3 UMA ABORDAGEM DA ÉTICA E DA RESPONSABILIDADE NAS
4.1 UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E TRANSDICIPLINAR DO CONCEITO
Como apresentado no Relatório Brundtland, os estudos sobre desenvolvimento sustentável são multidisciplinares e interdisciplinares e proporcionam, através da riqueza de conceitos considerados, uma visão abrangente e inclusiva – o que parece ser uma consequência da diversidade conceitual que estrutura a análise e das inúmeras áreas de intersecção possíveis de verificação na análise interdisciplinar das três dimensões destacadas. Dessa maneira, no exercício de aproximação com o que pode ser definido como sendo desenvolvimento sustentável, a recepção do conhecimento parece acontecer mais pela análise interdisciplinar dos conceitos, algo possível de verificação nas diversas áreas de intersecção, do que na análise conceitual isolada dos conceitos específicos.
Essa afirmação pode ser percebida quando, por exemplo, são analisados os efeitos da pobreza sobre o meio ambiente. No exemplo específico percebe-se que a melhor expressão do conceito de desenvolvimento sustentável está refletida na área de intersecção dos problemas pobreza e degradação ambiental e não na análise isolada de pobreza ou de meio ambiente. Nesse sentido, um novo resgate do Relatório Brundtland parece oportuno para a adequada percepção da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade referenciada:
Os governos e as instituições multilaterais tornam-se cada vez mais conscientes da impossibilidade de separar as questões relativas ao desenvolvimento econômico das questões relativas ao meio ambiente, muitas formas de desenvolvimento desgastam
79
os recursos ambientais nos quais se deviam fundamentar, e a deteriorização do meio ambiente pode prejudicar o desenvolvimento econômico. A pobreza é uma das principais causas e um dos principais efeitos dos problemas ambientais no mundo. Portanto, é inútil tentar abordar esses problemas sem uma perspectiva mais ampla, que englobe os fatores subjacentes à pobreza mundial e à desigualdade industrial. (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1987, p. 4).
No preâmbulo da Agenda 2030, consta a referência de que a erradicação da pobreza, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global e um requisito para o desenvolvimento sustentável. Um requisito absolutamente claro, cujo desafio segue posto desde a publicação do Relatório Brundtland, em 1987 ou, dito de justa forma, desde que existem os primeiros registros de organização humana. Por isso, a percepção do conceito de desenvolvimento sustentável encontra nas questões relativas à pobreza um componente, um aspecto que é, ao mesmo tempo, causa e consequência da degradação e da deterioração ambiental. Um aspecto que, quando analisado em um horizonte interdisciplinar compõe, tem significado e pode ser entendido enquanto uma das variáveis capazes de determinar, ou não, a possibilidade de um modelo de desenvolvimento sustentável.
A interdisciplinaridade, como a multidisciplinaridade, são traços marcantes e essenciais do conceito de desenvolvimento sustentável. Dos estudos conceituais parece restar evidente que a recepção do conhecimento pela interdisciplinaridade é uma das principais características (a primeira destacada) de desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o resgate de Jayme Paviani torna-se oportuno para o adequado entendimento de interdisciplinaridade:
A verdadeira interdisciplinaridade realiza a articulação dos saberes, pois não é possível alcançar a ciência, a episteme, sem considerar que o conhecimento é igualmente um fazer, uma techne, e um agir, uma fronesis. O trabalho científico e pedagógico inter-relaciona tipos diferentes de conhecimentos. Conhecer pode consistir em identificar as causas de algo, a causalidade que movimenta a organização do conhecimento, mas isso implica saber tomar decisões, optar por ações possíveis, avaliar e, igualmente, saber agir dentro de padrões éticos aceitos pela sociedade. (PAVIANI, 2014, p. 8).
A característica interdisciplinar e multidisciplinar não é a única similaridade que pode ser observada nas diferentes elaborações e programas dirigidos ao desenvolvimento sustentável. Quando analisamos o método utilizado à elaboração teórica,verifica-se que, mesmo em diferentes momentos, o processo participativo e inclusivo–capaz de harmonizar diferentes entendimentos, valores e crenças– constitui uma segunda característica comum perceptível nas elaborações sobre desenvolvimento sustentável.
80
A contribuição desta segunda característica não está restrita ao quesito qualitativo dos documentos elaborados, mas pode também ser verificada na condição facilitada de receptividade ao conhecimento produzido. Uma percepção que pode ser reforçada a partir da manifestação de GroHarlem Brundtland46 quando expressa sua gratidão pelo trabalho da Comissão Mundial do Meio Ambiente na elaboração do Relatório Brundtland. Nas palavras de Gro, uma comissão formada por membros que chegaram “...com opiniões e perspectivas diferentes, valores e crenças diferentes, experiências e noções muito diferentes” e que “Após três anos de trabalho em comum, viagens, troca de experiência e debates... apresentaram um relatório que é de todos.”47. Esse “relatório que é de todos”, como dito por Gro parece ser uma das razões que determinam uma condição diferenciada de receptividade ao conhecimento, uma característica comum nos estudos sobre desenvolvimento sustentável.
A integração destas características comuns identificadas – a interdisciplinaridade com o método participativo e inclusivo – parece revelar um paradoxo em que a complexidade e a receptividade são partes integrantes perceptíveis na expressão do que venha ser desenvolvimento sustentável. Um paradoxo que encontra condições para ser adequadamente compreendido a partir de uma abordagem transdisciplinar, um conceito assim definido por Paviani:
A condição epistemológica da transdisciplinaridade, numa primeira definição, reside na possibilidade de ultrapassar o domínio das disciplinas formalmente estabelecidas e, numa segunda definição, consiste na possibilidade de estabelecer uma ponte entre os saberes. Isto é, entre a ciência, a arte, a religião, a política, etc. Além de transcender as relações internas e externas de duas ou mais disciplinas, a transdisciplinaridade aponta para a exigência de uma maturidade intelectual, para uma espécie de sabedoria em que se põem em contato a ciência com a vida, as manifestações éticas e estéticas, os valores e as normas sociais. (PAVIANI, 2014, p.22).
Nesse sentido, enquanto a característica interdisciplinar pode ser reconhecida na capacidade que o conceito apresenta de articular diferentes conhecimentos, a transdisciplinaridade pode ser verificada na capacidade que este conceito tem de ultrapassar os limites de cada área de conhecimento e de estabelecer pontes entre os saberes. Por conseguinte, estaríamos frente a mais um traço característico do conceito de desenvolvimento
46 Médica e diplomata norueguesa foi a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo do seu país. Na ONU participou da comissão especial que cuidou das mudanças climáticas. Foi a Presidente da Comissão Mundial do Meio Ambiente, que elaborou o documento Nosso Futuro Comum. Por sua liderança, assim como pela importância do Relatório para o tema desenvolvimento sustentável, o documento é também conhecido como Relatório Brundtland.
47 COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1987, p. XVII do Prefácio da Presidente.
81
sustentável: a transdisciplinaridade. Um traço que pode ser verificado no documento A carta
da terra, cujo processo de elaboração primou por colher a sugestão de milhares de pessoas que foram ouvidas em praticamente todos os continentes do globo e que é dessa forma apresentada por Leonardo Boff:
A Carta da Terra parte de uma visão integradora e holística. Considera a pobreza, a degradação ambiental, a injustiça social, os conflitos étnicos, a paz, a democracia, a ética e a crise espiritual como problemas interdependentes que demandam soluções includentes. Ela representa um grito de urgência face as ameaças que pesam, sobre a biosfera e o projeto planetário humano. Significa também um libelo em favor da esperança de um futuro comum da Terra e Humanidade. (BOFF, 2000).
A harmonização de valores, de opiniões, de culturas e de crenças proporciona ao desenvolvimento sustentável um horizonte abrangente que, por esta razão, enseja atenção quanto aos perigos de uma imprecisão conceitual. Um perigo que também pode ser verificado em seu extremo, ou seja, na restrição de entendimento expressa pela afirmação de que desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável devem ser entendidos como sinônimos.
Esta última preocupação pode ser observada no prefácio de Desenvolvimento
sustentável, o desafio do século XXI, de José Eli da Veiga, em que Ignacy Sachs48cita Celso Furtado para iniciar a apresentação do tema afirmando que desenvolvimento sustentável e desenvolvimento econômico não são – e nem mesmo podem ser – uma mesma coisa, ainda que um seja parte de outro. Ao iniciar o prefácio apresentando uma diferenciação, Sachs afasta a restrição e, ao mesmo tempo, promove uma aproximação com as três dimensões amplamente aceitas nos estudos de desenvolvimento sustentável, tal como é possível verificar no recorte do prefácio da obra de Veiga:
Por isso, em última instância, o desenvolvimento sustentável depende da cultura, na medida em que ele implica a invenção de um projeto. Este não pode se limitar aos aspectos sociais e sua base econômica, ignorando as relações complexas entre o provir das sociedades humanas e a evolução da bioesfera; na realidade, estamos na presença de uma co-evolução entre dois sistemas que se regem por escalas de tempo e escalas espaciais distintas. A sustentabilidade no tempo das civilizações humanas vai depender da sua capacidade de se submeter aos preceitos de prudência ecológica e de fazer um bom uso da natureza. É por isso que falamos em desenvolvimento sustentável. A rigor, a adjetivação deveria ser desdobrada em socialmente
48 Economista polonês, naturalizado francês, chegou ao Brasil em 1941 onde permaneceu até 1954. Trabalhou na organização da primeira conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, realizada em Estocolmo, durante a qual foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). É autor do conceito de ecodesenvolvimento, uma elaboração que contribui para o conceito de desenvolvimento sustentável.
82
includente, ambientalmente sustentável e economicamente sustentado no tempo. (VEIGA, 2010, p.10).
A definição conceitual de Sachs evidencia a diferença existente entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável, uma afirmação que pode ser verificada nos distintos níveis de abrangência admitidos por cada um dos conceitos. Do destaque de Sachs resta evidente um importante requisito ou relação: para que haja desenvolvimento sustentável faz-se necessário haver desenvolvimento econômico49.
A relação causal verificada entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sustentável é caracterizada por uma condição que atribui a ambos os conceitos a possibilidade recíproca de alternar sentidos, hora desenvolvimento econômico sendo causa e desenvolvimento sustentável sua consequência, da mesma maneira que seu inverso pode ser igualmente verdadeiro. Uma relação da qual parece emergir uma espiral tautológica e que foi descrita no Relatório Brundtland (na análise desenvolvimento econômico e meio ambiente), da seguinte forma:
Estas alterações correlatas criaram novos vínculos entre a economia global e a ecologia global. No passado, nos preocupamos com os impactos do crescimento econômico sobre o meio ambiente. Agora temos de nos preocupar com os impactos do desenvolvimento ecológico – degradação de solos, regimes hídricos, atmosfera e florestas – sobre nossas perspectivas econômicas. Mais recentemente tivemos que assistir ao aumento acentuado da interdependência econômica das nações. Agora temos de nos acostumar a sua interdependência ecológica. A ecologia e a economia estão cada vez mais entrelaçadas – em âmbito local, regional, nacional e mundial – numa rede inteiriça de causas e efeitos. (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1987, p. 5).
A possibilidade de existir uma íntima relação entre economia e ecologia não é matéria consensual. Ainda que economia seja “muitas vezes definida como a ciência que estuda a escassez ou a ciência que estuda o uso dos recursos escassos na produção de bens alternativos” (MONTELLA, 2004, p. 3), sua relação com a ecologia é negada (ou tida como não importante), pela principal parte dos economistas. Uma relação conflituosa, cercada de divergências e que precisa ser melhor analisada. Para tanto, parece oportuno uma segunda abordagem do conceito de desenvolvimento sustentável.
4.2 UMA ABORDAGEM DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
49 Sendo a condição verdadeira, estaríamos frente a um indicativo que remete e reforça a ideia de que o dinheiro e o lucro são meios, mas não fins? A possibilidade de que a resposta à pergunta seja afirmativa reafirma uma conclusão parcial verificada em diferentes análises estabelecidas no transcorrer do esforço de pesquisa da presente dissertação.