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Um olhar sobre a edição 227 (setembro de 2017)

CAPÍTULO 4: CULT – OLHARES IMERSOS

4.2 Leituras cartográficas em papel

4.2.1 Um olhar sobre a edição 227 (setembro de 2017)

Figura 51: Capa da CULT n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT111

Como comentado anteriormente, a edição de número 227 traz na capa uma montagem feita com a partitura de Réquiem, composição fúnebre de Mozart. Em combinação com um quadro negro, a imagem dá ares mórbidos, sombrios, que se afinam com o tema proposto: Réquiem para uma nação. Neste caso, em vez de prestar solenidade aos mortos, o réquiem se direciona ao Brasil, como se este estivesse já enterrado, sendo pouco a pouco carcomido pelo “fim da sociedade salarial”, pela “gramática da violência”, pela “força do estado policial”, e pelo “silêncio das ruas”. É a morte também quem encerra a chamada do dossiê, na parte inferior da capa: “O surgimento de um Estado que não é favorável à vida”.

O editorial encontrado ao virar a capa, assinado por Daysi Bregantini e intitulado Um concerto executado por grandes artistas, reforça a aura fúnebre ao destacar que o cenário atual brasileiro demanda a reflexão crítica da “tragédia anunciada” que tem se desdobrado nos últimos anos. Daysi ainda conta que a ideia para o dossiê da edição surgiu

durante uma conversa com o psicanalista Tales Ab’Saber, entrevistado na revista, e elogia o trabalho daqueles envolvidos na elaboração da capa, incluindo um professor de piano que teria facilitado a imagem da partitura original de Réquiem, de 1791.

Figura 52: Sumário da CULT n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT112

Na apresentação do dossiê, o editor Welington Andrade anuncia que a proposta das páginas seguintes é “levar o leitor a refletir sobre o processo de desintegração da sociedade brasileira”, que estaria sendo “conduzido a toque de caixa pela gestão de Michel Temer à frente do Governo Federal”. Guiados por esse mote, seguem os seis textos – cinco ensaios e uma entrevista – que compõem a coletânea.

Figura 53: Recorte da abertura do dossiê da CULT n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT113

Em A democracia de Tancredi e a do doutor Pangloss, Alvaro Bianchi, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp, relaciona a crise da democracia italiana do início do século XX com o atual cenário político brasileiro. Tomada por uma crise de representação – em que o povo não mais se sentia representado pelos representantes –, a Itália viu surgir, como resposta, o fascismo. Tal fenômeno seria eternizado por Gramsci na frase: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer: neste interregno se verificam os fenômenos mórbidos mais variados”. A partir desse diagnóstico, Bianchi faz uma ponte com a situação brasileira, apresentando dados do Instituto Ipsos, de 2017, que indicam que 94% da população acredita que os políticos brasileiros não representam a sociedade, ao mesmo tempo em que apenas 38% das pessoas veem a democracia como o melhor regime político. Para o cientista político, o Brasil estaria justamente no interregno em que “as alternativas autoritárias e antidemocráticas prosperam”: frente ao “esgotamento” do modelo do presidencialismo de coalizão, e ainda sem ver “o novo” estruturar-se de fato.

No texto seguinte, intitulado O fim da sociedade salarial, Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP, trata do desaparecimento da promessa da cidadania salarial no país – simbolizada, principalmente, pela previdência social e pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) –, que teria sido extinta em meio ao desmanche da democracia pós-golpe parlamentar de 2016. Para o autor, cedo ou tarde “os subalternos irão se perceber

aprisionados em um espaço tão restrito de ação política que fará da desesperança a regra, divorciando litigiosamente as massas populares do Estado”. Assim como Alvaro Bianchi, Ruy Braga prevê que as frustrações do povo servirão de alimento ao autoritarismo, como já se vê em outros países do chamado Sul global.

O ensaio Estado Pós-Democrático e a gestão estatal da pobreza, de Rubens Casara, juiz do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, discute a ascensão de um Estado “sem limites rígidos ao exercício do poder”, no qual a democracia se mostra como mero simulacro, dando lugar a sintomas como a mercantilização da vida, o despotismo do mercado, a reaproximação entre os poderes político e econômico, e o crescimento do autoritarismo. Para o jurista, esse Estado, compatível com o neoliberalismo, ampara-se no poder penal, que sistematicamente exclui os grupos tidos como “indesejáveis” ou “perigosos” – os incapazes de produzir e consumir, ou mesmo os inimigos políticos daqueles que estão no poder. Deste modo, segundo o autor, os atores jurídicos deixam de vigiar os poderes e passam a ser instrumentos dedicados aos interesses do Estado e do mercado.

Em seguida, Winnie Bueno, pós-graduanda em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Joanna Burigo, mestre em Gênero, Mídia e Cultura pela London School of Economics, e Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), assinam juntas o texto O Brasil pós-impeachment a partir da vida das mulheres. O trio defende a necessidade de se localizar e centralizar o debate sobre as reformas sociais do pós-golpe de 2016 – como a da previdência e a trabalhista – na vida das mulheres negras, que constituem a base da pirâmide social brasileira e o grupo mais atingido pela precarização do trabalho. Somente desta forma, segundo as autoras, será possível encontrar soluções benéficas para toda a população. Ao afirmar que a conjuntura do pós-golpe não indica uma exceção, mas sim a normalidade do sistema capitalista predatório, questionam: “Em que momento na história do Brasil a gestão dos recursos públicos esteve sob responsabilidade de sujeitos distintos da hegemonia branca, burguesa, masculina?”. Por fim, identificam as reformas como a “retomada de um projeto de controle” e de impedimento do exercício da cidadania, tendo como objetivo final o estancamento da mobilidade social das mulheres.

No último ensaio do dossiê, Por que as ruas se calaram?, Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, reflete sobre as causas do silêncio nas ruas e nas redes durante a primeira votação da denúncia de corrupção contra o presidente

Michel Temer, em agosto de 2017, que contrasta com as grandes mobilizações e protestos que vinham ocorrendo desde 2013. Desconstruindo as teorias mais comuns – de que o discurso anticorrupção disfarçava um discurso antipetista ou de que a população estaria tomada por um “desencanto apático” –, o autor defende que as ruas se calaram porque não houve convocação pelos grupos com legitimidade para tal, nem por parte da direita nem por parte da esquerda. Isso porque, segundo Ortellado, ambos os campos teriam agido em nome de suas conveniências políticas: os grupos de direita optaram por defender o legado reformista, fingindo não notar os escândalos de corrupção do governo Temer; já os grupos de esquerda, possivelmente, viam na ruína de Temer uma chance de fortalecimento à candidatura de Lula para as eleições de 2018.

O dossiê se encerra com uma entrevista com o psicanalista Tales Ab’Saber, feita por Amanda Massuela, intitulada “O Estado não está sendo favorável à vida no Brasil”. Nela, Ab’Saber fala sobre a ruptura do projeto de nação causada após o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Esse processo, de acordo com o entrevistado, tem como consequências, o agravamento do desemprego, o fim de direitos trabalhistas e previdenciários, o congelamento de gastos públicos com saúde e educação e os cortes em programas sociais. Assim, a democracia serviria apenas de “fachada para a produção de violência, fascismo e desrespeito público”.

A leitura desses textos mostra que o dossiê da edição, apesar de tocar em tópicos variados – a crise de representação, o desmanche da sociedade salarial, a violência e o autoritarismo do poder penal brasileiro, a situação social das mulheres, a desmobilização das ruas –, circunda o contexto político e social que se revelou no Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff a partir de uma mesma visão combativa, em oposição ao golpe de 2016 ao governo de Michel Temer e em defesa da democracia e dos direitos sociais. Nesse sentido, a coletânea propõe um olhar amplo e complexo sobre o cenário do país, mesclando temas atemporais e tópicos mais recentes e pontuais.

Os ensaios são quase todos assinados por pesquisadores das ciências sociais. Não à toa, suas discussões pendem para o viés acadêmico, mas sempre buscando um equilíbrio de linguagem adequado a uma revista comercial, afastando-se das amarras (de metodologia e de escrita) presentes em periódicos científicos. Em termos de visual, o dossiê se mostra mais conservador, com pouco uso de elementos gráficos. Os únicos trechos ilustrados em

toda a coletânea são a entrevista com Tales Ab’Saber, que traz um retrato do psicanalista, e a página de apresentação (figura 53), emoldurada pela partitura de Réquiem.

Dando continuidade à leitura da revista, há a entrevista com a juíza desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) Kenarik Boujikian, feita por Amanda Massuela. Kenarik, cuja fotografia abre a matéria, é integrante da Associação Juízes pela Democracia e uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Trabalhos Mulheres Encarceradas. Ao longo da conversa, intitulada Uma opção pelos direitos humanos, ela fala sobre a seletividade da Justiça brasileira, o encarceramento em massa, o machismo no sistema judiciário e a falta de consciência sobre o que significa ser um juiz em uma democracia – “nosso papel é ser exatamente um garantidor dos direitos fundamentais”, diz.

Figura 54: Recorte da entrevista com Kenarik Boujikian, da CULT n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT114

São quatro páginas de entrevista, o dobro do que possui a entrevista com Tales Ab’Saber, inserida no dossiê da edição. Vale notar que, apesar de não fazer parte da coletânea, a entrevista com Kenarik Boujikian traça alguns paralelos com as questões levantadas no ensaio de Rubens Casara, que também trata de discriminações enraizadas no sistema judicial brasileiro.

Há ainda, nessa edição da revista, textos de quatro colunistas. São eles: o compositor e filósofo Francisco Bosco, a educadora e jornalista Bianca Santana, o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle, e a filósofa Marcia Tiburi. As colunas possuem uma diagramação mais inventiva do que a observada nas outras seções, sendo ilustradas com montagens e colagens que fazem referência aos assuntos tradados nos textos, como mostra a imagem abaixo:

Figura 55: Montagem de colunas da CULT n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT115

Em Jogo dos sete erros, Francisco Bosco discorre sobre a repercussão provocada nas redes sociais após o lançamento da música Tua cantiga, de Chico Buarque, que foi acusada de propagar conteúdo machista. Uma preguiça útil, de Marcia Tiburi, fala sobre o surgimento de uma nova forma de preguiça útil ao sistema econômico e político: a preguiça da política, muito próxima da negligência e do não-agir. Bianca Santana, em Todo preso é um preso político, parte de uma história pessoal – a prisão de seu irmão – para falar do encarceramento em massa no Brasil e suas relações com o racismo, que juntos perpetuam a herança escravocrata. Já O que resta da universidade?, de Vladimir Safatle, discute que a universidade começa a perder seu lugar à medida que deixa de ser um problema potencial, ou seja, quando perde sua capacidade de “mobilização”, de “tensionamento social” e de “constituição de pautas no interior da opinião pública”.

Nessas colunas, também é possível enxergar alguns laços com o assunto do dossiê Réquiem para uma nação e com os demais conteúdos da revista. O texto de Marcia Tiburi, em certa medida, se aproxima do ensaio assinado por Pablo Ortellado. Ambos tratam da desmobilização e do não-agir político, ainda que apresentem diferentes causas para esse fenômeno. Já a coluna de Bianca Santana retoma o assunto do encarceramento e do racismo tocado tanto no ensaio de Rubens Casara como na entrevista de Kenarik Boujikian.

Completando o recheio da edição 227, há, ainda, a seção Livros, que traz duas resenhas críticas. Em O divã como ponto de encontro, Daniel de Mesquita Benevides comenta o livro Reinvenção da intimidade – políticas do sofrimento cotidiano, do psicanalista Christian Dunker, que trata de questões que afligem a sociedade contemporânea nos âmbitos íntimo e público. Já em Revolução invisível, Silvio Rosa Filho discorre sobre a obra Significado do protesto negro, do sociólogo Florestan Fernandes, que discute, entre outros tópicos, a passagem dos povos negros do regime escravagista para a ordem social competitiva. Cada uma das análises é ilustrada por uma foto do livro abordado e outra do autor da obra, informando ainda o preço médio de um exemplar.

A revista se encerra com a tradicional seção Cartas, que reúne comentários de leitores sobre a edição anterior, de número 226, seguida da página #EuleioaCULT, que exibe fotografias postadas nas redes sociais por leitores da CULT, geralmente retratados junto de seus exemplares da revista.

Figura 56: Página #EuleioaCULT da edição n. 227

Fonte: reprodução/Revista CULT116

Na seção #EuLeioaCULT dessa edição, como mostra a imagem acima, Nelida Capela, gerente de uma livraria carioca, diz que a CULT é uma “revista de ideias e resistência”. A atriz Regiane Rossini, de Jundiaí (SP), conta que o que a atrai para essa publicação é a possibilidade de refletir e questionar. Em seguida, o professor de ioga Felipe Rocha, de São Bernardo do Campo (SP), fala sobre a presença da CULT nos debates contemporâneos, elogiando os “textos muito sensatos” e o “discurso intelectual muito coerente”. Por fim, o repórter Iury Campos, de Fortaleza (CE), comenta sobre a qualidade do jornalismo cultural feito pela CULT, que, segundo ele, é um exemplo a ser seguido em tempos de crise. Trata-se, então, de um espaço de homenagens à revista, utilizado, direta ou indiretamente, como um canal de autopromoção.

No total, a CULT de número 227 conta com 60 páginas, sendo 15117 delas

preenchidas por anúncios publicitários, o que representa 25% do conteúdo. Os principais anunciantes que aparecem na edição, aqueles que ocuparam uma ou mais páginas inteiras, são: Sesc, Masp, Canal Curta, Cinemark, Folha de S.Paulo, Nova Brasil FM, Reserva

116 Imagem retirada da página 58 de exemplar impresso da CULT nº 227.

Cultural, Theatro NET SP e Editora Paulus. Todos eles relacionados, em alguma medida, ao campo artístico-cultural, seja por meio da leitura, do cinema, das artes plásticas, do teatro, etc. É uma questão que volto a tratar no item 4.6.

Feita essa leitura descritiva da edição 227, passo agora a um mapeamento geral do conjunto de edições selecionadas.