4.2 Livraria Palmarinca: exemplo de longevidade
4.2.1 Uma homenagem às resistências negra e indígena
FIGURA 29 – Anúncio da livraria Palmarinca no jornal de esquerda Denúncia, de Porto Alegre
Fonte: Documento do SNI170 (1983)
O nome é a combinação das palavras “Palmares” e “Inca”, o que nos antecipa um posicionamento do livreiro ao homenagear às resistências negra e indígena. A história da Palmarinca começa, em 1972, como Livraria Tecno-Científica. Uma livraria especializada na
169 Depoimento de Gervásio Neves, militante do PCB, em nota de pesar quando Rui Gonçalves morreu.
170 Ver o documento presente no Arquivo Nacional com código de referência:
BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_AAA_83035528_d0001de0001. Disponível em: https://sian.an.gov.br/.
importação de obras russas, nas áreas de matemática, engenharia e física. A Palmarinca surgiu para atender a um público diferente, interessado pela literatura latino-americana, de títulos em espanhol, vindos do México, Argentina e Espanha. Como começou a crescer, o livreiro optou em seguir com apenas um negócio, oficialmente, cinco anos mais tarde, em 1977. Nesse meio tempo, trabalhou com duas lojas simultaneamente. Pouco tempo depois, Gonçalves fez sociedade com Hermes Duarte Moreira, que ficou responsável principalmente pela parte financeira do negócio. Segundo Cesar Beras, a Palmarinca era uma das únicas em Porto Alegre que vendia obras para atender a demanda por autores de esquerda e de ciências humanas.
O centro histórico de Porto Alegre sempre foi a área da Palmarinca. O primeiro endereço foi na Galeria Malcon, Rua dos Andradas, 1560, quarto andar. Não passou muito tempo e a livraria foi para a Rua General Vitorino, onde ficou os primeiros 19 anos. Em 1991, a livraria foi para uma loja na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua Marechal Floriano.
Espaço de 130 m2 e 21 mil títulos. O endereço mais comercial em que a livraria funcionou pois ficava em um local movimentado.
FIGURA 30 – Palmarinca na esquina da Av. Borges de Medeiros com a Rua Marechal Floriano
Fonte:Beras (2018)
Entretanto, o aumento no valor do aluguel fez com que o Gonçalves mudasse mais uma vez de endereço. Em 1996, o livreiro comprou a sede da livraria, na Rua Jerônimo Coelho, onde ficou até fechar, em 2020. Era um prédio histórico de três andares. A livraria ficou, no primeiro momento, no térreo, e depois foi para o primeiro andar. Na sobreloja, foi montado um espaço para eventos. A inauguração foi no dia 20 de outubro de 1998, com leitura de contos por João Gilberto Noll. Antes disso, em 1993, Hermes Moreira deixou de ser sócio. No mesmo ano, quem assumiu a sociedade foi um dos filhos de Rui, Alexandre Gonçalves, que já trabalhava com o pai na loja.
A Palmarinca surgiu em um cenário já relativamente estabelecido em Porto Alegre. Em 1970, a população de Porto Alegre era de 1.531.168 habitantes (HALLEWELL, 2005, p. 522).
Uma cidade que cresceu aproximadamente quatro vezes em vinte anos. Nos anos do Império, no século XIX, Porto Alegre tinha três livrarias, quando a população era de 25 mil pessoas. Em 1981, tinha vinte pontos de venda de livros, incluindo livrarias e outros estabelecimentos,173 sendo que 75,1% dos municípios do Rio Grande do Sul tinham pelo menos um desses locais.
Entre as outras livrarias da cidade, tinha a Vozes (temas religiosos), a Livraria do Globo (de Laudelino Pinheiro Barcelos),174 a Americana (de Carlos Pinto),175 a Cosmos, a Martins Livreiro, a Cepal, a Sul Brasileira ou Sul Rio-Grandense (de Manoel Lima), uma filial da José Olympio (de Maurício Rosenblat), a Livraria Lima (de Mário Lima), a Livraria Sulina (temas voltados ao Rio Grande do Sul). Entre as que eram especializadas em sociologia, política e economia, estavam a Farroupilha, ligada ao Partido Comunista;176 a Universitária, a Combate (de José Carlos Dias de Oliveira) e a Vitória.
De acordo com Arnaldo Campos, dono da Vitória, “A maioria das livrarias em Porto Alegre – Livraria do Globo, Sulina, Flamboyant – eram grandes, mas não se preocupavam tanto em abrir o leque de alternativas para o cliente” (CAMPOS, 2006, p. 38). Com o golpe de 64, ele disse que foi obrigado pelo regime militar a mudar o nome. Escolheu Coletânea. Campos
173 As duas primeiras estimativas foram registradas por Hallewell (2005, p. 389 e p. 609, respectivamente); a terceira é da reportagem “Mapeamento de livrarias em Porto Alegre indica concentração no Centro Histórico, na Cidade Baixa e no Bom Fim”, de GZH. Disponível em: https://bit.ly/3u1gmwd. Acesso em: 30/11/2021.
174 Funcionou entre 1883 e 1986.
175 Fundada em Pelotas, em 1871.
176 A livraria Farroupilha era pouco conhecida por quem não era do PCB. Segundo Campos, “era preciso ser iniciado, tinha que ter informações para chegar lá, pra saber que lá se vendiam livros marxistas” (CAMPOS, 2006, p. 48).
disse que foi uma imposição:177 “Vocês não podem continuar com esse nome Vitória, porque os vitoriosos somos nós” (CAMPOS, 2006, p. 78).
Hoje, em 2022, são cerca de 104 livrarias.178 A estimativa populacional atual é bem semelhante à da década de 1970. Dados do IBGE mostram que, em 2021, eram 1.492.530 pessoas morando na capital gaúcha. O que pode nos dar a impressão positiva de que o saldo de livrarias é bom visto que cresceu relativamente nas últimas cinco décadas. Entretanto, sabe-se que já houve número maior e que muitas foram fechadas recentemente. Portanto, nesse meio tempo, houve oscilações.
Na década de 1980, com as greves sindicais, Beras afirma que a livraria passou a atrair também simpatizantes do PCB, do PT e de outros setores da esquerda. Entre os políticos: Ibsen Pinheiro, Tarso Genro, Paulo Paim, Olívio Dutra e Adeli Sell. De acordo com Sell, que é integrante do PT e foi vereador de Porto Alegre:
Ela (Palmarinca) teve uma função sociopolítica muito grande. Eu quero dizer, assim, que se tem uma instituição – eu chamo a Palmarinca uma instituição – que ajudou a formação intelectual, política de toda uma geração, foi ela, a Palmarinca. Ela formou quadros políticos, porque, as pessoas começaram a ter acesso a uma literatura que não havia acesso de outra forma a não ser lá (BERAS, 2018, p. 265).
Moacyr Scliar criou o lema “Na Livraria Palmarinca, com as letras não se brinca”, em 1990. Segundo Gonçalves, Scliar “sempre foi um fiel frequentador da livraria” (BERAS, 2018, p. 127). Entre os escritores de renome nacional, tinha ainda João Gilberto Noll e Luiz Fernando Veríssimo. O cantor Belchior virou anúncio de jornal da livraria: “Belchior compra livros na Palmarinca” (BERAS, 2018, p. 144).
A Palmarinca foi um espaço onde circularam autores ligados à esquerda brasileira, como os citados Maocyr Scliar e João Gilberto Noll, políticos como Olívio Dutra, um dos fundadores do Partidos dos Trabalhadores (PT), além de muitos professores universitários. Scliar e Noll escreveram romances e contos críticos a esse período da ditadura militar brasileira. Esse é um dos termômetros possíveis para entender cada livraria que faz parte desta pesquisa como pontos de resistência: o fluxo de frequentadores que também se colocaram contra um regime de
177 O livreiro era filiado ao Partido Comunista e tinha um sócio, o Brutu. Com o golpe, Campos teve que se esconder por um mês. A livraria sofreu com a apreensão de todo o estoque de livros. Arnaldo Campos foi preso quatros meses depois. A Vitória ficou trinta dias fechada até ter permissão para ser reaberta. Campos ficou na livraria de 1961 a 1968 e seu sócio, até 1976 (CAMPOS, 2006).
178 Segundo um estudo da startup Space Hunters.
governo imposto como foi a ditadura militar (1964-1985). No caso da Palmarinca, o público era quase totalmente de esquerda, com exceção de alguns acadêmicos que pediam por obras de autores liberais, mas tinham uma convivência tranquila.
FIGURA 31 – O escritor Moacyr Scliar e o professor Mauro Gaglietti na Palmarinca
Fonte: Beras (2018)
FIGURA 32 – João Gilberto Noll em evento na Palmarinca
Fonte: Beras (2018)
E, caso o livro procurado não estivesse presente no local, o livreiro daria um jeito de conseguir. Essa era a “marca registrada: ‘tu pediu, levou’” (BERAS, 2018, p. 113). Carlos Araújo, advogado, ex-deputado e ex-guerrilheiro começou a frequentar a livraria em 1975, depois de sair da prisão: “eu não me recordo de nenhum pedido nesses anos todos que ele não
tem atendido; pode demorar um pouco, mas ele descobre onde está o livro é impressionante como investiga como ele tem conhecimento” (BERAS, 2018, p. 191). Atender demandas muito específicas, que chegavam até Rui depois de outros agentes não terem conseguido atendê-las, tornava a Palmarica um espaço diferenciado. O cliente ali conseguia suprir sua necessidade. Se tal obra está difícil de ser encontrada é porque não é do interesse do mercado livreiro mais amplo, seja por questões de distribuição ou das próprias editoras. Ou seja, sem profissionais como o livreiro da Palmarinca, o repertório de uma geração de leitores ficaria prejudicado. O cliente confia e depende daquele espaço para manter o seu repertório.
Essa figura marcante de Rui Gonçalves era vista por mais pessoas nas edições da Feira do Livro de Porto Alegre. A Palmarinca era referência no evento. Para o jornalista e escritor, José Francisco Botelho,179 que conheceu a livraria em uma edição da feira, “o rosto do Rui na banca é a lembrança dominante da Feira de Porto Alegre. Aquele olhar azul. Ele era um cara que estava todo ano lá. É a imagem mais forte que eu tenho da feira”.
As participações da Palmarinca começaram ainda quando era a Tecno-Científica. Na década de 80, chegou a ter quatro bancas espalhadas pela feira. Uma das particularidades era que esses estandes eram montados de forma diferente dos demais. Sem balcão, pensando na circulação do leitor e o contato dele com o livreiro, que sempre estava presente. Botelho explica que a banca “parecia um pouco a sala dele (Rui)”.
A Feira do Livro de Porto Alegre é uma feira diferenciada. É aberta, sem cobrança de ingresso, montada em uma praça – na maioria das vezes, na Praça da Alfândega, no centro da cidade. Um espaço de passagem que se torna, por alguns dias, uma espécie de grande livraria no formato mais acessível possível.
Além das participações na Feira do Livro, a Palmarinca realizava lançamentos, debates, rodas de conversa e palestras. Os registros são referentes à década de 1990. Em 1991, o filósofo grego Cornélius Castoriadis, em visita ao Brasil e Porto Alegre, deu entrevista coletiva na Palmarinca e após autografou a obra A criação histórica (BERAS,2018, p. 135). Nessa viagem, ele proferiu a palestra A Criação Histórica e a Instituição da Sociedade (que contou com as participações também da filósofa Marilena Chauí e de Sergio Paulo Rouanet). No mesmo ano, 1991, João Gilberto Noll lançou O quieto animal da esquina na livraria.
Quando estava no penúltimo endereço, loja de esquina, ficaram famosos os debates com caldinho de feijão dos sábados. No ano de 1999, o jornalista Ruy Carlos Ostermann coordenava
179 Conversa por telefone no dia 20 de junho de 2022.
um bate-papo com os frequentadores. Outro exemplo era o Sábado lítero-gastronômico, momento de descontração para que os clientes beliscassem aperitivos e conversassem sobre temas afins.
Percebe-se que o produto que a Palmarinca oferecia aos seus clientes ia além do livro.
Segundo a professora Carmem Machado: “É um lugar de cultura, de conhecimento, de diálogo sobre os assuntos que interessam e que se precisa”. [...] é uma função de socialização que é uma socialização do conhecimento não só do livro, mas o conhecimento que se trava, e que se constitui no diálogo que se produz entre as pessoas que vem aqui nesse contato, por esse meio”
(BERAS, 2018, p. 199).