8. Boa morte: fundamentos, crenças e contradições
8.1. Raízes históricas da boa morte
8.1.3. Um retrato da morte contemporânea: a morte de Ivan Illitch
do modo como supostamente se morria naquela época, em detrimento do modo como hoje morremos. Na concepção de Elias, a Idade Média foi de fato um período heterogêneo e de grandes instabilidades sociais, estando as conclusões de Ariès equivocadas: as pessoas viviam pouco, cheias de medo, em situações adversas e de difícil controle, com dor e com medo do além e de serem punidas por Deus. Para Elias, a morte já era sem controle, já era selvagem. Apesar das contundentes críticas de Elias ao estudo de Ariès, este autor constitui uma referência central quando se estuda a morte no Ocidente.
Porém, os dois autores convergem em suas análises em dois pontos: primeiro, a morte era mais exposta, falava-se mais dela nos círculos familiares (incluindo-se aí a participação das crianças), era mais compartilhada e integrada na estrutura familiar. E, como conseqüência disto, ela era mais pública, com participação comunitária, distintamente da morte reclusa, isolada e solitária de nossos tempos.
Tolstoi antecipa, com esta novela, a discussão sobre a mentira em torno da doença, sobre a importância do cuidado de um moribundo e, também, de um modo brilhante, descreve os acordos internos, as negações, a raiva, e toda a sorte de fluxos emocionais que vive quem está morrendo, o que, anos mais tarde, seria sistematizado como fases do processo de morrer.
Mas, no final, Tolstoi deixa transparecer que, mesmo diante do silêncio de todos, do isolamento, da solidão e do abandono a que foi submetido seu sofrido personagem, seria possível encontrar um canto de aconchego, de redenção, um distanciamento de qualquer sentimento ou sofrimento:
“Ele procurava o seu antigo e costumeiro pavor da morte, mas não o encontrava. Onde está ela? Que morte? Não havia pavor nenhum, porque não havia morte. Em vez da morte havia luz. Então é isto! – disse ele de repente, em voz alta. – Que alegria!
Para ele, tudo isso passou num só instante, e o significado desse instante já não mudou mais. Para os presentes, entretanto, a sua agonia durou ainda duas horas. Do seu peito escapavam estertores; seu corpo emaciado estremecia. Depois ficaram cada vez mais espaçados os estertores e os arquejos.
Acabou-se! - disse alguém debruçado sobre ele.
Iván Ilitch ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. ‘Acabou-se a morte’, disse consigo mesmo.
‘Ela não existe mais.’ Inspirou o ar, parou no meio do suspiro,entesou-se e morreu” 317 (p. 181).
Pode-se perguntar se hoje a morte e o morrer de Ivan Ilitch não estariam na contramão dos preceitos do movimento hospice? Não seria difícil responder que sim, pois este homem teve todo o tipo de penúria possível, desde dores incontroláveis (e que quando eram controladas o deixavam sonolento), até a falta de proximidade de seus familiares e amigos mais próximos. Acrescente-se um médico pouco ocupado com ele (ou sem saber como o fazer). A exceção é seu fiel empregado – dir-se-ia hoje, um
cuidador -, que está sempre presente e prestativo. Não é possível não se concluir que não haja algo de extremamente atual neste conto escrito no final do século XIX.
Mas, aprofundando um pouco esta questão, o modo como Ivan Ilitch viveu seus últimos momentos propicia à discussão um aspecto muito importante, que diz respeito a um processo absolutamente individual vivido por quem está diante do limiar da morte, e que não tem necessariamente relação com o tipo de cuidado recebido. O de que é extremamente arriscada a valoração da morte do outro por quem a assiste, uma vez que experiências transcendentais transformadoras podem se operar mesmo nos momentos derradeiros da vida. O cuidado prestado não é garantia de que a pessoa que está morrendo irá se encaminhar para uma “boa morte”, e a experiência não bem sucedida, ou aquelas assim entendidas, não deveriam ser um desestímulo para quem se propõe a cuidar. Não existe nenhuma garantia de que quem morre em sofrimento, aos olhos de quem assiste, esteja em sofrimento. Os sentidos humanos corriqueiros estão impossibilitados de apreender experiências em camadas mais profundas. É importante que aquele que cuida de quem morre aprofunde os questionamentos acerca de quem é que está sofrendo com esta morte. Assim, sem poder contar com a ajuda dos profissionais da morte e do morrer, Ivan encontra seu tempo de morrer e, com controle sobre seu corpo, sabe ser chegada sua hora. Lutando contra tudo e contra todos à sua volta, e a despeito de uma jornada inglória e solitária, Ivan realiza o sentido pleno do kálos thánatos.
A morte de Ivan, mesmo que dentro do cenário de uma morte desconfortável de ser assistida (no duplo sentido da palavra), tem aquilo que Thurston chamou de morte “auto-evidente” 318, percebida e determinada por quem está morrendo, em seus momentos derradeiros. Mas estes tempos de autodeterminação parecem que estão ameaçados, com o progressivo desenvolvimento dos hospitais, com a crescente transferência das mortes para o interior deles, e com o poder médico impondo-se sobre os corpos daqueles que estão morrendo.
Na vivência do autor ao acompanhar pacientes em fase terminal, a importância dos momentos derradeiros é crítica: há, muitas vezes, uma espécie de exacerbação da tensão, da angústia, entre aqueles que acompanham quem está morrendo, muitas vezes em desproporção com relação à serenidade expressa especialmente no rosto do moribundo (e aqui o sentido de rosto é o exterior e não o levinasiano). E há, também, muitas vezes, um
“descompasso corporal” - se pudermos assim expressar - entre o rosto e o resto do corpo do “agonizante” (o uso deste termo para se referir aos momentos derradeiros de vida é curioso, visto que em casos como aos quais estamos nos referindo, não parece ocorrer algo propriamente “agonizante”). O corpo em espasmos, endurecido, com respiração difícil, suado e pegajoso, exalando um cheiro forte, quase se quebrando, em contraposição a um rosto sereno, tranqüilo. Também a expressão dos olhos muitas vezes segue a da mímica facial; outras vezes não, como se “buscassem algo”. Foi com um destes pacientes, no leito de morte, que o autor teve uma vivência desta linguagem do corpo morrendo e assim a expressou:
“Seus olhos estavam longe
Já não pertenciam mais a este mundo Seus olhos eram do além-mundo
Banhados no éter divino, aliviavam o peregrino Seus olhos, olhos não-humanos
Não queriam mais este mundo Eu os vi sedentos pelo profundo Profundo do além-mundo
Seus olhos, já não eram mais os do moribundo”
É com esta perspectiva que se pode compreender as palavras de Levinas:
“Mas o que é que se abre com a morte, será nada ou desconhecido? Estar às portas da morte, reduzir-se-á ao dilema ontológico ser-nada? - Eis a questão que aqui é colocada. Porque, a redução da morte ao dilema ser-nada é um dogmatismo às avessas, independentemente do sentimento de toda uma geração desconfiada do dogmatismo positivo da imortalidade da alma tido como o mais suave ‘ópio do povo’” 194 (p.36).