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3. DA INVENÇÃO DO RÁDIO AM À CONVERGÊNCIA DE MÍDIAS

3.1 O rádio AM no Brasil

3.2.3 Uma nova ameaça: o FM

Em 1933, Edwin Armstrong tinha desenvolvido a frequência modulada, ou FM, como resposta à estática. Quando a América entrou na guerra, Armstrong pediu ao Exército e à Marinha que adotasse a FM como seu sistema de comunicação. A comunicação sem estática deu aos aliados vantagem em relação aos alemães com seus walk-talks em AM. A FM ajudou a vencer a guerra. (Radio: Out of Thin Air, 1997)

O engenheiro eletricista americano Edwin Armstrong conseguiu provocar uma variação de frequência de onda em dois sentidos no mesmo ritmo alcançado pela frequência do som, e provar a existência das ondas de FM. A AM se limita a modular a amplitude de onda portadora de forma idêntica à amplitude das vibrações sonoras transmitidas, sem acompanhar a frequência. A descoberta, patenteada em 1933, passou a ser amplamente utilizada anos mais tarde por conta, em parte, do acúmulo de rádios AM no ar, o que congestionava o espectro e impossibilitava a abertura de novas concessões.

Dessa forma, o aparecimento da frequência modulada solucionou a questão dos ruídos do AM e permitiu a concessão de novos canais de radioemissão. Com relação à TV, o FM possibilitou o aprimoramento a transmissão sonora da tecnologia de som e imagens. A qualidade do som melhorou estrondosamente, porque a FM trazia o som stereo, ultrapassando o som mono da AM. A nova tecnologia penetrou os espectros do Brasil na década de 1960.

O surgimento da nova frequência e de novas emissoras foi acompanhado por um outro avanço. Em 1954, surgiram os aparelhos com transístor, componente eletrônico que desvinculou o rádio da energia elétrica – e possibilitou a sua portabilidade. Desenvolvido pelos engenheiros dos laboratórios Bell, eles substituíram a válvula eletrônica, o que permitiu a fabricação de aparelhos mais leves, mais finos, mais baratos, e que gastavam menos energia.

46 O rádio, agora, podia ser abastecido por meio de pilhas. Na montagem de estações de rádio e televisão, o transístor também foi útil para, além de economizar energia, tornarem-se mais compactas.

A tecnologia tornou os rádios mais portáteis do que nunca, e eles saíram das salas e dos automóveis para serem carregados pelas mãos dos ouvintes, acompanhando-os aonde quer que fossem. Já não era necessário estar preso a um cômodo. Com receptores de fácil portabilidade, a FM se multiplicou e contribuiu para o crescimento da audiência. Com esses avanços, o aparelho sonoro que já não tinha tanto prestígio nas casas de família, porque havia sido ultrapassado pela TV, ganha novo significado. Com um design mais moderno, ele entra no dia a dia da população novamente com uma programação bem diferente da do início do AM.

Na década de 1970, no entanto, o rádio cessa as inovações. A última novidade que surgira na época eram os aparelhos híbridos, que davam ao consumidor ferramentas não só sintonizar nas duas modulações, como também ouvir discos e fitas cassete: os três em um (toca-discos, toca-fita e rádio).

Podemos indicar essa como uma das primeiras iniciativas de desenho de conteúdo personalizado pelo ouvinte a partir da programação da emissora – já que gravando em fita excertos da programação que ia ao ar, o ouvinte construía uma

“programação” própria, que mantinha a identidade da emissora através das vinhetas, mas constituindo uma proposta do ouvinte para aquele conteúdo. Esta lógica reforça ainda mais a função de jukebox incorporada pelas emissoras FM a partir deste período, o que seria replicada anos depois com veiculação online de conteúdos transmitidos em antena. (KOCHHANN, FREIRE E LOPES, 2011, p. 6)

Segundo Kischinhevsky, quando a FM surgiu, houve uma busca pela aproximação da estética televisiva. Ao contrário das AMs, que sempre tiveram – e mantiveram – uma aproximação com o popular, e o uso dos sotaques regionais. Já no FM, mesmo com um alcance melhor, houve uma busca pela homogeneização “com seus apresentadores assumindo, por toda parte, um estilo tipicamente carioca de locução” (KISCHINHEVSKY, 2007, p. 24).

Isso era feito com base na indústria cultural, a mesma que ditava as playlists que as rádios tocavam. Elas eram distribuídas pelas gravadoras às emissoras e determinava o sucesso ou fracasso dos artistas.

Não demorou para surgir uma corrente que iria contra esse modelo padronizado das FMs. Eram as chamadas “rádios alternativas”, que faziam oposição ao maistream e tocavam

47 músicas fora do circuito comercial. O movimento era uma reprodução “pálida”, como caracteriza o Kischinhevsky, o que acontecia nos Estados Unidos e na Europa.

De qualquer forma, o ouvinte começava a selecionar o que queria ouvir não só mudando de estação. Ele gravava em fita cassete a programação ou a música, que se tornavam conteúdos disponíveis. A forma de consumo e de comportamento mudam e o ouvinte vai na contramão do que se via no início do rádio no Brasil. A reunião das famílias ao redor do aparelho de som para ouvir a programação desaparece. A partir da década de 1980, principalmente, o consumo pelo serviço passa a ser cada vez mais individual e em diferentes modelos de aparelho – além do radinho de pilha convencional, surgiram o boom box (com som de alta potência) e os tocadores de áudios portáteis como o walk man.

Do AM ao FM, a música conquistou espaço e foi fundamental para a formação da música popular brasileira e para a valorização de músicos, cantores e compositores, bem como responsável por influenciar comportamentos e hábitos de ouvintes. Contudo, a relação rádio-músico se inverteu ao longo da história. Enquanto no século 20, para se começar a ter sucesso era necessário tocar no rádio, ou seja, emissoras lançavam e agregavam prestígio aos músicos, após o surgimento de novas mídias de divulgação como a TV e, principalmente, a internet, o artista utiliza de outros meios para conquistar reconhecimento, vender discos e ganhar fãs (ou seguidores). Para, depois, tocar no rádio. Mas, ainda assim, ter um espaço em uma emissora radiofônica é sinônimo de sucesso. Em Radio in The Television age, Peter Fornatale e Joshua E. Mills comentam essa mudança ocorrida na segunda metade da década de 1950:

“A relação entre as companhias gravadoras e as estações de rádio tornou-se mutuamente benéfica. Fornecendo os últimos lançamentos, as gravadoras proporcionam custos menores para as estações de rádio. As emissoras, de sua parte, proporcionam às gravadoras o equivalente à publicidade gratuita.” (FERRARETTO, 2007, p. 10)

Contudo, com o surgimento do rádio FM, o AM precisou de buscar programações alternativas. A música na amplitude modulada já não era tão interessante, então, essas estações mergulham de cabeça em programas informativos e passam a se preocupar em prestar serviços de utilidade pública, como meteorologia e informações de trânsito.

48 A fim de estruturar o FM, em 12 de novembro de 1998, foi criado o Regulamento Técnico para Emissoras de Radiodifusão Sonora em Frequência Modulada (RTFM) por meio da Resolução nº 67 da Anatel, o qual rege o funcionamento do serviço.

As vantagens que o FM apresentava no passado, continuam atraentes atualmente e motivam a migração. Com uma questão a mais: possibilidade de estar presente em diferentes plataformas. De lá para cá, nada mudou nesse sentido: aparelhos rudimentares de AM consomem mais energia, a escassez de se encontrar equipamentos no mercado os encarecem e está cada vez mais difícil se manter competitiva no mercado.