W ARRIORS PELA SALVAÇÃO DO MUNDO
3.2 Q UANDO O ALTO “ PREÇO DA JUSTEZA ” LEVA AO “ LADO PERVERSO ” DA VIRTUDE
31. Cf. SHAW, Tony. Martyrs, Miracles, and Martians Religion and Cold War Cinematic Propaganda in the
1950s. Journal of Cold War Studies, v. 4, n. 2, p. 16, 2002.
32.
Cf. AZEVEDO, Cecília. A santificação pelas obras: experiências do protestantismo nos EUA. Tempo: Revista do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, Niterói: Sette Letras, n. 11, p. 117, 2001.
33. Cf. CANIPE, Lee. Under God and anti-communist: How the pledge of allegiance got religion in cold war
Caso concordemos com a afirmação de Luiz Costa Lima de que as mediações podem ser entendidas como parte do jogo de pressões onde atuam diversas instâncias sociais – isto é, o consenso não se impõe por si, pois há instâncias e instituições que o inclinam nesta ou naquela direção, talvez possamos ir um pouco além dos filmes e entrar em um terreno mais amplo e complexo.34
Em momentos de maior tensão política e social, houve um esforço por parte do Estado estadunidense para o absorvimento, manutenção e proveito dos múltiplos poderes singulares secretados pela sociedade, destacando-se aí a pressão exercida sobre a mídia e sobre os movimentos de esquerda. Outra característica importante, e que está ligada à que acabamos de citar, refere-se à dominação exercida pelo poder estatal e de funcionamento do capital. Essa relação consistiu em atividades ligadas, projetadas e realizadas por indivíduos agrupados, que dispunham de forças materiais e ideais que lhes permitiram ordenar e exigir certa obediência. Desse modo, ao designarem condutas de dominação governamentais e administrativas, que produzem efeitos sociais materialmente identificáveis, que penetram a totalidade da vida coletiva, podemos compreender melhor o que Noam Chomsky denominou de “cultura totalitária”, ou seja, o emprego do medo como instrumento privilegiado para se fabricar o consenso.35
Quando se fala em absorção de poderes e cerceamento de liberdades civis, o termo totalitarismo36 reaparece com todo o peso inquietante que a palavra evoca. Provavelmente, o primeiro a empregar o termo totalitarismo foi Giovanni Gentile, em meados da década de 1920, para se referir ao regime então vigente na Itália. O próprio Mussolini também o empregou algum tempo depois. Apesar de o termo surgir no período entre guerras e de haver sido empregado tanto para definir os regimes de tendência fascista surgidos na Europa nesse período quanto para qualificar o regime soviético, ele adquiriu uma maior solidez conceitual de meados para final da Segunda Guerra Mundial, com Sigmund Neuman. Ainda, deve-se ressaltar, que o conceito ganhou maior complexidade e penetração no mundo acadêmico dentro do contexto da Guerra Fria, com Hannah Arendt, Carl Friedrich e Zbigniew
34. Cf. LIMA, Luiz Costa. O leitor demanda (d) a literatura. In: JAUSS, Hans Robert et al. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 16.
35.
Cf. CHOMSKY, Noam. Controle da mídia: os espetaculares feitos da propaganda. Rio de Janeiro: Graphia, 2003.
36. Entendemos que o conceito totalitarismo possui limitações históricas, algumas delas decorrentes do peso
Brzezinski.37 Entendemos, que nos anos iniciais da Guerra Fria o conceito foi sendo transformado em um robusto instrumental de ação ideológica com o objetivo muito bem definido de igualar o stalinismo soviético ao nazismo.38 Aqui, levantaremos alguns aspectos de um fenômeno que merece uma abordagem mais profunda e detalhada, e que, como bem se sabe, não é recente.
Vários autores já apontaram similaridades entre o Regime Soviético durante os anos de Stálin e o macarthismo.39 Desde 1938, o psicopatologista húngaro radicado em Paris, Joseph Gabel, já usava o termo para mostrar como stalinismo e nazismo se assemelhavam em termos de efeitos psíquicos (nas massas) pretendidos pelas suas elites dirigentes. Na década de 1950, Gabel aplicou a sua teoria psicopatológica do totalitarismo para estudar precisamente o macarthismo,40 a partir de diversos artigos publicados na época e de dois volumes de artigos publicados como “Ideologies”.41 Posteriormente, estudou o macarthismo, stalinismo e nazismo como fenômenos totalitários, do ponto de vista cognitivo.42 A dificuldade nessa comparação reside menos nos inúmeros fatores que aproximam tais fenômenos, do que no cuidado que se deve ter em observar suas respectivas especificidades.
H. Spiro afirma haver seis traços principais que caracterizam o fenômeno totalitário. Dos traços apontados, pelo menos cinco podem ser identificados em instituições estadunidenses durante o macarthismo: 1. O universalismo: a idéia de que o sistema totalitário pretende refazer o gênero humano à sua imagem; 2. A supressão das organizações e associações não oficiais; 3. A violência militar e paramilitar; 4. A incerteza, a imprevisibilidade, a insegurança das regras: a vontade pessoal faz a lei e pode mudar incessantemente as instituições positivas. Disso resulta um sentimento de insegurança que leva à irracionalidade e ao terror; 5. A perseguição a um objetivo único como única
37.
Cf. SALVADORI, Massimo. A Crítica marxista ao stalinismo. In: HOBSBAWM, E. J. História do
marxismo. Rio de Janiero: Paz e Terra, 1986, p. 285-334; STOPPINO, Mario. Totalitarismo. In: BOBBIO,
Norberto et al. Dicionário de política. 5. ed. Brasília: Ed.UNB, 2002. p. 1247-1248; AMIEL, Anne. Hannah
Arendt. Política y acontecimiento. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 2000. p. 18. 38.
Cf. CHÂTELET, F.; PISIER-KOUCHNER, É. As concepções políticas do século XX. Rio de Janeiro: Zahar editors, 1983. p. 575.
39. Cf. NAFTALI, Timothy. One hell of a gamble: Khrushchev, Castro, and Kennedy, 1958-1964. New York:
W.W. Norton, 1997; BLANTON, Thomas. White House E-Mail: The Top-Secret Messages the Reagan/Bush White House Tried to Destroy/Book and Disk. New York: New Press, 1995.
40.
Cf. GABEL, Joseph. Sociologia de la Alienación. Buenos Aires: Amorrortu Ed, 1973. Agradecemos ao Professor José Henrique Gonçalves por essas indicações.
41. Cf. GABEL, Joseph. Idéologies. Paris: Anthropos, 1974. 42.
explicação da realidade – que caracteriza bem o totalitarismo: nenhuma política alternativa é possível, e todo obstáculo, toda oposição é interpretado como diabólica.43
De acordo com F. Châtelet e É. Pisier-Kouchner, a literatura que dava conta da “crise dos valores da civilização” surgida no seio do liberalismo – a “ameaça totalitária” – precisa ser relida, posto que nela haveria indícios de uma aproximação entre indivíduo, Estado e sociedade “que caracteriza o projeto totalitário e que condena para sempre o indivíduo, sujeito-objeto do projeto liberal”.44 Dessa forma, contraditoriamente, o liberalismo é recusado em nome de si mesmo e de sua incapacidade de realização.
Entretanto, se refletirmos sobre o tipo de ordem que ele institui, os meios que ele utiliza para impô-la e os mecanismos institucionais que põe em funcionamento, e que tem como objetivo penetrar o mais profundamente possível em todos os setores da sociedade, talvez compreendamos melhor como parte da mídia tem interferido no social em acordo com o Estado. Nesse sentido, através das relações, nem sempre conflituosas, entre Hollywood e Washington, questões importantes podem ser elaboradas para refletirmos sobre como através desse tipo de política é instituída a coerção e a manipulação ideológica, não somente através do cinema, mas da mídia em geral. Não é difícil constatar que o American way of Life, um tipo específico de liberalismo, assumiu uma “totalidade” que além de se autoproclamar natural, se considera sempre ameaçado.
Os eventos políticos envolvendo os EUA e o chamado “perigo vermelho”, revelam a perversidade que adquiriu a ideologia baseada na democracia, na liberdade de direitos individuais e na independência. A ossatura liberal do Estado parece necessitar de instituições que a mantenham sólida executando algum tipo de trabalho sujo. Haveria assim, uma aparente tensão entre elas e o Estado. Nesse sentido, cabe a seguinte questão: É possível algumas instituições serem fascistizadas – micro-fascismos – sem que o Estado o seja, de forma que ele as utilize e tente controlá-las? Essa é uma hipótese plausível. Para Anne Amiel, o governo totalitário tem como natureza o terror, e como princípio a ideologia. É através deles que o totalitarismo pretende resolver as tensões entre legitimidade e legalidade, simplesmente abolindo a separação entre o privado e público, entre a política interior (legal) e a política exterior (soberania) e entre a própria legitimidade e legalidade.45
43. Cf. SPIRO, H. Totalitarianism. International Encyclopaedia of the social sciences, New York: Mcmillan &
Free Press, v. 16, 1968.
44.
Cf. CHÂTELET, F; PISIER-KOUCHNER, É. As concepções políticas do século XX. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1983. p. 565.
45. Cf. AMIEL, Anne. Hannah Arendt. Política y acontecimiento. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 2000.
A concordância com esses preceitos possibilita inferir que a sociedade estadunidense não apresentava em meados do século XX os traços característicos de uma sociedade totalitária, mas possuía traços totalitários em algumas de suas instituições – isto é, lançou mão de instituições com traços totalitários para responder a problemas de organização política em sociedades de massa, que alguns estados, em certos momentos, se mostraram incapazes de resolver, mergulhando na experiência totalitária.
No entanto, caso essa perspectiva seja adotada, cabe indagar como relacionar o meio artístico a “uma espécie de totalitarismo auto-imposto” que conduziu a qualquer direção um “rebanho assustado”, que aterrorizado não fazia outra coisa senão gritar slogans patrióticos.46
Não é novidade que o poder político exerce uma forte influência sobre as representações coletivas. Bronislaw Baczko, argumentando nesse viés, notou certa vez que para tal poder, o domínio do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico. Para Baczko, exercer o poder simbólico consiste em reforçar a dominação efetiva pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação das relações de sentido e poderio.47
Hannah Arendt, de forma semelhante, acredita que o poder resulta da capacidade humana, de somente agir, fazer algo, ou unir-se a outros e atuar em concordância com eles. Assim, o fenômeno fundamental do poder não consiste na instrumentalização de uma vontade alheia para os próprios fins, mas na formação de uma vontade comum, numa comunicação orientada para o entendimento recíproco. Sua concepção de poder advém da faculdade de se alcançar um acordo quanto à ação comum, no contexto da comunicação livre da violência.48 Arendt acredita que a disposição sobre os meios que permitem influenciar a vontade de outras pessoas não pode ser conceituada como “poder”, mas como “violência”. Para a autora, a distinção é cabível, porque o sujeito de ações instrumentais, interessado exclusivamente no êxito de sua ação, pode dispor de meios graças aos quais pode forçar um sujeito com capacidade decisória, seja pela ameaça de sanções, seja pela persuasão, seja pela manipulação hábil das alternativas da ação. Nesse sentido, a única alternativa possível à coerção é o entendimento voluntário dos participantes entre si.
De acordo com Habermas, ao concordarmos com essa tese poderemos interpretar o “poder” e a “violência” como dois aspectos distintos do exercício da mesma dominação política. Desse modo, o “poder” significaria o assentimento dos participantes mobilizados para fins coletivos e, portanto, sua disposição de apoiar a liderança política; e a “violência”
46.
Cf. CHOMSKY, op. cit., p. 57.
47. Cf. BACZKO, Bronislaw. Imaginação social. In: Enciclopédia 5 – Anthropos – Homem. Lisboa: Einaudi-
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985. p. 297-299.
48.
significaria a faculdade de dispor sobre os recursos e meios de coação, graças aos quais uma liderança política toma decisões obrigatórias e as executa, a fim de realizar objetivos coletivos.49
A aplicação dessa teoria – que apesar de questionada, é adequada para a discussão pretendida – à preponderância do pensamento ligado à direita nos EUA nas décadas de 1940 e 1950, possibilita encontrarmos uma perturbadora similaridade. Teremos neste período um grande assentimento da sociedade, e encontraremos em parte dela a disposição para apoiar a liderança política. A violência seria facilmente percebida em algumas intervenções estadunidenses como, por exemplo: Grécia (1945-1947); China (1945-1949); Porto Rico (1950); Coréia (1950-1953); Filipinas (1948-1954); Irã (1953); Guatemala (1954).
É importante ressaltar que Hannah Arendt diferencia o movimento totalitário ocorrido em diferentes países da Europa no período entre guerras daqueles em que o totalitarismo chegou ao poder. Para ela, somente na Alemanha e na União Soviética haveriam sido consolidados estados totalitários. Ainda assim, para a autora, na Alemanha ele não se desenvolveu plenamente, uma vez que o país foi derrotado na guerra e, em decorrência, o regime ruiu.50 Assim, torna-se bastante plausível a idéia de que podemos ter assistindo, na sociedade estadunidense, à gênese de um movimento que comporta diversas características totalitárias em seu interior, como aquelas formuladas por H. Spiro.
A violência, como bem se sabe, não é exercida apenas no plano internacional. Voltamos mais uma vez às perseguições ocorridas “dentro de casa”. Parte delas pode ser explicada pelo desequilíbrio e a conseqüente inclinação dos meios de comunicação para a direita. Como mostrou Baczko, os dispositivos de repressão que os poderes constituídos põem de pé, a fim de preservarem o lugar privilegiado que a si próprios se atribuem no campo simbólico, demonstram como alguns emblemas de poderes são protegidos.51 Ao notar as pressões exercidas sobre a comunidade artística, percebemos não somente como os poderes estabelecidos reconhecem a influência dos imaginários sociais sobre as mentalidades, mas também que tais poderes dependem em larga medida da difusão desses imaginários e, por conseguinte, dos meios que asseguram tal difusão, defendendo-os sempre que possível. Um bom exemplo, citado por Angél Luis Hueso, é a sentença ditada pela Corte de Apelações do Distrito de Columbia em 13 de junho de 1949: argumentando que devido à incidência da
49.
Cf. FREITAG; ROUANET, op. cit., p. 101.
50. Cf. ARENDT, Hannah. O Sistema totalitário. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
51. Cf. BACZKO, Bronislaw. Imaginação social. In: Enciclopédia 5 – Anthropos – Homem. Lisboa: Einaudi-
indústria cinematográfica na criação da opinião pública de milhões de pessoas, não se podia admitir que as questões relacionadas a ela fossem meramente pessoais.52
Concordamos com a assertiva de Leif Furhammar e Folke Isaksson, de que um país em crise ou em perigo de guerra aumenta a simplificação de seu discurso político. O inimigo torna-se completamente mau, a própria causa é indiscutivelmente justa, e “todos” se unem em volta dos símbolos da unidade da nação. Assim, os conflitos sociais são rapidamente resolvidos ou disfarçados.53
3.3 SOB A LÓGICA DA GUERRA FRIA: DA INTERNACIONALIZAÇÃO DAS TENSÕES À