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Um sujeito transcendental para a psicanálise?

Devemos então nos perguntar se o sujeito lacaniano do desejo não seria uma versão psicanalítica do sujeito transcendental. É neste ponto que podemos medir a

particularidade da filiação lacaniana ao discurso filosófico da modernidade. Se o desejo é condição a priori para a constituição dos objetos do mundo, não se trata de um desejo cujo sentido se desvelaria através da auto-intuição imediata de um eu. Ou seja, o desejo não exige um conceito de ego transcendental capaz de aparecer como destino privilegiado dos processos de reflexão. Ao contrário, como o desejo é

determinado de maneira inconsciente pela estrutura sociolingüística externa que constitui a priori as coordenadas de toda experiência possível (isso segundo o

sentido da fórmula estruturalista: o desejo do homem e o desejo do Outro – em que o Outro aparece como estrutura sociolingüística transcendental na qual o sujeito deve surgir), então o sujeito será necessariamente determinado empiricamente pela estrutura.

Sublinhemos aqui a importância deste motivo estruturalista maior: as condições a

priori da experiência já estão dadas antes da constituição do sujeito e graças à

anterioridade do significante. No caso lacaniano, isso significa dizer que o desejo do Outro já está constituído antes da subjetivação do desejo pelo sujeito. Lembremos, por exemplo, que o lugar da criança já está constituído no interior da constelação familiar por meio das convenções de estruturas de parentesco, do nome que às vezes a identifica com um ancestral e com a linhagem do desejo presente no Ideal do eu dos pais. Tal anterioridade temporal é sobretudo anterioridade lógica, já que não é possível ao sujeito desenvolver procedimentos de auto-referência e de auto -reflexão antes da estruturação prévia do campo de experiências e de socialização por um sistema sociolingüístico de regras, de normas e posições. Daí afirmações como: “o sujeito só é sujeito ao assujeitar-se ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a este campo do Outro” (Lacan, S XI, p.172).

Isso significaria que o sujeito lacaniano é apenas o suporte inconsciente de

processos estruturais de determinação de sentido – tal como encontraríamos em uma perspectiva estruturalista clássica? É a temática da intersubjetividade, com seu motivo de reconhecimento do sujeito pelo Outro como estrutura transcendental, que nos demonstra o contrário. Se há reconhecimento intersubjetivo do desejo (mesmo entre dois pólos situados em posições não recíprocas, já que o Outro determina de maneira não recíproca o sujeito), então devemos pensar em um sujeito que não é simplesmente suporte, mas que, em certas condições, pode transformar-se em agente – o que nos explicaria por que a problemática lacaniana da intersubjetividade está

necessariamente articulada a uma teoria da performatividade dos atos de fala mediante considerações sobre a palavra plena. É claro, muito haverá a se dizer a respeito da especificidade desta agência do sujeito lacaniano; uma agência que não se submete a nenhum princípio de expressividade dependente de um conceito

positivo de intencionalidade. De qualquer forma, ela disponibiliza um contrapeso ao problema da heteronomia completa do sujeito.

Por enquanto, podemos fornecer uma hipótese capaz de nos guiar na compreensão dessa posição paradoxal do sujeito lacaniano. Lacan guarda um elemento próprio à função transcendental presente no conceito moderno de sujeito, mas não se trata do poder transcendental de constituição das coordenadas da “realidade objetiva”. Nesse sentido, o sujeito lacaniano não pode ser um puro sujeito transcendental, já que tal poder não lhe pertence nem de fato (ele não é um ego transcendental), nem

de direito (sua função lógica não consiste na faculdade de síntese própria a uma

unidade sintética de percepções).

Tudo indica que, ao articular seu conceito de sujeito por meio de figuras da subjetividade moderna tão distantes umas das outras quanto podem ser o cogito cartesiano, o sujeito da vontade livre kantiana e a consciência desejante de Hegel, Lacan procura certo caráter de transcendência ligado, na modernidade, à

articulação do conceito de função transcendental do sujeito.

Não se trata de compreender a transcendência simplesmente como esta ilusão

própria ao uso da razão e sempre presente quando ela procura aplicar um princípio efetivo para-além dos limites da experiência possível – noção de transcendência que só pode ser antinômica ao questionamento transcendental, como bem demonstrou Kant. Lacan é marcado por um pensamento da transcendência no qual se cruzam as reflexões vindas da fenomenologia alemã (a transcendência do Dasein) e do

hegelianismo (a negatividade da Begierde). Nesse sentido, basta lembrarmos de Kojève falando da negatividade do desejo como: “o ato de transcender o dado que lhe é dado e que é em si mesmo” (Kojève, 1992, p.13). “O ato de transcender” deve ser compreendido aqui como negação que põe a não-adequação entre o ser do sujeito e os objetos da dimensão do empírico, como apresentação de uma não-saturação do ser do sujeito no interior do campo fenomenal. Tal transcendência não põe princípio efetivo algum para além da experiência possível. O que nos explica por que

devemos compreendê-la como transcendência negativa. Podemos assim dizer que o

sujeito para Lacan é uma transcendência sem transcendentalidade, ao menos sem

o caráter constitutivo da objetividade próprio ao sujeito transcendental.6

A hipótese consiste em dizer que, com Lacan, a subjetividade está inicialmente ligada aos modos de manifestação dessa transcendência negativa e a

intersubjetividade é o espaço possível de auto-apresentação da subjetividade. A fim de compreender a intersubjetividade lacaniana, faz-se necessário, pois, determinar

qual é a estratégia possível de reconhecimento objetivo dessa transcendência negativa. O primeiro passo consiste na análise dos modos de subordinação das relações de objeto à lógica alienante do Imaginário.

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