• Nenhum resultado encontrado

Um dia festivo na comunidade

3. ESCOLA RURAL MULTISSERIADA NA SERRA

3.4 A comunidade de São José

3.4.1 Um dia festivo na comunidade

As missas na igreja da comunidade de São José eram ministradas pelo padre somente uma vez por mês, pois o mesmo era também responsável por outras igrejas da região, sendo os ministros mais freqüentes na mesma a professora da escola e um outro morador, que assumiam tal tarefa se revezando na realização das missas três domingos por mês.

O padre que atuava junto àquela igreja possuía aproximadamente 40 anos, era bastante dinâmico e carismático e buscava interagir com todos os moradores. Constatando minha presença naquele evento, buscou informar-se quanto ao trabalho que estava desenvolvendo junto à escola e à comunidade prestando algumas informações, assim como realizaram outros moradores, em alguns momentos de forma direta, em outros por intermédio das crianças da escola.

Nestes diálogos, fui informada de que a organização das atividades da comunidade em torno da igreja são desenvolvidas com a coordenação da professora e do referido senhor, contando estes com o apoio de um conselho, formado por famílias que executavam as soluções indicadas por ambos no atendimento das demandas identificadas em cada situação.

Com a chegada do Padre e/ou inicio das missas (quando este não estava presente), os sinos tocavam, convidando todos a adentrarem a igreja.

As missas eram organizadas por meio de muitas cantorias, puxadas por um senhor de aproximadamente 80 anos de idade, que tocava o órgão. A dinâmica proposta pelo padre na realização destas era

bastante ativa, consistindo em solicitações constantes de participação da comunidade em leituras de passagens da bíblia, em emissão de relatos quanto a de que forma verificavam a manifestação de Jesus na comunidade, entre muitos outros, sempre numa direção de manter a atenção de todos, bem como de construir sentimento de pertencimento àquele grupo, afirmando que “não há salvação na individualidade”, mas apenas no coletivo.

Em suas pregações, o padre trabalhava com metáforas, num esforço de estabelecer comparações a partir de elementos regionais, cotidianos, que permitissem aos fiéis compreenderem e relacionarem-se com as mensagens transmitidas. De acordo com o padre, “As araucárias são como a igreja, que está de braços abertos para a comunidade, dando frutos, as pinhas. O miolo da pinha é como Jesus Cristo, as pessoas pinhões e as falhas entre elas os pecados, as dificuldades e provações, que podem ser superadas no coletivo da igreja”.

A partir das idas à igreja e à missa, nos diálogos estabelecidos, pude perceber que na comunidade, havia, além das crianças que freqüentavam a escola, apenas mais três em idade escolar, pouquíssimas crianças pequenas e de colo e apenas 4 adolescentes - todos cursando crisma28 com uma das integrantes do conselho da igreja. A faixa etária de 20 a 40 anos de idade parecia não existir na comunidade, que relatava a usual saída dos jovens em busca de estudos, bem como de diferentes possibilidades de trabalho. Tal situação era relatada por moradores, tendo uma delas explicitado que

(...) quase toda casa tem um ou dois que foram embora. Não tem perspectiva de futuro, ou trabalha na lavoura que um ano dá outro ano não dá, esse ano por exemplo, não foi um ano favorável para a agricultura, as pessoas se decepcionam e o jovem pelo espírito de aventura procura outros meios de sobreviver.Vai estudar, já começa a namorar, arruma emprego e já fica por lá mesmo (Entrevista realizada em Maio de 2011 com moradora da comunidade de São José/Urubici/SC).

28 Crisma, na religião católica, refere-se à confirmação do batismo. Habitualmente, para

recebê-la, o fiel freqüenta curso de evangelização, participando em sua conclusão de rito em que o ministro realiza imposição de mão sobre sua cabeça e invoca o Espírito Santo. Em seguida o unge com óleo sinalizando desta forma de que aquele indivíduo recebeu o Espírito Santo e está preparado para assumir seu compromisso cristão.

Neste contexto, em meio à plantações de tomates, milho, couve- flor, beterraba, entre muitas culturas, além extensas áreas de pasto com criações de bovinos, a comunidade construía suas rotinas, observando muitos jovens partirem em busca de estudos, bem como de oportunidades de emprego fora da agricultura, sendo raros os retornos. Em tal dinâmica, frente à constante redução do número de moradores, observou-se a constituição de forte identidade comunitária entre os que permaneciam, característica observada a partir de seus relatos a medida que referiam-se à sede do município enquanto Urubici, situação que não reincidia quando se referiam à comunidade. Ainda assim, muitas vezes queixavam-se e relatavam as dificuldades enfrentadas em função da infra-estrutura disponível, onde não havia nenhuma espécie de comércio (mercearia, farmácia, etc), acesso à internet, transporte público ou posto de saúde, situação que a tornava, de certa forma, dependente da sede do município.

Nesta comunidade, a igreja (instituída na década de 1930) e a escola eram concretamente os únicos locais de encontro e convivência, unidos pela atuação da atual professora, mas também por sua origem e relação, visto que a segunda, quando inserida na comunidade (na década de 1950), se estabeleceu durante muitos anos no espaço físico do salão paroquial. Situação que veio a se inverter em 1969, quando a igreja demandou reformas, passando a estabelecer-se e realizar suas missas e atividades na escola.

A centralidade de tais espaços em comunidades rurais é enfatizada em estudos diversos, entre eles o de Kremer (2007), que apresenta que

As transformações nos modos de vida no campo têm influenciado diretamente o processo de reelaboração das identidades sócio-culturais dos seus moradores. Nesse contexto, a Igreja e a Escola parecem ser fundamentais como eixos agregadores que permitem a sobrevivência da vida “em comunidade” (KREMER, 2007, p.156). Desta forma, conforme destaca a autora, os papéis exercidos por Igreja e Escola em comunidades rurais parecem ser efetivamente vitais, uma vez que ainda que, em alguns casos, não intencionalmente, estão relacionados à coesão das mesmas, algo essencial para manutenção de identidade local nestas.

Figura 12 - Registros Fotográficos da igreja São José Operário, na comunidade de São José e, Urubici/SC – vista da escola e fachada.

3.4.2 A trajetória da Escola Multisseriada Frederico Locks, na voz