CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 UMA NOVA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO RURAL
Novas abordagens sobre o rural consistem na interpretação do espaço local. O debate contemporâneo apresenta como foco a revalorização do lugar. Os princi- pais atributos para o desenvolvimento rural são esboçados pela integração entre a cidade e o campo.
Os processos mundiais viabilizam uma rede de relações sociais, econômi- cas, ambientais, mostrando as potencialidades de cada território. A abrangência das questões estruturais e funcionais do espaço rural e do espaço urbano pela forma de uso e ocupação do solo, organização social e valores peculiares gera perspectiva na qualidade de vida.
Tais considerações se estendem ao conhecimento da dicotomia conceitual rural-urbano em diversas escalas territoriais e elenca uma gestão diferenciada no contexto de intervenção em uma comunidade rural.
2.2.1 Relação Rural-Urbano
Os critérios tradicionais para definir e delimitar o espaço rural e o espaço ur- bano levam necessariamente a uma reflexão sobre as atividades e funções exerci- das no âmbito territorial.
Falar de desenvolvimento rural implica no conhecimento de parâmetros que são utilizados para tal caracterização.
O cruzamento de atividades de produção entre o rural e urbano mostra se- gundo Favareto (2007, p. 85) que “nos tempos recentes tornou-se quase um hábito acrescentar o adjetivo ‘novo’ para tratar da qualidade do rural no mundo contempo- râneo.” Porém, afirma o autor nesse questionamento que “fala-se em ‘novo rural’, em ‘novas ruralidades’, muitas vezes sem um maior esforço analítico em elucidar o que é recente e o que é propriamente permanente.”
A literatura voltada para a diferenciação entre rural e urbano traz variáveis de análise. Para Hugo; Champion; Lattes (2001, p. 1) As definições da área urbana variam muito entre países, mas usualmente envolve adoção de um ou vários crité- rios: o tamanho da população, densidade populacional, proximidade das áreas cons- truídas [...], proporção da população nas ocupações não agrícolas, presença de ser- viços ou atividades particulares3
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Assim, a distinção rural-urbano é relativa e apresenta diferenciação entre pa- íses. É importante observar as principais tipologias empregadas nos países capitalis- tas desenvolvidos na América Latina e no Brasil.
2.2.2 A Ruralidade nos Países Capitalistas Desenvolvidos
As definições sobre o que é o rural nos países capitalistas desenvolvidos, conhecidos como países do Norte, são delineadas em diversas dimensões que vêm sendo utilizadas no mundo contemporâneo.
A discussão da ruralidade no eixo da globalização contempla vertentes cien- tíficas de remoção da dicotomia urbano-rural.
Lefebvre (2002); Kayser (1972) no estudo da ruralidade apontaram duas hi- póteses na década de 1970: completa urbanização e renascimento rural. A reflexão teórica esboçada nas duas hipóteses é marcada pela contraposição de idéias.
A hipótese da completa urbanização expressou a dominação da sociedade urbana pós-industrial, com transformações acentuadas ligadas ao emprego, cresci-
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urban area definitions vary greatly between countries but usually involve the adoption of one or sev- eral of the following criteria: a population size threshold, population density, contiguity of built-up areas […], proportion of the population in non-agricultural occupations, presence of particular ser- vices or activities
mento e industrialização. A produção social do espaço estava ligada à urbanização. Os fenômenos, rural e urbano, inseridos como antagônicos. Posteriormente, nos es- tudos avançados de sociologia urbana, sua argumentação foi reformulada no livro “the production of space”, explicitando certa vitalização no espaço rural. (LEFEB- VRE, 1995).
A hipótese do renascimento rural, inversa à “revolução urbana”, Kayser (1990) apresentou idéias de uma revitalização do espaço rural, áreas então conside- radas estagnadas e de esvaziamento. Apontou situações dos Estados Unidos e Eu- ropa chamando de renascimento à atração populacional, o crescimento de ativida- des não-agrícolas, iniciativas de desenvolvimento local e outros. (FAVARETO, 2007).
Quanto às hipóteses discutidas sobre o destino da ruralidade Veiga (2006, p. 334) evidencia o nascimento de outra ruralidade, a terceira hipótese. Para ele, “o mais completo triunfo da urbanidade engendra a valorização de uma ruralidade que não está renascendo, e sim nascendo4.” Nesse âmbito, vale ressaltar o argumento do autor, denominando o processo como “fenômeno novo, que muito pouco tem a ver com as relações que essas sociedades mantiveram no passado com tais territó- rios5. O argumento de Veiga (2006) mostra que tal fenômeno relaciona-se com a integração entre o rural e o urbano, associados por duas dimensões da globalização contemporânea: econômica e ambiental. A primeira ligada ao comércio, cadeias produtivas e fluxos financeiros. A segunda, no campo das fontes de energia e biodi- versidade.
Por esta ótica, a nova ruralidade é evidenciada por novas formas de uso e ocupação do solo rural, ou seja, “o que é novo nessa ruralidade pouco tem a ver com o passado, pois nunca houve sociedades tão opulentas quanto as que hoje tan- to estão valorizando sua relação com a natureza.” Assim, o complexo dinamismo entre o rural e o urbano resumiu em três vetores: “aproveitamento econômico por meio de um leque de atividades [...] no âmbito do turismo; desdobramentos paisagís- ticos [...] de conservação da biodiversidade; crescente necessidade de buscar a utili- zação de fontes renováveis de energia disponíveis nos espaços rurais.” (VEIGA, 2006, p. 334).
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“the most complete triumph of urbanity engenders the valorization of a rurality that is not undergoing a rebirth process, but is rather being born.”
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“the new phenomenon has littes to do with the relationship established in the past between these societies and such territories.”
Uma sucinta reflexão sobre a nova ruralidade no mundo contemporâneo permite analisar os critérios de classificação em relação às definições sobre o que é rural em alguns países do Norte.
Na Europa, um dos critérios utilizados para classificar o rural corresponde aos aspectos demográficos, incluindo a população absoluta e a população relativa, dentre eles: “Irlanda (densidade populacional inferior a 100 hab/km²); Grécia (30 hab/km²); Dinamarca (limite de dez mil pessoas). Na Holanda e Inglaterra, a utiliza- ção do solo é o fator predominante. A Alemanha já utiliza os fatores econômicos e demográficos, juntamente com a utilização do solo”. (FAVARETO, 2007, p. 115).
No enfoque territorial, os espaços rurais receberam uma abordagem propos- ta pela Organization for Economic Co-Operation and Development – OCDE (1996)6 analisados em dimensões geográficas, que são o local e o regional.
Em nível local, Veiga (2004, p. 55) relata que a OCDE “passou a considerar rurais as comunidades com densidade populacional inferior a 150 habitantes por qui- lômetro quadrado (ou 500 hab/km² no caso específico do Japão).” Nota-se que esse parâmetro de estudo classificou as localidades urbanas e rurais conforme o limite da população relativa.
Em nível regional, Veiga (2004, p. 55) relata que a OCDE utilizou três cate- gorias de região, conforme a população regional residente em comunidades rurais: “em regiões consideradas predominantemente rurais essa participação é superior a 50%. Nas consideradas significativamente rurais ela fica entre 15% e 50%. E nas regiões predominantemente urbanas, abaixo de 15%.”
De modo geral, percebe-se a importância do espaço rural na representativi- dade dos países capitalistas desenvolvidos no mundo globalizado, destacando-se pela potencialidade econômica e locais estratégicos para o desenvolvimento territo- rial.
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A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico apresenta atualmente 30 países membros: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Republica Tcheca, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Itália, Japão, Coréia, Luxemburgo, México, Países Baixos, Nova Irlanda, Noruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos.