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um instrumental importante para o empoderamento de mulheres?

odezina dos santos suzarte Cecília m. B. sardenberg

Introdução

Neste artigo, trazemos algumas reflexões sobre educação es- colar na perspectiva do empoderamento de mulheres, baseando- nos, para tanto, nos relatos de um grupo de mulheres das camadas populares, estudantes de uma escola pública da Rede Municipal de Salvador. Após longa caminhada de luta pela sobrevivência, elas iniciam ou voltam à escola e nela vivenciam novas experiên-

1 este artigo é parte da discussão que integra a dissertação de mestrado intitulada De volta à Escola: entre os limites de ser e as possibilidades de viver, de odezina dos santos suzarte, apresentada em junho de 2010, no Programa de Pós-Graduação em estudos interdisciplinares sobre mulheres, Gênero e Feminismo, da Faculdade de Filosofia e Ciências humanas (PPGneim/ UFBa), desenvolvida sob a orientação da Profa. dra. Cecilia m. B. sardenberg.

cias, reconhecendo a importância da escolarização para a vida e até mesmo para sobreviver. Essa trajetória enuncia que a escola é o espaço onde podem encontrar o sentido do conhecimento e o caminho para edificar projetos de re-significação da vida.

Interessou-nos investigar e analisar se e como, para essas mulheres, os tempos de escola, a vivência de novas experiências e apropriação de novos saberes têm servido de instrumental para o seu empoderamento. o propósito é refletir sobre o que se esconde por trás dos percursos escolares e humanos de sucesso e fracas- so − truncados por abandono e retorno, reprovações e retenções, indignação e desesperança, determinação e esperança, num vai e vem de uma lida diária entre lar-trabalho-escola, em condições econômicas desfavoráveis.

Nesse sentido, educação e empoderamento insurgem como eixos temáticos que direcionam a discussão, com enfoque nas perspectivas de mulheres em temas como saber/trabalho/poder,2 para entender a ação e o movimento da busca incessante por de- senvolvimento, pela expansão de seus horizontes. Um conjunto de ideias que se configurou nas entrelinhas de suas falas, na sus- cetibilidade das situações e das palavras e na acepção de termos, orientadas por um diálogo teórico entre diferentes autoras e au- tores (incluindo-se ARRoYo, 2007, oAKLEY; CLAYToN, 2003; CoRTELA, 2004; DELoRS, 2003: FREIRE, 1990, 1997, 2000), traduzindo o reconhecimento da importância da educação como anúncio de possível empoderamento.

2 o uso do termo remete a noção de poder trazida por iorio (2002, p. 5-6): “o poder privilegia a capacidade do ser humano de expressão e ação, a capacidade de realização do ser, sua liberdade de expressão”, que, por sua vez, induz a descrições de novas perspectivas de empoderamento: “poder para” (processo que cria possibilidades, sem que haja dominação sobre o outro) “poder com” (reforça a ideia de que a união de forças favorece o alcance de mudanças), e “poder de dentro” (força espiritual, que reside em cada ser humano), que segundo a autora pode permitir que uma pessoa mantenha uma posição ainda que em condições adversas.

Trabalhar nessa perspectiva requer, antes, que conceituemos o que entendemos por empoderamento. Segundo Costa (2002), trata-se de um mecanismo pelo qual as pessoas, as organizações e as comunidades procuram exercer o controle sobre suas pró- prias vidas, à medida que tomam consciência das suas habilidades e competências para criar, produzir, gerenciar. Para Moser (1991 apud oAKLEY; CLAYToN, 2003, p. 12),

[...] o enfoque sobre o empoderamento reconhece a importância do aumento de poder das mulheres, tende a identificar o poder menos em termos de dominação sobre outros e mais em termos da capacidade das mulheres de adquirir confiança em si mesma e se fortaleceram internamente. Isso se traduz como o direito de exercer escolhas em sua vida e de influenciar os rumos das mu- danças, através da capacidade de controlar os recursos materiais e não materiais.

Segundo Srilatha Batliwala (1994, p. 129), a característica mais conspícua do termo empoderamento está na palavra “poder”, definido por ela como “controle sobre recursos materiais, inte- lectuais e ideologia”3. Para essa mesma autora, o poder decisó- rio emana do controle sobre esses recursos, que tem estado, em grande parte, sob o controle masculino. Contudo, nós, mulheres, não fomos nunca totalmente desempoderadas. Sempre tentamos, de uma maneira ou de outra, “expandir nosso espaço”, mesmo quando as ideologias patriarcais conseguiram minar essas tenta- tivas. (SARDENBERG, 2006, p. 6)

Batliwala ressalta que “empoderamento” é o processo de questionar essas ideologias e relações de poder, e de ganhar maior

3 no entendimento de Batliwala (1994, p. 125): Recursos materiais – incluem recursos físicos, humanos, financeiros, tais como: terra, água, corpos, mão de obra, dinheiro, acesso a dinheiro, crédito; Recursos Intelectuais − conhecimento, informação, ideias; Ideologia – capacidade de gerar, propagar, sustentar e institucionalizar determinadas quadros de crenças, normas, valores, atitudes e comportamentos – ou seja, praticamente controlando como as pessoas se percebem e agem dentro de determinados contextos socioeconômicos e políticos.

controle sobre os recursos apontados. Citando Sharma, Batliwala (SHARMA, 1991 apud BATLIWALA 1994, p. 130) observa que:

o termo empoderamento se refere a uma gama de atividades, da assertividade individual até a resistência, protesto e mobiliza- ção coletivas, que questionam as bases das relações de poder. No caso de indivíduos e grupos cujo acesso aos recursos e poder são determinados por classe, casta, etnicidade e gênero, o empode- ramento começa quando eles não apenas reconhecem as forças sistêmicas que os oprimem, como também atuam no sentido de mudar as relações de poder existentes. Portanto, o empodera- mento é um processo dirigido para a transformação da natureza e direção das forças sistêmicas que marginalizam as mulheres e outros setores excluídos em determinados contextos. (tradução nossa)

É nesse sentido, ou seja, na medida em que as mulheres pas- sam a atuar buscando os recursos disponíveis – como por exemplo a escola – que possibilitem trazer mudanças positivas em suas vi- das, que a noção de “empoderamento” torna-se importante para pensarmos as mulheres incluídas neste estudo.

De volta à escola: “fé”,