CENTRO DE CIˆENCIAS EXATAS E DA TERRA DEPARTAMENTO DE F´ISICA
BACHARELADO EM F´ISICA
Vin´ıcius Fernandes Alves
Introdu¸ c˜ ao ` a teoria eletrofraca
Natal - RN
22 de abril de 2021
Introdu¸ c˜ ao ` a teoria eletrofraca
Monografia de Gradua¸c˜ao apresentada ao Departamento de F´ısica Te´orica e Expe- rimental do Centro de Ciˆencias Exatas e da Terra da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para a obten¸c˜ao do grau de bacharel em F´ısica.
Orientador:
Prof. Dr. Farinaldo da Silva Queiroz
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN IIP/DF
Natal - RN 22 de abril de 2021
Vin´ıcius Fernandes Alves e aceita pelo Departamento de F´ısica do Centro de Ciˆencias Exatas e da Terra da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo aprovada por todos os membros da banca examinadora abaixo especificada:
Prof. Dr. Farinaldo da Silva Queiroz - Orientador UFRN
IIP/DF
Prof. Dra. Elisama Eraldene Marques Lima IFBA
Prof. Dra. Raissa Maria Pimentel Neves IF Sert˜ao - PE
Natal - RN 22 de abril de 2021
Agradecimentos
Meus sinceros agradecimentos...
Ao meu orientador Farinaldo Queiroz, por sua enorme contribui¸c˜ao para que eu pudesse aprender sobre uma das mais fascinantes teorias f´ısicas j´a desenvolvidas.
Aos meus pais Daniel e D´ebora, pela educa¸c˜ao que me deram e por apoiarem que eu estudasse aquilo que acho belo e que desperta minha curiosidade.
A minha irm˜` a Lu´ısa, por tornar os dias mais engra¸cados e divertidos.
Ao meu cachorro Pipo, por toda a alegria e carinho que compartilhamos diaria- mente.
Ao professor Anderson Luiz Pinheiro de Oliveira, meu primeiro professor de f´ısica, por desde cedo ter me motivado a estudar f´ısica.
Ao professor Carlos Andr´e Cavalcante, por suas surpreendentes e inspiradoras aulas de f´ısica para o ENEM, que despertaram em mim uma curiosidade e desejo insaci´aveis por aprender cada vez mais f´ısica.
Ao professor Claudio Possani, por me fazer enxergar a sutil e delicada beleza do c´alculo diferencial e integral.
Aos meus amigos da f´ısica pelos momentos, discuss˜oes, risos e reflex˜oes que com- partilhamos dentro e fora da universidade, enquanto isso foi vi´avel.
A todos os professores da f´ısica que foram essenciais na minha gradua¸c˜ao e que conseguiram transmitir inspira¸c˜ao ao fazerem transparecer a beleza da ciˆencia. Agrade¸co especialmente aos professores Rodrigo Pereira, Juliana Hidalgo, Leandro Ibiapina, L´eo Gouvea, Felipe Bohn, Gandhi Mohan e Hector Salazar.
Resumo
A teoria eletrofraca ´e parte essencial do Modelo Padr˜ao da f´ısica de part´ıculas, permitindo obtermos tanto um entendimento unificado das intera¸c˜oes eletromagn´etica e nuclear fraca, como tamb´em uma descri¸c˜ao do mecanismo pelo qual os b´osons fracos e os f´ermions carregados adquirem massa. Com isso, o objetivo deste trabalho ´e apresentar, em n´ıvel introdut´orio, os principais aspectos dessa teoria. Para isso, primeiro forneceremos uma base te´orica a respeito da teoria de gauge, da quebra espontˆanea de simetria e do mecanismo de Higgs. Em seguida, introduziremos a simetria eletrofraca, que rege as intera¸c˜oes entre as part´ıculas elementares. Por fim, aplicaremos o mecanismo de Higgs que via um processo de quebra espontˆanea de simetria gerar´a massa para as part´ıculas elementares, deixando por´em o f´oton e os neutrinos sem massa.
Palavras-chave: Teoria eletrofraca; Modelo Padr˜ao; Teoria degauge; Quebra espontˆanea de simetria; Mecanismo de Higgs.
Abstract
The electroweak theory is an essential part of the Standard Model of particle phy- sics, allowing us to obtain both a unified understanding of the electromagnetic and weak nuclear interactions, and a description of the mechanism by which the weak bosons and the charged fermions acquire mass. Thereby, the objective of this work is to present, in an introductory level, the main aspects of this theory. For this, we will first provide a theo- retical basis on gauge theory, spontaneous symmetry breaking, and the Higgs mechanism.
Later, we will introduce the electroweak symmetry that governs the interactions among the elementary particles, and apply the Higgs mechanism that via a process of spotane- ous symmetry breaking generates mass to the elementary particles, but the photon and neutrinos.
Keywords: Electroweak theory; Gauge theory; Spontaneous symmetry breaking; Higgs mechanism.
Lista de Figuras
2.1 V(φ) para diferentes valores do parˆametro µ2, fixando-se um valor de λ >0. 11 2.2 V(φ1, φ2) para µ2 >0. . . 13 2.3 V(φ1, φ2) para µ2 <0. . . 14 3.1 Diagrama de Feynman de dois v´ertices para o espalhamento e−τ−→e−τ−. 19
Sum´ ario
1 Introdu¸c˜ao 1
2 Fundamentos te´oricos 4
2.1 Princ´ıpio de gauge . . . 4
2.2 Quebra espontˆanea de simetria . . . 8
2.2.1 QES discreta . . . 9
2.2.2 QES cont´ınua global e b´osons de Goldstone . . . 12
2.3 Mecanismo de Higgs . . . 15
3 Teoria eletrofraca 18 3.1 Escolhendo o grupo de gauge eletrofraco . . . 18
3.2 Os b´osons de gauge eletrofracos . . . 27
3.3 F´ermions na teoria eletrofraca . . . 34
3.3.1 Um modelo dos l´eptons . . . 35
3.3.2 Gerando massa para os quarks . . . 40
3.4 Os parˆametros da teoria eletrofraca . . . 42
3.4.1 Determina¸c˜ao de v pelo limite de baixas energias . . . 42
3.4.2 Prevendo as massas dos b´osons fracos . . . 44
3.4.3 A massa do Higgs e os parˆametrosλ e µ2 . . . 45
3.4.4 Acoplamentos de Yukawa e as massas dos f´ermions . . . 46
4 Considera¸c˜oes finais 47
Cap´ıtulo 1 Introdu¸ c˜ ao
Um dos conceitos mais importantes para a f´ısica de part´ıculas ´e o de simetria. A raz˜ao central para isso ´e porque o Modelo Padr˜ao de part´ıculas ´e uma teoria de gauge, e nesse tipo de teoria, ao promovermos as simetrias cont´ınuas globais da lagrangiana a simetrias locais, obtemos intera¸c˜oes mediadas por b´osons de spin 1, chamados de b´osons degauge, tal como o f´oton, da intera¸c˜ao eletromagn´etica, e os gl´uons, da intera¸c˜ao nuclear forte.
Desse modo, se conhecermos as simetrias globais da lagrangiana livre que deve descrever os campos de mat´eria, ent˜ao somos capazes, a princ´ıpio, de determinar a forma das intera¸c˜oes entre as part´ıculas que correspondem `as excita¸c˜oes desses campos, bem como as propriedades dos b´osons de gauge mediadores dessas intera¸c˜oes. Com isso, o entendimento de que existe essa rela¸c˜ao fundamental entre simetria local e intera¸c˜ao tem conduzido os f´ısicos em uma busca por desvendar as simetrias da natureza, para que se possa ent˜ao ter uma compreens˜ao completa das intera¸c˜oes que existem no universo.
Um problema sutil, entretanto, ´e que existem simetrias das leis f´ısicas que n˜ao se manifestam nas escalas de energia e temperatura `as quais temos acesso cotidianamente.
Isso ocorre porque existe uma distin¸c˜ao entre as simetrias possu´ıdas pelo estado funda- mental de uma teoria e as simetrias subjacentes possu´ıdas pelas equa¸c˜oes de movimento (ou equivalentemente, pela lagrangiana). Desse modo, ´e poss´ıvel, por exemplo, que as leis f´ısicas que determinam o comportamento de um sistema possuam uma dada simetria, mas que caso ele seja resfriado abaixo de uma certa temperatura cr´ıtica, o estado de menor energia passe a possuir uma simetria menor do que a das equa¸c˜oes de movimento: dizemos ent˜ao que ocorre uma quebra espontˆanea de simetria.
Com efeito, veremos que ´e isso que ocorre com uma das simetrias fundamentais da f´ısica de part´ıculas, chamada de simetria eletrofracaSU(2)L⊗U(1)Y, pois apesar de ela ser essencial para a formula¸c˜ao da teoria eletrofraca, que fornece uma descri¸c˜ao unificada das intera¸c˜oes eletromagn´etica e nuclear fraca, o estado de menor energia dessa teoria
´e invariante apenas sob o grupo U(1)EM, associado `a intera¸c˜ao eletromagn´etica. Desse modo, comoU(1)EM ´e uma simetria menor queSU(2)L⊗U(1)Y, isso nos leva a inferir que de alguma forma, ao longo da expans˜ao e resfriamento do universo, a simetria eletrofraca deve ter sido quebrada espontaneamente, deixando como res´ıduo somente a invariˆancia U(1)EM.
No entanto, se essa simetria foi de fato quebrada durante algum est´agio da evolu¸c˜ao do universo, ´e natural questionarmos qual processo f´ısico esteve associado a essa quebra.
De acordo com a cosmologia moderna, isso se deve a uma transi¸c˜ao de fase que ocorreu em uma temperatura por volta de kBT ∼ 300 GeV, o que corresponde a um tempo da ordem de 10−11 s ap´os o Big Bang [9]. Como consequˆencia, veremos que um dos campos fundamentais que permeiam o universo, chamado de campo de Higgs, passou a gerar massa para os b´osons da intera¸c˜ao nuclear fraca e para todos os f´ermions eletricamente carregados por meio de um valor esperado do v´acuo (VEV) de 246 GeV.
Dessa forma, espera-se que tenha sido nesse est´agio bastante inicial da evolu¸c˜ao do universo em que essas part´ıculas se tornaram massivas. Isso significa, essencialmente, que a pr´opria massa n˜ao ´e uma propriedade inerente `as part´ıculas elementares, mas adquirida somente devido ao universo se encontrar em um estado de simetria quebrada. De fato, esse ´e o motivo pelo qual a existˆencia do campo de Higgs ´e considerada t˜ao relevante pela comunidade de f´ısica de part´ıculas: ele ´e a maneira mais consistente que temos de explicar por que as part´ıculas fundamentais n˜ao est˜ao simplesmente se propagando na velocidade da luz, o que tornaria o universo radicalmente diferente de como ele ´e.
Com isso, o objetivo deste trabalho ´e que possamos compreender em n´ıvel intro- dut´orio a teoria eletrofraca, desde o que ´e a simetria eletrofraca at´e a maneira como sua quebra espontˆanea resulta na gera¸c˜ao de massa para os b´osons fracos e para a maioria dos f´ermions, com excess˜ao dos neutrinos, cuja massa n˜ao ´e explicada pela teoria. Para isso, iniciaremos o trabalho falando sobre trˆes ferramentas que constituir˜ao uma base te´orica da qual necessitaremos para que possamos compreender a teoria eletrofraca: o princ´ıpio degauge, a quebra espontˆanea de simetria e o mecanismo de Higgs. Em seguida, motiva-
remos a escolha do grupo de simetria localSU(2)L⊗U(1)Y para descrever as intera¸c˜oes eletrofracas, e ent˜ao finalizaremos com a discuss˜ao de como a quebra espontˆanea dessa simetria degauge resulta em possibilitar a existˆencia de part´ıculas elementares massivas, e qual o papel do campo de Higgs em todo esse processo.
Cap´ıtulo 2
Fundamentos te´ oricos
Este cap´ıtulo tem como objetivo introduzir os conceitos essenciais dos quais neces- sitaremos para que possamos compreender a teoria eletrofraca. Come¸caremos com uma breve discuss˜ao a respeito das ideias de simetria global, local e princ´ıpio de gauge, e ve- remos como tal princ´ıpio pode ser aplicado no contexto mais familiar da eletrodinˆamica para explicar a maneira por meio da qual a mat´eria eletricamente carregada interage com o campo eletromagn´etico. Em seguida, partiremos para o estudo da quebra espontˆanea de simetria, em que vamos introduzir o conceito de b´oson de Goldstone. Por fim, uniremos o princ´ıpio de gauge `a quebra espontˆanea de simetria para chegarmos a um mecanismo de quebra espontˆanea de simetrias de gauge, chamado de mecanismo de Higgs, o qual permite a formula¸c˜ao de uma descri¸c˜ao consistente de intera¸c˜oes mediadas por b´osons vetoriais massivos, tal como ocorre na teoria eletrofraca.
2.1 Princ´ıpio de gauge
O princ´ıpio degauge´e uma maneira de gerarmos intera¸c˜oes entre a mat´eria e b´osons vetoriais por meio da imposi¸c˜ao de que as simetrias cont´ınuas da lagrangiana sejam locais.
Para que possamos compreender melhor o que isso significa e como esse princ´ıpio funciona na pr´atica, ilustraremos sua aplica¸c˜ao na eletrodinˆamica quˆantica (EDQ). Considere ent˜ao um f´ermion de massa m descrito pelo espinor de Dirac ψ, cuja lagrangiana livre ´e dada por1
Lψlivre=iψγ¯ µ∂µψ−mψψ .¯ (2.1)
1Formalmente, essa ´e a densidade lagrangiana, mas abreviaremos a nomenclatura chamando-a de lagrangiana, como ocorre de maneira frequente na literatura de teoria de campos.
Nessa lagrangiana, γµ s˜ao as matrizes de Dirac, definidas por
γ0 ≡
1 0 0 −1
, γk ≡
0 σk
−σk 0
, (2.2)
em que σk s˜ao as matrizes de Pauli:
σ1 =
0 1 1 0
, σ2 =
0 −i i 0
, σ3 =
1 0
0 −1
. (2.3)
Al´em disso, o campo ¯ψ, chamado de espinor adjunto, ´e definido por ¯ψ =ψ†γ0. Verifica-se ent˜ao que a lagrangiana (2.1) ´e invariante sob as transforma¸c˜oes de fase
ψ →eiqαψ , ψ¯→e−iqαψ ,¯ (2.4) em que q ´e uma constante que receber´a uma interpreta¸c˜ao mais adiante, e α ´e a fase que parametriza as transforma¸c˜oes. Devido a essa fase ser, por hip´otese, independente da posi¸c˜ao xµ, essas transforma¸c˜oes de fase s˜ao ditas globais, e dizemos ent˜ao que elas comp˜oem o grupo U(1) global2. Portanto, a invariˆancia dessa lagrangiana sob (2.4) sig- nifica que ela possui simetria de fase global. Por outro lado, se permitirmos que α seja uma fun¸c˜ao de xµ, ent˜ao as transforma¸c˜oes
ψ →eiqα(x)ψ , ψ¯→e−iqα(x)ψ ,¯ (2.5) s˜ao chamadas de transforma¸c˜oes de fase locais3, e nesse caso, a lagrangiana (2.1) n˜ao ´e mais invariante:
Lψlivre →Lψlivre−qψγ¯ µψ∂µα6=Lψlivre . (2.6) Para obtermos uma lagrangianaLlocal dotada da propriedade de invariˆancia local de fase, ´e necess´ario introduzirmos um campo vetorial Aµ, chamado de campo de gauge, ou campo de calibre. A introdu¸c˜ao desse campo na lagrangiana se d´a por meio de um acoplamento m´ınimo, que consiste na substitui¸c˜ao da derivada parcial∂µpor uma derivada
2U(1) refere-se ao grupo das matrizes 1×1 unit´arias, que correspondem a n´umeros complexos de m´odulo 1 (fases).
3“Transforma¸c˜ao local”tamb´em ´e referido na literatura como transforma¸c˜ao de gauge, ou trans- forma¸c˜ao de calibre.
covarianteDµ, definida por
Dµψ =∂µψ+iqAµψ . (2.7)
Assim, o acoplamento m´ınimo resulta na seguinte modifica¸c˜ao da lagrangiana:
Lψlivre→Llocal =Lψlivre−qψγ¯ µψAµ . (2.8)
Com isso, vemos que o termo adicional que ´e acrescentado `a lagrangiana representa uma intera¸c˜ao entre ψ, ¯ψ e Aµ:
Lint=−qψγ¯ µψAµ. (2.9)
Portanto, a constante de acoplamentoq determina o qu˜ao forte ´e a intera¸c˜ao com o campo de gauge Aµ. Desse modo, se exigirmos que o campo de calibre se transforme da seguinte maneira:
Aµ →A0µ=Aµ−∂µα , (2.10)
ent˜ao, resulta que a soma Lψlivre+Lint ´e invariante sob transforma¸c˜oes de fase locais.
Isso nos leva `a seguinte conclus˜ao: a imposi¸c˜ao de que a lagrangiana possua simetriaU(1) local n˜ao somente gera intera¸c˜oes da mat´eria com um b´oson de gauge, como tamb´em determina de maneira ´unica a forma dessas intera¸c˜oes, por meio do acoplamento m´ınimo
∂µ→Dµ.
Para permitirmos que o pr´oprio campo de calibre se propague, devemos adicionar
`
a lagrangiana do sistema um termo cin´etico para este, que seja invariante tanto sob transforma¸c˜oes de Lorentz como de gauge. Como trata-se de um campo vetorial, esse termo ´e dado por
LAlivre=−1
4FµνFµν , (2.11)
em queFµν, chamado de tensor intensidade de campo, ´e um invariante de gauge definido a partir do comutador de derivadas covariantes:
Fµν ≡ 1
iq[Dµ, Dν] =∂µAν−∂νAµ. (2.12)
E relevante notarmos tamb´´ em que um termo de massa para o b´oson degauge, LAmassa = 1
2m2AAµAµ, (2.13)
n˜ao ´e invariante sob transforma¸c˜oes de calibre, o que decorre diretamente da lei de trans- forma¸c˜ao (2.10). Isso implica que para que a invariˆancia local seja preservada, Aµ n˜ao pode ter massa: mA= 0 . Dessa forma, a lagrangiana total invariante por transforma¸c˜oes degauge ´e dada por
Ltotal=Lψlivre+LAlivre+Lint . (2.14) Em particular, se identificarmos a constante q como sendo a carga el´etrica do f´ermion descrito pelo espinor ψ,
q=Qψe , (2.15)
onde Qψ = −1 para el´etrons e +1 para p´ositrons, e e ´e a carga el´etrica do pr´oton (e = 1.60217662 × 10−19C), ent˜ao, as equa¸c˜oes de Euler-Lagrange para o campo de gauge Aµ extra´ıdas da lagrangiana (2.14) s˜ao idˆenticas `as equa¸c˜oes de Maxwell em forma manifestamente covariante de Lorentz [10] para o campo eletromagn´etico interagindo com o f´ermion em quest˜ao:
∂µFµν =eJν , (2.16)
em que a corrente eletromagn´etica Jµ do f´ermion carregado ´e dada por
Jµ =Qψψγ¯ µψ . (2.17)
Consequentemente, ao identificarmos q como sendo a carga el´etrica, o campo de gauge Aµ deve tamb´em ser identificado como sendo o potencial eletromagn´etico,
Aµ = (V,−A)~ . (2.18)
Isso permite, portanto, darmos uma descri¸c˜ao desse potencial como sendo um campo de calibre associado `a simetria U(1) eletromagn´etica, que daqui em diante cha- maremos de U(1)EM. Al´em disso, o b´oson de gauge correspondente ´e identificado como sendo o f´oton, e a carga el´etrica passa a ser interpretada como sendo uma medida do qu˜ao forte ´e a intera¸c˜ao entre o campo fermiˆonico ψ e o campo do f´oton Aµ. Dessa forma, a
lagrangiana (2.14) passa a descrever a eletrodinˆamica quˆantica:
Ltotal =iψγ¯ µ∂µψ−mψψ¯ − 1
4FµνFµν −eJµAµ≡LEDQ . (2.19) Com isso, acabamos de ilustrar que o princ´ıpio de gauge aplicado ao grupo U(1) permite descrevermos as intera¸c˜oes eletromagn´eticas. No entanto, o escopo de aplicabi- lidade desse princ´ıpio vai al´em do eletromagnetismo, uma vez que ele pode tamb´em ser estendido para grupos de simetria n˜ao-abelianos4 [1,17,20], sendo um pilar fundamental para a formula¸c˜ao n˜ao somente da EDQ, como tamb´em de todo o Modelo Padr˜ao.
Por outro lado, vimos tamb´em que sozinho, esse princ´ıpio de simetria local ´e in- capaz de explicar a existˆencia de b´osons vetoriais massivos, e essa incapacidade de in- corpor´a-los entra em conflito com a observa¸c˜ao de que os mediadores W+, W− e Z da intera¸c˜ao fraca possuem massa [12]. Necessitamos, ent˜ao, de um mecanismo para gerar massa para b´osons de calibre sem que a simetria de gauge da lagrangiana seja violada.
Isso nos conduz ao nosso pr´oximo t´opico: a quebra espontˆanea de simetria.
2.2 Quebra espontˆ anea de simetria
Nesta se¸c˜ao, introduziremos o conceito de quebra espontˆanea de simetria (QES).
Tal conceito, assim como o de simetria degauge, tamb´em ´e essencial para o Modelo Padr˜ao da f´ısica de part´ıculas, o qual faz uso de um mecanismo de QES, chamado de mecanismo de Higgs, para gerar massa para os b´osons de gauge W+, W− e Z.
A QES ´e uma situa¸c˜ao na qual as equa¸c˜oes de movimento (ou a lagrangiana) de um sistema f´ısico s˜ao invariantes sob uma dada transforma¸c˜ao, mas o estado de menor energia do sistema n˜ao ´e. Uma situa¸c˜ao t´ıpica na qual isso ocorre ´e em ferromagnetos:
a lagrangiana (ou, equivalentemente, a hamiltoniana) do sistema de spins depende do m´odulo ao quadrado da magnetiza¸c˜ao M~, de modo que ela ´e invariante sob o grupo SO(3), o qual representa as rota¸c˜oes no espa¸co tridimensional [11, 16]. Acima de uma temperatura cr´ıticaTc, chamada de temperatura de Curie, o sistema encontra-se em sua fase paramagn´etica, em que os spins est˜ao completamente desordenados, de modo que a magnetiza¸c˜ao total ´e aleat´oria, e o estado de menor energia resulta tamb´em ser invariante sob rota¸c˜oes tridimensionais [2].
4Grupos n˜ao-abelianos s˜ao grupos cujos elementos n˜ao comutam [21].
Entretanto, se resfriarmos o ferromagneto abaixo da temperatura de Curie, o sis- tema sofre uma transi¸c˜ao para a fase ferromagn´etica, em que as intera¸c˜oes entre os spins geram uma magnetiza¸c˜ao espontˆanea, a qual alinha-os em uma dire¸c˜ao espec´ıfica. Nessa situa¸c˜ao, apesar de a lagrangiana possuir simetriaSO(3), o estado de menor energia n˜ao mais compartilha desta, tendo sua simetria quebrada aSO(2), isto ´e, somente `as rota¸c˜oes do sistema no plano perpendicular `a dire¸c˜ao de alinhamento dos spins.
Buscamos ent˜ao, de modo similar, fazer uso da ideia de quebra espontˆanea de simetria para construirmos uma vis˜ao de como ela se aplica no contexto da f´ısica de part´ıculas, e em particular, `a teoria eletrofraca. No entanto, do ponto de vista did´atico, seria inadequado aplicarmos a QES diretamente a um caso t˜ao complexo como o da sime- tria eletrofraca, j´a que, como veremos no pr´oximo cap´ıtulo, ela ´e uma simetria cont´ınua, local, e ainda n˜ao-abeliana.
Desse modo, vamos come¸car compreendendo casos mais simples de QES, para que possamos aumentar gradualmente o n´ıvel de generalidade: primeiro estudaremos a quebra espontˆanea de uma simetria discreta, e em seguida, a de uma simetria cont´ınua global.
Isso constituir´a uma prepara¸c˜ao para que, na pr´oxima se¸c˜ao, abordemos finalmente o mecanismo de Higgs, que mistura a ideia de QES `a de simetria de calibre local, permitindo entendermos como podemos ter uma teoria de gauge consistente com a existˆencia de b´osons vetoriais massivos.
2.2.1 QES discreta
Como um primeiro exemplo de quebra espontˆanea de simetria, consideramos um campo escalar real descrito pela seguinte lagrangiana:
L = 1
2∂µφ∂µφ− 1
2µ2φ2 −1
4λφ4 , (2.20)
em que por hip´otese, devemos ter λ >0. Exigimos que o parˆametro λ seja positivo para que o potencial
V(φ) = 1
2µ2φ2+1
4λφ4 (2.21)
seja limitado inferiormente, e consequentemente, para que a energia do sistema tamb´em possua limite inferior. Note ent˜ao que a lagrangiana (2.20) ´e invariante pela transforma¸c˜ao
discreta
φ → −φ . (2.22)
Dada essa simetria da lagrangiana em quest˜ao, desejamos descobrir se o v´acuo5 desta teoria tamb´em ´e invariante por tal transforma¸c˜ao. Para isso, precisamos primeira- mente encontrar os m´ınimos de energia, os quais coincidem com os m´ınimos do potencial V(φ). Desse modo, temos que os pontos estacion´arios do potencial s˜ao dados por
0 = dV dφ
φ0
=φ0(µ2+λφ20) =⇒ φ0(µ2 +λφ20) = 0, (2.23)
cujas solu¸c˜oes s˜ao φ0 = 0 e φ0 = ± q
−µλ2. A an´alise pode ent˜ao ser dividida em dois casos:
Caso 1: µ2 >0 .
Nesse caso, as solu¸c˜oes φ0 = ± q
−µλ2 n˜ao s˜ao v´alidas, j´a que implicariam em pontos estacion´arios imagin´arios. Assim, V(φ) possui um ´unico m´ınimo, que ocorre na configura¸c˜aoφ0 = 0. Esse m´ınimo ´e invariante sob a transforma¸c˜ao (2.22):
φ0 = 0→ −φ0 = 0 =φ0 . (2.24)
Desse modo, (2.22) ´e uma simetria n˜ao somente da lagrangiana, como tamb´em do estado de v´acuo. Al´em disso, a positividade de µ2 implica que o termo −12µ2φ2 na lagrangiana pode ser interpretado como um termo de massa para φ.
Caso 2: µ2 <0 .
Nessa situa¸c˜ao, temos que h´a trˆes configura¸c˜oes estacion´arias, dadas porφ(1)0 = 0, a qual representa um m´aximo local de V(φ), e φ(2)0 = +
q
−µλ2 , φ(3)0 =− q
−µλ2, que s˜ao as configura¸c˜oes do campo com menor energia, logo, o v´acuo ´e duplamente degenerado.
Todavia, para analisarmos as pequenas excita¸c˜oes do campo em torno de uma configura¸c˜ao de equil´ıbrio est´avel, precisamos primeiramente escolher um m´ınimo do po- tencial para expandirmos em torno deste, de modo que somos for¸cados a escolher em torno de qual dos v´acuos iremos realizar a expans˜ao. Como a lagrangiana ´e invariante sob a transforma¸c˜ao (2.22), a escolha entreφ(2)0 e φ(3)0 ´e irrelevante, j´a que a dinˆamica do campo n˜ao ser´a afetada por isso. No entanto, uma vez realizada, tal escolha conduz a
5O termo “v´acuo”, ou “estado de v´acuo”, ´e utilizado para descrever o estado de menor energia de uma teoria de campos.
Figura 2.1: V(φ) para diferentes valores do parˆametroµ2, fixando-se um valor deλ >0.
uma quebra espontˆanea de simetria, j´a que embora a lagrangiana seja invariante, por´em o estado de menor energia da teoria n˜ao ´e. Por exemplo, se escolhermos o v´acuo como sendo
v =φ(2)0 = + r
−µ2
λ , (2.25)
ent˜ao, uma configura¸c˜ao de m´ınima energia ´e levada na outra:
v =φ(2)0 = + r
−µ2
λ →φ(3)0 =− r
−µ2
λ 6=φ(2)0 , (2.26) deixando expl´ıcito que, uma vez escolhido um v´acuo, ele n˜ao ser´a invariante sob a trans- forma¸c˜ao em quest˜ao, embora a lagrangiana seja. Adicionalmente, notamos que como estamos supondo µ2 <0, o termo −12µ2φ2 n˜ao pode ser interpretado como um termo de massa, j´a que isso implicaria em uma massa µimagin´aria.
Com essa an´alise dos dois casos poss´ıveis, veja que `a medida que o parˆametro µ2 passa de valores positivos para negativos, o v´acuo do sistema sofre uma transi¸c˜ao para um estado de simetria quebrada, como est´a ilustrado na figura (2.1). As excita¸c˜oes do campo em torno do v´acuo φ(2)0 = v podem ent˜ao ser obtidas se considerarmos pequenas perturba¸c˜oes de φem torno dele. A perturba¸c˜ao pode ser expressa comoη(x) = φ(x)−v,
de modo que
V(φ) = V(v) + dV dφ
v
η+1 2
d2V dφ2 v
η2+ 1 6
d3V dφ3 v
η3+ 1 24
d4V dφ4 v
η4 .
(2.27)
Utilizando a express˜ao (2.21) para o potencial, podemos calcular as derivadas ddφnVn|v que aparecem em (2.27), de modo que obtemos
V = 1 2(p
−2µ2)2η2+λvη3 +1
4λη4− 1
4λv4 . (2.28)
Com isso, a lagrangiana (2.20) ´e equivalente a L = 1
2∂µη∂µη− 1 2(p
−2µ2)2η2−λvη3− 1
4λη4+1
4λv4 . (2.29) Note ent˜ao a presen¸ca do termo −12(p
−2µ2)2η2 contido emL, que corresponde a um termo de massa para a perturba¸c˜ao: isso mostra que essa quebra espontˆanea de sime- tria discreta resulta na gera¸c˜ao de um escalar massivo η, cuja massa ´e dada por p
−2µ2. Como veremos mais `a frente, algo similar a isso tamb´em ocorre na QES eletrofraca, re- sultando em um escalar massivo que recebe o nome de b´oson de Higgs.
2.2.2 QES cont´ınua global e b´ osons de Goldstone
Veremos agora que a quebra espontˆanea de uma simetria cont´ınua global introduz um novo aspecto em rela¸c˜ao ao caso de simetrias discretas: ela resulta tamb´em na gera¸c˜ao de part´ıculas escalares sem massa. Para compreendermos como isso ocorre por meio de um exemplo, consideramos um escalar complexoφ = √1
2(φ1 +iφ2) descrito pela seguinte lagrangiana:
L = (∂µφ)∗(∂µφ)−µ2|φ|2−λ|φ|4 . (2.30) Novamente, supomos λ > 0 para que haja um v´acuo bem definido na teoria. Esta lagrangiana ´e invariante sob as transforma¸c˜oes U(1) globais
φ→eiθφ , φ∗ →e−iθφ∗ . (2.31)
Figura 2.2: V(φ1, φ2) paraµ2>0.
Tais transforma¸c˜oes constituem, portanto, uma simetria cont´ınua da lagrangiana, j´a que o parˆametro constante θ pode assumir um conjunto cont´ınuo de valores. Desse modo, em analogia com o que fizemos na se¸c˜ao anterior, desejamos agora saber se o estado de v´acuo tamb´em usufrui da simetria U(1) possu´ıda pela lagrangiana. Assim, buscamos pelos m´ınimos do potencial
V(|φ|) =µ2|φ|2+λ|φ|4 = 1
2µ2(φ21 +φ22) + 1
4λ(φ21+φ22)2 =V(φ1, φ2), (2.32) cujos pontos estacion´arios s˜ao dados por
0 = dV d|φ|
|φ|
0
=|φ|0(2µ2+ 4λ|φ|20). (2.33)
As solu¸c˜oes dessa equa¸c˜ao s˜ao |φ|0 = 0 e |φ|0 = q−µ2
2λ , e novamente a an´alise destas se divide em dois casos:
Caso 1: µ2 >0.
Nesse caso, a solu¸c˜ao|φ|0 = q−µ2
2λ n˜ao se aplica, j´a que resultaria em|φ|0 ter um m´odulo imagin´ario. Desse modo, h´a um ´unico v´acuo, dado por|φ|0 = 0, como ilustramos por meio da figura (2.2).
Caso 2: µ2 <0.
Nessa situa¸c˜ao, que est´a representada na figura (2.3), a solu¸c˜ao |φ|0 = 0 corres- ponde a um m´aximo local do potencial, enquanto que |φ|0 =
q−µ2
2λ descreve as con- figura¸c˜oes que minimizam a energia. Veja que qualquer configura¸c˜ao do campo cujo m´odulo seja
q−µ2
2λ minimiza este potencial, logo, temos um conjunto cont´ınuo de v´acuos distintos. Como a lagrangiana ´e invariante sob transforma¸c˜oesU(1) globais, a escolha de um v´acuo em particular ´e arbitr´aria, por´em para qualquer escolha que fa¸camos, a simetria
ser´a espontaneamente quebrada. Por exemplo, se escolhermos a configura¸c˜ao
Figura 2.3: V(φ1, φ2) paraµ2<0.
hφi0 = v
√2 = r
−µ2
2λ , (2.34)
ent˜ao, ao realizarmos uma transforma¸c˜ao de fase,
hφi0 →eiθhφi0 , (2.35)
o v´acuo escolhido ´e levado em outra das configura¸c˜oes que minimizam a energia, e n˜ao em si pr´oprio, logo, n˜ao ´e invariante. Para descrevermos as excita¸c˜oes do campo em torno deste v´acuo, n´os definimos as perturba¸c˜oes
η=φ1−v , ξ =φ2 .
(2.36)
Em seguida, ap´os expandimos o potencial (2.32) em torno de (2.34), a lagrangiana (2.30), expressa em termos das perturba¸c˜oes, ´e dada por
L = 1
2∂µη∂µη−1 2(p
−2µ2)2η2+ 1
2∂µξ∂µξ+ termos de intera¸c˜ao. (2.37) Identificamos imediatamente queL descreve agora um campo escalar real massivo η, cuja massa ´emη =p
−2µ2, e tamb´em um escalarξsem massa. Esse exemplo ilustrativo em que a quebra espontˆanea da simetria U(1) global resulta na gera¸c˜ao de um escalar sem massa ´e um caso particular de um teorema mais geral, devido a Goldstone [8], o qual afirma que quando uma simetria cont´ınua global ´e espontaneamente quebrada, ent˜ao a cada gerador quebrado, corresponde uma part´ıcula escalar sem massa, chamada de
um b´oson de Goldstone. Uma demonstra¸c˜ao formal do teorema de Goldstone pode ser encontrada em [7,11].
Temos ent˜ao um problema, uma vez que esse teorema parece indicar a existˆencia de part´ıculas escalares sem massa na natureza, por´em uma vez que n˜ao h´a evidˆencia experimental da existˆencia desse tipo de part´ıcula, ´e necess´ario encontrarmos uma maneira alternativa de quebrar simetrias sem gerar como resultado b´osons de Goldstone. Isso nos conduz ao mecanismo de Higgs, que como veremos na pr´oxima se¸c˜ao, consegue n˜ao somente contornar o problema dos escalares sem massa, como ainda ´e capaz de gerar massa para b´osons de gauge.
2.3 Mecanismo de Higgs
Ao estudarmos o princ´ıpio degaugena se¸c˜ao 2.1, vimos que ele requer que a massa dos b´osons de gauge seja zero, pois um termo de massa para essas part´ıculas violaria a simetria local de calibre. Todavia, observa-se na natureza a existˆencia de b´osons de spin 1 massivos atuando como mediadores da intera¸c˜ao nuclear fraca, de modo que urge, portanto, a formula¸c˜ao de um mecanismo que permita explicarmos como ´e poss´ıvel essas part´ıculas adquirirem massa sem que a simetria degauge subjacente seja violada.
Isso pode ser feito por meio de um mecanismo de quebra espontˆanea de simetria local que recebe o nome de mecanismo de Higgs [6], por´em antes de entendermos como ele pode ser aplicado para explicarmos a massa dos b´osons fracos, ilustraremos seu funciona- mento fazendo uso de um exemplo mais simples: vamos gerar massa para um b´oson de gauge associado `a simetria abeliana U(1). Para isso, consideremos a lagrangiana de um campo escalar complexoφ submetido ao potencial (2.32), e interagindo com um b´oson de calibreAµ por meio do acoplamento m´ınimo∂µ →Dµ:
L = (Dµφ)∗(Dµφ)− 1
4FµνFµν −µ2|φ|2−λ|φ|4 . (2.38) Da discuss˜ao feita na se¸c˜ao 2.1, sabemos que as intera¸c˜oes com o campo degauge fornecem a essa lagrangiana simetriaU(1) local. Entretanto, sabemos tamb´em que quando o parˆametro µ2 ´e negativo, essa simetria ´e quebrada espontaneamente. As perturba¸c˜oes
do campoφem torno do v´acuo (2.34) podem ent˜ao ser parametrizadas da seguinte forma:
φ= exp iξ
v
(v+η)
√2 ≈ 1
√2(v+η+iξ). (2.39)
Assim, se substituirmos (2.39) em (2.38), n´os obtemos
L =
escalar massivo
z }| {
1
2∂µη∂µη− 1 2(p
−2µ2)2η2+
Goldstone
z }| { 1
2∂µξ∂µξ+intera¸c˜oes+
− 1
4FµνFµν+ q2v2 2 AµAµ
| {z }
b´oson degaugemassivo
+qvAµ∂µξ .
(2.40)
Desse modo, o b´oson de gauge Aµ adquire uma massa, dada por mA = qv. Por outro lado, h´a ainda um grande inconveniente a ser tratado: apesar de termos gerado massa para Aµ, ainda temos na lagrangiana o escalar sem massa ξ. Nesse ponto, ´e que a simetria U(1) local da lagrangiana exerce um papel fundamental: j´a que temos essa liberdade de calibre local, realizaremos uma transforma¸c˜ao de gauge escolhendo o parˆametroα(x) da seguinte maneira,
α(x) =− 1
qvξ(x), (2.41)
isto ´e,
φ →φ0 = exph iq
− 1
qvξ(x)i
φ . (2.42)
Mas como parametrizamosφ de acordo com (2.39), resulta que φ0 = exph
iq
− 1
qvξ(x)i exp
iξ(x) v
(v +η)
√2 = 1
√2(v+η). (2.43)
Portanto, com esta escolha de gauge, chamada de gauge unit´ario, o campo escalar com- plexo φ ´e transformado em um campo φ0 inteiramente real:
φ→φ0 = 1
√2(v+η). (2.44)
Al´em disso, o campo Aµ se transforma em
Aµ →A0µ=Aµ+ 1
qv∂µξ . (2.45)
Desse modo, a lagrangiana (2.40) se torna
L =
escalar massivo
z }| {
1
2∂µη∂µη−1 2(p
−2µ2)2η2
b´oson degaugemassivo
z }| {
−1
4FµνFµν +q2v2
2 A0µA0µ+ +1
2q2(η+ 2v)ηA0µA0µ− λ
4η3(η+ 4v)
| {z }
intera¸c˜oes
.
(2.46)
Assim, a escolha (2.41) para o parˆametro de gauge elimina o b´oson de Goldstone ξ da lagrangiana, como podemos ver de (2.46). Na verdade, o que ocorre ´e que o grau de liberdade possu´ıdo inicialmente por esse escalar sem massa ´e incorporado a A0µ, que al´em das duas polariza¸c˜oes transversais originalmente possu´ıdas, adquire tamb´em uma polariza¸c˜ao longitudinal, de modo que o n´umero total de graus de liberdade ´e conservado:
inicialmente, temos um para φ1, outro para φ2 e mais dois para Aµ, e ap´os a quebra espontˆanea de simetria, temos η com um grau de liberdade eA0µ com trˆes. ´E importante compreendermos tamb´em que as predi¸c˜oes f´ısicas da teoria n˜ao dependem da escolha de calibre, mas que nogauge unit´ario, os campos que aparecem na lagrangiana correspondem
`
as part´ıculas f´ısicas.
Outro ponto importante de ser ressaltado ´e a diferen¸ca que existe entre a situa¸c˜ao de adicionarmos manualmente um termo de massa para os b´osons degauge, e a de gerar- mos massa para essas part´ıculas utilizando o mecanismo de Higgs. A primeira situa¸c˜ao resultaria em uma quebra expl´ıcita de simetria, j´a que nesse caso, a lagrangiana n˜ao seria invariante sob transforma¸c˜oes de calibre. J´a o mecanismo de Higgs faz uso de uma quebra espontˆanea de simetria, na qual embora o estado de v´acuo perca sua simetria original, a lagrangiana em si mant´em preservada sua invariˆancia de gauge.
Agora que consolidamos uma base te´orica apropriada, veremos no pr´oximo cap´ıtulo como as ideias de simetria degauge, quebra espontˆanea de simetria e mecanismo de Higgs, que acabamos de introduzir, podem ser aplicadas para compreendermos o setor eletrofraco do Modelo Padr˜ao.
Cap´ıtulo 3
Teoria eletrofraca
No cap´ıtulo anterior, ilustramos por meio de um exemplo utilizando a simetria abeliana U(1) que ao unirmos o princ´ıpio de gauge `a quebra espontˆanea de simetria, ´e poss´ıvel obtermos uma teoria com b´osons de calibre massivos sem violarmos a invariˆancia local da lagrangiana. Tal exemplo serve como um prot´otipo para o modelo que vamos estudar ao longo deste cap´ıtulo: agora, nosso objetivo ´e o de aplicarmos as ferramentas introduzidas anteriormente para compreendermos como ´e constru´ıda a teoria que for- nece uma descri¸c˜ao unificada das intera¸c˜oes eletromagn´etica e fraca, resultando no que ´e chamado de teoria de Weinberg-Salam das intera¸c˜oes eletrofracas [14, 18].
3.1 Escolhendo o grupo de gauge eletrofraco
A teoria eletrofraca, assim como a eletrodinˆamica quˆantica, tamb´em ´e uma teoria de gauge. Portanto, o primeiro passo que devemos dar para que possamos compreendˆe- la ´e argumentarmos qual grupo de simetria ´e adequado para dar origem `as intera¸c˜oes eletrofracas. Com esse objetivo, come¸caremos fazendo uma distin¸c˜ao importante entre a forma das intera¸c˜oes eletromagn´etica e nuclear fraca.
No caso da EDQ, a quadri-corrente eletromagn´etica Jµem gerada por um l´epton eletricamente carregadol (l=e, µ, τ)1 ´e dada por:
Jµem =Ql¯lγµl , (3.1)
1e, µ, τ representam os campos do el´etron, m´uon e tau, respectivamente, que s˜ao os l´eptons carregados do Modelo Padr˜ao.
Figura 3.1: Diagrama de Feynman de dois v´ertices para o espalhamentoe−τ−→e−τ−.
com Ql = −1. Esse tipo de corrente se transforma como um quadri-vetor [16], dando origem a uma importante propriedade das intera¸c˜oes eletromagn´eticas: elas respeitam a simetria de paridade. Por exemplo, se considerarmos um processo de espalhamento entre um el´etron e um tau e utilizarmos as regras de Feynman2, ent˜ao a amplitude de espalhamento para o diagrama de dois v´ertices mostrado na figura (3.1) resulta ser da forma
M=−e2
q2Je·Jτ , (3.2)
com Je·Jτ = ηµνJeµJτµ. Mas como essas correntes s˜ao quadri-vetores, o efeito de uma transforma¸c˜ao de paridade sobre elas ´e o seguinte:
J0 −→P J0 , Ji P−→ −Ji, (3.3) de modo que o produto escalar se torna
Je·Jτ =Je0Jτ0−JeiJτi −→P Je0Jτ0−(−Jei)(−Jτi) =Je0Jτ0−JeiJτi =Je·Jτ . (3.4) Isso implica que a amplitude de espalhamento do processo ´e invariante sob pari- dade. Esse exemplo ilustra, portanto, que de fato as intera¸c˜oes eletromagn´eticas respeitam a simetria de paridade.
Por outro lado, o mesmo n˜ao ´e verdade no caso das intera¸c˜oes fracas: ´e conhe- cido empiricamente que elas violam a simetria em quest˜ao. Um experimento pioneiro para revelar essa propriedade fundamental foi o experimento de Wu [19], conduzido em 1956 pela f´ısica Chien-Shiung Wu em colabora¸c˜ao com o Grupo de Baixas Temperatu-
2Para uma introdu¸c˜ao `as regras de Feynman, pode-se consultar [16].
ras do National Bureau of Standards. Nele, foi estudado o decaimento β do Cobalto-60 polarizado,
60Co (polarizado)→60 Ni +e−+ ¯νe . (3.5) Os n´ucleos do 60Co tiveram seus momentos magn´eticos alinhados a um campo magn´etico externo B, e com a ocorrˆ~ encia do decaimento β, el´etrons foram emitidos em diferentes dire¸c˜oes com rela¸c˜ao `a do campoB. Foi observado ent˜~ ao que mais el´etrons foram emitidos no hemisf´erio oposto ao sentido de aplica¸c˜ao desse campo externo, constituindo portanto uma evidˆencia para a viola¸c˜ao de paridade nas intera¸c˜oes nucleares fracas.
Essa viola¸c˜ao requer que a estrutura de correntes da intera¸c˜ao nuclear fraca seja diferente da que existe na EDQ, pois caso as correntes fracas fossem quadri-vetores, tal como a da eletrodinˆamica, ent˜ao a paridade seria conservada. Torna-se necess´ario, por- tanto, propor um modelo te´orico para a forma das correntes fracas que seja compat´ıvel com a viola¸c˜ao de paridade que pode ser experimentalmente observada.
De fato, como observado por Feynman e Gell-Mann [5], o tipo de corrente que explica a viola¸c˜ao de paridade que ´e observada na intera¸c˜ao fraca de corrente carregada consiste em uma combina¸c˜ao linear de um vetor com um vetor axial:
Jµ− = ¯νγµl
|{z}vetor
− νγ¯ µγ5l
| {z }
vetor axial
= ¯νγµ(1−γ5)l , (3.6)
Jµ+ = ¯lγµν
|{z}vetor
− ¯lγµγ5ν
| {z }
vetor axial
= ¯lγµ(1−γ5)ν , (3.7) em que ν ´e o neutrino do l´epton l, e γ5 ´e uma matriz 4×4 definida por
γ5 ≡iγ0γ1γ2γ3 =
0 1 1 0
. (3.8)
Devido `a forma “vetor - vetor axial”que podemos observar em (3.6) e (3.7), essa estrutura de correntes recebe o nome de estrutura V −A. Utilizando ent˜ao os projetores de m˜ao esquerda e m˜ao direita, definidos por
PL ≡ 1
2(1−γ5), PR ≡ 1
2(1+γ5), (3.9)
temos que
2¯lLγµνL= 2¯lPRγµPLν = 2¯lγµPL2ν = 2¯lγµPLν = ¯l(1−γ5)ν =Jµ+. (3.10) Ou seja,
Jµ+= 2¯lLγµνL, (3.11)
e de maneira an´aloga,
Jµ−= 2¯νLγµlL. (3.12)
Isso revela que apenas l´eptons de m˜ao esquerda contribuem para Jµ±, implicando que l´eptons de m˜ao direita n˜ao s˜ao capazes de sentir as intera¸c˜oes fracas de corrente carregada.
Outra propriedade conhecida ´e que os n´umeros leptˆonicos associados aos dife- rentes sabores (tipo-el´etron, tipo-m´uon e tipo-tau) s˜ao conservados separadamente [11], indicando portanto que eles devem formar representa¸c˜oes distintas do grupo de gauge.
Isso sugere a introdu¸c˜ao, para cada gera¸c˜ao de l´eptons, de um dubleto de m˜ao esquerda, chamado de dubleto de isospin fraco:
L≡
ν
l
L
=
νL
lL
=
PLν
PLl
. (3.13)
Por outro lado, como a intera¸c˜ao fraca se acopla somente a part´ıculas de m˜ao esquerda, n´os organizamos os l´eptons de m˜ao direita em singletos de isospin fraco,
R≡PRl =lR . (3.14)
Com isso, a lagrangiana cin´etica para os l´eptons l e ν, dada por,
Ll,ν =i¯lγµ∂µl+i¯νγµ∂µν , (3.15)
pode ser expressa em termos deL e R do seguinte modo:
Ll,ν =i¯lγµ∂µl+i¯νγµ∂µν = ¯lRiγµ∂µlR+ ¯lLiγµ∂µlLi¯νLγµ∂µνL=iRγ¯ µ∂µR+iLγ¯ µ∂µL , (3.16)
ou seja,
Ll,ν =iRγ¯ µ∂µR+iLγ¯ µ∂µL . (3.17) De modo an´alogo ao que fizemos no cap´ıtulo anterior para obtermos a intera¸c˜ao eletromagn´etica dos f´ermions, desejamos identificar as simetrias globais da lagrangiana cin´etica leptˆonica (3.17), para ent˜ao torn´a-las locais por meio da introdu¸c˜ao de intera¸c˜oes com b´osons de gauge.
Assim, notamos primeiramente queLl,ν ´e invariante sob as transforma¸c˜oesSU(2) globais
L→exp
igTaθa
L , R →R , (3.18)
que por atuarem somente no dubleto de m˜ao esquerda L, recebem o nome de grupo SU(2)L. Na equa¸c˜ao (3.18), θa s˜ao trˆes ˆangulos que parametrizam as transforma¸c˜oes, g ´e uma constante de acoplamento an´aloga ao acoplamento e que introduzimos no caso eletromagn´etico, e Ta = σ2a s˜ao os geradores de SU(2)L, conjuntamente chamados de isospin fraco. Esses geradores satisfazem a ´algebra
[Ta, Tb] =iabcTc , (3.19)
em que abc ´e o s´ımbolo de Levi-Civita, definido por 123 = 1 e pela propriedade de ser antissim´etrico por permuta¸c˜oes de quaisquer dois de seus trˆes ´ındices.
Al´em disso, a partir dos geradoresT1 eT2, pode-se construir operadores de levan- tamento e abaixamento da componenteT3 do isospin fraco, dados por
T± =T1±iT2 . (3.20)
Como a componente superior do dubleto de m˜ao esquerda (que ´e o neutrino de m˜ao esquerda) tem T3 = +1/2, e a componente inferior (que ´e o l´epton carregado de m˜ao esquerda) tem T3 = −1/2, esses operadores permitem convertermos neutrinos de m˜ao esquerda em l´eptons carregados de m˜ao esquerda, e vice-versa. Mas essa ´e justamente uma propriedade da intera¸c˜ao fraca de corrente carregada: ela promove uma mudan¸ca de sabor. Isso ´e um primeiro indicativo de que a simetriaSU(2)Lest´a relacionada `a intera¸c˜ao nuclear fraca.
Outro indicativo disso ´e que como os l´eptons de m˜ao direita est˜ao organizados em
singletos, eles s˜ao invariantes sob as transforma¸c˜oes SU(2)L, e consequentemente, n˜ao sofrem mudan¸ca de sabor. Isso est´a de acordo com nossa observa¸c˜ao de que somente l´eptons de m˜ao esquerda interagem por meio da corrente fraca carregada.
Por outro lado, a lagrangiana (3.15) tamb´em ´e invariante sob as transforma¸c˜oes U(1)EM globais
l→eieQlϕl , ¯l →e−ieQlϕ¯l , ν →ν . (3.21) Em termos deL e R, essas transforma¸c˜oes podem ser expressas como
L→eieQϕL , L¯ →Le¯ −ieQϕ , R→eieQlϕR , R¯ →e−ieQlϕR ,¯ (3.22) em que definimos Q como sendo a matriz que representa a carga el´etrica do dubleto SU(2)L:
Q≡
Qν 0
0 Ql
=
0 0
0 −1
. (3.23)
Dessa forma, acabamos de constatar que a lagrangiana cin´etica leptˆonica (3.15) possui separadamente as simetrias globaisSU(2)LeU(1)EM, cujos geradores s˜ao o isospin fraco e a carga el´etrica, respectivamente. No entanto, ao realizarmos a composi¸c˜ao de uma transforma¸c˜aoSU(2)L com U(1)EM, obtemos o seguinte:
Ll,ν →iL¯
e−ieQϕe−igTaθae+ieQϕe+igTbθb
γµ∂µL+iRγ¯ µ∂µR . (3.24) Assim, vemos que o termo iLγ¯ µ∂µL ser´a invariante somente caso a carga el´etrica Q comute com as trˆes componentes Ta do isospin fraco. No entanto, pode-se verificar a partir da forma matricial desses geradores que T1 e T2 n˜ao comutam com Q:
[T1, Q]6= 0 , [T2, Q]6= 0. (3.25) Entretanto, se definirmos a quantidade
Y ≡2(Q−T3), (3.26)
chamada de hipercarga fraca, ent˜ao nesse caso, temos que a hipercarga fraca do dubleto
leptˆonico de m˜ao esquerda ´e dada por
Y =
−1 0 0 −1
. (3.27)
Consequentemente, verifica-se queY comuta com os trˆes geradores de SU(2)L:
[Ta, Y] = 0 . (3.28)
Al´em disso, assim como a carga el´etrica, a hipercarga fraca tamb´em gera trans- forma¸c˜oes de fase, que chamaremos de U(1)Y, para distinguirmos das transforma¸c˜oes U(1)EM geradas por Q. As transforma¸c˜oes geradas porY s˜ao dadas por
L→exp ig0YL
2 α
L , R→exp ig0YR
2 α
R , (3.29)
em queYL eYRs˜ao as hipercargas fracas de LeR, e definimos g0 como sendo a constante de acoplamento deU(1)Y.
Desse modo, emboraY eQguardem certa semelhan¸ca por serem ambos geradores de transforma¸c˜oes de fase, a diferen¸ca essencial que existe entre as transforma¸c˜oes de fase (3.29) geradas pela hipercarga fraca e aquelas geradas pela carga el´etrica ´e que, devido a Y comutar com T1, T2 e T3, a lagrangiana (3.15) ser´a invariante n˜ao somente sob as transforma¸c˜oes SU(2)L e U(1)Y separadamente, mas tamb´em sob a composi¸c˜ao delas, o que constitui uma simetria ainda maior. De fato, isso fica expresso matematicamente pela constata¸c˜ao de que as rela¸c˜oes de comuta¸c˜ao (3.19) e (3.28) caracterizam a ´algebra do grupo SU(2)L⊗U(1)Y, que corresponde ao maior grupo de simetria da lagrangiana em quest˜ao [11, 18].
ComoSU(2)L⊗U(1)Y ´e um grupo com quatro geradores (T1, T2, T3 eY), ent˜ao, a invariˆancia global sob essas transforma¸c˜oes implica, por meio do teorema de Noether [10], que para cada gerador dessa simetria, teremos uma corrente conservada. Essas correntes s˜ao dadas por
Jµa = ¯Lγµσa
2 L , (3.30)
JµY = ¯LγµYLL+ ¯RγµYRR . (3.31) Al´em disso, pode-se verificar, por meio da defini¸c˜ao (3.26) da hipercarga fraca, que
YL=−1 e YR =−2, logo, podemos reescrever JµY do seguinte modo:
JµY =−Lγ¯ µL−2 ¯RγµR . (3.32) As correntesJµa s˜ao ent˜ao chamadas de correntes de isospin fraco, eJµY recebe o nome de corrente de hipercarga fraca. De forma expl´ıcita, temos que:
Jµ1 = 1 2
¯ νL ¯lL
γµ
0 1 1 0
νL
lL
= 1
2(¯lLγµνL+ ¯νLγµlL), Jµ2 = 1
2
¯ νL ¯lL
γµ
0 −i
i 0
νL
lL
= i
2(¯lLγµνL−ν¯LγµlL), Jµ3 = 1
2
¯ νL ¯lL
γµ
1 0
0 −1
νL
lL
= 1
2(¯νLγµνL−¯lLγµlL).
(3.33)
Isso permite expressarmos as correntes fracas carregadas (3.6) e (3.7) em termos de Jµ1 e Jµ2:
Jµ±= 2(Jµ1∓iJµ2). (3.34) Adicionalmente, a corrente eletromagn´etica (3.1) pode ser expressa em termos de Jµ3 e JµY:
Jµem =Jµ3+ 1
2JµY . (3.35)
Com isso, a introdu¸c˜ao da quantidade que chamamos de hipercarga fraca permitiu identificarmos que a maior simetria cont´ınua global da lagrangiana cin´etica leptˆonica ´e sob o grupoSU(2)L⊗U(1)Y, e que tanto a corrente fraca carregada como a eletromagn´etica podem ser expressas como combina¸c˜oes das correntes conservadas associadas `a invariˆancia em quest˜ao, dando um indicativo de que tanto a EDQ como a intera¸c˜ao fraca poder˜ao ser obtidas quando procedermos para tornar essa simetria local.
Assim, nosso pr´oximo passo ´e aplicarmos o princ´ıpio de gauge, ou seja, vamos construir para os l´eptons uma lagrangiana dotada de simetria SU(2)L ⊗ U(1)Y local.
Para isso, devemos ter um campo de calibre para cada um dos quatro geradores do grupo em quest˜ao:
Ta =⇒ Wµa , Y =⇒ Bµ . (3.36)
Esses campos devem se transformar da seguinte maneira [1]:
TaWµa →eigTjθjTaWµae−igTkθk − i
geigTjθj∂µe−igTkθk , (3.37)
Bµ→Bµ−∂µα . (3.38)
A partir desses campos de calibre, constru´ımos a derivada covariante DµL=∂µL+igσa
2 WµaL+ig0Y
2BµL , (3.39)
DµR =∂µR+ig0Y
2BµR , (3.40)
sendo g e g0 os acoplamentos de gauge para SU(2)L e U(1)Y, respectivamente. Lembre ent˜ao que no caso abeliano estudado no cap´ıtulo anterior, n´os utilizamos o comutador de derivadas covariantes para definir o tensor intensidade de campo (2.12). Procedendo de maneira semelhante, temos o seguinte:
[Dµ, Dν]L= igσa
2Wµνa +ig0Y 2Bµν
L , (3.41)
em que definimos os tensores intensidade de campo associados a Wµa e Bµ como sendo Wµνa ≡∂µWν−∂νWµ+gabcWµbWνc, (3.42) e
Bµν ≡∂µBν −∂νBµ . (3.43)
Note que como os campos degauge Wµa est˜ao associados aos geradores deSU(2)L, que ´e um grupo n˜ao-abeliano, tem-se como consequˆencia o termo adicional gabcWµbWνc no tensor intensidade de campo Wµνa , o qual representa auto-intera¸c˜oes entre os campos Wµ1, Wµ2 e Wµ3. A partir dos tensores intensidade de campo, podemos definir, de modo an´alogo a (2.11), um termo cin´etico para os campos de gauge como sendo
Lgauge =−1
4Wµνa Waµν− 1
4BµνBµν . (3.44)