3 UMA ABORDAGEM DA ÉTICA E DA RESPONSABILIDADE NAS
4.2 UMA ABORDAGEM DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
includente, ambientalmente sustentável e economicamente sustentado no tempo. (VEIGA, 2010, p.10).
A definição conceitual de Sachs evidencia a diferença existente entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável, uma afirmação que pode ser verificada nos distintos níveis de abrangência admitidos por cada um dos conceitos. Do destaque de Sachs resta evidente um importante requisito ou relação: para que haja desenvolvimento sustentável faz-se necessário haver desenvolvimento econômico49.
A relação causal verificada entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável é caracterizada por uma condição que atribui a ambos os conceitos a possibilidade recíproca de alternar sentidos, hora desenvolvimento econômico sendo causa e desenvolvimento sustentável sua consequência, da mesma maneira que seu inverso pode ser igualmente verdadeiro. Uma relação da qual parece emergir uma espiral tautológica e que foi descrita no Relatório Brundtland (na análise desenvolvimento econômico e meio ambiente), da seguinte forma:
Estas alterações correlatas criaram novos vínculos entre a economia global e a ecologia global. No passado, nos preocupamos com os impactos do crescimento econômico sobre o meio ambiente. Agora temos de nos preocupar com os impactos do desenvolvimento ecológico – degradação de solos, regimes hídricos, atmosfera e florestas – sobre nossas perspectivas econômicas. Mais recentemente tivemos que assistir ao aumento acentuado da interdependência econômica das nações. Agora temos de nos acostumar a sua interdependência ecológica. A ecologia e a economia estão cada vez mais entrelaçadas – em âmbito local, regional, nacional e mundial – numa rede inteiriça de causas e efeitos. (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1987, p. 5).
A possibilidade de existir uma íntima relação entre economia e ecologia não é matéria consensual. Ainda que economia seja “muitas vezes definida como a ciência que estuda a escassez ou a ciência que estuda o uso dos recursos escassos na produção de bens alternativos” (MONTELLA, 2004, p. 3), sua relação com a ecologia é negada (ou tida como não importante), pela principal parte dos economistas. Uma relação conflituosa, cercada de divergências e que precisa ser melhor analisada. Para tanto, parece oportuno uma segunda abordagem do conceito de desenvolvimento sustentável.
4.2 UMA ABORDAGEM DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
49 Sendo a condição verdadeira, estaríamos frente a um indicativo que remete e reforça a ideia de que o dinheiro e o lucro são meios, mas não fins? A possibilidade de que a resposta à pergunta seja afirmativa reafirma uma conclusão parcial verificada em diferentes análises estabelecidas no transcorrer do esforço de pesquisa da presente dissertação.
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Para além da abordagem interdisciplinar e transdisciplinar do conceito de desenvolvimento sustentável, podemos ainda propor uma segunda forma de aproximação: o estudo individualizado e específico dos conceitos de desenvolvimento e de sustentabilidade, um caminho alternativo cujo percurso paralelo parece promissor. Para fazer esta análise específica dos conceitos os estudos desenvolvidos por José Eli da Veiga, de Desenvolvimento
Sustentável, o desafio do século XXI, proporcionam um interessante e oportuno caminho a ser seguido. Um caminho que tem início com a análise individualizada e especificado conceito de desenvolvimento:
Jane Jacobs começa com as seguintes questões: de onde vêm as coisas novas? Por que as coisas não são como sempre foram? Qualquer tentativa de responder a tais perguntas revelará que, em sentido amplo, o desenvolvimento deve ser definido como uma mudança qualitativa significativa, que geralmente acontece de maneira acumulativa. (VEIGA, 2010, p. 52).
A nota apresenta o conceito de desenvolvimento como uma mudança, ou seja, algo deixa de ser como é e passa a ser diferente. Este algo diferente, por sua vez, pressupõe que existam alterações significativas, ou seja, que as mudanças possam ser percebidas (um resultado verificado, em grande escala, em processos acumulativos). Trata-se, portanto, de uma lógica aplicável tanto a seres vivos como a seres inanimados, sendo que o autor apresenta formas de desenvolvimento com grandes variações através de exemplos como: o desenvolvimento do delta de um rio, de uma planta ou de um animal. Dos exemplos apresentados resta, em comum, a possibilidade de entender desenvolvimento a partir da abordagem de um processo natural, um método por Veiga estruturado em três princípios:
A essência de sua definição era a seguinte: diferenciações emergindo de generalidades. Apenas quatro palavras, mas que descrevem desenvolvimento em todas as escalas de tempo e de dimensão, seja animado ou inanimado. O segundo princípio é o de que as diferenciações se tornam generalidades das quais emergem novas diferenciações. Em outras palavras, desenvolvimento é um processo aberto que cria complexidade e diversidade, porque múltiplas generalidades são fontes de múltiplas diversificações – algumas ocorrendo simultaneamente, em paralelo, outras em sequência. Portanto, um simples processo básico, quando se repete, se repete e se repete, produz atordoante diversidade. E o terceiro e último princípio diz quedesenvolvimento depende de co-desenvolvimento. Não adianta pensar o desenvolvimento de forma linear, ou mesmo como um conjunto de linhas abertas. Ele opera como uma rede de co-desenvolvimentos independentes. Sem essa rede não há desenvolvimento. (VEIGA, 2010, p. 52-53).
A elucidação de que o desenvolvimento deva ser entendido como um processo aberto, capaz de gerar uma rede de co-desenvolvimento, constitui uma importante
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contribuição epistemológica para a específica e determinada tarefa de compreensão do conceito que associa desenvolvimento com mudança. Todavia, a percepção em si da contribuição epistemológica não pressupõe que o processo de desenvolvimento – em especial quando resgatamos a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade do conceito de desenvolvimento sustentável– possa acontecer de forma natural, ou seja, sem a adoção das indispensáveis providências para que os objetivos determinados para atenderas três dimensões do conceito mais amplamente aceito de desenvolvimento sustentável sejam atendidos.
Esta preocupação com o processo natural de desenvolvimento foi apresentada por Veiga para quem “O processo não vai junto, magicamente. Pensar que as coisas, por si mesmas, são suficientes para promover o desenvolvimento cria falsas e fúteis expectativas. Pior ainda, evita providências que poderiam efetivamente promover desenvolvimento.” (VEIGA, 2010, p. 55).
No ano de 2017, a Organização Não Governamental OXFAM Brasil publicou o documento A distância que nos une, um retrato da desigualdade brasileira, contendo um conjunto de dados e informações que vão ao encontro da preocupação apresentada por Veiga em relação à possibilidade de um processo natural de desenvolvimento. A convergência entre a preocupação de Veiga e os resultados da pesquisa apresentada pela OXFAM pode ser observada a partir da análise dos dados relacionados à redução das desigualdades sociais e às políticas de valorização das mulheres. Nesse sentido, um primeiro destaque é promovido em relação à desigualdade social:
Precisamos falar sobre desigualdades. No mundo, oito pessoas detêm o mesmo patrimônio que a metade mais pobre da população. Ao mesmo tempo, mais de 700 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 1,90 por dia. No Brasil, a situação é pior: apenas seis pessoas possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. E mais: os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%. Por aqui, uma trabalhadora que ganha um salário mínimo por mês levará 19 anos para receber o equivalente aos rendimentos de um super-rico em um único mês. (OXFAM BRASIL, 2017, p. 6).
Por sua vez, em relação às desigualdades de gênero, o relatório A distância que nos
une, um retrato da desigualdade brasileira, apresenta a seguinte análise:
No caso de mulheres, apesar de terem escolaridade média superior à dos homens – 8,4 anos de estudo e 8, respectivamente – é ainda mais flagrante a diferença salarial considerando as mesmas faixas educacionais (Gráfico 18). Mulheres com ensino médio completo ganham, em média, R$ 1.338,00, 66% do que ganham os homens de igual escolaridade (R$ 2.023,00). Na faixa de ensino superior completo, mulheres ganham R$ 3.022,00 em média, apenas 63% do que ganham homens com o mesmo nível educacional (R$ 4.812,00). (OXFAM BRASIL, 2017, p. 64).
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Inicialmente parece oportuno destacar que os resultados apurados na pesquisa apontam a assertividade da vinculação dos dois objetivos à promoção do desenvolvimento sustentável: a redução das desigualdades sociais e a valorização da mulher. Basta que se reconheça a dimensão e, por consequência, o impacto decorrente dos resultados apurados em ambos os indicadores pela pesquisa da OXFAM.
Quando admitimos o conceito de desenvolvimento através da ideia de um processo aberto, que pressupõe co-desenvolvimento e capaz de gerar mudança significativa, a possibilidade de que uma nação possa alcançar patamares de desenvolvimento econômico – portanto apenas um dos âmbitos do conceito de desenvolvimento sustentável em um cenário onde os 5% da população mais rica acumulam o equivalente a 95% do restante da população – dificilmente deverá ser entendido como outra coisa que não seja mero exercício de retórica. Ainda que se possa reivindicar a existência de ciclos de crescimento, como é possível verificar na história econômica brasileira, a simples consideração do conceito estudado de desenvolvimento parece ser, por si só, suficientemente esclarecedora da impossibilidade posta. Frente a esta prévia consideração, a possibilidade de que o desenvolvimento possa acontecer naturalmente parece não fazer sentido.
No que diz respeito à questão de valorização das mulheres, os dados apresentados pela OXFAM apenas reforçam a impossibilidade de que um processo natural de desenvolvimento possa acontecer e reverter um cenário histórico de desigualdade. Mesmo que sinais de redução do nível de desigualdade venham sendo verificados com o passar do tempo (o papel social das mulheres na pós-modernidade é muito diferente do verificado no início da era moderna), a pergunta a ser feita é por quanto tempo ainda será imposto às mulheres a continuidade de uma das principais injustiças promovidas entre semelhantes: a desigualdade entre dois gêneros humanos.
Parece importante reconhecer que o estudo do conceito de desenvolvimento a partir da biologia e da geologia (duas ciências com diálogo permanente na dimensão ambiental do conceito interdisciplinar de desenvolvimento sustentável) permite uma aproximação harmoniosa com a economia (outra das três dimensões do conceito interdisciplinar de desenvolvimento sustentável). Dessa maneira, tanto a justificação como a compreensão da presença do conceito de desenvolvimento no conceito interdisciplinar de desenvolvimento sustentável tem sua compreensão facilitada e pacificada.