2.2 Livraria Encontro: nascida com a nova capital
2.2.1 Um local de encontro para a troca de ideias
FIGURA 9 – Anúncio sobre a inauguração da livraria Encontro
Fonte: Correio Braziliense, n. 2.106, 21/04/1967.
Em 1965, Victor Alegria, fundou a Encontro. Durante doze anos, a livraria funcionou na galeria do Hotel Nacional, um dos principais hotéis de uma capital federal recém-inaugurada.
Na época, o espaço era privilegiado. O Hotel Nacional56 funciona até os dias atuais, apesar de ter passado por momentos críticos durante esse período. O seu prédio sempre ficou no mesmo endereço, no centro da cidade, próximo aos órgãos do governo e às primeiras quadras residenciais. A Encontro tinha três pisos, cada um com aproximadamente 150 m2. O último andar era usado como escritório. Segundo o livreiro, tratava-se de um centro de atividades culturais, com lançamentos de livros, recitais, palestras, um auditório e uma galeria de arte.
Quando conheceu o hotel, Alegria morava no Rio de Janeiro e estava em Brasília a passeio. Ao se deparar com a loja ainda vazia, viu a possibilidade de montar uma livraria nos moldes que queria há anos. Em entrevista, lembrando-se do que conseguiu realizar, afirmou que conseguiu fazer aquilo que não tinha feito em Portugal, onde também abriu uma livraria:
“uma livraria que representasse leitores e que tivesse uma atividade cultural que ultrapassasse, que fosse maior que a própria atividade comercial”.57
Segundo o livreiro, o catálogo era formado de obras “de todos os assuntos e de todas as civilizações mundiais” (RODRIGUES, 2013, p. 573). Os clientes eram intelectuais, artistas, políticos, acadêmicos e estudantes. Entre eles, Alegria cita Gustavo Capanema, ex-ministro da Educação do governo Vargas e membro do Arena, partido de apoio ao governo militar; Cyro
56 O Hotel Nacional foi leiloado em 2018 para pagar dívidas da empresa falida Petroforte. O lance inicial foi de R$ 129 milhões, mas foi vendido a R$ 93 milhões.
57 Entrevista concedida à autora. Brasília, 05/12/2018.
dos Anjos, escritor, foi subchefe da Casa Civil no governo JK e esteve envolvido nas discussões da construção da Universidade de Brasília; Agostinho da Silva, filósofo e ensaísta português que ajuda na criação da UnB; Eudoro de Sousa, português que também fez parte da equipe criadora da universidade (RODRIGUES, 2013).
Entre tantos eventos realizados na Encontro, o livreiro Victor Alegria lembra de uma exposição da artista plástica carioca Anna Bella Geiger,58 e de um festival de poesia organizado por Almeida Fischer, um dos fundadores da Associação Nacional dos Escritores. Na publicação Distrito Federal,59 de 31 de julho de 1968, constam notas de divulgação de eventos culturais da cidade. Dois pequenos textos eram sobre as atividades da Encontro: um informando que na subloja da livraria ocorria uma exposição de pinturas a óleo, desenhos e gravuras, assinadas por Glenio Bianchetti, Rubens Valentim, Iberê Camargo, Manabu Mabe, Marcelo Grassmann, Darei Valença, Inimi de Paula, Fayga Ostrower, Tomie Ohtake, o imortal Guinard e Corneille;
e o outro divulgava o novo espaço na sobreloja, “um agradável recanto denominado ‘Bate-Papo’”:
Com esta iniciativa, a direção da casa visa oferecer um ponto de reunião aos intelectuais, artistas, literatos ou qualquer pessoa interessada em debater e participar de encontros, cuja finalidade maior é proporcionar aos brasilienses um ambiente de comunicação artística (DISTRITO FEDERAL, 1968, p. 2).
Os eventos na Encontro eram constantes e diversos. Em pesquisa feita na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, delimitando o período de 1970 a 1979, encontram-se 136 citações publicadas no impresso Correio Braziliense. Em sua maioria, fazendo referência a eventos que iam acontecer ou já tinham acontecido no local.
Os militares apareciam por lá não apenas como agentes da repressão, mas também como consumidores. Uma dessas vezes, Alegria afirmou que recebeu uma encomenda de uma edição especial de Os Lusíadas. Os clientes queriam para dar de presente ao presidente Artur da Costa e Silva. Ao livreiro, eles pediram “a melhor edição que exista”.60 Victor Alegria foi até o Rio de Janeiro à procura especificamente de um encadernador alemão que era especializado no
58 Entrevista concedida à autora. Brasília, 05/12/2018. Na época, as obras de Anna Bella Geiger refletiam a indignação contra a ditadura militar.
59 Nele eram publicados atos administrativos do Poder Executivo do Distrito Federal, fundações, autarquia e empresas integrantes do Conjunto Administrativo do Distrito Federal. O impresso circulava de terça a sexta-feira.
60 Entrevista concedida à autora. Brasília, 05/12/2018.
serviço: “Deu um trabalho danado porque era a primeira edição... uma encadernação daquelas de fazer babar. Uma obra de arte. E eu, como livreiro, achei aquilo maravilhoso”, conta.
Apesar das divergências políticas, a livraria era uma referência na cidade ao ponto de militares fazerem uma encomenda a Alegria para ser entregue ao chefe maior deles. Para isso, recorreram ao mesmo local que faziam de alvo da repressão da censura, com apreensão de livros e a intensa vigilância sobre seus frequentadores. Da mesma forma, Victor Alegria, também constantemente na mira da ditadura, cedeu ao pedido – segundo ele, interessado na particularidade da demanda.61 Tem-se uma troca mercadológica, motivada, no seu cerne, pelo dinheiro, mas que, pelas características específicas do campo, geram interpretações complementares.
Alegria lembra de outras livrarias que funcionaram na mesma época em Brasília: a Eldorado, a Técnica, e uma filial da Civilização Brasileira. A Livraria Técnica era de Sebastião de Miranda, aberta em 1971, no comércio da quadra da 102 Sul. A Eldorado,62 do também português Vitor Moreira, no comércio local da 304/305 Sul. A Civilização Brasileira ficava na 309 Sul, uma parceria de Ênio da Silveira com Fábio Bruno, um professor da UnB. Um texto curto intitulado “Ênio fundou livraria em Brasília”, de 1996, traz informações básicas sobre esse breve momento em que a livraria funcionou na nova capital: “a livraria era um reduto de resistência política numa época em que qualquer gesto poderia ser interpretado como um sinal de conspiração”.63 A livraria foi aberta em 1965 e, como consequência de uma série de fatores de conjuntura nacional, levando-se em conta que “o interesse político (da livraria) superava o interesse comercial”, funcionou somente até começo da década de 70, quando mudou de proprietário e de nome.
De acordo com o documento do SNI, das “livrarias especializadas em literatura esquerdista”, aparecem dez estabelecimentos localizados no Distrito Federal na década de 1980.
À época, a Encontro já tinha sido fechada. Eram elas: Sodiler, no Conjunto Nacional; Galileu Galilei e Tão Livraria e Casa do Livro, no Setor de Diversões Sul; Distribuidora Primavera e Literatura Loja Livros, no Venâncio 2000; Distribuidora Vozes, na 704 NORTE; Livraria Técnica, na 102 Sul; Nossa Livraria, na 104 Sul; e Livraria Eldorado, na108 Sul.64
61 Pela conversa com Alegria, não me pareceu que ele tenha aceitado a encomendo sob ameaça.
62 A Eldorado foi a primeira livraria de Brasília (CERQUEIRA, 2009).
63 “Ênio fundou livraria em Brasília”. Assinado Da Redação. Caderno 2. Jornal de Brasília, 18 de janeiro de 1996.
64 A lista aparece apenas como referência para contextualizar o leitor do mercado livreiro da época. Como trata-se de um documento produzido pelos militares, a partir de seus interesses, não significa que todas as livrarias citadas eram vistas ou se colocavam como livrarias de literatura esquerdista, como apontou o documento.
Victor Alegria conta que a sua relação com outros livreiros da cidade era boa: “Não existia essa noção de concorrente. Eram pessoas do mesmo ramo, vendiam as mesmas coisas.
Quem era melhor vivia melhor; quem era mais competente era mais competente”. Porém, em determinado momento da entrevista, afirma que “as livrarias daqui também não gostavam de mim porque achavam que eu era comunista”:
Se rotulavam por causa da camisa, imagina agora lançando livros que não agradavam a, digamos assim, ao poder. Logicamente que, é outra lição da vida: se você quer ser independente, lembre sempre, ninguém vai estar ao seu lado, porque tens a favor e contra, mas ninguém vai lutar por você.65
A Encontro passou por fases boas e ruins, quando nos referimos ao sucesso financeiro.
Nos momentos mais difíceis, nos primeiros anos dos militares no poder, ele e os funcionários juntavam o dinheiro que tinham para comprar comida. Alegria conseguiu melhorar as vendas depois de comprar um carro. Ele dirigia até São Paulo e Rio de Janeiro para adquirir exemplares de lançamentos que ainda não tinham chegado a Brasília, e enchia o fusquinha de livros “até o teto”. Conseguia comprar com até 20% de desconto. E nessas viagens chegou a fazer 3000 quilômetros em até quatro dias.
A livraria fechou por volta de 1976 ou 77. Alegria não soube precisar o ano, mas disse que um dos motivos foi porque não aguentava mais a polícia apreendendo seus livros: “Não dava mais de tanta censura”. Nesse tempo, Alegria já tinha aberto a editora Thesaurus, que funciona até hoje. Ao falar dessa mudança, ele explica que, como editor, tem mais liberdade
“para fazer o que eu quero” e afirma que a pressão da censura passou a ser menor.