AMÉRICA DO NORTE E CENTRAL
3 A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E SUA PERCEPÇÃO A PARTIR DO PARÂMETRO DE SOCIEDADE DE RISCO
3.2 A CONFORMAÇÃO DA SOCIEDADE DE RISCO: DA MODERNIDADE SIMPLES À REFLEXIVA
3.2.2 Uma reflexão sobre as classes sociais na sociedade de risco
Beck transporta a geração dos riscos resultantes da racionalidade técnico- científica do modelo industrial e não o modo de produção capitalista (de riquezas) desse modelo para o centro da sua análise sociológica sobre a sociedade contemporânea. O autor, em especial na sua primeira obra: A sociedade de risco. Para uma nova modernidade (1986, p. 40-55) reflete acerca da supressão ou não das classes sociais na sociedade de risco.
Titubeante em suas razões e explicações, Beck destaca que a sociedade de risco é também uma sociedade dividida em classes sociais: “A história de repartição dos riscos mostra que estes seguem como as riquezas o esquema de classes, mas ao contrário: as riquezas se acumulam acima, os riscos abaixo.
Portanto, os riscos parecem fortalecer e não suprimir a sociedade de classes” (BECK, 1986, p. 41, não traduzido no original). Acrescenta ainda haver sobreposições entre a sociedade de classes e a de risco: “há zonas de sobreposição entre a sociedade de classes e a sociedade de risco” (BECK, 1986, p. 40, não traduzido no original). Todavia, posteriormente, afirma que a sociedade de risco não é uma sociedade de classes sociais: “[...], as sociedades de riscos não são sociedades de classes, suas situações de perigo não se podem pensar como situações de classes, nem seus conflitos como conflitos de classes” (BECK, 1986, p. 42, não traduzido no original).
Por isso, entre outros motivos, a teoria de Beck vem sendo duramente criticada. Mesmo tendo rebatido algumas críticas da sua primeira obra, em outra posterior e revisada: A sociedade de risco global (BECK, 1999, p. 213-234), o autor desconsiderou as críticas sobre as classes sociais. A propósito, nessa obra, o tema não aparece em destaque, encontra-se diluído em análises implícitas, em raros momentos como estes: “Uma coisa está clara. A incerteza endêmica é o que caracteriza o mundo da vida e a existência básica da maioria das pessoas – incluindo as classes médias aparentemente acomodadas [...]” (BECK, 1999, p. 19, não traduzido no original). “Depois das categorias de grandes grupos, como cultura de clã, estamentos e classes (os conceitos com os quais surgiu a modernidade), o conceito de sistema social deve submeter-se aos princípios da modernidade em uma teoria da modernização reflexiva” (BECK, 1999, p. 149, não traduzido no original).
Contudo, antes de analisar mais detalhadamente as razões e contra- razões de Beck sobre a supressão das classes sociais pelo risco, cabe enfatizar que, quando o faz, ele nega as premissas de Marx sobre as classes sociais (MARX, 1980). Marx desenvolveu sua teoria sobre as classes sociais enfocando a sociedade inglesa de meados do século XIX, pois este era o país industrial mais avançado na época. Três elementos estão no centro da sua teoria: 1) os conflitos entre grupos sociais; 2) a propriedade privada dos meios de produção capitalista; 3) relações de dominação (burgueses ou capitalistas) e sujeição (proletariado ou assalariados) (MARX, 1980, p.171-174). Vale salientar que o termo classe é usado em diversas acepções ao longo da história95 mas, para Marx (1980, p.116-131; 141-146), classes
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Segundo Dahrendorf (1982, p. 15-16, grifado no original), “A evolução do conceito de classe através da história tem sido acompanhada por alterações valorativas de seu sentido. Quando os
sociais representam a união dos interesses comuns na esfera política, são grupos políticos unidos por um interesse comum, qual seja superar as diferenças que separam os capitalistas dos proletariados. As classes sociais são sempre grupos manifestamente antagônicos ou que tendem a conflitos manifestos. O surgimento das classes se dá sem prévia organização, pois o interesse de uma classe precede sua constituição, portanto não depende de um estatuto ou de uma assembléia constituinte:
Os indivíduos formam uma classe apenas na medida em que estejam engajados em uma luta comum com outra classe; e a força que efetua a formação das classes é o interesse de classe. Em certo sentido, os interesses de classe precedem à formação das classes. [...]. Os interesses de classe não são meramente os interesses pessoais e aleatórios de uma pessoa ou mesmo de muitas pessoas (DAHRENDORF, 1982, p. 25). Para Marx, a sociedade é dividida em classes sociais, de acordo com a propriedade dos meios de produção capitalista; assim, as classes sociais se distinguem conforme dominam o capital (capitalistas ou burgueses) ou se sujeitam a ele (proletariado ou assalariados) (MARX, 1980, p. 140-143; 171-174). Segundo Beck, quando declara existir classes sociais, a sociedade de risco divide aqueles que produzem o risco e dele se beneficiam, dos muitos que sofrem as conseqüências indesejadas, os pobres: “Existe uma estrutura básica de poder dentro da sociedade global do risco que divide aqueles que produzem e se beneficiam com os riscos e os muitos que se vêem afetados por esses mesmos riscos” (BECK, 1999, p. 25, não traduzido no original). O autor declara que a história da repartição dos riscos mostra que eles, assim como as riquezas, seguem o esquema de classes: estas se acumulam acima e eles abaixo (BECK, 1986, p. 41). Anteriormente, mencionou-se que Beck, em seu novo livro, ressalta a existência da classe média, e desse modo, afirma existirem outras classes sociais.
censores romanos reproduziram a palavra classis para dividir a população em grupos diferentes para efeito do pagamento de impostos não devem ter previsto o futuro acidentado dessa categoria. [...] também o conceito de classes na Roma antiga dividia a população em algo mais que unidades estatísticas. [...]. Quando os sociólogos mais modernos retomaram a palavra, naturalmente emprestaram-lhe uma conotação ligeiramente diferente. Ao início, a palavra classe foi usada, por exemplo, por Ferguson e Millar, no século XVIII – apenas para distinguir estratos sociais, como se diria hoje, de acordo com sua posição ou sua riqueza. Neste sentido, a palavra classe pode ser encontrada em todas as línguas da Europa no fim do século XVIII. No século XIX o conceito de classe foi tomando gradualmente colorações mais definidas. Adam Smith já falara da classe trabalhadora ou classe pobre. Nos trabalhos de Ricardo, Saint Simon e Fourier e evidentemente nos de Engels e Marx a classe dos capitalistas entra em cena ao lado da classe dos trabalhadores, a classe rica ao lado da classe pobre, a burguesia ao lado do proletariado (que acompanhou o conceito de classe desde suas origens romanas).
Contudo, Beck (1986, p.43, não traduzido no original), entende que os riscos apresentam uma tendência globalizante e um efeito boomerang, pois “afetam cedo ou tarde aqueles que os produzem ou se beneficiam com eles”. Ainda quanto à distribuição dos riscos, o autor (1986, p. 43, não traduzido no original) declara: “Tampouco os ricos e poderosos estão seguros contra eles”; “Dessa maneira, com a generalização dos riscos da modernização se põe em marcha uma dinâmica social que já não se pode compreender com as categorias de classe” (BECK, 1986, p. 45, não traduzido no original) e ainda “As sociedades de risco não são sociedades de classe [...]” (BECK, 1986, p. 53, não traduzido no original). Portanto, o autor afirma e reitera que a sociedade de risco não é uma sociedade de classes sociais, haja vista a extensão ilimitada dos riscos (global) e sua tendência globalizante, de modo que as diferenças e os limites sociais são relativizados. Assim, todos são iguais perante os riscos; não há distinção, pois todos estão na mesma classe (a única). Fazer parte da mesma classe induz à seguinte premissa: todos têm os mesmos interesses (inexistem conflitos de interesses) e não há quem lucre ou quem sofra com os prejuízos provocados pelos riscos.
Conforme demonstrado, não há como concordar com Beck, ele mesmo nega suas afirmações, deixando divagações no ar. Afirmar hoje não se viver numa sociedade dividida em classes sociais é defender a inexistência de diferenças entre quem produz as riquezas, quem as consome e quem lucra com a produção, ou melhor, não existirem elites políticas e econômicas e nem sua antinomia social, a massa popular que vive abaixo da linha de pobreza, ou ainda, uma divisão social em classe alta, média e baixa, entre outras possíveis. E o próprio autor afirma: “uma estrutura básica de poder dentro da sociedade mundial do risco, divide quem produz e se beneficia dos riscos e os muitos que se vêem afetados por estes riscos” (BECK,1999, p.25, não traduzido no original).
Porém, quando o autor afirma viver-se numa sociedade de risco global sem classes sociais é porque, para ele, os riscos têm capacidade para atingir todo o globo, pois eles não respeitam fronteiras estatais nem mesmo o tempo. No entanto, o autor (1986, p. 08, não traduzido no original) é enfático ao advertir sobre a amplitude da sua definição: “sem dúvidas, a globalidade do risco não significa, claro está, uma igualdade global do risco, senão o contrário: a primeira lei dos riscos ambientais é a contaminação segue o pobre”. E assim, novamente, o autor confirma a permanência das “classes sociais” na sociedade de risco porquanto, se existem
pobres, existem pessoas em situação oposta: os ricos. Sua afirmação surgiu de uma comparação, pela qual são diferenciadas as vítimas potenciais dos riscos, de acordo com a carência ou não de recursos financeiros.
No capítulo 1, foram apresentados os contornos da crise hídrica através de dados que comprovam viver-se uma crise em âmbito nacional e internacional, seja pela precariedade no acesso à água e ao saneamento; veiculação de doenças hídricas; elevada ocorrência de desastres ambientais; seja pelos conflitos armados ou não. Analisando-se os dados apresentados comprova-se serem os pobres os mais atingidos e a sociedade mundial ser marcada pela desigualdade das classes sociais.
A principal diferença entre os ricos e os pobres é estes não poderem comprar segurança, informação ou escolher, por exemplo, o que comer e onde morar e, por isso, estarem mais sujeitos aos riscos. Mas, por outro lado, os riscos da radiação e os nucleares; os da poluição do ar e do solo; os efeitos das mudanças climáticas; os da extinção de espécies da flora e fauna; a perda de sítios, além de monumentos arqueológicos e outros, estão presentes para todos, inclusive os ricos. Enfim, o próprio Beck (1986, p. 45) reconhece que tudo quanto ameaça a vida, ameaça também a propriedade, inclusive, aqueles dependentes da mercantilização, pois poluir não destrói somente o ambiente, mas também desvaloriza os títulos de propriedade. E adverte (1986, p. 47, não traduzido no original):
[...], a igualdade mundial das situações de perigo não pode enganar sobre as novas desigualdades sociais dentro da sociedade de risco. Estas surgem, em especial, ali onde (novamente a escala internacional) as situações de classe e as situações de perigo se sobrepõem.
Em que pese a relativização dos riscos e seus efeitos, indubitavelmente, as classes continuam existindo, pois há elites e massas; ricos e pobres, donos dos meios de produção, assalariados e um crescente proletariado. Mesmo que a teoria de classes proposta por Marx não compreenda mais a realidade como entendia a sociedade industrial inglesa do século XVIII, ela não pode ser rejeitada ou ignorada por omissão: isto é sem enfrentá-la.
Por outro lado, importa destacar outra face dos riscos. Nesse sentido, Beck (1986, p. 50-51, não traduzido no original) declara: “Assim, as desigualdades das sociedades de classes e do risco podem sobrepor-se, condicionar-se, estas podem produzir aquelas. A repartição desigual da riqueza social apenas oferece
muros superáveis e justificações para a produção de riscos”. E destaca que a ameaça constante da perda de empregos serve de pretexto para ampliar os níveis permitidos de emissão de tóxicos; relaxar seu controle e evitar a investigação da presença de elementos nocivos nos alimentos, portanto, os riscos não são somente riscos, outrossim, oportunidades de mercado (BECK, 1986, p.51- 52).
Tratando-se de países em desenvolvimento, insta salientar serem eles os mais atingidos, porque os interesses comerciais e econômicos prevalecem sobre os demais (sociais, ambientais etc.) na agenda política. E, em termos sociais, o debate prioritário se concentra no combate à fome, na busca de emprego e moradia, enquanto na agenda política e social dos países ricos96, o risco tem prioridade, pois sua população, na sua maioria, tem assegurada a moradia, o emprego, o acesso à água potável e à eletricidade (compare dos dados apresentados nos itens 1.1.1 e 1.1.2), e está livre da fome. Na busca por empregos, renda e novas divisas, os países em desenvolvimento têm aceitado e recebido ad nauseam a transferência de indústrias poluidoras e de atividades sujeitas aos riscos dos países desenvolvidos. Esta transferência é proporcionada pela fragilidade na sua legislação, especialmente a ambiental; pelos incentivos fiscais, assim como pelos baixos salários pagos aos empregados e pelas diversas formas de corrupção que caracterizam o mercado oculto dessas autoridades.
Todavia, nada impede os países desenvolvidos de também sofrerem conseqüências naquilo até então visto tão-somente como benéfico: a) os riscos acabam atingindo os países desenvolvidos através da cadeia alimentícia; b) a produção e a industrialização de alimentos, produtos e tecnologias pode desencadear outros fenômenos ambientais. Entre eles os do aquecimento global (elevação da temperatura global com os fenômenos conexos: derretimento das geleiras; aumento do nível do mar; perda de solo agricultável pela desertificação ou pela invasão das águas do mar; perda de espécies da biodiversidade; doenças; escassez de recursos naturais e, com isso, de alimentos, empregos e rendas entre outras). Isso afeta todo o globo, ainda que determinadas áreas sejam mais suscetíveis.
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Veyret (2005, p.13) destaca que o risco adquiriu recentemente um lugar maior nas sociedades dos países ricos e o sucesso evidente do termo e de seu conteúdo manifestou-se nestes países paralelamente ao aumento do nível de vida que levou a população a demandar mais e mais segurança e a recusar a incerteza e o risco.
Cita-se, a título de exemplo, a sanção imposta pela OMC, em 18 de setembro de 2007, ao Brasil – notícia publicada em 18/09/2007, no site da Folha on
line (www.folhaonline.uol.com.br), acesso em setembro de 2007 – obrigando-o a
importar os pneus usados e recauchutados provenientes da União Européia (UE), antes barrados, pois o Brasil já importa pneus do Paraguai e do Uruguai (parceiros do MERCOSUL), excedendo-se, então, a capacidade de reutilização deles e causando riscos à saúde e ao meio ambiente. Tudo porque a OMC, no julgamento do processo proposto pela União Européia (UE), considerou que as medidas brasileiras configuraram barreiras não tarifárias ao comércio. Em decorrência, o Brasil restringiu a importação regional em 250 mil unidades anuais, sendo 130 mil do Uruguai e 120 mil do Paraguai para poder cumprir a decisão imposta e assim também importar os pneus da UE. A decisão da OMC possibilitará riscos e danos gobais e não somente em âmbito local, como a proliferação do mosquito da dengue. Num primeiro momento, os países europeus (exportadores) podem ser beneficiados mas, se o Brasil não reutilizar adequadamente os pneus, além dos danos à saúde poderá ocorrer a liberação de gases do efeito estufa, os quais contribuirão para elevar a temperatura global e, com isso, provocar derretimento de geleiras e aumento dos níveis do mar em inúmeras regiões.
3.3 A CONQUISTA DA SEGURANÇA HÍDRICA EM TEMPOS DE RISCO: O