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Um lugar para investigar a interação

No documento 2016AdrianaBragagnolo (páginas 89-105)

Para realizar pesquisa na área da Educação, numa linha que contempla os processos educativos, reportamo-nos às relações de ensino e de aprendizagem que ocorrem nas práticas, em especial, do cotidiano escolar. Mas esse cotidiano transcende os muros da escola na medida em que carrega as práticas sociais e culturais do lugar que os sujeitos habitam. Preocupamo-nos, neste estudo, em considerar como esse cotidiano interpõe-se nas situações de aprendizagem das crianças.

Baseamo-nos no pensamento de Rogoff (2005), que nos mostra que o desenvolvimento humano é um processo pelo qual as pessoas transformam-se pela participação contínua nas atividades culturais. A pesquisadora afirma que o que as crianças fazem “depende, em aspectos importantes, do significado cultural atribuído aos eventos e dos apoios sociais e institucionais proporcionados por suas comunidades para aprender e cumprir determinados papéis nas atividades” (2005, p. 18). Portanto, a nossa ação investigativa convida-nos a atrelar ao nosso olhar os aspectos pedagógicos no cotidiano da educação infantil, com possíveis relações construídas pelas crianças em suas comunidades.

Partindo desse pressuposto, muitas questões definiram-se e redefiniram-se no processo da construção do objeto de pesquisa. Uma delas refere-se aos sujeitos participantes na

investigação e a seu cotidiano, tanto a sua vida escolar, quanto aspectos de sua comunidade, espaços em que vivenciam interações, mediadas pela cultura.

Tínhamos optado por realizar a pesquisa com crianças de dois a cinco anos de idade. Elas seriam nossas protagonistas, pois entendíamos que, com essa faixa etária, na educação infantil, poderíamos compreender melhor a interação verbal, tanto em razão do desenvolvimento da linguagem, quanto pelas práticas pedagógicas próprias das etapas em que essas crianças estão inseridas. Mas em qual escola desenvolver a pesquisa? E que professoras seriam nossas interlocutoras? Essas questões foram sendo definidas de acordo com os nossos anseios e com base nas experiências vivenciadas pela pesquisadora no meio escolar e acadêmico38. Queríamos como parceira uma escola com abertura para a pesquisa, em que a gestão e os seus professores pudessem compreender que esse processo é exigente de uma construção metodológica e que contribui na formação dos professores e na aprendizagem das crianças.

Frente a essas intenções, procuramos pela Escola Municipal de Educação Infantil Geny Araújo Rebechi, que se localiza em Passo Fundo39, no loteamento Manoel Corralo. Pensamos em dialogar com essa escola porque já tínhamos a experiência de acompanhar as práticas dos estágios supervisionados do Curso de Pedagogia (FAED/UPF) nela e, com isso, sabíamos que encontraríamos um trabalho respeitoso de princípios da educação infantil e o desenvolvimento de propostas pedagógicas atreladas ao cuidar, educar e brincar.

A relação que existia até o início da investigação entre a pesquisadora, a escola e direção limitava-se a visitas de estágio supervisionado a acadêmicas em processo de formação inicial. Era um momento formal de aproximação entre a escola e a universidade. Já em relação às professoras, em 2009, a pesquisadora trabalhou em um programa de formação continuada, frequentado por duas das professoras dessa escola. Também, no período de 2012 e, posteriormente, no início de 2014, a pesquisadora acompanhou o estágio supervisionado do Curso de Pedagogia de duas professoras que atuavam na escola. Nesses períodos, elas sempre mostraram-se preocupadas com a aprendizagem das crianças, buscando, em conversas informais ou encontros, alternativas para situações que vivenciavam

38Essa experiência significa o tempo de docência vivenciado pela pesquisadora com a educação infantil, em escolas públicas e privadas, e no Ensino Superior, em especial na atuação com estágios em educação infantil, o que nos concede um panorama constante sobre as propostas de trabalho, problemáticas e concepções dos professores presentes em escolas de educação infantil das redes de ensino.

39 Município localizado ao norte do Rio Grande do Sul, com 196.739 habitantes em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Fonte: http://cidades.ibge.gov.br/xtras. Acesso em 15 de mar. 2016.

na escola com as crianças. Por conhecer o comprometimento da escola e o perfil das professoras, optamos em consultá-las sobre a possibilidade de realização de nosso trabalho de campo naquele lugar.

Em outubro de 2014, a diretora recebeu-nos para esse processo, compreendendo a proposta da pesquisa do doutorado como uma possibilidade de crescimento para a educação das crianças e para a área da pequena infância. O mesmo aceite veio do grupo de professoras. Com isso, dava-se início a um trabalho que nos manteria juntas durante aproximadamente dez meses. Antes de nos reportarmos às questões mais específicas da instituição escolar que nos acolheu, vale a pena olharmos de forma mais detalhada para o contexto em que ela está inserida.

Mais próximo do trevo principal de acesso à cidade, do que do centro de Passo Fundo, o Manoel Corralo, como é chamado por sua comunidade, localiza-se na periferia, conforme a Imagem 4 (quatro), e carrega marcas de uma história recente. Como loteamento, teve o seu início em razão de concessão de casas às famílias realocadas dos bairros Bom Jesus e Entre Rios para lá e também por um movimento de invasões de terrenos, em que casas foram construídas sem documentação legal (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 139). Juarez Tessaro, presidente da Associação de Moradores, em 2007, ao conceder uma entrevista para a UPF TV40, afirmou que, no início da constituição do loteamento, muitas famílias que ganharam as casas, venderam-nas para outras pessoas e, assim, segundo ele, o lugar foi crescendo. Atualmente, apesar do crescimento demográfico, muitas demandas no âmbito social, cultural e econômico, continuam a preocupar a comunidade, datando, aproximadamente quase uma década de reivindicações.

40 Essa entrevista foi realizada pela UPF TV, num dos encontros do “Programa Educação e Cidadania: um olhar para vulnerabilidade social em Passo Fundo”, transmitida para a comunidade local e regional. (Fonte: DVD do “Programa Educação e Cidadania: um olhar para vulnerabilidade social em Passo Fundo”).

Imagem 3 - Imagem aérea do município de Passo Fundo com a localização do loteamento Manoel Corralo

Fonte: Google Earth

Imagem 4 - Imagem aérea do loteamento Manoel Corralo com a localização da escola

Fonte: Google Earth

Parte das questões explicitadas anteriormente está registrada no projeto de extensão da Universidade de Passo Fundo, “Educação e Cidadania”41, realizado entre 2006 e 2007, que, além de ter dado voz às pessoas da comunidade, ajuda-nos a compreender alguns potenciais e limitações do loteamento Manoel Corralo a serem expostos na sequência. Com a experiência do projeto da UPF, a comunidade teve a oportunidade de pensar e expressar-se acerca de suas percepções e necessidades, na problematização de vários temas, partilhando um pouco de suas esperanças. Além dele, foram fontes da descrição apresentadas a seguir: observações feitas pela pesquisadora durante caminhada no bairro, escuta de comentários tecidos pelas professoras e crianças, e reunião (entrevista) com a gestão da escola.

41 Projeto da UPF “Educação e Cidadania: um olhar para as comunidades em situação de vulnerabilidade social em Passo Fundo”, realizado como projeto de extensão e ação comunitária pelo canal de comunicação UPF TV e pelo Curso de Serviço Social da mesma instituição, em parceria com a União de Associações de Moradores de Passo Fundo, no período de 2006 a 2007. Coordenação geral: Henrique Fonseca, Cristina Fioreze e Clenir Moretto.

Apesar de a localidade dispor de luz elétrica, água encanada e pavimentação em boa parte das ruas, telefones e transporte públicos, ela ainda não conta com uma infraestrutura adequada. Alguns moradores falaram que concordavam com a política de habitação, mas também apontaram, negativamente, a questão da heterogeneidade (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 139). Neste sentido, o loteamento apresenta três realidades distintas. Existem casas construídas pelos moradores ou com financiamento da Caixa Econômica Federal, de alvenaria, em ruas pavimentadas. Em contrapartida, há outros dois setores do loteamento que lhes falta saneamento em algumas ruas. Desses dois, um deles é mais organizado, tem casas simples, mas são mais cuidadas, possuem mais cômodos e algumas usam o pátio para horta ou jardim. No entanto, há um terceiro “lugar”, com moradias muito precárias, de madeira e papelão, de um cômodo só, rodeadas de lixo e com remendos de caixas de leite, para que o frio não entre em tempos de inverno.

Imagem 5 - Diferentes moradias e condições do loteamento Manoel Corralo

Fonte: Acervo da pesquisadora

Entre 2006 e 2007, por ocasião do desenvolvimento do referido projeto de extensão, a população manifestou-se, também, em relação ao atendimento à saúde, relatando problemas sobre o acesso e a precariedade dos equipamentos disponíveis para o serviço. Nos relatos, era perceptível a falta das condições de acesso, que, mesmo se dirigindo a outros bairros, a prioridade acabava por ser das pessoas daquele lugar (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 139). Na mesma situação, em 2016, os moradores continuam a peregrinar nas unidades de saúde de dois bairros vizinhos: o ambulatório do bairro São Luiz Gonzaga e o CAIS do bairro Petrópolis. Além do atendimento, devido à falta de saneamento e ao contato com o lixo, as pessoas solicitavam informações sobre doenças associadas a esse quadro. Apesar de algumas lutas e de projetos sendo realizados por colaboradores, com o loteamento maior e também com maiores informações à comunidade, essa realidade ainda não se

modificou, situação que reverbera de forma bem clara nas falas das crianças, na escola, sendo essa uma das inquietações dos pais.

Sobre o saneamento e o meio ambiente, parte do loteamento ainda está sem estrutura de esgoto. O lixo era, na época do projeto, e ainda é, um problema. Continua sendo depositado por muitas pessoas em terrenos baldios. O desejo da comunidade mostra-se por suas expectativas de superação, que aponta como necessária a implantação de uma política de saneamento urbano para o bairro, bem como um trabalho educativo, com orientação sobre o destino adequado dos resíduos (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, 143). A Imagem 7 (sete) ilustra uma dessas situações, pois apresenta um terreno localizado a 50 metros da instituição de educação infantil, utilizado como ponto de descarga de lixo pelas famílias da redondeza.

Imagem 6 - Lixo jogado no terreno baldio - Loteamento Manoel Corralo

Fonte: Acervo da pesquisadora

Já o transporte coletivo remete a outro tipo de preocupação, especialmente quanto aos horários dos ônibus, reduzidos no final de semana, situação que “contribui para o agravamento do processo de exclusão social que a comunidade sofre, isolando ainda mais os seus moradores em relação ao centro da cidade” (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 144). Há uma queixa da comunidade sobre esse isolamento, pois, situam-se distante do centro e de outros bairros, restringindo-lhes o acesso a outros espaços da cidade e a determinados bens culturais, as praças e os espaços de lazer. Para a escola, no entanto, as crianças dirigem-se caminhando, tendo em vista que boa parte delas reside nas suas imediações. Algumas são conduzidas por vizinhos, pais, irmãos e avós, e outras em carro da família, uma realidade que, ao longo da última década, tem se mostrado mais frequente nas escolas de bairros de Passo Fundo.

Outra questão que preocupa os moradores, ainda, é a segurança pública, devido à violência, em especial, aos assaltos em estabelecimentos públicos e residências. Isso evidencia-se pelas expressões dos sujeitos em situações diversas. As professoras da escola relatam fatos graves, envolvendo crimes que ocorreram, inclusive, com familiares de crianças. Em razão de alguns eventos dessa natureza ou de latrocínios, algumas crianças da escola têm o seu pai ou a sua mãe em situação de privação de liberdade, recolhidas ao presídio municipal, que fica no bairro vizinho. Conforme registros do projeto de extensão, os moradores denunciaram o aumento do número de jovens portando armas, de maneira habitual (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 139), o que os deixa bastante apreensivos. Além disso, nas rodas de conversas e brincadeiras, as crianças dramatizam e verbalizam acontecimentos em relação ao uso de armas por pessoas conhecidas ou por familiares. Numa roda de conversas, da turma do Pré II um dos meninos, ao contar sobre o seu final de semana, um deles relata fatos envolvendo uso de armas num bar aonde teria ido com o pai.

CENA DO BAR (Pré II – F1 – 10.11.2014 - 18:20)42

(1) Professora: Deixem o Júlio contar!

(2) Júlio: Chegaram lá... Quatro home armado. (3) Crianças:(inaudível).

(4) Professora: Deixem o Júlio contar! (5) Júlio: Tá...

(6) Professora: Como é que tu sabia que tava armado Júlio?

(7) Júlio: Porque o cara foi no banheiro, o cara do Tonho e o, ô, ô... E um que tava de camisaaaa amarela

pegou e oh... toool! [gesto com a mão como se estivesse surrado alguém].

(8) Felipe: Toool! [imita o gesto]. (9) Pedro: Então era marginal!

(10) Ruan: Então era uma arma e tchiu tchiu [levanta e coloca as mãos no bolso como se estivesse carregando a arma].

(11) Professora: E daí, Júlio... Vocês ficaram lá ou foram embora? (12) Crianças: (conversas paralelas).

(13) Professora: Ei gente, sentem para ouvir o Júlio. Vamos terminar de ouvir o Júlio.

(14) Júlio: Daí, ôô...Teve um ca... um, um... O dono do bar, o cara que apartô daí, o cara apartô, daí ele pegô

e deu um tiro... deu um tiro assim. E no otro tiro o dono do bar apareceu do banheiro. Eles queriam o dono do bar. Depois deu um taio no dono do bar, assim oh da orelha até a boca [gesto com a mão mostrando o

lugar do corte].

(15) Professora: Tu viu isso, Júlio? (16) Júlio: Não, meu tio que contô.

(17) Professora: Ah tá, mas você já tinha ido embora? (18) Júlio: Não, eu já tava dentro do carro com o meu pai.

(19) Pedro: Então porque o teu pai não saiuuuu? [fala acompanhada pelo gesto com a mão]. (20) Júlio: Ele saiu correndo tudo.

42Nos excertos das transcrições, estamos utilizando um padrão de marcação. Esclarecemos a que se referem: Pré II – turma participante da pesquisa; F1: identificação da filmagem daquela turma; 10.11.2014: data em que a filmagem foi realizada; 18:20: horário inicial da filmagem. Também sobre as transcrições, no Apêndice B, estão dispostas cinco tabelas contendo as datas e os tempos de filmagens por turma participante da pesquisa; e, no Apêndice C, o quadro de sinais utilizados nas transcrições.

(21) Felipe: Ruuuuuuum!!! [barulho de carro e gesto como se estivesse dirigindo]. (22) Crianças: (inaudível).

(23) Júlio: Saltô caco de vidro aqui [mostrando o braço] no pai.

Além de estarem expostas à violência, por mais que possam mesclar realidade e fantasia, nessa idade e nessas situações, as crianças estão atentas a tudo que acontece em sua comunidade, pelos fatos vistos de perto ou contados por outras pessoas. Assim, por viverem esse mundo real, de sentidos diversos, autorizam-se a emitirem opiniões, a ficarem curiosos e a construírem conceitos sobre esse cotidiano, por vezes, tão violento, desde muito cedo.

O trabalho também se revela como um tema de lutas do loteamento Manoel Corralo. Os moradores enfrentam a dificuldade em conseguir trabalho formal e informal em razão do bairro situar-se, geograficamente, longe do centro e de outros bairros que possuem empresas de grande porte, o que lhes traria outras oportunidades (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 139). Alguns moradores, presentemente, trabalham em frigoríficos e parte das mulheres desempenha as suas funções como diaristas. Além dessas funções, um número significativo de moradores trabalha com reciclagem do lixo e há os que têm uma relação muito próxima com o mundo das drogas. A comunidade pensa que a falta de qualificação é um dos fatores que impossibilita o acesso ao trabalho, o que lhes permitiria sentir maior dignidade como pessoas. Eles tentam, por meio das relações que mantêm entre si, construir esse lugar como seu.

Ainda que marcados pelo estigma do preconceito, observa-se que os moradores gostariam de construir vínculos e identidade com o local onde vivem, o qual, diferentemente da imagem que se faz, é bom para morar e onde se constroem relações de afetividade e solidariedade (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008, p. 154).

Com base nas falas das professoras e crianças, percebemos que a comunidade é formada por pessoas que buscam o encontro para conversar, divertir-se e descansar, mas lhes faltam espaços coletivos. Uma das formas de manter as relações com os outros e com o lugar ocorre pelo lazer, mas desde a realização do projeto de extensão (2006-2007) até o momento da nossa pesquisa (2014-2015), as mudanças são imperceptíveis: o loteamento ainda não possui espaço próprio para esse fim, uma queixa constante dos moradores. Foi sugerida, em 2007, a construção de uma igreja e de um espaço para a prática de esporte, como campo de futebol ou quadra de vôlei, e também a vinda de grupos culturais e atividades itinerantes (MORETTO; FIOREZE; FONSECA, 2008). Essa última demanda tem sido viabilizada por

grupos de teatro43, que atuam e promovem espetáculos pelos bairros da cidade. No entanto, aqueles espaços ainda continuam ausentes. Em 2014, a própria instituição de educação infantil liderou um movimento para que se construísse uma quadra de atividades diversas, num terreno que se encontra na rua detrás da escola. O projeto está na Prefeitura Municipal de Passo Fundo e muitas pessoas da comunidade e da gestão da escola já se envolveram com isso, mas ainda não obtiveram resultado44. O receio da direção da escola é que, antes de viabilizar o projeto, possa ocorrer invasão de moradores naquele lugar. Diante disso, a partir do nosso olhar, vimos as crianças brincando nas ruas, sendo aquele espaço a sua alternativa. Isso está documentado num dos momentos da pesquisa em que, inseridos naquele lugar, e conversando com pessoas da comunidade, buscamos entender aquela realidade.

Na caminhada, encontramos a senhora Sandra, ex-merendeira da escola, que gosta de morar ali, apesar do esgoto que desce das outras casas. Nos diz que “aqui é calmo, mas do outro lado a coisa tá feia!”. [...] A diretora me convida para ir ao “outro lado”. Caminhamos enxergando ao longe, o contraste com os prédios do centro da cidade, talvez os mais altos. Esse lado, tem outro retrato: algumas pessoas espiam na janela, as casas são mais precárias, com menos espaços, muito lixo na rua, ao redor e dentro das casas. [...] São muitos sujeitos circulando pelo bairro, mas destaco as crianças, boa parte delas matriculada na escola, especialmente as de zero a seis anos. São crianças singulares, filhos de catadores, netos de avós atenciosos, alguns vivendo longe de seus pais, crianças que têm pouco espaço para brincar, mas que fazem dos espaços do bairro, como a própria rua, o seu quintal (DIÁRIO DE CAMPO, 14.10.2014).

Em meados de 2006, muitas eram as reivindicações para que houvesse uma escola de educação infantil no Manoel Corralo. Não havia atendimento educacional a crianças menores de seis anos de idade, tampouco a oferta de ensino fundamental. Ao pensarmos na educação infantil, essa problemática transcende o loteamento e o município de Passo Fundo. No Brasil, ainda há um volume muito grande de crianças que deveria estar frequentando a educação infantil, mas que não encontra vagas nas instituições públicas. Em Passo Fundo,

43A exemplo, citamos o Grupo Ritornelo de Teatro, de Passo Fundo, que trabalha com teatro urbano e realiza discussões com os moradores, envolvendo temas como direitos humanos, cidadania e espaços da comunidade, atividade que ocorre, geralmente, nos finais de semana.

44Em uma reportagem da UPF TV, em 2013, continuavam as reivindicações oriundas desse bairro, para que as crianças tivessem mais lazer. A reportagem registra que, em 2011, a Associação Mirim de Moradores do Loteamento Manoel Corralo foi até a Prefeitura Municipal de Passo Fundo com um projeto para a construção de um campo de futebol em um terreno baldio atrás da Escola Geny Araújo Rebechi. Diz a reportagem que o projeto não foi colocado em prática, a administração mudou e as reivindicações continuaram. A reclamação das mães era que o espaço para brincar era a rua, o que resulta em riscos para as crianças em virtude do trânsito. Os espaços que poderiam ser ocupados para lazer, os terrenos baldios, são tomados de lixo. (Fonte:

www.youtube.com/watch?v=iraRzg3Slok. Acesso em: 15 jan. 2016.). No início de 2015, o prefeito de Passo Fundo anuncia a aprovação do projeto para a implementação de uma praça esportiva com campo de futebol no bairro. Ainda, no início de 2016, a comunidade aguarda a concretização do projeto. (Fonte:

http://www.rduirapuru.com.br/esporte/27910/prefeito+confirma+praca+esportiva+no+loteamento+manoel+c orralo. Acesso em: 15 jan. 2016).

por exemplo, há mais crianças frequentando instituições infantis privadas, do que públicas45 e ainda que o número seja considerável, em razão de ações viabilizadas, faltam vagas. No loteamento, as lutas pela escola foram constantes, como mostra o relato dessa história

No documento 2016AdrianaBragagnolo (páginas 89-105)