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Se você pretende acompanhar o novo Conselho, é bom você começar a se inteirar sobre a confusão que está sendo o fim dessa gestão atual. A sugestão feita por Paulo Iotti,

então presidente do GADvS42, foi bastante repetida pelos conselheiros da gestão 2013/2014 conforme eu passava a conhecê-los.

42 O Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero tem papel importante na atuação em tribunais e

Quando iniciei esta pesquisa, em janeiro de 2015, o Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual (CMADS) estava passando por um processo de reestruturação, como foi dito algumas vezes por gestores e conselheiros. O conselho havia sido estabelecido em lei havia cerca de dez anos, por meio de um decreto municipal da gestão do então prefeito José Serra (PSDB). Sua consolidação43 de fato ocorreu em 2008 pela gestão de Gilberto Kassab (PSDB), fruto da pressão do movimento LGBT paulistano pela efetivação de mecanismos de participação e fiscalização sócio-estatal na cidade. A reestruturação a que se referiam gestores, militantes e conselheiros tinha, portanto, não apenas um caráter de implementar modificações apontadas como necessárias a partir da própria experiência acumulada ao longo dos anos, mas também aludia à necessidade de incorporar transformações pelas quais passava o movimento LGBT local.

Ao mesmo tempo, a reestruturação permitia verificar a eficácia das estratégias políticas adotadas ao longo das diversas gestões e também por meio de outras experiências de implementação de conselhos e coordenadorias. As alterações na composição e nas regras do conselho já vinham de gestões passadas, e passaram a se acentuar com a emergência de uma tensão sobre a concepção de representatividade popular entre a sociedade civil e a sociedade

civil organizada. Num primeiro momento de funcionamento do Conselho, coube ao Fórum

Paulista LGBT a nomeação dos representantes da sociedade civil. Com o decorrer das gestões, foi sendo instituída a possibilidade de representantes individuais, ou sociedade civil, e não mais apenas ONGs, grupos e entidades, denominadas então como sociedade civil organizada. Isso fazia com que militantes pudessem se candidatar sem que necessitassem representar uma ONG ou entidade.

O pano de fundo disso é permeado pela disputa de concepções entre formatos de participação socioestatal que remetia ao PSDB e a possibilidade de candidaturas individuais, por um lado, e o PT e a representação via coletivos e associações, por outro. Esse contexto permite compreender a defesa realizada por diversos militantes - muitos deles, se não a maioria, com vinculação partidária – sobre a possibilidade de candidaturas individuais para a representação da sociedade civil também como um modo de questionar a implementação regras que poderiam favorecer a entrada no Conselho de diversos militantes de grupos e instituição que participa de processo judicial de grande relevância e impacto social provendo informações relevantes para a corte) de ações no Supremo Tribunal Federal que causaram impacto para a população LGBT brasileira, como aquela envolvendo o uso do nome social para travestis e pessoas trans sem necessidade de procedimento cirúrgico prévio. O grupo foi idealizado em 2010 e adquiriu registro de obtenção em 2012, de acordo com a documentação disponível no site do GADvS. http://www.gadvs.com.br/ <Acessado em 8 de setembro de 2016>

associações que eram vinculados ao PT. A reestruturação do Conselho que eu passo a acompanhar em 2015, portanto, pode ser entendida como um terceiro momento marcado pela tentativa de composição dos dois formatos.

Ao longo da primeira década de atuação do CMLGBT, o movimento LGBT havia passado por dois ciclos importantes de Conferências a nível municipal, estadual e nacional, em 2008 e 2011. As diferenças percebidas por pesquisadores como Aguião (2014) em relação ao otimismo da militância na primeira conferência nacional e o tom crítico que marcou o encontro em 2011, como discutido no capítulo 1, auxiliam a compreender um cenário de transformações importantes na relação do movimento com a gestão pública a nível nacional.

Apesar das especificidades que marcam a relação de organizações LGBT locais com as gestões dos conselhos e coordenadorias estaduais e municipais, frequentemente militantes com trânsito nacional em eventos e conferências avaliavam que pouco havia sido conquistado nestes últimos anos, sugerindo uma percepção mais ampla sobre a efetividade destes mecanismos. Isto acabou por gerar efeitos diversos nas atuações em âmbito local, sobretudo tendo em vista que este formato de atuação dependia das competências que cada ente federativo dispunha para legislar e tutelar a nível do executivo e do legislativo.

Além disso, a vitória de Fernando Haddad, ao representar a volta do Partido dos Trabalhadores à administração pública paulistana, também sinalizava a expectativa de muitos militantes com o desenvolvimento de políticas sociais consistentes - dentre as quais se inseriam as políticas LGBT - em um governo cuja base de apoio eleitoral contou com a adesão de coletivos, associações e militantes LGBTs.

Vale também dizer que a minha entrada se deu pela via da sociedade civil e não do poder público, haja vista meu interesse em compreender os engajamentos em curso de militantes LGBT nesta frente de atuação dos conselhos e conferências. Isso me fez dedicar a atenção para as críticas tecidas por alguns conselheiros e ex-conselheiros da sociedade civil a respeito da postura da Coordenação de Políticas LGBT da cidade de São Paulo. Desde fevereiro de 2014, a pasta estava a cargo de Alessandro Melchior, filiado ao PT e atuante no movimento de juventude e LGBT, ocupando, assim, uma posição híbrida entre gestor e militante.

Além de Paulo e Felipe, passei a acompanhar mais de perto a atuação de Dimitri Sales e André Pomba. A atuação de Paulo já naquele período era bastante notabilizada pela sua inserção em processos judiciais de ampla repercussão para o movimento LGBT. Além da direção do GADvS, Paulo havia atuado como assessor jurídico do então Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia (CCH), atualmente chamado

Centro de Cidadania LGBT, e da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual (CADS), que foi rebatizada para Coordenação de Políticas para LGBT. Felipe havia sido eleito representante dos homens gays no biênio 2013/2014 e também fazia parte do GADvS, além de ser militante da setorial LGBT do PSOL de São Paulo.

Assim como Felipe e Paulo, Dimitri também era advogado, além de ter sido presidente do Conselho Municipal e o primeiro gestor a assumir a Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, criada em 2009 na gestão do então governador José Serra. Já André, mais conhecido como “Pomba”, havia sido eleito como representante dos bissexuais para o biênio 2013/2014 do Conselho Municipal de São Paulo e era mais popularmente conhecido por ser o DJ residente do Clube ALôca, uma conhecida balada voltada para ao público LGBT na região central da cidade. Pomba também havia sido conselheiro em gestões anteriores, além de ter atuado na Diversidade Tucana, setorial LGBT do PSDB, e posteriormente migrado para o Partido Verde e concorrido a vereador em alguns pleitos pela legenda.

Desse modo, a reestruturação do Conselho envolvia interesses e reivindicações de diversos grupos e entidades do movimento LGBT de São Paulo. A começar pelo nome, que até então constava no decreto como Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual e que, de acordo com o instrumento44, direcionava-se para à população à época denominada

oficialmente GLBTT da cidade de São Paulo. Além da mudança de alguns arranjos administrativos, que passava pela alteração de secretarias municipais e suas atribuições, havia

44 O rol de competências atribuídas pelo Decreto Municipal 46.037 de 4 de julho de 2005 vale ser destacado:

Art. 1º. Fica instituído o Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, órgão consultivo vinculado à Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual, da Secretaria Especial para Participação e Parceria, com as seguintes atribuições:

I - assessorar e acompanhar a implementação de políticas públicas de interesse das pessoas com orientação GLBTT;

II - propor ao Coordenador da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual o desenvolvimento de atividades que contribuam para a efetiva integração cultural, econômica, social e política do segmento GLBTT;

III - analisar e avaliar propostas de parcerias, convênios, termos de cooperação e outros afins que forem endereçados à Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual;

IV - propor, avaliar e acompanhar a realização de cursos de aperfeiçoamento, capacitação e atualização, na sua área de atuação, a serem ministrados no âmbito da Administração Pública Municipal Direta e Indireta, bem como da sociedade civil (organizações não-governamentais); V - fomentar o estabelecimento de laços de cooperação entre a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual e as instituições acadêmicas, autárquicas, organizações profissionais, empresariais, culturais e outras relacionadas às suas atividades; VI - pronunciar-se sobre matérias que lhe sejam submetidas pelo Coordenador da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual;

VII - colaborar na defesa dos direitos das pessoas com orientação GLBTT, por todos os meios legais que se fizerem necessários;

uma necessidade expressa por Paulo e por conselheiros como Felipe de rediscutir as competências do conselho.

O rol disposto no artigo 1o do Decreto trazia verbos como “assessorar”, “propor”, “analisar”, “avaliar”, “acompanhar”, “pronunciar-se”, “colaborar” e “elaborar”. À exceção do último, que dizia respeito especificamente à competência do conselho para instituir seu próprio regimento interno, todos os outros incisos do rol de competências deixavam evidente que o desenho institucional do Conselho Municipal proporcionava uma instância de caráter consultivo. Isto era apontado como um problema por muitos militantes. O argumento utilizado dizia respeito à efetividade destes mecanismos, que estaria diretamente relacionada à capacidade de ingerência da sociedade civil organizada nestes processos.

No caso específico do então Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, isso se traduzia na necessidade de atribuir competências de caráter deliberativo às atividades do colegiado. Quando comecei a participar das reuniões da nova composição do Conselho, era comum ouvir representantes da sociedade civil citando exemplos como o Conselho Municipal de Saúde (CMS)45 da cidade, que em razão de seu caráter deliberativo, tinha papel ativo na formulação, implementação e avaliação das políticas municipais e era considerado um exemplo de sucesso a ser seguido.

A expectativa de que a reestruturação acabasse coincidindo com o final da gestão 2013/2014, de modo a surtir efeitos já na composição seguinte, acabou sendo frustrada. O atraso na elaboração de um edital que convocasse novas eleições para o conselho durante 2014 foi um componente fundamental para que os trabalhos do Conselho praticamente se interrompessem ao longo de 2015.

Com o objetivo de elaborar o processo de eleição, o Conselho reuniu-se em 2015 por três vezes, em 21 de janeiro 25 de fevereiro e 16 de março. Foram nestas três reuniões que o Conselho discutiu a viabilidade jurídica da manutenção de seus membros. Na primeira reunião, providenciou-se a prorrogação da composição vigente até que se realizassem novas eleições. Uma Comissão Eleitoral foi instituída na reunião do 25 de fevereiro e viabilizada na reunião seguinte. Passei a acompanhar as atividades do Conselho neste período de transição, o que me possibilitou tomar nota de algumas das discordâncias e conflitos que se tornariam recorrentes ao longo da pesquisa.

45 Há uma quantidade considerável de trabalhos sobre o Conselho Municipal de Saúde da cidade de São Paulo

que enfatizam a importância do seu caráter deliberativo na consecução das gestões. Para uma análise mais detalhada, ver Carvalho (1995, 1997 e 1998), Coelho (2004), Coelho e Veríssimo (2004) e Sampaio (2006).

No início de 2015, antes mesmo de se dar início o processo eleitoral, algumas acusações em relação à Coordenadoria passaram a circular em redes como o Whatsapp e o

Facebook. Por meio de uma publicação de Janaina Lima, então presidente do Conselho

Municipal LGBT e representante travesti pela sociedade civil, foi divulgada uma carta relatando sobre a demora na transição de gestões e enfatizando ações tomadas por parte do poder público as quais considerava ser um golpe contra a sociedade civil, marcando um ano de retrocesso nas políticas de diversidade sexual. Transcrevo-a abaixo em seu inteiro teor:

CARTA ABERTA DA SOCIEDADE CIVIL DO CONSELHO MUNICIPAL DE ATENÇÃO À DIVERSIDADE SEXUAL SOBRE O RETROCESSO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS LGBT NA CIDADE DE SÃO PAULO EM 2014

Prezado Prefeito Fernando Haddad

Prezado Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy Prezado Secretário Adjunto Rogério Sotili

Nós, representantes da sociedade civil do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, queremos através desta carta aberta encaminhar este relatório. Infelizmente informamos aos senhores que o ano de 2014 pode ser sem dúvida considerado o que mais retrocesso apresentou em termos de políticas públicas para a diversidade sexual na cidade de São Paulo, depois de anos se expandindo.

2014 foi o ano em que a sociedade civil do Conselho Municipal travou embates mensais nas reuniões ordinárias com a Coordenadoria de Políticas LGBT (CPLGBT), com Alessandro Melchior à frente. Inúmeros problemas como o atraso de vários meses das bolsas do POT (Programa Operação Trabalho) para travestis e transexuais, o fechamento e a não reabertura do Autorama (espaço de sociabilização LGBT no Parque do Ibirapuera), apesar de todo o esforço do Conselho na elaboração do Programa Autorama Legal, frustraram a sociedade civil. Houve também um grave problema com a Associação da Parada do Orgulho LGBT, informando que pela primeira vez, em 18 anos, foi prejudicada e preterida na organização das atividades do 18º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo pela CPLGBT.

Tudo que foi comprometido para 2014, e tinha orçamento previsto, ficou para 2015: a mudança do CCH (Centro de Combate a Homofobia) para o Largo do Arouche, a unidade móvel, o projeto Transcidadania, a política de saúde integral LGBT, o CCH na zona leste. A execução das metas ficou bem abaixo do estimado ou esperado. Em carta enviada em 19 de janeiro pela presidente do conselho, Janaina Lima, praticamente todos os assuntos dos quais foram solicitadas devolutiva pela CPLGBT, encontravam-se em atraso sob alegações de ser algo ‘inerente ao poder público’.

Porém, a cisão ocorreu quando a Coordenadoria impôs uma alteração de forma unilateral no decreto do Conselho, aprovada por uma comissão minoritária e nunca deliberada pelo próprio conselho com a alegação de ‘falta de quórum’. O decreto acaba com o que de mais importante existia no Conselho paulistano: a divisão equânime por segmentos e independência de entidades. O novo decreto reduz de 15 para 7 vagas os segmentos, priorizando 8 vagas para ONGs, conselhos de classe e coletivos. Isso faz com o que o conselho perca independência que vem empreendendo durante toda sua existência. A farsa foi amplificada em audiências públicas e consulta online, já que foram rechaçadas praticamente todas as propostas, mantendo intacta a fórmula imposta, mais conveniente ao governo.

Nesse tema, cabe destacar que o coordenador da CPLGBT, Alessandro Melchior, realizou um verdadeiro golpe contra a sociedade civil no Conselho Municipal LGBT ao invocar a necessidade de um suposto ‘quorum’ que nunca existiu na história do Conselho, claramente para conseguir impor a posição do Poder Público. Para que o quorum não fosse atingido, o poder público deixou de enviar seus representantes a

reuniões do conselho. O jurista Paulo Iotti destacou que pela Constituição Federal ninguém é obrigado a fazer nada senão em virtude de lei ou, no caso, pelo menos de decreto, regimento ou norma infralegal que o imponha, mas o coordenador não aceitou dialogar, inclusive invocando o subterfúgio de que Vossa Excelência, o Prefeito, é quem tomaria a decisão definitiva. Como aliás sempre foi a regra, já que nas eleições anteriores, o prefeito simplesmente adotou a fórmula aprovada pelo conselho. Desta vez, a diferença é que a mudança imposta pela CPLGBT, não foi aprovada pelo Conselho.

Para piorar, o mandato do atual conselho expirou, sem que um novo conselho fosse empossado ou mesmo eleito (o decreto sequer foi assinado pelo prefeito). Pela primeira vez desde sua implementação, São Paulo ficou sem reuniões do conselho, mesmo com uma demanda forte da necessidade de participação. Foi nos dito que aquela seria a última reunião, pois a seguinte já reuniria a comissão eleitoral, o que não ocorreu. Sob muita pressão, a CPLGBT aceitou realizar uma reunião em janeiro. A sociedade civil lotou o auditório do CRD (Centro de Referência da Diversidade) e ficou combinado que o conselho se manterá ativo até a posse do futuro conselho. O novo conselho terá em suas mãos a organização da 3ª Conferência Municipal LGBT, apesar de todos sabermos da falta de implementação das propostas das anteriores (em 2008 e 2011).

Temos, porém, que fazer referência positiva à criação de vagas para a população LGBT no Centro de Acolhida Zaki Narchi na zona norte de São Paulo e de algumas ações culturais na região central (principalmente no Largo do Arouche), embora consideremos insuficientes ante as necessidades da nossa população.

A sociedade civil do conselho conclama que o prefeito Fernando Haddad, somente assine o decreto de conselho municipal LGBT, se este tiver de volta a fórmula original de equidade entre os segmentos (LGBTTT), sem a inclusão de ONGS, conselhos de classe e coletivos.

A sociedade civil do conselho conclama que o novo Secretário de Direitos Humanos e Cidadania Eduardo Suplicy, ao qual a CPLGBT é vinculada, promova reais mudanças na Coordenadoria LGBT, tornando-a mais efetiva e aberta ao diálogo franco com a sociedade civil.

Janaina Lima – Presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo

O conteúdo do texto de Janaina, que circulou em grupos fechados no Facebook envolvendo militantes de diversas cidades e estados, enfatizava uma série de pontos de conflitos. Havia imbuído na sua crítica e nos comentários de outros conselheiros um certo descontentamento particular a relação da sociedade civil com a gestão Haddad. As expectativas em torno da sua eleição acentuaram ainda mais as cobranças que já vinham sendo realizadas ao longo das gestões anteriores do Conselho. Ao mesmo tempo, tanto a carta quanto os protestos de alguns militantes em blogs e perfis nas redes sociais se direcionavam a aspectos bastante relacionados aos trâmites institucionais necessários para se realizar a transição de gestões no Conselho. Tratava-se, portanto, de críticas direcionadas tanto à gestão, de forma mais geral, como aos gestores, de modo mais específico.

Considero relevante salientar estas duas dimensões das críticas, sobretudo aquelas publicadas no ambiente digital da internet, pois acredito que militantes LGBTs envolvidos em processos como o de transição de gestão de um Conselho utilizam as mídias sociais com finalidade política de modo sensivelmente distinto daquele empregado por novos formatos de

ativismo LGBT e trans nas redes sociais. Discuto estes arranjos no capítulo a seguir, mas vale adiantar que o uso político dos veículos de comunicação digital entre os militantes que acompanhei no Conselho funcionava mais propriamente para difusão de informações e notícias, editais e programas. Mesmo as discussões e acusações de que participavam geralmente diziam respeito a algum fato ou acontecimento relacionado a uma reunião, encontro, decisão ou omissão do poder público. Certamente a utilização das redes sociais por cada militante é bastante variável, ainda mais levando em consideração seu uso pessoal ou mesmo o engajamento no ambiente digital com discussões políticas que extrapolem temas que concernem diretamente ao movimento LGBT. De todo modo, ressalto que há especificidades no modo como diferentes militantes se envolvem com a internet e as mídias sociais e que revelam diferenças mais amplas de concepção sobre luta e engajamento, o que implica em compreender a relação do movimento LGBT com a internet a partir destas diferenças, como será demonstrado mais a frente.

A carta de Janaina se dirigia ainda a medidas que vinham sido implementadas e que foram interrompidas e outras que ainda não haviam tomado forma na atual gestão. Ela citou como exemplos o atraso nas bolsas concedidas pela Secretaria Municipal do Trabalho a travestis e pessoas trans de baixa renda, além do fechamento do Autorama, espaço localizado nas imediações do parque do Ibirapuera e que era conhecido pela circulação de LGBTs e por ser um local de pegação particularmente entre gays. Neste sentido, considero importante ressaltar que há refletido nestas críticas um formato de atuação bastante pautado na avaliação e na fiscalização das políticas implementadas pelas gestões públicas.

Seja em relação a iniciativas e benefícios estatais, ou quanto ao uso de equipamentos públicos da cidade, ou mesmo sobre a implementação de equipamentos e serviços específicos,