PARTE I. O PROCESSO POLÍTICO VENEZUELANO NA ERA DA
1 CONFLITOS POLÍTICOS, CONFLITOS NA REDE
1.1 UM PANORAMA DO SURGIMENTO DO CONFLITO POLÍTICO
As proximidades culturais e políticas entre países latino-americanos, e entre Brasil e Venezuela, bem como a atenção pública que tem despertado o desenvolvimento político deste último país por quase vinte anos, provavelmente façam que algum dos acontecimentos que assinalamos seguidamente sejam conhecidos pelo leitor. Efetivamente muitos deles têm sido objeto de coberturas midiáticas, estudos no campo das ciências sociais e debates políticos de distinto grau de intensidade. Sabendo dessa realidade, partimos, de uma caracterização sumária desse processo político, com o intuito de frizar elementos histórico-políticos e culturais, incluindo suas dimensões discursivas, que são parte integral dos objetos abordados neste trabalho e, portanto, de sua análise e interpretação. Tratamos assim de afirmar a tese, a compreensão teórica, que sustenta, esperamos, o trabalho todo acerca da imprescindibilidade de estabelecer e descrever, as relações concretas entre os fenômenos e seus contextos, os discursos e os espaços e tempos sociopolíticos privilegiados de sua produção.
A “história” que recorre estas páginas começa, assim, a partir do ano 1999. Nesse ano, quando Hugo Chávez assume a presidência da Venezuela, se inicia um novo período da história política desse país, que envolve transformações conflitivas em distintos planos da vida econômica, político-institucional e sociocultural. Parte desta conflitividade deriva do contexto de crises econômica e de deslegitimação das elites governantes, que se tinha incubado na década dos 80, a denominada “década perdida” para quase toda América Latina, e explode a partir de 1989. Este ano marca o início de algumas datas simbólicas da história venezuelana. O 27 e 28 de fevereiro
desse ano, ao pouco tempo de começar o que seria, propriamente, o último mandato presidencial do modelo democrático bipartidário venezuelano, e do anúncio de medidas econômicas antipopulares, acontece uma onda de saques, em Caracas e numa zona circundante, que põe de manifesto o mal-estar e a magnitude da dívida social acumulada. Após este evento, conhecido como Caracazo, se sucedem, em 1992, duas tentativas de golpe de Estado que tinham em Chávez um de seus principais líderes e abrem na opinião pública nacional e internacional interrogações sobre o estado de saúde da democracia tida como uma das mais longas e estáveis do subcontinente, região que vivia, por sua vez, importantes processos de redemocratização com o retrocesso das ditaduras militares.
Embora estes acontecimentos de 1989 e 1992 não tenham conexão, no sentido de formar parte de uma estratégia conjunta de desestabilização do regime político, eles exibem a progressiva quebra do sistema político tradicional e do “pacto social” que lhe servia de base (CORONIL, 1988; REY, 1991; KORNBLITH, 1994; MAINGON, 2006), e que logo se concretizará politicamente em três momentos sucessivos. No primeiro, com o impeachment ao ex-presidente Carlos Andrés Pérez em 1993; no segundo, com as eleições presidenciais ao final desse ano, quando ganha uma figura central da velha política, Rafael Caldera, depois de se desprender de um dos partidos anteriormente governante e fundar um novo; e, mais visivelmente no terceiro momento, com as eleições de 1998, onde a maior competência e concentração de votos tem lugar entre novas plataformas eleitorais surgidas nesse mesmo ano e no anterior, assim como entre candidatos considerados outsiders, antipartido e antipolíticos. Chávez, que tinha sido indultado em 1994, pelo então presidente Caldera, ganha aqui sua primeira eleição, na que ele e seu movimento decidem participar depois das derrotas dos levantamentos militares e de ter descartado a possibilidade de uma insurreição popular que pudesse ser apoiada pelo movimento militar (IZARRA, 2004).
A conflitividade está associada também à própria figura política do ex- presidente Chávez. De um lado, sua condição de não civil, sua participação nos levantes militares, os laços que estabelece com antigos setores insurrecionais de esquerda venezuelanos e com líderes da esquerda tradicional latino-americana, como Fidel Castro, assim como seu estilo político confrontante e, ainda, altissonante; e de outro, o plano de deslocamento das velhas elites e também de transformação radical da sociedade venezuelana a partir da ideia inicial de revolução bolivariana, marcam
decisivamente o devir político venezuelano.
Formando parte de certo espírito de época, o projeto de Chávez é especialmente incisivo contra esse sistema político que tinha nascido em 1958 com o derrocamento da última ditadura venezuelana do século XX — comumente referido como “puntofijismo”, os “quarenta anos anteriores” ou “IV República” —, e a corrupção dos governos de Acción Democrática (AD) e Copei; contra o modelo de reformas neoliberais que tinha sido introduzido a partir de 1989 e conduziu a um enfraquecimento significativo do Estado venezuelano e contra a aceitação de receitas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM). Com acentos que iriam mudando através do tempo, as ideias de democracia participativa e protagónica, de terceira via entre o comunismo e o capitalismo e, posteriormente, de socialismo do século XXI, mesmo como as referências ao bolivarianismo e ao humanismo, o projeto bolivariano promete em troca a reivindicação do povo como sujeito político e como centro da organização do poder e das políticas estatais.
Pode ver-se que o surgimento da opção política liderada por Chávez, ao mesmo tempo, faz parte do conjunto de sintomas e atores que surgem ao calor da crise sociopolítica dos 1990, sobretudo nos primeiros anos desta década, e ela mesma comporta umas características que fazem contrastar o modelo político que nasce em 1999 com o anterior “sistema populista de conciliação de elites” que descansava centralmente na negociação e na produção de acordos como método político (REY, 1991; KORNBLITH, 1996). Para Chávez, ao contrário, como afirmava já na sua primeira investida como presidente da Venezuela, que seu governo procurara consensos “com os que se opõem aos câmbios necessários”, constituía fundamentalmente uma traição (CHÁVEZ, 1999).
Assim, à natureza conflitiva das lutas sociais pelas hegemonias ou, para lembrar Lechner (1984), da construção das ordens desejadas, se agregam as particulares características do cenário político e seus atores, para os que o dissenso e o conflito se convertem em um modo de exercício da política. Portanto, apesar do governo de Chávez ter contado com um importante respaldo eleitoral, e a frente, uma oposição conformada por jovens organizações políticas e por velhos partidos em crise, e de que consegue, tão prontamente como em 1999, adiantar mudanças fundamentais na arquitetura política venezuelana com a aprovação em referendum popular de uma nova constituição, e com ela um progressivo controle institucional, a estabilidade política está longe de ser alcançada, tal como ilustram distintos
acontecimentos, como as greves nacionais de 2001 e 2002; o golpe de Estado que sofrera o governo em abril desse último ano; a paralisação/sabotagem de Petróleos de Venezuela (PDVSA) entre 2002 e 2003; a solicitude de referendum revogatório em 2003 e sua realização em 2004, entre outros (LANDER, 2004; LÓPEZ MAYA, 2002, 2004).
Nessa configuração social e política em torno do conflito ocorrem umas formas determinadas de relação entre o governo e seus seguidores e opositores, entre o poder político e os meios de comunicação, e cada vez mais, para aquele momento, entre os cidadãos comuns. As antigas classificações políticas entre adecos (militantes ou simpatizantes de AD) e copeyanos (militantes ou simpatizantes de Copei), e depois, entre velha política e nova política, deram espaço à que pode ser resumida a partir da fórmula “com Chávez ou contra Chávez”. Trata-se de um esquema divisor que se estende, além dos confrontos político-institucionais, em proporção com as novidades que introduz como líder político, particularmente no que se refere ao conteúdo e a duração de seus discursos, a suas formas de tratamento dos adversários políticos e a sua presença na mídia. A comunicação política torna-se um espaço evidente dos problemas de hegemonia, entendida como consentimento da liderança, tanto como da dominação político-ideológica (GROSSBERG, 2004).
No início deste período político, porém, a nomenclatura das identidades políticas é muito mais diversa e confusa, aglutinada em torno das ideias de “Bolívar”, “revolução”2 e “processo político”. Mas progressivamente as denominações que ganham terreno são, precisamente, "chavistas" versus "opositores" ou, a amplamente empregada, "esquálidos", um modo de qualificar a oposição como débil ou minoritária, cunhado por Chávez em 2001 (VENEZUELA, 2012). E embora os pesos destas duas opções têm tido mudanças no mapa sociopolítico ao longo dos anos, e o chavismo como opção política experimenta hoje – 2018 – problemas derivados da grave crise socioeconômica e política que atravessa Venezuela, do lado da comunicação política e da configuração da agenda pública, aparece como a confrontação de duas forças equivalentes e radicalmente distintas.
2 Sobre a ideia de revolução, tanto para conceitualizar quanto para historiar seu uso nos períodos de
governo de Chávez, existem algumas polémicas acadêmicas (e políticas); por exemplo, Martínez Meucci e Vaisberg (2014) assinalam que quando Chávez ganhou a presidência pela primeira vez “a palavra ‘revolucão’ não formava parte essencial de seu discurso”. Não obstante, fora da avaliação das transformações institucionais que justificariam o seu uso, a ideia de revolução ocupa um espaço importante nas narrativas e na organização política de setores aglutinados em torno a Chávez antes desse momento.
Esse marcado conflito político, percebido também em outros países do continente, tem tendido a ser definido, em diversas áreas do campo das ciências sociais e humanas (LOZADA, 2008, 2017; HERNÁNDEZ, 2005; LALANDER, 2012), como de polarização política; isto é, uma forma de relacionamento social e político excludente, em que os eu coletivos representam-se dicotômica e simplificadamente como legítimos e aos outros como ilegítimos, fundando interações fortemente caracterizadas pela intolerância, a discriminação e a violência (simbólica ou física). Deste modo, o fenômeno da polarização política tem chamado a atenção dos pesquisadores sobre os processos culturais e a interação cotidiana (VALDIVIESO, 2004; VARGAS; VENEGAS, 2007), o papel dos discursos políticos (CHUMACEIRO, 2003; ROMERO, 2005; BOLÍVAR, 2010; BOLÍVAR e ERLICH, 2011; FONSECA, 2016) e o rol dos meios de comunicação massiva (RAMÍREZ ALVARADO, 2007; CAÑIZALES, 2009). Dimensões que se entrecruzam no estudo da participação política nas redes sociais eletrônicas.
A mídia venezuelana, que tinha se convertido num espaço legitimado socialmente frente ao descrédito das instituições públicas e os partidos, assumiu um papel ainda mais central na veiculação de posições opositoras ao governo de Chávez (BISBAL, 2003); e, nessa medida, a questão mediática se tornou cada vez mais um assunto da agenda pública política: conteúdo dos discursos políticos, mesmo que objeto de políticas governamentais e das disputas políticas em geral (D’AMARIO, 2011). Trata-se de um entremeado conflitivo entre os governos bolivarianos e os meios privados, incluindo corporações que respaldaram a primeira candidatura de Chávez e seus inícios na presidência, que envolve desde os tipos de cobertura jornalística dos discursos e da ação de governo, até os usos dos meios de comunicação por parte do ex-presidente Chávez (BAPTISTA; PASSOS, 2014) e do atual presidente Nicolás Maduro.
Esse conflito comunicacional pela hegemonia política, tem redundado, por sua vez, na configuração do sistema midiático e do comunicacional político em geral; quer dizer, tem suposto transformações legais, da estrutura de propriedade das mídias, o surgimento de outras novas e, como veremos aqui, formas de organização opositora para a participação pública e políticas governamentais/estatais para a intervenção nas novas arenas públicas na internet, que continuam até nossos dias.
Neste cenário de confrontação mediática e política a internet passou a ocupar um papel cada vez mais relevante (LOZADA ET. AL., 2006), em concordância com o
seu uso como ferramenta de/para a disputa política, e pelos deslocamentos políticos que traz a multiplicação dos lugares de produção comunicacional. Aí o espaço das redes sociais, em parte como resultado da sua progressiva centralidade na interação cotidiana a nível global, em parte também por essas mutações no sistema midiático venezuelano (D’AMARIO, 2011), é especialmente privilegiado nas expressões destas identidades e desta confrontação. Como apontamos na Introdução, a ideia de "expressão" do social no espaço digital deve ser entendida, ao menos, como mediações em dupla via: como espaço no que se reflete a política, em seu entreamado de opiniões e comportamentos individuais e coletivos, cotidianos e institucionais, impactado sua configuração tecno-comunicacional, o tipo de mediação que exerce socialmente, e como espaço desde o qual se (re)produze a política, esse entreamado que inclui as identidades, de acordo com pautas sociais, culturais e comunicacionais incorporadas na sua configuração técnica.