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Uma matéria, da Folha de São Paulo, datada de 03 de outubro de 2012 sobre a campanha de Hugo Chávez à reeleição, tinha como título “Clone de Minha Casa é trunfo de

50 Entrevista recebida por email enviado a [email protected] em 20/09/2015. 51 Entrevista recebida por email enviado a [email protected] em 20/09/2015

Chávez” 52 e, por vezes, a mídia se referiu ao Gran Misión Vivienda Venezuela como uma mera cópia do Programa Minha Casa Minha Vida, inclusive, como já afirmado neste texto, as matérias oficiais do governo brasileiro também davam a ideia de que o programa venezuelano era bastante inspirado no programa brasileiro. Essa não é a opinião de Beatriz Tamaso Mioto (2015), economista cuja tese de doutorado53 analisou comparativamente as políticas habitacionais de Brasil, Colômbia, México e Venezuela de 1980 a 2013, nem de Flavio Higuchi Hirao (2013, 2015), arquiteto que foi bolsista do IPEA, em Caracas de julho de 2012 a setembro de 2013 e escreveu artigos e dissertação de mestrado sobre o tema. Na avaliação de Mioto (2015) o contexto econômico, da crise mundial de 2008/2009 levou o governo brasileiro a lançar o PMCMV como uma medida anticíclica, que aqueceria a indústria da construção civil, ao mesmo tempo em que beneficiaria setores da sociedade com déficit habitacional.

No caso da Venezuela, Mioto (2015), atribui o lançamento do GMVV ao contexto político de ascensão de um líder socialista que, tirando proveito do cenário econômico de valorização do petróleo, promove uma política habitacional de forte intervenção estatal, inclusive nas questões fundiárias e de suprimento de insumos de construção e com uma destacada participação popular na decisão de elaboração e implantação do projetos. Isso leva Mioto (2015, p. 235) a afirmar, sobre a política venezuelana que implantou o GMVV que “[...] das políticas estudadas, esta é a que apresenta maior coerência entre as demandas sociais e a garantia de acesso à cidade.“ Já Hirao (2013) afirma que as semelhanças entre os dois programas se restringe às ousadas metas de realização, mas que, no programa brasileiro há baixa intervenção do Estado na definição de projetos, de viabilização de terrenos, razão pela qual, diferentemente do programa venezuelano a quantidade de unidades contratadas é um indicador de acompanhamento do PMCMV.

O programa venezuelano, conforme visto nos cinco vértices em que se assenta, é um modelo distinto do brasileiro desde a sua concepção, em que pese ter buscado inspiração nos sistemas de gestão e na experiência de desenvolvimento urbano do Brasil e de, fato, observa-se maior protagonismo da sociedade civil e menos das construtoras. A definição dos terrenos, por parte do governo de Caracas, com ativa participação dos conselhos comunais garante a construção dos empreendimentos em áreas urbanas que, em tese, já dispõem da infraestrutura necessária no que se refere à rede elétrica, sistema de águas e esgotos, transporte urbano, escolas

52 Folha de São Paulo disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/69770-clone-de-minha-casa-e-

trunfo-de-chavez.shtml> Acesso em: 05 out. 2015.

53 Nota: MIOTO, Beatriz. As políticas habitacionais no subdesenvolvimento: os casos do Brasil, Colômbia,

e oferta de comércio e serviços. Com efeito, na visita que fizemos a Caracas, em setembro de 2014, ciceroneado pelo Professor Doutor Alejandro Mendible Zurita, da Universidade Central da Venezuela, tivemos a oportunidade de visitar externamente, diversos empreendimentos do GMVV, todos inseridos na área urbana da cidade (Ver figuras 5 a 11).

Figura 5: GMVV Caracas

Figura 7: GMVV Caracas Figura 8: GMVV Caracas

Figura 9: GMVV Caracas Figura 9.1: GMVV Caracas - detalhe

Fonte: fotos do autor, Caracas, setembro/2014

Figura 11: GMVV Caracas

Fonte: fotos do autor, Caracas, setembro/2014

No caso do PMCMV, se não houver a doação do terreno pelo governo, caberá à construtora definir o local e o projeto e são comuns as queixas de construção de empreendimentos em áreas periféricas, com acentuada carência de infraestrutura, de comércio e serviços e ainda sujeitas a riscos diversos. Estas e outras deficiências, tais como a ocupação

das áreas por traficantes, que praticam não só a venda de drogas como roubos, é denunciada por diversos autores no livro Minha Casa... e a Cidade ? Avaliação do Programa Minha Casa Minha Vida em 6 estados brasileiros.54.

Uma outra diferença entre os dois programas é que, segundo informado pelo Prof. Mendible, os mutuários do GMVV têm direito à posse, mas não à propriedade do imóvel, ou seja, por um lado o mutuário não tem como se desfazer do imóvel e voltar a integrar as estatísticas do déficit habitacional, como acontece no Brasil. A desvantagem dessa situação é que na eventualidade de mudança de cidade ou estado, o mutuário teria que localizar outro mutuário fazendo migração no sentido inverso para uma permuta. Na segunda quinzena de setembro de 2015, segundo informes da imprensa enviadas a este autor pelo Prof Mendible o governo estudava uma forma de conceder a propriedade aos mutuários, entretanto, a informação anterior é válida para todo o período do recorte temporal deste trabalho.

Naturalmente que o GMVV não é aprovado por unanimidade e as críticas estão divulgadas pela mídia venezuelana. O sociólogo Rafael Uzcátegui, coordenador de pesquisa da organização não governamental Programa Venezolano de Educación – Acción em Derechos Humanos (Provea), em entrevista concedida ao jornal El Nacional, de 07 de novembro de 2010, contesta a propaganda oficial, afirmando que Chávez foi um dos presidentes do período democrático que menos moradias construiu, superando apenas a Rómulo Betancourt e que Carlos Andrés Pérez e Luis Herrera Campins foram três vezes mais eficazes que Chávez. Uzcátegui critica também os baixos preços pagos pelo governo venezuelano nas desapropriações e alega que a atuação do governo limita a participação das empresas privadas, impedindo a dinamização do setor.

O arquiteto, urbanista e professor venezuelano Marco Negrón, em entrevista concedida ao periódico Tal Cual 55 acusa o governo de construir moradias do GMVV em locais onde a oferta de equipamentos públicos e serviços já não suportaria aumento de demanda ou mesmo nem existiria. Critica ainda o governo por ter entregue unidades com erros de construção causados pela pressa de construir e entregar, e também questiona a efetividade dos programas habitacionais chavistas ao afirmar que os resultados são os mais ínfimos comparados a outros períodos da “moderna Venezuela”: de 1999 a 2010 foi de 1,8 moradia para mil habitantes, em

54 AMORE, C. S; SHIMBO, L. Z; RUFINO, M.B.C. Minha Casa...E a Cidade? Rio de Janeiro: Letra Capital,

2015

55 Disponível em < http://www.talcualdigital.com/Nota/78728/una-mision-improvisada>. Acesso em: 18 set.

contrapartida aos números de 3 para cada mil entre 1959 e 1998 e de 5,3 de 1969 a 1978, segundo os números apresentados por Negrón.

Não obstante as afirmações em contrário, entendemos que, à luz do que foi apresentado até aqui, quanto às peculiaridades de cada programa, tratam-se, de fato, de 02 modelos distintos, criados sob diferentes contextos do ponto de vista econômico, social e político, com abordagens distintas quanto à atuação de cada governo.

Consideramos ter apresentado, nestes três capítulos até aqui, os antecedentes e as ações que desencadearam a realização das atividades de cooperação Brasil e Venezuela, no que se refere ao setor de desenvolvimento urbano e habitação, cabendo ainda aplicar ao caso a análise sob a ótica dos princípios da Cooperação Sul-Sul, conforme proposto no objetivo geral deste trabalho, o que passaremos a fazer em seguida.

4.5 A participação do Brasil no Gran Misión Vivienda Venezuela à luz dos princípios da