3.3 F´ ermions na teoria eletrofraca
3.3.1 Um modelo dos l´ eptons
Nosso ponto de partida para a discuss˜ao sobre os l´eptons ser´a sua lagrangiana de massa:
Llmassa =−ml¯ll . (3.83)
O termo ¯ll pode ser expandido em termos das componentes de m˜ao esquerda e direita:
¯ll= (¯lR+ ¯lL)(lL+lR) = ¯lRlL+ ¯lRlR+ ¯lLlL+ ¯lLlR
= ¯lRlL+ ¯lPLPRl+ ¯lPRPLl+ ¯lLlR .
(3.84)
Ent˜ao, usando a rela¸c˜ao PLPR=PRPL= 0, temos que
¯ll = (¯lRlL+ ¯lLlR). (3.85)
Desse modo, o termo de massa leptˆonico (3.83) pode ser expresso como
−ml¯ll =−ml(¯lRlL+ ¯lLlR). (3.86) Isso mostra que esse termo mistura componentes de m˜ao esquerda e direita. Entretanto, como as transforma¸c˜oes de gauge SU(2)L⊗U(1)Y s˜ao dadas por
SU(2)L: L→exp
igθa(x)σa 2
L , (3.87)
U(1)Y : L→exp
ig0α(x)YL 2
L , R →exp
ig0α(x)YR 2
R , (3.88) vemos que esses dois tipos de componentes se transformam de maneiras distintas, de modo que o termo de massa (3.83) n˜ao ´e invariante sob essas transforma¸c˜oes de calibre.
Podemos tratar esse problema do seguinte modo: note que uma transforma¸c˜ao SU(2)L infinitesimal do dubleto de Higgs tem a forma
Φ→
1+igθa(x)σa 2
Φ, (3.89)
e a mesma transforma¸c˜ao de gauge se aplica a um dubleto fermiˆonico de m˜ao esquerda:
Consequentemente, o adjunto ¯L se transforma de maneira inversa ao dubleto de Higgs:
L¯ →L¯
1−igθa(x)σa 2
. (3.91)
Isso implica que um termo da forma
LΦ¯ (3.92)
´e invariante sob transforma¸c˜oes de gauge SU(2)L. Se adicionalmente, combinarmos ¯LΦ a um singleto de m˜ao direita, ent˜ao o resultado tamb´em se torna invariante sobU(1)Y local.
Desse modo, o termo ¯LΦR ´e invariante sob transforma¸c˜oes de calibre SU(2)L⊗U(1)Y, assim como seu conjugado hermitiano, ¯RΦ†L. Resulta, portanto, que a soma
LΦR¯ + ¯RΦ†L (3.93)
satisfaz a simetria degauge eletrofraca. Assim, adicionamos `a lagrangiana o termo
LYukawal =−Gl( ¯LΦR+ ¯RΦ†L), (3.94)
em que a constante Gl ´e chamada de acoplamento de Yukawa para o l´epton l. Com a quebra espontˆanea da simetria eletrofraca, e expressando o dubleto de Higgs no gauge unit´ario (3.55), temos que
LYukawal =−Gl(v+H)
Isso permite identificarmos a massa do l´epton l como sendo ml = Glv
√2 , (3.96)
o que mostra que as massas do el´etron, m´uon e tau tamb´em provˆem de acoplamentos de seus respectivos campos com o VEV hφ0i0 = √v2. ´E importante notarmos que apesar de esse mecanismo gerar um termo de massa para os l´eptons e, µ e τ, no entanto, n˜ao ocorre o mesmo para os neutrinos, os quais s˜ao deixados sem massa. Isso ocorre porque no gauge unit´ario (3.55), a componente inferior do dubleto de Higgs ´e que possui um v´acuo diferente de zero, logo, resulta que ´e gerada massa somente para o l´epton na componente inferior do dubletoL, ou seja, somente para os l´eptonse,µ,τ, e n˜ao para seus respectivos neutrinos. Assim, a lagrangiana invariante degauge para uma fam´ılia de l´eptons ´e
Lleptfam´ılia=iLγ¯ µDµL+iRγ¯ µDµR
Al´em disso, podemos explicitar as derivadas covariantes no termoLl,νlocaldo seguinte modo:
Ll,νlocal =iRγ¯ µ∂µR+iLγ¯ µ∂µL+iLγ¯ µ
Em particular, ao explicitarmos as matrizes σ1 e σ2, vemos que o termo que chamamos deLCC ´e equivalente a
Assim, os termos que acoplam com W+ e W− em LCC podem ser reconhecidos como sendo as correntes fracas carregadas (3.6) e (3.7):
LCC =− g 2√
2 h
J−µWµ++J+µWµ−i
. (3.102)
Ou seja, LCC pode ser identificada como sendo a lagrangiana da intera¸c˜ao fraca de corrente carregada. Isso mostra que de fato, a teoria de gauge baseada na simetria SU(2)L⊗U(1)Y permite reproduzirmos a estruturaV −Adas correntes fracas carregadas, uma vez que as correntesJµ± que acoplam com os b´osons W∓ s˜ao da forma “vetor - vetor axial”, tal como ´e necess´ario para explicar a viola¸c˜ao de paridade que ´e observada nas intera¸c˜oes fracas mediadas por esses b´osons de gauge carregados.
Partindo para a an´alise dos termos neutros da lagrangiana (3.97), temos que Lneutra =−gLγ¯ µσ3
2 LWµ3− g0
2( ¯LγµY L+ ¯RγµY R)Bµ. (3.103) Ent˜ao, recorrendo `as defini¸c˜oes de Jµ3 e JµY, n´os obtemos
Lneutra =−gJ3µWµ3− g0
2JYµBµ. (3.104)
No entanto, lembremos que as correntes Jµ3 e JµY est˜ao relacionadas a Jµem pela equa¸c˜ao (3.35), enquanto que Wµ3 e Bµ est˜ao relacionados a Aµ e Zµ pela express˜ao inversa a (3.76):
Wµ3 = cosθWZµ+ sinθWAµ, Bµ=−sinθWZµ+ cosθWAµ.
(3.105)
Isso permite reescrevermos Lneutra da seguinte maneira:
Lneutra =−gsinθWJemµ Aµ− g cosθW
h1
2νγ¯ µ(gVν −gνAγ5)ν+1 2
¯lγµ(gVl −glAγ5)li
Zµ, (3.106) em que as constantes de acoplamentogVν, gνA,gVl eglA s˜ao definidas por
gVν =T3ν −2Qνsin2θW , gνA=T3ν , (3.107) glV =T3l−2Qlsin2θW , gAl =T3l. (3.108)
A express˜ao (3.106) sugere definirmos o termo entre colchetes como sendo a corrente associada ao b´oson neutro Z:
JZµ ≡ 1
2νγ¯ µ(gνV −gAνγ5)ν+1 2
¯lγµ(gVl −glAγ5)l . (3.109)
Vemos tamb´em de (3.106) que o acoplamento com o b´oson Z pode ser definido por gZ ≡ g
cosθW . (3.110)
Dessa forma, o segundo termo em (3.106) ´e equivalente a
−gZJZµZµ. (3.111)
Isso mostra que a teoria eletrofraca n˜ao somente explica a forma da intera¸c˜ao fraca de corrente carregada, mediada pelos b´osons W±, como tamb´em prevˆe a existˆencia de intera¸c˜oes fracas de corrente neutra, mediadas pelo b´oson Z.
Adicionalmente, vemos que o primeiro termo em (3.106), que aparece com uma constante de acoplamentogsinθW, ´e a lagrangiana de intera¸c˜ao dos l´eptons com o campo eletromagn´etico. Por outro lado, vimos no cap´ıtulo anterior que o acoplamento da ele-trodinˆamica quˆantica ´e a quantidadee, que corresponde `a carga el´etrica do pr´oton, logo, para que possamos reproduzir esse acoplamento, devemos ter a seguinte rela¸c˜ao:
e=gsinθW =g0cosθW . (3.112)
Com isso, a parte neutra da lagrangiana pode ser expressa como
Lneutra =−eJemµ Aµ−gZJZµZµ. (3.113)
Essa parte neutra consiste, portanto, na lagrangiana de intera¸c˜ao dos l´eptons com o f´oton e com o b´oson Z. Reunindo os resultados obtidos, a lagrangiana (3.97) que descreve uma
fam´ılia de l´eptons ´e dada por
Lleptfam´ılia=
termos cin´eticos dos l´eptons
z }| { Assim, observe que possu´ıamos no in´ıcio do cap´ıtulo apenas uma teoria livre para os l´eptons, dada pela lagrangiana (3.15), na qual n˜ao havia termos de massa nem de intera¸c˜ao com b´osons de gauge ou de Higgs. Todavia, quando aplicamos o princ´ıpio de gauge, obtivemos as intera¸c˜oes eletromagn´etica e fraca dos l´eptons, e ao adicionarmos o acoplamento de Yukawa, vimos que a quebra espontˆanea da simetria eletrofraca faz com que esse acoplamento gere um termo de massa para os l´eptons carregados, assim como um termo de intera¸c˜ao desses f´ermions com o campo de Higgs.
Agora que temos uma teoria consistente para os l´eptons, veremos que para gerar-mos os tergerar-mos de massa dos quarks, ser´a necess´aria uma generaliza¸c˜ao do acoplamento de Yukawa que introduzimos para os l´eptons, o que ir´a requerer a introdu¸c˜ao de um dubleto de Higgs conjugado.