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A Origem do Instituto Orfanológico do Outeiro

3.2. Um lugar “ideal” para educar meninos: a Ilha de Outeiro

O Instituto Orfanológico foi instalado na Ilha de Caratateua (Outeiro), que faz parte do arquipélago de Belém, situando-se a 20 km desta capital. Para além da intenção de ocupar o prédio ocioso da hospedaria de imigrantes, que estava desativada, e assim, dar utilidade a um espaço público desocupado, tal iniciativa também se deu por Outeiro ser considerada como uma região de características climáticas e ambientais favoráveis para educar e cuidar os meninos que ali fossem internados, o que se justificava com discursos ideológicos fundamentados “a partir dos modernos preceitos18 higiênicos à época, já que os educandos estariam rodeados por

uma aprazível e encantadora localidade e um lugar de salubridade reconhecida” (MATTOSO, 1907, p.212).

Outeiro iniciou sua história servindo de cemitério para os índios, antes da fundação de Belém, mais precisamente no bairro que hoje se chama Itaiteua. A colonização de Outeiro,

18 Os preceitos higiênicos, pautados nos discursos médicos, para a construção e instalação de prédios de instituições

escolares defendiam a necessidade de se seguir parâmetros arquitetônicos e estruturais no sentido de propiciar um ambiente salubre e higiênico para facilitar o desenvolvimento e aprendizagem dos educandos, levando-se em consideração aspectos como luminosidade, ventilação, temperatura, etc (GONDRA, 2002; 2004).

conforme Guimarães (1996), ocorreu no governo do capitão Geral Alexandre de Souza Freire, em abril de 1731, quando houve a concessão de terras através da Carta de Sesmarias, ao Governador da Província do Grão-Pará, Capitão-General Alexandre de Souza Freire, e que mais tarde foi confirmada pelo Rei de Portugal D. João VI, oficializando a doação de terras a particulares com objetivo de ocupação dessa região

A ilha era chamada pelos indígenas de Caratateua, que conforme o dialeto Tupi-Guarani, quer dizer lugar das grandes batatas (ou das muitas batatas). Já a denominação Outeiro, que significa pequenos morros, foi dada pelos portugueses que desbravaram essas terras, em virtude das pequenas elevações que caracterizam o terreno deste local, o que justifica também o nome de Ilha das barreiras (GUIMARÃES, 1996).

A topografia de Outeiro, segundo Medeiros (1971), apresenta pequenas variações de níveis, sendo o mais alto de aproximadamente 15 m em relação ao nível do mar. Já a vegetação predominante nesta região, a princípio era o de mata secundária (capoeiras em diversos estágios), de solo de terra firme com a presença de um grande número de espécies botânicas como o Ingá Xixi, Tachí branco, Paricarana, Imbaúba branca, entre outras, caracterizando a ilha como espaço privilegiado do ponto de vista climatológico.

Outeiro quanto a sua localização é um distrito pertencente ao município de Belém-Pa, situado entre as latitudes 1º 12’ e 1º 17’S, e entre as longitudes de 48º25’ e 48º29’ W, compondo a região nordeste do estado do Pará. Sua forma lembra uma taça, com a maior largura (10 km) voltada para a baia de Santo Antônio e a menor (6 km) bordejada pelo furo do Rio Maguari, tendo este ligação com as baias do Guajará e de Santo Antônio (MEDEIROS, 2007).

Figura 22 - Localização das ilhas do arquipélago de Belém. Outeiro em destaque verde claro.

Fonte: Ferreira et al (2012)

O Álbum do Pará de 1908, a fim de mostrar a relevância das características climáticas e geográficas da ilha, como pontos positivos no seu empreendimento de cuidar e educar os meninos ali internados, enfatizou-se: “construída em lugar alto e muito ventilado pelas brisas constantes do lado do occeano, esta escola fica em ponto salubérrimo, onde as noites são excessivamente frescas” (PARÁ, 1908, p. 283). Nessa mesma direção, o jornal “A Província do Pará destacou:

Installado em um terreno cujas condições topographicas e hygienicas são as melhores possíveis, n’essa formosa ilha banhada pelas águas do rio maguary e da Bahia santo Antonio, possuindo as belíssimas praias do caratateua, que se extendem até próximo a Villa Mosqueiro, e onde nos dias feriados os educandos vão em passeio (A PROVÍNCIA DO PARÁ, 30.06.1906, p. 1). Reforçando as condições tidas como ideias para a instalação de um internato para assistir meninos pequenos, este mesmo impresso noticiou que de fato a Ilha de Outeiro consistia em um local sadio para a educação das crianças ali internas, tendo em vista que até o momento, o que correspondia ao seu segundo ano de funcionamento, “no instituto ainda não se deu óbito algum até a presente data; conta oitenta e cinco educandos e, hoje, na sua enfermaria, apenas três meninos se acham, com moléstia cutanea, levada das casas de seus paes”(A PROVÍNCIA DO PARÁ, 10.09.1906, p.1).

Os aspectos que foram evidenciados em relação às condições da região onde o instituto se localizava vão ao encontro do que se discutia dede o século XIX sobre o que seria um local

ideal pra se construir um internado. Andrada Jr (1855), citado por Conceição (2015), aponta que os edifícios destinados a receber os internos deveriam satisfazer certas condições higiênicas a começar pelo local apropriado para sua instalação, que deveria ser distante de focos de infecções ou humidades, de preferência afastados das regiões mais populosas, repleta de vegetação e perto de rios, para oportunizar natação e banho para seus internos.

A dimensão do terreno no qual o Instituto Orfanológico do Outeiro foi implantado pode ser observado na figura 23, a partir de uma vista aérea desse espaço. Nesta, verifica-se a extensão de terra que abrigava a instituição no início do século XX, a localização do prédio em que ela funcionou, a área em frente ao estabelecimento, bem como o detalhe do Rio Maguary, que separava a Ilha de Outeiro e a Vila Pinheiro (Icoaraci), servindo de meio para o acesso e a saída de pessoas e para o transporte de materiais para o instituto.

Figura 23 - Vista aérea do terreno onde funcionou o Instituto Orfanológico do Outeiro

Fonte: Google Earth (2016)

Historicamente, a ilha de Outeiro foi uma região de destaque nas políticas de imigração de estrangeiros para a Província do Pará, no século XIX. Os imigrantes vieram para promover o desenvolvimento das atividades agrícolas, já que “faltavam braços para o cultivo da terra e o progresso da agricultura” (CRUZ, 1955, p. 17), uma vez que a mão-de-obra nacional era concebida como desqualificada em detrimento a europeia. Para tanto, a concessão de facilidades e intensas propagandas foram realizadas enquanto atrativos em países europeus.