico Canais de Comercialização do Turismo

Fonte: Acerenza, 2002, p.229

As estatísticas que se referem ao turismo como a maior indústria do mundo, citadas pela OMT (2006), trazem à tona resultados de todos os setores agregados evidenciados anteriormente, entretanto, o escopo deste trabalho é o setor turístico. Encontram-se dificuldades diante desse fato para ratificar as estatísticas do turismo brasileiro, calculadas conforme metodologia utilizada pela EMBRATUR. Parece relevante destacar que pesquisas como a de Arbache et al. (2004) demonstram a necessidade de junção dos indicadores econômicos e sociais para definição do turismo como setor. Utilizando a matriz de contabilidade social do turismo, aqueles autores destacam que o PIB do turismo (R$ 77,5 bilhões) representa 5,56% do PIB brasileiro e 4,32% da produção total nacional. Estes dados revelam que a participação do turismo no PIB nacional é maior que na produção total (e o PIB conta apenas com o valor adicionado, não com o consumo intermediário), permitindo ponderar que o setor turístico contribui acima da média de outros setores da economia. Em segunda instância, os autores alertam que somente 0,17% do investimento privado no país foi direcionado ao turismo e resultou em mais de 5% do PIB, resultado significativo e extremamente positivo, sem considerar a grande parcela de atividades e negócios informais (os demais setores juntos respondem por aproximadamente 4%). O estudo daqueles autores sugere que o turismo seja fator de destaque na economia brasileira, pois consideram que o PIB do turismo está concentrado principalmente em empreendimentos de alimentação, de transporte e hospedagem, em retornos de ascensão em investimentos realizados e desenvolvimento sócio-econômico.

Caracterizado por suas inter-relações entre os vários atores que o compõe, o turismo evidencia sua relevância sociocultural e econômica, ratificando seu potencial para gerar e desenvolver benefícios para todos os envolvidos. Pode ser uma das ferramentas para a

competitividade de uma região, com a otimização de recursos e a junção de esforços para incrementar a qualidade de seus produtos e serviços. Conforme Silva (2004), o turismo representa um conjunto de atividades produtivas que interessam a todos os setores econômicos de um país ou região, caracterizando-se por possuir uma interdependência estrutural com as demais atividades.

O turismo conta com uma estrutura econômica própria através de diversas organizações intermediárias que promovem e realizam a distribuição do produto turístico, tornando o gerenciamento desta atividade complexa. A estruturação e as características do turismo como setor oferecem noções para a aplicação dos estudos das redes interorganizacionais (NORDIN, 2003) e conforme Santos (1997), as redes são abstrações conceituais e seus princípios gerais são aplicáveis a diferentes setores.