PRA FRENTE BRASIL (BLOCO TRANSPORTE)
89 BRASIL – MINISTÉRIO DA CULTURA – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E
2.2 A VIDA MARÍTIMA
2.2.1 Uma classe privilegiada
Como apontamos, o tema mais recorrente no documentário A vida marítima é a idéia de tutelamento das atividades dos portuários. Nesse sentido, a maneira como se aponta a atuação do principal sindicato, o Sindicato do Estivadores de Santos, é fundamental para compreender a caracterização dada às suas ações pelo filme.
Com o desenvolvimento da cidade e das atividades desenvolvidas pelo Porto de Santos, várias categorias profissionais foram se organizando com o propósito de lutar por seus direitos, salários e diminuição da jornada de trabalho. Segundo Olga Rodrigues (1979), essas reivindicações resultaram em inúmeras greves, especialmente a partir da década de 193095, ano da fundação do Sindicato
dos Estivadores de Santos. Fundado em 03 de dezembro, suas ações estiveram amplamente ligadas às iniciativas de melhoria dos serviços prestados pelo Porto, a fixação de condições de trabalho adequadas e a ampliação das conquistas trabalhistas da categoria. Seu quadro de filiados era composto por estivadores, trabalhadores portuários e funcionários das administrações portuárias; no caso da Cia. Docas de Santos.
Entre as décadas de 1950 a 1960, especialmente durante o surto desenvolvimentista da administração de Juscelino Kubitscheck, o Porto de Santos experimentou uma crescente ampliação na prestação de seus serviços. Como indica Carlos Pimentel Mendes (1992), essa ampliação ocorreu especialmente pelo incremento na comercialização de derivados de petróleo em função do criação das refinarias petrolíferas de Presidente Bernardes, em Cubatão, e União, em
95 De 1920 a 1934 dez jornais sindicais circulavam entre os diversos sindicatos da baixada santista: Tribuna
Proletária, 1920, Jornal do Chauffeur, 1921, O telegrafista, 1924, O Solidário, 1924, Ação Operária, 1925, O Comerciário, 1931, O Idealista, 1933, Estrela Azul, 1934, Ação Proletária, 1934 e O Estuário, 1934. RODRIGUES, Olga. História da Imprensa de Santos. Santos: A Tribuna, 1979.
Caçapava96. Igualmente, a opção pelo “rodoviarismo”, o aumento no tráfego de
veículos automotores e a instalação da indústria automobilística paulista a partir de 1957, elevou a aquisição de implementos industriais para a instalação das novas indústrias que chegavam ao país especialmente pelo porto santista.
Em face do crescimento significativo da atividade portuária, o Sindicato dos Estivadores de Santos, solidificou sua presença junto aos trabalhadores ao oferecer à crescente demanda dos serviços portuários um elemento essencial em suas atividades: mão-de-obra. Ao mesmo tempo em que organizavam as relações de trabalho no porto, conseguia garantir a fixação de taxas e serviços que retornavam em forma de salário e benefícios aos seus filiados. Essas taxas, entretanto, incidiam diretamente sobre o preço dos produtos comercializados pelo porto. Entendida pelo IPÊS em termos de benefícios exclusivos da categoria e de prejuízos para as relações comerciais através do porto, as atividades sindicais foram alvo específico do filme A vida marítima. Nesse sentido buscou-se desautorizar qualquer ação reivindicatória da categoria na manutenção das taxas portuárias. Essas foram compreendidas como a inseridas no contexto das “regalias” de que disfrutavam os trabalhadores portuários. A recorrência aos “altos salários” percebidos pela categoria é indicativa dessa caracterização.
A classe dos trabalhadores da estiva foi a primeira a ter regulamentado um sistema de aposentadoria e pensões. Criado pelo Decreto 22.872 de 29 de junho de 1933, o Instituto de aposentadoria e Pensões dos Marítimos – IAPS representou um avanço nas relações sindicais e uma conquista significativa para a classe dos trabalhadores ligados ao comércio marítimo. Visto como o resultado das demandas de seus trabalhadores, o IAPS possibilitou uma efetiva elevação na qualidade de
96 MENDES, Carlos Pimentel. Dez fases históricas. Disponível em:
<http://www.novomilenio.inf.br/porto/portoh06.htm> Originalmente publicado pelo autor em 4/2/1992 no jornal O Estado de São Paulo.
vida dos seus beneficiários, refletido especialmente nas aposentadorias e pensões recebidos pela categoria.
Entretanto, para A vida marítima, os salários e benefícios recebidos pelos marítimos possibilitavam uma leitura incomum de suas ações97. O filme sustenta
que os trabalhadores portuários estavam deslocados da realidade nacional e que seus salários e benefícios eram corrigidos acima da inflação do período e das expectativas dos trabalhadores comuns.
NARRAÇÃO: “O aumento médio da classe dos marítimos elevou- se a mil por cento em apenas nove anos”.
Numa inflação que atingia a marca de sessenta por cento ao ano, um índice de correção cumulativa como o dos pensionistas do IAPS soava à percepção ipesiana como um despropósito. Desse modo, a caracterização das imagens dos trabalhadores recebendo seus pagamentos, as pilhas de dinheiro amontoadas sobre a mesa, as notas sendo embrulhadas com papel jornal, se assemelham mais a um festim, cujo prato é o dinheiro público, do que a um caixa de pagamentos.
Fig. 10 Fig. 11
97 O áudio reforça a diferença entre os trabalhadores comuns e os estivadores que chegavam a ganhar cerca de
duzentos mil cruzeiros por mês; o mesmo valor pago à Golbery do Couto e Silva pelos serviços de coordenação do Grupo de Estudos e Doutrina.
Se isoladamente essas imagens poderiam supor uma apresentação que vangloriasse as iniciativas dos portuários, como sugere a narrativa do filme, na qualidade dos seus salários, no conjunto elas reforçam uma idéia contrária. Como apontamos, uma das principais características da propaganda política é a indignação. Nesse sentido, essas imagens buscam reforçar a noção de indignação da maior parte da população brasileira para a qual essas imagens apresentam uma realidade pouco comum com seu quotidiano. A narração faz asserções irônicas sugerindo que a noção de “felicidade”, comum para toda a classe de marítimos e portuários, é custeada pelos impostos incidentes sobre as mercadorias pagos pela população.
Entretanto, um dado relevante que observamos na análise desse filme foi o desconforto que o mesmo causou dentro do próprio Instituto. A característica irônica das asserções realizadas em A vida marítima, especialmente pela forma como abordou um assunto tão delicado como o comércio de mercadorias por via marítima, suscitou inclusive sua refilmagem. Em oito de janeiro de 1963, o Comitê Executivo de São Paulo, chegou a sugerir sua regravação; não realizada devido ao alto custo do intento (Anexo E; CE – SP, 08/01/1963).