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Uma longa história de objetividade e subjetividade

No documento Música, Razão e/ou Emoção (páginas 136-144)

Dedicatória e agradecimentos

8 O palco do cérebro

8.1 Teatro anatómico

8.1.1 Uma longa história de objetividade e subjetividade

Os historiadores sugerem que a primeira vez que uma designação relativa ao cé- rebro surge data de cerca de 3.000 anos a.C. e terá origem egípcia. Algumas des- sas referências, como as convoluções (“metal corrugado” (Finger 2001)) estarão no The Edwin Smith Surgical Papyrus (O Papiro Cirúrgico de Edwin Smith), ad- quirido em 1862 na cidade de Luxor por Edwin Smith81, quando se pensava que

foi Alcmeão de Crotona82 a primeira pessoa a escrever sobre o cérebro (Finger

2001).

São Tomás de Aquino disse que Aristóteles (século IV a.C.), que realizou vivis- secções de animais vivos, propôs que o coração era o órgão mais importante e aquele que estava envolvido com a origem e a expressão das emoções (Martensen 2004) e considerava o cérebro um órgão secundário, que servia como um sistema de arrefecimento do coração e onde o espírito circulava livremente. O espaço onde os espíritos se encontravam seria o sensus communis, a origem do termo senso comum. Postulou que não há nada no intelecto que não haja nos sentidos. Entretanto, Herófilo de Alexandria83 anatomista grego, conhecido como pai da

anatomia, é acusado de ser protagonista, juntamente com o seu contemporâneo Erasístrato de Chio84 de uma das maiores controvérsias da história da anatomia:

ter realizado vivissecções de seres humanos vivos. (Finger 2001; Bay e Bay 2010) Herófilo deu um papel aos ventrículos, tendo colocado a alma no quarto. Pensa- se também que foi nesta época alexandrina que se produziram as primeiras ilus- trações anatómicas (Clarke, Dewhurst, e Aminoff 1996).

Por volta do século segundo, Rufus de Éfeso85 descreve o cérebro e suas partes,

os nervos, o olho e suas partes, designando o quiasma ótico de chi86, (Bergman e

Afifi 2016) atribuição possivelmente baseada na sua forma em X, e insistiu na pragmatização de uma nomenclatura clara para a anatomia (Bujalkova 2011).

81 1822–1906. Edwin Smith foi egiptólogo. 82 Século V a.C.

83 335 a.C.–280 a.C. 84 310 a.C.–250 a.C. 85 c. 70 d.C.–c. 110 d.C.

Galeno87, o maior anatomista da Antiguidade, que estudou sobretudo animais,

não alinhava pelas ilustrações porque achava que a observação direta lhe daria informações mais claras e objetivas sobre as estruturas e as suas relações. Os ventrículos foram vistos como células na Idade Média e fundamentaram a doutrina da célula nos séculos quarto e quinto. As várias cavidades acomodavam várias funções. Por exemplo, a primeira célula estaria relacionada com o sensus communis e a imaginativa. A segunda estaria relacionada com aestimativa e cogitativa. A terceira com a memorativa. (Clarke, Dewhurst, e Aminoff 1996) Esta doutrina durou muitos séculos, pois já estávamos em 1619 quando Robert Fludd88 publicou Tomus Secundos De Supernaturali, Naturali, Praernaturali et

Contranaturali Microcosmi história, in Tractus tres distributa (Tomo Segundo Da história do Microcosmos Supernatural, Natural, Para além do Natural e Contranatural: distribuído em tês Tratados) (Fludd 1619), onde esta essência conceptual ainda estava patente. Mas a conceção de Fludd ainda inclui sugestões mais inusitadas e imaginativas, como a correlação entre as células, endo-sistemas, com o exterior, exo-sistemas.

87 199 a.C.–129 a.C. 88 1574–1637.

Fig. 15: A conceção de Robert Fludd sobre o cérebro em 1619.

Podemos ler as suas várias propostas sobre as funções de carácter endógeno, mas também a possibilidade de estas terem uma relação com o universo exterior (Fludd, 1619).

Mas antes de Fludd, Leonardo da Vinci89 tinha sido mais pragmático e a suas

observações anatómicas diretas levaram-no à produção de algumas das ilustra- ções relevantes da história da anatomia. Por essa altura também Andreas Vesalius90 publica De Humani Corporis Fabrica91(Bataille et al. 2007; Vesalii

1543) também com ilustrações que se tornaram referência na história do acesso à arquitetura do cérebro. Contudo, estas ainda mais mimésis-absoluta, conquanto Leornardo, que também era artista, denotava em algumas das suas representações especulação sobre a caracterização das funções.

89 1452–1519. 90 1514–1564.

Fig. 16: Diagramas de Leonardo e Vesalius.

À esquerda um dos desenhos de Leonardo da Vinci (n/d).

À direita uma das representações em De Humani Corporis Fabrica Libri Septem (figura 8, pag. 613) de Andreas Vesalius, que denota um corte pelas convoluções e exposição do cerebelo.

Curiosamente, não se sabe muito bem quem ilustrou a obra de Vesalius. O que se sabe é que ele disse. O’Malley, (Clarke, Dewhurst, e Aminoff 1996, 53) cita-o assim:

Já não vou ter que alinhar mais com o mau humor de artistas e escultores, que me fizeram mais miserável do que os corpos que eu estava dissecando.

É no já no século XIX, em 1844, que aparece uma das obras mais significativas da história da anatomia: o Traité Complet de l’Anatomie de l’Homme Comprenant la Médecine Operatoire92, obra em 8 volumes considerada magnífica

pela Société des Beaux-Arts de Paris93 (Annales, 1854), publicada pelo anato-

mista francês Jean-Baptiste Marc Bourgery94, mas iluminada pelo artista Nicolas

92 Tratado Completo de Anatomia do Homem Compreendendo a Medicina Operatória. 93 Sociedade de Belas-Artes de Paris.

Henri Jacob95, também francês, para a qual produziu 725 pranchas litografadas,

num total de 3.750 figuras individuais, de uma acuidade mimética invulgar96.

Fig. 17: Ilustração de Nicolas Henri Jacob para o tratado de anatomia de Bourgery.

Traité Complet de l’Anatomie de l’Homme Comprenant la Médecine Operatoire, Tomo III, prancha 22 (Bourgery, 1844)

Ainda no início do mesmo século ideias de localização cortical começaram a ter uma atenção mais elevada por parte da comunidade científica. É por essa altura que aparece a Frenologia, uma proposta que correlacionava as faculdades men-

95 1782–1871.

96 Henry Grey (1827–1861), também publica, em 1858, a primeira versão da que viria a ser uma das

tais, o carácter dos indivíduos com sítios do cérebro, mas através das protube- râncias e geometria do crânio — ancorava-se também numa visão etnológica — tendo por um dos seus grandes defensores e divulgadores Franz Joseph Gall97.

O mapeamento era tão especulativo que, a exemplo, propunha nas zonas dos olhos as faculdades de linguagem e cálculo. Estas propostas mantiveram-se no ativo até ao início do século XX, apesar das grandes descobertas, entretanto feitas, e da refutação por parte de cientistas98.

Entretanto, a precisão anatómica cortical é elevada ainda no século XIX por Louis Pierre Gratiolet99, que realiza as primeiras descrições precisas dos lobos e

fissuras cerebrais e circunvoluções. Distinguiu também zonas primárias e secun- dárias baseadas na sua aparência filogenética e adotou a terminologia do fisiolo- gista alemão Friedrich Arnold100 sobre a divisão do cérebro em frontal, parietal,

occipital, temporal e insular, mais tarde descritas com bastante acuidade e deta- lhe por Alexander Ecker101 (Ribas 2010).

O seu trabalho ainda teve impacto em Paul Broca102, cirurgião e antropologista,

que descreveu pela primeira vez relações topográficas craniocerebrais, introdu- zindo o conceito de localizações cerebrais, entre as quais a área de Broca, relativa à área motora da fala, pelo que é conhecido (Ribas 2010). Broca também defendia alguma relação entre tamanho dos cérebros e a inteligência, uma tese rebatida por Gratiolet (Ribas 2010; Parent 2014).

Já no século XX, em 1909, Korbinian Brodmann103 parcelou o córtex e estudou

os sulcos e as convoluções com particular detalhe descrevendo as suas caracte- rísticas citoarquitectónicas e mieloarquitónicas. É a ele que se deve a parcelação em 52 partes corticais, que passaram a ser conhecidas como áreas de Brodmann.

97 1758—1828.

98 Devemos referir que, independentemente desta aproximação, Gall tinha conhecimento dos constituintes

interiores do cérebro e do seu potencial de organização (circunvoluções, etc.), pois uma sua publicação de 1810 isso sugere (Gall e Spurzheim 1810).

99 1815–1865. 100 1803–1890. 101 1816–1887. 102 1824–1880. 103 1868–1918.

Foi um dos grandes contributos para o entendimento moderno do cérebro (Clarke, Dewhurst, e Aminoff 1996).

Há muito que se andava a mexer no cérebro para se tentar perceber a que áreas corticais, entre as convoluções e os sulcos, poderiam estar correlacionadas com áreas e membros do corpo. E tendo havido alguns contributos dos cientistas que o precederam é Wilder Graves Penfield104 (Penfield e Boldrey 1937) que, já tendo

em mãos técnicas de estimulação elétrica mais sofisticadas, estuda em mais de- talhe esse tema, pela via de estimulação intracortical. Em 1937 publica um dos mais famosos estudos do século XX relativo a essa problemática, onde desvenda o Homúnculo105 (1937, 432).

Pelo meio, Claude Bernard106, o maior e mais inflexível promotor do método

científico na medicina do século XIX (LaFollette e Shanks 1994), mostrou-nos a importância da neuroquímica e sugeriu o conceito de sinapse quando revelou, por via da vivissecção, como algumas substâncias químicas107 tinham efeitos es-

pecíficos sobre parte do sistema nervoso, mas ao nível de uma interface entre o nervo e o músculo (Bennett 2014). O termo sinapse, e uma descrição mais ela- borada e consentânea com uma conceção próxima da atual foi, entretanto, pro- posto por Charles Scott Sherrington108 em 1897 na publicação A Text Book of

Physiology109 (Foster 1897; Bennett 2014).

Ainda de extrema relevância, Santiago Ramón y Cajal110 traz-nos mais conheci-

mento fundamental pela via de uma descodificação mais precisa dos constituin- tes que são os grandes protagonistas do fenómeno químico e elétrico: os

104 1891–1976.

105 Que tivemos oportunidade de ver no subcapítulo 2.2.2. Homúnculos. 106 1813–1878.

107 Fez experiências com curare, uma substância que tem uma ação paralisante sobre a sinapse

neuromuscular. Parece ter sido Walter Raleigh o primeiro europeu a ter conhecimento da ação do curare quando em 1595, na sua expedição à América do Sul, na região do Orinoco e Alto Amazonas, obteve dos índios uma pequena quantidade (Silva Jr 1945).

108 1857–1952.

109 Um Livro de Texto de Fisiologia. 110 1852–1934.

neurónios. Em 1887, por sugestão de Luis Simarro Lacabra, psiquiatra e interes- sado na investigação histológica mostrou tecidos com coloração pelo método de Camillo Golgi111112.

Cajal publicou mais de 100 artigos e ainda escreveu Reglas y Consejos sobre Investigacion Cientifica113, onde aborda métodos e novas tecnologias suas con-

temporâneas. As suas sínteses diagramáticas são fundamentadas pela Fotomicrografia que estava ao seu alcance114.

Fig. 18: Neurónios ilustrados por diferentes métodos.

À esquerda, uma ilustração síntese focada de um neurónio piramidal.

À direita fotomicrofotografia que denota o neurónio de uma criança impregnadas de coloração Golgi (Museu Cajal, Instituto Cajal, Madrid, via Nobel Prize ORG)

As observações de Cajal também potenciaram o conhecimento dos tratos (cabos axonais) e das ligações entre regiões cerebrais e de conceções sobre lógica de rede e funcional entre áreas cerebrais e entre estas e o corpo que, entretanto, se esta- vam a materializar. Paul Emil Flechsig115 foi um dos protagonistas desse tema,

111 1843–1926.

112 Prémio Nobel partilhado com Cajal (Nobel Prize ORG) 113 Regras e Conselhos sobre Investigação Científica.

114 Referido em: («The Nobel Prize in Physics 1936» sem data). 115 1847–1929.

tendo realizado diagramas que denotam esses conceitos, pela via de representa- ções-mimésis abstratas (Flechsig 1883; 1896).

Fig. 19: Abstrações diagramáticas de conexões cerebrais.

Imagem da esquerda: abstração das conexões inter-cerebrais e projeções para a medula, em corte sagital por Flechsig em (1893). Imagem da direita: abstração das conexões inter-corticais e síntese anatómica por Flechsig (1896). Repositório em archive.org.

No documento Música, Razão e/ou Emoção (páginas 136-144)