2. A SEMENTE ENSINA A NÃO CABER EM SI
2.3 Uma experimentação brincante com a imagem
Como Manoel de Barros (2010) já disse em um de seus poemas “imagens são palavras que nos faltaram”. Como metodologia de caráter processual e que busca a experimentação, essa pesquisa encontra também nas imagens a potência da construção de narrativas.
No ano de 2016, realizei uma atividade inusitada com meus estudantes do 7º ano da E.B.M. Beatriz de Souza Brito, onde atuava como professor de ciências. Antes de desenvolver
o tema de “meio ambiente” com minha turma, propus um desafio fotográfico. Armados de seus celulares, os alunos vagaram pela escola em busca de flashes do que seria esse “meio ambiente” dentro do espaço escolar. Nesse primeiro momento não busquei conceituá-lo aos alunos, sendo uma impressão mais ou menos aproximada do que seriam seus “conhecimentos prévios” acerca desse termo.
As imagens, numa primeira mirada, trazem anatureza sem a presença humana. Apenas em uma delas (num total de 112 fotografias) há uma parte do corpo de uma estudante, no caso os seus pés. Entretanto, algumas construções e intervenções humanas, como parte do prédio da escola, as casas do bairro e mesmo um corredor, estão presentes em algumas fotos.
Tendo em mãos as fotografias desses estudantes do 7º ano, admito que o movimento inicial de compreensão desse material envolveu encontrar explicações, padrões e sentidos para essas imagens. Uma análise semiótica (PENN, 2002), por exemplo, constataria uma grande recorrência de árvores, arbustos e outras plantas, de fato imagens que poderiam ser consideradas “clichês” em meio às concepções de meio ambiente. As fotografias de flores foram abundantes nos registros dos alunos. Hibiscos, ipês, rosas e mesmo aquelas que o presente professor de ciências admitiria ter incerteza para classificar. Para um olhar desavisado, estas fotos também não necessariamente remetem ao imaginário de um espaço escolar, apesar de todas haverem sido obtidas nesse local.
Entretanto, não foi esse caminho analítico, que tenta esmiuçar e circunscrever qual “o significado” de cada foto, que busquei desenvolver como caminho de análise. Os processos que acompanharam a produção de cada fotografia e a multiplicidade de significados que delas saltam em sua leitura serão o alvo da nossa mirada investigativa. Quais são as potências, implícitas ou explícitas, que habitam essas imagens? Ao invés de explicar e dissecar seus significados, busquei transbordar a poesia dessas imagens, expandir seus sentidos e sensibilidades ao invés de circunscrevê-los.
Trabalhos como o de Conceição (2017) colocam como as imagens consideradas clichês, feitas a partir de conceitos como o de sustentabilidade, podem ser reelaboradas através da construção de novas narrativas. Conceitos os quais têm uma significação tão diversa (e, por vezes, indigesta) dependendo do interlocutor. Guimarães e Silveira (2014) apresentam a possibilidade de reconfiguração e reinterpretação dos clichês, tendo como ponto de partida os repertórios culturais e as experiências cotidianas que carregamos ao nos encontrarmos com uma imagem. Os autores nos provocam com uma inquietante pergunta: as imagens atuam? Tomando
como afirmativa a resposta a essa pergunta, como responder ao fluxo de sua força que muitas vezes nos é impossível estancar?
Guimarães (2015) coloca como a imagem no desenho esquemático, tradicionalmente entendido como escolar, exige que esta seja ofertada de forma que os alunos compreendam, absorvam, quase sem o exercício criativo do pensamento, de modo claro, límpido, transparente, a mensagem que está sendo ensinada. O autor nos questiona: como pensar a fotografia sem a clausura que seu dispositivo aprisiona? O poema XIX de Manoel de Barros (2016), que compõe a série “Uma Didática da Invenção”, é inspirador quanto a essa colocação, em especial ao refletirmos sobre o que as imagens podem provocar aos diferentes sujeitos:
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem. (BARROS, 2016, p. 20)
Quantas vezes a pedagogização da imagem pode empobrecê-la e enclausurá-la? A presente pesquisa se inspira nas reflexões de Guimarães e Codes, que assinalam que “o uso das imagens não se restringe a uma dimensão apenas estética, mas também em suas capacidades de movimentar afetos” (2014, p. 252). Longe de buscar “encaixotá-las” em categorias estanques, o que essas imagens nos despertam? Quais narrativas poéticas estariam presentes? O que elas propõem no movimento de escrita sobre o meio ambiente da escola? As fotografias também podem ser formas de narração, em especial ao aliar-se a uma linguagem poética, tal como proposto por Krelling (2013). A fotopoesia, por exemplo, pode ser entendida como uma forma de texto e imagem dialogarem poeticamente (SILVA, L., 2016), de modo a produzirem mais sensações nos campos estéticos e sensíveis do que levarem a obedecer a uma finalidade informativa.
As 11 fotografias utilizadas nos dois experimentos fotopoéticos que serão apresentados adiante foram escolhidas de um total de 112 imagens. São essas as imagens que movimentaram de forma mais intensa meus afetos. Imagens que afetaram meu corpo, impulsionando-me a criar, inventar, permitir o devaneio... Tal como Guimarães (2013) destaca, há uma relação íntima que entre imagens e narrativas:
Imagens evocam narrativas que, por sua vez, propiciam a invenção de outras imagens. Essa relação íntima entre imagem e narrativa potencializa uma ampliação das possibilidades de ver, por exemplo, a sala de aula no ensino das ciências. (GUIMARÃES, 2013, p. 117)
Leite (2016) é mais uma autora inspiradora nesse sentido, pois, em sua pesquisa de doutorado, realizou entrelaçamentos potentes entre ficção, fotografia e educação, tendo como base teórica os conceitos de perceptos e afectos desenvolvidos na obra de Deleuze e Guattari (1992). Tal como a autora aponta, a fotografia é movida pelos planos dos perceptos e afectos: é o que percebemos e, simultaneamente, o que nos afeta e nos toca. Dessa forma, mudei a ideia inicial de que não existia nada dos meus estudantes nessas fotos, para a constatação de que há
tudo dos mesmos nelas. Passei a entender que a leitura da imagem não pode e não pretende ser
homogeneizada, é possível pensar numa educação que perpassa as imagens através do olhar atento e do atravessamento das subjetividades. Como questiona Leite:
[...] será que não há outra possibilidade de se pensar a Fotografia na Educação sem ter que responder: Por que a Fotografia é útil para a Educação? Qual é a sua função dentro dos processos de ensino e aprendizagem? Como a fotografia é usada em sala de aula? Ou ainda, de que forma esta pesquisa poderá ser aplicada na escola ou em cursos de graduação, como por exemplo, o curso de Pedagogia? E a ficção, segue apostando encontrar fissuras para dialogar com a pedagogia... (LEITE, 2016, p. 60)
O ponto de flexão é compreender a potência que essas imagens7 podem trazer na criação de ficções e na multiplicação das reflexões sobre o ambiente, a cultura, o espaço escolar e a educação. Pensamentos que o Experimento Fotopoético “Ser ambiente(?)”, adiante, dispararam-me.
7 Com exceção dos experimentos fotopoéticos que serão apresentados a seguir, optou-se por não colocar legendas
nas imagens que estão presentes nesta dissertação. Isso foi uma escolha proposital para que se possibilitasse uma abertura maior para que o leitor ou leitora pudessem dar seus próprios sentidos às imagens. Contudo, informações como: 1) descrição do espaço onde foi tirada a imagem, 2) autor ou autora da fotografia e 3) número da página onde está presente, encontram-se na lista de imagens no início desta dissertação.
Figura 1. Duas fotografias tiradas por duas estudantes distintas do 7º ano da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito no ano de 2016.
Experimento Fotopoético “Ser ambiente (?)”. Série de fotografias feitas no ano de 2016 por quatro diferentes estudantes de 12 a 13 anos de idade, todos pertencentes ao 7º ano do ensino fundamental da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito, em Florianópolis. Texto de autoria do presente professor-pesquisador.
Brotamentos, incessantes...
Brotamentos, incessantes...
Figura 2. Três fotografias tiradas por duas estudantes distintas do 7º ano da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito no ano de 2016.
Rios de céu
Rosa decomposto
Figura 3.Duas fotografias tiradas por dois estudantes distintos do 7º ano da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito no ano de 2016.
E um olhar sem sossego
Solidões em caminhos
No experimento fotopoético “Ser ambiente (?)” busquei criar, a partir dessas fotos de diferente alunos e alunas, algum tipo de narrativa reinventada. Quais caminhos elas e eles trilharam pela escola para tirar essas fotos? Como foi seu processo de explorar aquele espaço talvez já acomodado (ou não) às suas percepções? Essas suas fotos me remeteram a um exercício de redirecionamento do olhar. É olhar o céu, as alturas e seus infinitos, porém também o chão e suas profundidades. Um ambiente que transborda os limites imaginados do aqui e do agora. A imagem do trecho “Escola de passarinho-criança” tem diferentes universos e planos em interação, traz a casa da ave joão-de-barro, escondida diminuta e discretamente num dos galhos da árvore seca, como também as casas do bicho-gente ao fundo, que é a vizinhança do bairro do Pantanal em Florianópolis. As escalas do que pode ser considerado o “ambiente” de cada um são imensas, porém serão estas distâncias intransponíveis?
Já no Experimento Fotopoético “Belezas Daninhas”, a seguir, vi-me repensar o que significaria pertencer ou não a um ambiente.
Figura 4.Fotografia tirada por uma estudante do 7º ano da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito no ano de 2016. Experimento Fotopoético “Belezas daninhas”. Fotografias tiradas no ano de 2016 por quatro distintas estudantes de 12 a 13 anos de idade, todas pertencentes ao 7º ano do ensino fundamental da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito, Florianópolis. Texto de autoria do presente professor-pesquisador.
Figura 5. Três fotografias tiradas por um trio de estudantes do 7º ano da Escola Básica Municipal Beatriz de Souza Brito no ano de 2016.
É a fúria de serem belezas ...proliferam em recantos improváveis ...que resistem, insistem.
De acordo com o dicionário on-line Priberam8, daninho significa: 1) Que causa danos e estragos; 2) Que prejudica; 3) Com péssimas qualidades morais. Curiosamente, são muitas dessas plantas taxadas de “daninhas” que podem ser alimentícias não-convencionais e fontes de medicina e saúde. Entretanto, há dentro dessa categoria outras espécies altamente tóxicas ao paladar humano, assim como louváveis plantas nativas ou temíveis espécies exóticas ao bioma da mata atlântica, discretas inflorescências ou viçosas ornamentais, etc. Um conjunto de diversidades que costuma ser rotulado por uma só palavra. Ressignifico essa palavra como simbologia de subversão e incômodo, que não pode ser podada ou controlada por mãos humanas, um verdadeiro caos que a vida gera e prolifera. Fazendo um exercício de deslocamento, assim como existiriam plantas daninhas, existiriam também ideias daninhas, indivíduos daninhos, poéticas daninhas? Quais vínculos possíveis entre essas (bio)diversidades e as subjetividades pulsantes que existem numa escola?
São essas ervas daninhas que rompem com a lógica de homogeneização do gramado, símbolo da pasteurização dos modos de vida. Colomina (2017) apresenta como o american way
of life esteve intimamente associado a concepção de um quintal gramado que necessita ser
cuidado. Os equipamentos bélicos da 2ª guerra mundial, dentre eles máquinas, venenos e outros produtos químicos, foram reorganizados no sentido de manterem um belo gramado para a típica família norte-americana. Como ressalta a autora, “as técnicas de guerra mais temidas haviam se transformado em estratégias domésticas, sendo o próprio gramado o local de uma espécie de guerra” (COLOMINA, 2017, p. 96). A escolha pela grama como um modelo absoluto implicou também na agressão contra outras naturezas ditas daninhas, selvagens, desordeiras e desajustadas. É a aniquilação da diferença como forma de limpeza ambiental e, paralelamente, social.
Afinal, que histórias podem brotar de cada uma dessas imagens? São olhares que divagam e se reinventam... Busco exercitar esse potencial das imagens gerarem ficções e assumir elas como fuga do ideal de imagem como representação da realidade. Como essas fotos trazem a questão ambiental de forma mais próxima e afetiva para com os estudantes? Como elas problematizam, por exemplo, a diferença e a multiplicidade que está presente nos próprios estudantes, refletida nos seus singulares olhares para esse espaço? Questões que seguramente não terão respostas fáceis ou imediatas.
A atividade de fotografar o “meio ambiente” dentro da escola permitiu, tanto a mim quanto aos estudantes, explorar recantos esquecidos deste espaço. A intervenção artística de nome “Narrativas intempestivas: quantos gritos cabem no silêncio?”, feita pelo coletivo do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) - Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina, de maneira aproximada, procurou a potência narrativa e poética nesses espaços ocultos aos olhares desatentos, porém sua aproximação se deu com uma multiplicidade de objetos descartados, o chamado lixo, que estava presente pela escola9. Como colocam os autores dessa experimentação:
Fomos convidados/as pela escola a pensar uma intervenção sobre o lixo. Fotografamos objetos descartados que estavam vivendo no pátio da escola. A partir das imagens, e junto com elas, produzimos breves narrativas sobre suas personagens, os objetos descartados, que nos contaram um pouco sobre a vida que levavam; tinham muito por contar: por vezes evocavam memórias alegres da juventude, mas também revelaram seus desejos mais íntimos para o futuro. Nossa percepção destes objetos descartados estava sendo perturbada. Para contar estas histórias, e compartilhar esta perturbação, construímos uma exposição nos corredores da escola. Nesta exposição, as crianças e jovens foram convidados/as a escrever. O espaço que lhes destinamos para a escrita foi pouco, enchendo-se rapidamente de rabiscos e piXações insurgentes. A série de imagens que publicamos ao lado é a gambiarra criada a partir dos artefatos construídos ao longo do percurso, que ainda não paramos de percorrer. (Apresentação da exposição no site da Revista Climacom)
Tomando também como inspiração a frase “A semente ensina a não caber em si”, título deste capítulo, reflito como o ambiente também não cabe em si. Ele é capaz de germinar infindas potencialidades de criação e invenção. O ambiente pode ser tão múltiplo quanto os diferentes seres que o perpassam, sejam eles humanos ou não. Outra consideração fundamental foi perceber que talvez não seja mais urgente compreender o ambiente em si “representado” pela fotografia, mas sim as subjetividades dos alunos que estão por trás da câmera, que estão a moldar continuamente essas percepções do ambiente.
Guimarães (2008) apresenta duas pesquisas do Grupo Tecendo que são inspiradoras no campo da educação ambiental, realizadas nas localidades de um bosque urbano em Florianópolis (SC) e um parque de Palhoça (SC). Duas pesquisadoras desse coletivo realizaram uma série de intervenções pedagógicas com os sujeitos com os quais dialogavam, no caso estudantes de ensino fundamental e moradores do bairro. Guimarães disserta sobre a importância de valorizar as narrativas inventivas que os sujeitos realizam ao experienciar esses
9 Uma apresentação da exposição e as fotografias realizadas pelo grupo podem ser acessadas no site da Revista
Climacom. Acesso pelo link a seguir, realizado na data de 01/11/2018: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=7236
ambientes. Apesar de haver uma intencionalidade nas atividades narrativas que foram desenvolvidas, no caso tatear como as individualidades percebiam e se relacionavam com esses espaços, “pretendeu-se deixá-las abertas, possibilitando outras experiências que fossem além da intencionalidade” (GUIMARÃES, 2008, p. 22). Dessa forma, criavam-se espaços em aberto para o emergir das criações e inventividades narrativas vindas desses sujeitos.
Ao trazer as fotografias impressas de volta aos estudantes, ainda no ano de 2016, recordo que esse reencontro com as imagens foi um momento extremamente prazeroso e feliz para eles. Mesmo sendo uma turma às vezes taxada de “difícil” e “indisciplinada”, sentiram que suas produções (e, talvez mais importante, seus olhares) haviam sido valorizados e reconhecidos. Assim, a exposição de suas fotos através de um cartaz no espaço escolar foi motivo de orgulho para os jovens que participaram da atividade.
Como será melhor detalhado no capítulo 4 dessa dissertação, aproximadamente dois anos após essa atividade com as fotografias, trouxe-as novamente a essa mesma turma de estudantes, agora no 9º ano do ensino fundamental. Quais foram as possíveis experimentações narrativas a serem (re)feitas por eles? Que tipo de invenções puderam ser arquitetadas a partir das imagens apresentadas? Como elas nos fazem vislumbrar as teias que conectam a arte, o ambiente e as diferenças nessa escola em particular? Questões que vicejam e proliferam nas educações ambientais “outras” que buscam habitar esse ambiente-escola.