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O UTROS PROTAGONISTAS , MAS ALGUMAS PERSPECTIVAS E PROBLEMAS EM COMUM

I DEOLOGIA E CULTURA POLÍTICA NAS RELAÇÕES B RASIL /EUA

4.3 O UTROS PROTAGONISTAS , MAS ALGUMAS PERSPECTIVAS E PROBLEMAS EM COMUM

64. SARAIVA, 1951, op. cit.

65. Um bom exemplo desse tipo de estudo pode ser visto em: ROLIM, Rivail Carvalho. Os sentidos da desigualdade:

uma história social da exclusão moral na cultura jurídico-penal brasileira – 1938/1964. Niterói, 2004. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2004.

66. Cf. PROJETO de lei norte-americano sobre a lealdade política dos funcionários públicos 26 jul. 1947. Enviado

para o Ministro da Justiça e Negócios Interiores, Benedicto da Costa Netto pela Embaixada do Brasil em Washington em 29 jul. 1947. Arquivo do Estado do Rio de Janeiro – AERJ, Rio de Janeiro.

Após o término da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista não representava mais perigo, Franklin Delano Roosevelt, o “grande amigo” de Getúlio Vargas havia morrido, e Nelson Rockefeller, não era mais o diretor do OCIAA. O Brasil, como grande fornecedor de matérias primas, já não era tão importante. Para os EUA, Vargas passara a ser um parceiro incômodo, devido as suas posições cada vez mais nacionalistas.

Assim, livrar-se dessa parceria era conveniente não só pra a nova administração estadunidense, como também para os oficiais das Forças Armadas brasileiras.67 Ironicamente, os mesmos oficiais que tinham sido vistos pelo serviço secreto estadunidense como perigosos simpatizantes do Eixo, passaram a contar com o seu apoio. O novo embaixador estadunidense no Brasil, Adolf Berle, estava imbuído dessas idéias, dando início a uma nova política de crescente antagonismo ao governo Vargas.

Em 2 de dezembro de 1945, o Gal Eurico Gaspar Dutra, indicado pela coligação PSD- PTB, vence a eleição, e o candidato dos comunistas obtém o terceiro lugar, com um número considerável de votos para um nome desconhecido e com a pecha esquerdista (600.000 votos). No entanto, é significativo o número de eleitos para a Constituinte: enquanto o PSD conquista 177 cadeiras, a UDN, 87 e o PTB, 24, o PCB obtém 15, ou seja, um senador (Luis Carlos Prestes) e 14 deputados.68

A exemplo do que aconteceu nos EUA, após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, os interesses políticos mais conservadores se retraíram e surgiram outros protagonistas na arena política. Assim como nos EUA, a hostilidade aos comunistas jamais deixou de existir, apenas ficou em segundo plano, em decorrência dos problemas e das urgências da guerra. Assim, quando a guerra aproxima-se de seu fim e, principalmente, com a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, os ventos começam a mudar.

O governo de Eurico Gaspar Dutra, influenciado pelos acontecimentos internacionais, "desenvolveu uma forte ação repressiva no plano político social; além disso, a política externa em seu governo, voltou-se para o alinhamento com os Estados Unidos e para o combate ao comunismo”,69 reafirmando dessa maneira, uma expressiva política anticomunista. Nesse momento, apesar de o Governo ter defendido publicamente a legalização do PCB, não ocultava a sua posição anticomunista. Tal assertiva pode ser

67. Para uma análise mais detalhada da política externa estadunidense em relação à supressão das ditaduras latino-

americanas na década de 1940 ver: SCHOULTZ, op. cit., p. 353-368.

68.

Cf. CARONE, Edgar. A República Liberal I: instituições e classes sociais (1945-1964). São Paulo: Difel, 1985. p. 336.

69. Cf. MOURA, Gerson apud RODEGUERO, Carla Simone. O Diabo é Vermelho: Imaginário Anticomunista e

evidenciada pela demissão do Maj Amílcar Dutra de Menezes da direção do DIP, pelo General Dutra, após ter emprestado o equipamento de som daquela repartição para que Luis Carlos Prestes realizasse um comício público, para cerca de 80 mil pessoas, no estádio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.70

A partir de 1945, a crescente atuação do PCB foi chamando cada vez mais a atenção e gerando descontentamento entre as classes dirigentes. A postura política do PCB se destacou na Constituinte e na Câmara dos Deputados por uma posição ideológica que o diferiu de outros partidos, o que contribuiu para o crescimento da hostilidade que desembocou na cassação do partido em 1947. Para Edgar Carone, a postura do partido motivou uma crescente tensão entre as forças conservadoras e as que defendiam posições de esquerda. Além disso, a atuação do PCB em setores, como o sindical, o da juventude, no Congresso, na cultura em geral se opondo às forças nacionalistas fez com que as restrições que a classe dirigente fazia ao partido se tornassem mais intensas.71

O Brasil foi um dos primeiros países ocidentais, a romper relações com a URSS (20 de outubro de 1947). Essa ruptura gerou um processo que culminou com a cassação de todos os mandatos dos políticos eleitos pelo partido comunista brasileiro. No entanto, outros acontecimentos do período contribuíram para a tônica das relações entre a URSS e o Brasil, como, por exemplo, a reação do governo contra os trabalhadores que pediam por salários maiores, e pleiteavam o direito de greve, ou o incidente na Gazeta Literária de Moscou que levou ao rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a URSS, cuja nota explicativa do Ministério das Relações Exteriores ao Primeiro Secretário se inicia da seguinte forma:

A Gazeta Literária, editada em Moscou, inseriu um artigo extremamente ultrajante, e até calunioso, contra o Chefe de Estado e as Forças Armadas do Brasil. É de notoriedade universal que a imprensa soviética está rigorosamente controlada pelo Governo, cuja responsabilidade, assim, se liga virtualmente a tudo quanto se imprime no país. Em conseqüência, o Ministério das Relações Exteriores determinou ao Embaixador brasileiro, naquela capital, que apresentasse ao Ministério soviético dos Negócios Estrangeiros uma nota protestando contra o agravo e exigindo satisfações, com a declaração de que estas eram indeclináveis para que pudessem continuar relações diplomáticas, pelo menos corretas, entre os dois Governos. Essa nota foi devolvida sem resposta sob o falso pretexto de estar redigida em termos inamistosos. Diante destes fatos, o Governo brasileiro decidiu interromper as relações com a União Soviética.72

70.

Cf. MORAIS, Denis de. O imaginário vigiado: imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-53). Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. p. 289-290.

71. Cf. CARONE, op. cit., p. 337.

72. Cf. BONAVIDES, Paulo; AMARAL, Roberto. Textos políticos da história do Brasil. Disponível em:

No pós-guerra, o Brasil estava passando por uma série de dificuldades. Com o fim da Segunda Guerra mundial, a escassez de cereais, o início de uma grave crise na indústria têxtil e a constatação de graves e profundos problemas urbanos, levou às grandes greves dos fins de 1945 e de 1946.73

Os discursos comunistas nos congressos sindicais e nos comícios públicos faziam muito sentido para os setores da população que vivenciavam aquelas crises. As palavras de ordem comunistas eram cada vez mais acatadas, principalmente, porque ao lado das específicas reivindicações operárias, outros temas gerais também eram abordados como a luta contra a fome, o problema da devolução das bases brasileiras no Nordeste, ainda sob controle estadunidense, a luta contra o imperialismo e o esforço para uma paz mundial.

Por outro lado, a posição do PCB ante as indagações de outros parlamentares gerava constantes atritos, como por exemplo, o discurso de Luiz Carlos Prestes, pronunciado na Assembléia Constituinte, em 26 de março de 1946. Nesse discurso, o líder comunista respondeu questões que tratavam das relações entre comunismo e democracia, URSS e o imperialismo, Brasil e URSS, de políticos reacionários da UDN, como Prado Kelly, Juraci Magalhães, Daniel Faraco e outros. Edgar Carone afirma, que os questionadores insistiam, principalmente, sobre os pontos de fidelidade à Pátria, tema bastante agradável ao “chauvinismo burguês”, que identificaria a Pátria com os seus próprios interesses de classe. No entanto, o pensamento do marxismo sobre o tema é bastante claro, quando da guerra imperialista, o dever de todo comunista, de todo internacionalista, é o de lutar contra o seu próprio governo, para derrubá-lo e instaurar a revolução social em seu país e, também, em outros países capitalistas.74 A pergunta capciosa, no entanto, parte de Juraci Magalhães que, afastado do poder por Getúlio Vargas, aparece no momento como paradigma de “democrata”:

no caso de uma guerra a que for arrastado o Brasil, por forças de obrigações internacionais cumprindo o governo os dispositivos constitucionais e legais que regerão a declaração de guerra, e no caso de ser a Rússia, nessa guerra, adversária do Brasil, o Senador Luís Carlos Prestes e o Partido Comunista do Brasil lutarão pela Pátria ou iniciarão uma guerra civil?75

73.

Cf. MUNHOZ, Sidnei J. Ecos da emergência da Guerra Fria no Brasil (1947-1953). Diálogos, Maringá, Universidade Estadual de Maringá, v. 2, n. 6, p. 45-50, 2002.

74. CARONE, op. cit., p. 337-338. 75.

A pergunta era simples armadilha, e a resposta de Prestes era óbvia, pois para ele se o Brasil fosse arrastado a uma guerra contra a URSS, isto só poderia acontecer no caso de os EUA estarem envolvidos na luta, já que para o senador comunista, eram os EUA quem dirigiam a Guerra Fria contra a URSS, ameaçado-a com a bomba atômica.76

Tal episódio motiva a campanha desencadeada pelos partidos PSD, UDN, PTB e pelos jornais. A frente única contra os comunistas que se desenvolve a partir de então, coincidiu com uma reafirmação dos interesses estadunidenses no Brasil. Adolf Berle, de Nova York, acusava os comunistas de “representantes da política exterior de outro governo” e previu, ao mesmo tempo, que o “Brasil não se torne comunista se o governo brasileiro e seus homens de negócios levarem a efeito uma política elevada, erguendo o nível de vida das massas”.77 Segundo Berle,

os soviéticos explorarão cinicamente qualquer vantagem que consigam (...). Horrivelmente, cinicamente e terrivelmente, a política soviética está se aproximando da política alemã: explorar qualquer centro de pensamento ou ação que possa criar problemas para a Inglaterra ou os Estados Unidos.78

A preocupação específica de Berle, como aponta Lars Schoultz, era uma inofensiva missão comercial soviética à Argentina (após a guerra, a URSS enfrentava sérios problemas de escassez de alimentos), mas o medo espalhou-se rapidamente e a partir do final da década de 1940, o Secretário Assistente de Estado Edward Miller passou a fazer constantes afirmações em audiências públicas como esta: “a situação básica no hemisfério hoje é esta. Os 21 Estados americanos juntos enfrentam o desafio da agressão política comunista contra o hemisfério”.79

Edgar Carone constata, que o bom resultado eleitoral conseguido pelos candidatos comunistas em alguns Estados levou o governo a desencadear uma outra reação, que desembocou na cassação dos mandatos dos deputados comunistas e no fim da legalidade do PCB. Para ele, este movimento estava ligado a uma orquestração anticomunista mundial, dirigida pelos EUA e que se sintetiza na Guerra Fria.80

76. Idem.

77.

Idem, p. 339.

78.

Cf. SCHOULTZ, Lars. Estados Unidos: Poder e submissão. Uma história da política norte-americana em relação à América Latina. Bauru, SP: EDUSC, 2000. p. 372.

79. Cf. SCHOULTZ, op. cit., p. 372. 80.

Por mais que essa afirmação pareça exagerada, acreditamos que entre alguns setores políticos, havia de fato algo como uma cruzada anticomunista em prol do mundo cristão (mesmo que esse objetivo não fosse primordial em todas as manifestações anticomunistas). De qualquer modo, o discurso em 05 de março de 1946, do ex-Premier Britânico Winston Churchill, no Westminster College, Fulton, Missouri, nos mostra que a afirmação de Carone não pode ser desprezada.

A reação anticomunista de no Brasil se desencadeia em diversos planos e se destinou a desarticular os vários centros de ação do partido. Em agosto de 1946, os ministros do Governo Dutra se reuniram, e o Chefe da Polícia, Pereira Lira, falou em tomar medidas contra o comunismo. Em uma entrevista ele consubstanciou as acusações, tentando demonstrar que o PCB tinha dois estatutos,

um destinado ao registro do partido no Supremo Tribunal Eleitoral, onde está expurgada a “referência ao marxismo-leninismo”, e outro onde figuram estas referências e o artigo 13, que proíbe seus filiados de terem relações com os inimigos da classe, entre eles os trotskistas; depois, ele acusa o partido de manter atividades políticas e sindicais, muitas delas nocivas à sociedade. Finalizando a entrevista, deixa “à consciência dos brasileiros... decidir a conduta a ser seguida”. (Correio da Manhã, 14-8-1946).81

Durante sua fase de legalidade, o PCB teve seu número de militantes aumentado para duzentos mil, o maior da América Latina. Porém, as teses do congresso já tinham sido publicadas pela imprensa do partido e refletiam as mudanças nas orientações políticas dos movimentos comunistas na maior parte do mundo no final de 1946. Dessa maneira, segundo Ronald Chilcote, a agressiva linha comunista internacional foi uma resposta às manobras de Guerra Fria dos EUA e da Grã-Bretanha.82

À polícia coube o contra-ataque seguinte, na véspera da eleição de 19 de janeiro de 1947, o comício do PCB, na Praça Tiradentes foi dissolvido sob repressão policial; e na véspera da eleição, a polícia voltou a declarar, como fizera meses atrás, que os estatutos do partido são ilegais porque defendem o marxismo-leninismo, e que no estatuto editado pela Editora Horizonte havia discordância de alguns itens com o estatuto registrado e depositado na Justiça Eleitoral. Essa acusação serviu de pretexto ao processo de cassação do PCB.

81. Idem, Ibidem.

82. Cf. CHILCOTE, Ronald H. Partido Comunista Brasileiro: conflito e integração. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1982. p.

A ação do governo foi auxiliada pela classe dirigente e pelos militares. A origem do anticomunismo de ambos é diversa; não obstante, podemos afirmar que existem muitas, mas análogas manifestações anticomunistas - matizações que advém de diferentes setores da sociedade, e que tem em comum o rancor anti-soviético exacerbado.

Entretanto, a posição dos grupos burgueses é mais sofisticada e orquestrada. Latente em todos os momentos explode sempre que os seus interesses particulares são atingidos, ainda mais quando os grandes órgãos da imprensa dão apoio a questão, como de fato ocorreu em 1947. Também, como o governo, do qual eles se servem como paradigma, a sua propaganda anticomunista renasce mais ou menos paralelamente à das autoridades.

Enquanto as vitórias militares soviéticas se sucediam, durante a guerra, alguns setores da sociedade elogiavam o regime comunista, mas logo voltou a adotar uma atitude negativa. E epítetos como: ideologia “demente” e “nociva” voltam a se repetir. No entanto, nem todos haviam mudado seu posicionamento em relação ao Comunismo.