ENQUADRAMENTO TEÓRICO
CAPÍTULO 3 – EMPREGABILIDADE OU A ADAPTABILIDADE PROACTIVA NO TRABALHO
3.4 Uma nova concepção de empregabilidade
3.4.1 A empregabilidade disposicional em Mel Fugate
Fugate apresenta em 2006 uma nova elaboração e extensão do trabalho inicial (Fugate et al., 2004). Esta nova proposta salienta a perspectiva disposicional da empregabilidade, definida enquanto uma constelação de diferenças individuais que predispõem os indivíduos para a adaptabilidade (pró)activa específica do trabalho e da carreira, facilitando a identificação e concretização de oportunidades de trabalho e de carreira dentro e entre organizações. Deste modo, trata-se de uma disposição que reúne características individuais que fomentam comportamentos adaptativos e resultados de emprego positivos, facilitando igualmente a identificação de oportunidades e de aprendizagens e mudanças pessoais necessárias para se ser bem-sucedido (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008).
Alguns investigadores têm vindo cada vez mais a reconhecer a importância da iniciativa e da proactividade dos indivíduos, razão porque a empregabilidade disposicional engloba tanto as características pessoais reactivas como proactivas. Tal significa que além da capacidade para se adaptar reactivamente a exigências conhecidas, indivíduos empregáveis tendem a manifestar uma prontidão contínua para a mudança, preparando-se antecipadamente para mudanças ou ameaças específicas,
conhecidas ou prováveis, ao invés de esperar que uma mudança ou exigência ocorram (Fugate & Kinicki, 2008).
De acordo com Fugate e Kinicki (2008) existem duas razões que justificam o estudo da empregabilidade como uma disposição. A primeira refere-se ao facto de a actual turbulência nos meios de trabalho tornar mais relevante a abordagem disposicional na compreensão da forma como os trabalhadores se adaptam às mudanças no trabalho. Em segundo lugar, o termo empregabilidade tem sido invocado na literatura de diversas áreas, o que tem conduzido a críticas quanto à clareza e à precisão na definição e na aplicação deste conceito. Para estes autores, esta definição de empregabilidade disposicional é mais precisa, dá resposta a estas críticas e baseia- se no indivíduo.
Fugate (2006) define seis dimensões críticas e representativas da natureza activa e adaptável da empregabilidade: abertura a mudanças no trabalho, resiliência no trabalho e na carreira, proactividade no trabalho e na carreira, motivação na carreira, capital humano e social e identidade de carreira. Numa proposta mais recente, Fugate e Kinicki (2008) circunscrevem a cinco dimensões que consideram especialmente críticas e representativas da natureza activa e adaptável da empregabilidade disposicional, excluindo do conjunto anterior a dimensão capital humano e social e passando a adoptar a designação “identidade de trabalho” ao invés de “identidade de carreira” (Figura 3.6). Para ser seleccionada, cada dimensão necessitava de estar conotada com uma orientação activa, ser suportada por investigação anterior relacionada com a adaptabilidade e ser adequada ao contexto do trabalho e das carreiras.
Figura 3.6 – Estrutura teórica da empregabilidade disposicional (adaptado de Fugate & Kinicki, 2008, p. 507) Empregabilidade Abertura a mudanças no trabalho Proactividade no trabalho e na carreira Resiliência no trabalho e na carreira Motivação na carreira Identidade de trabalho
A abertura a mudanças no trabalho e a novas experiências suporta a flexibilidade em situações de incerteza e facilita a aprendizagem contínua. Indivíduos que manifestam esta característica tendem a expressar atitudes mais positivas face à mudança, maior satisfação no trabalho e menor intenção em despedirem-se, bem como a encarar a mudança como um desafio (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008). São indivíduos mais receptivos a considerar as oportunidades que lhes permitam construir projectos ou trajectórias de vida com maior significado pessoal, o que pode traduzir (embora de uma forma diferente) uma atitude de curiosidade face à carreira.
Indivíduos que manifestam resiliência no trabalho e na carreira tendem a fazer uma auto-avaliação elevada e a ser optimistas em relação ao trabalho e à carreira. Esta auto-avaliação origina atitudes positivas e produtivas e o optimismo fomenta expectativas positivas acerca do futuro, o que aumenta a confiança do indivíduo nas suas capacidades ao confrontar-se com os desafios associados ao trabalho e à carreira (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008). O indivíduo resiliente manifesta uma atitude de maior confiança relativamente às suas capacidades e sentido de auto- eficácia na construção de projectos ou trajectórias de vida.
A proactividade no trabalho e na carreira compreende a aquisição de informação relevante para possíveis mudanças e desafios associados à posição actualmente ocupada e para oportunidades futuras. Inclui também as acções preparatórias para lidar com e/ou explorar oportunidades e desafios, caso estes ocorram. Para tal, é importante que os indivíduos avaliem periodicamente o seu valor para o mercado de emprego, comparando as suas competências e experiência com os actuais requisitos e oportunidades de trabalho (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008). Deste modo, é também uma forma de curiosidade, expressa a um nível comportamental, dirigida tanto para o indivíduo como para o meio em que ele se encontra.
A motivação na carreira relaciona-se com os objectivos de carreira, com o planeamento e com uma orientação para a aprendizagem, aumentando o estímulo para esforços relacionados com o trabalho, para a persistência durante os períodos de tédio e de frustração, para o esforço sustentado face a desafios e para o interesse no domínio de novas competências e na abordagem de novas situações (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008). Traduz a preocupação com o futuro e a necessidade de planear para ir ao encontro dos objectivos de carreira formulados e dos projectos ou trajectórias de vida desejados, constituindo-se como preditor das respostas de um trabalhador face a exigências situacionais.
A identidade de trabalho é a base cognitiva da empregabilidade disposicional, proporcionando-lhe também um forte fundamento afectivo. Corresponde ao modo
como o indivíduo se auto-define no contexto da carreira. Desencadeia comportamentos consistentes com esta auto-imagem, dirigidos para oportunidades e comportamentos futuros, organizando ao mesmo tempo as experiências passadas. Ou seja, reúne as experiências e as aspirações passadas, presentes e futuras num todo compreensivo, agindo como o elemento cognitivo que integra as outras dimensões da empregabilidade, dotando de direcção e de finalidade os comportamentos relacionados com a carreira (Fugate, 2006; Fugate & Kinicki, 2008). Nessa perspectiva, é a dimensão que melhor o poderá dotar de um sentido de controlo e de agência pessoal na construção de projectos ou trajectórias de vida que sejam consistentes com a imagem de si próprio e com a direcção que pretende tomar.
3.4.2 Relação entre empregabilidade disposicional e outros construtos proactivos
Para clarificar a rede de construtos ligados à empregabilidade é importante comparar e contrastar a mesma com outros construtos centrados na pessoa que têm implicações para a adaptabilidade (pró)activa no trabalho (Fugate & Kinicki, 2008; Fugate et al., 2004), tais como o comportamento proactivo (Crant, 2000), a iniciativa pessoal e a personalidade proactiva (Pulakos et al., 2000).
Numa breve definição destes construtos, o comportamento proactivo consiste na tomada de iniciativa para melhoria das actuais circunstâncias ou para a criação de novas circunstâncias, envolvendo o desafio do que está estabelecido ao invés da adaptação passiva às circunstâncias existentes (Crant, 2000). Quanto à iniciativa pessoal, é composta por um conjunto de comportamentos que os trabalhadores manifestam para alcançar objectivos profissionais. Este construto relaciona-se com o construto de personalidade proactiva, que descreve indivíduos que se certificam que influenciam o meio de um modo favorável e que são audazes face a constrangimentos situacionais (Bateman & Crant, citado em Fugate et al., 2004).
Estes construtos partilham, segundo Fugate e colaboradores (2004) pelo menos quatro semelhanças com a empregabilidade. Em primeiro lugar, tal como a empregabilidade, são conceptualizados e operacionalizados em termos de diferenças individuais. Em segundo lugar, é lógico assumir que todos têm implicações para o comportamento ao longo de uma ampla variedade de situações no contexto do trabalho. Em terceiro, a literatura relacionada com cada construto sugere, pelo menos, implicações para a adaptabilidade proactiva, embora apenas a empregabilidade
integre explicitamente a proactividade e a adaptabilidade. Por último, cada construto assenta numa orientação para a acção.
Apesar das semelhanças, para Fugate e Kinicki (2008) a empregabilidade disposicional difere destes construtos em aspectos importantes. Enquanto que a iniciativa pessoal e a adaptação proactiva descrevem comportamentos, a empregabilidade consiste num traço disposicional (embora seja altamente provável que a empregabilidade constitua um precursor ou preditor de comportamentos de iniciativa e adaptativos, não descreve comportamentos efectivos). Fugate e Kinicki (2008) salientam ainda que o mesmo raciocínio se aplica quando se compara empregabilidade disposicional e adaptabilidade de carreira e noções de empregabilidade baseadas nas competências (e.g. Van der Heijde & Van der Heijden, 2006). Enquanto as duas últimas perspectivas descrevem o que as pessoas fazem (os comportamentos) e os recursos que mobilizam de modo a alcançarem o ajustamento entre si próprias e as carreiras, a empregabilidade disposicional assemelha-se aos traços que contribuem para a adaptabilidade de carreira e que fomentam o desenvolvimento de competências (ao invés de descrever os comportamentos e competências em si).