Estudamos a organização de arquivo acumulado por um literato, considerado por alguns especialistas de “arquivo literário”. Definições como esta vêm sendo revistas com frequência. Talvez isso ocorra devido à especificidade e característica próprias de cada arquivo. Porém, é preciso observar a unicidade, ou seja, “qualidade pela qual os documentos de arquivo, a despeito de forma, espécie ou tipo, conservam caráter único em função de seu contexto de origem”. (DICIONÁRIO,1996, p.76).
O termo arquivo literário tem sido utilizado por estudiosos de manuscritos autógrafos. Muitas vezes estudiosos de Letras. Entretanto, não devemos delimitar o campo do arquivo a partir de determinada atividade exercida pela entidade produtora ou por suporte, tipologia, etc. Entendemos que o literato, assim como o geólogo, o artista plástico, o arquiteto e outros especialistas, acumula documentos relacionados com sua vida pessoal e pública.
O geólogo não guarda apenas documentos pertinentes à geologia. Do mesmo modo, o literato. O homem que opta por acumular seu arquivo particular, armazena documentos que têm relação com suas atividades, cotidianidade, moda e costume no decurso de sua vida.
O arquivo passa a ser espaço livre, tanto para os manuscritos autógrafos, quanto para os documentos produzidos a partir de atividades públicas e privadas. Eles são convenientemente
reunidos a serviço do titular, pelo prazer de guardar a própria representação de seus valores, estendendo-se posteriormente à leitura e aos interesses de outrem.
“É exatamente porque resultantes de uma acumulação natural, necessária e não-gratui- ta, que os documentos são dotados de organicidade, isto é, da capacidade de refletir a estrutu- ra, funções e atividades da entidade acumuladora. ” (CAMARGO,1998, p.1). Segundo Herrerra (1992, p.115),
Nesta linha, os arquivos sempre são institucionais e não temáticos.
Esta unanimidade em termos de definição, entretanto, contrasta com a corrente, explicitada por alguns e sugerida por outros, de falar com demasiada frequência de arquivos da literatura, arquivos do vinho, arquivos econômicos, etc.
A relevância histórica dos acervos acumulados por literatos torna-os fonte de estudo à disposição de quaisquer pesquisadores. Nesse ponto, o arquivo pessoal de Godofredo Filho possui marcas específicas, modificadoras e com características peculiares, à semelhança de outros também acumulados por literatos. Isso se deve praticamente a um desejo igual de es- crever e colecionar escritos e objetos representativos do percurso de sua própria vida e dos contemporâneos.
Os arquivos acumulados por escritores foram se sedimentando, a partir da primeira me- tade do século XIX a nossos dias. Neles, encontramos pistas fundamentais para compreender o conhecimento permutado entre eles. Há similaridade no comportamento de homens das le- tras, quanto ao estético, ético, ao político, ao histórico, aos precursores, com uma nova escrita nos seus manuscritos autógrafos e, sobretudo, nos epistolares.
É comum nos arquivos desses homens a existência de autógrafos, geralmente restritos, desconhecidos, por assim dizer, não-publicados. Como exemplo, temos os dossiês completos de manuscritos autógrafos. Estes trazem o estatuto de insubstituível no seu todo e em suas partes. Alguns deles são ricos em textos abandonados. São originais que justificam tratamen- to particular, exigindo uma classificação mais adequada à sua composição.
É comum encontrarmos também significativa quantidade de correspondências, repre- sentantes da sutil convivência dos homens das letras e os insuspeitáveis trechos de sua vida em diversas áreas do conhecimento humano. Eles não se identificam apenas na produção e acumulação de missivas. Percebemos que os literatos de uma mesma época repetem atos e comportamentos no seu cotidiano. Segundo Del Priori (1997, p.272), “a repetição cotidiana é a repetição da necessidade histórica de repetir. É (...) a história dos modos e das maneiras atra- vés dos quais os diferentes grupos podem se constituir sujeitos. Ou seja, o reconhecimento da valorização de uma imagem. ”
Nesse caso, os escritores, mesmo a distância, demonstram repetição de atitudes, explíci- tas nos seus documentos. Na maioria das vezes, o escritor exerce atividades diversificadas que se misturam com os escritos pessoais e literários. É o contributo da riqueza documental para estudos manuscriptológicos, textológicos, arquivísticos, históricos, críticos textuais, críticos genéticos, literários, entre outros. Com raras exceções, os manuscritos autógrafos são fre- quentes. Normalmente em versões. As correspondências se impõem diante de outras espécies documentais.
O arquivo pessoal de Godofredo Filho guarda discursos da geração de 1920-40, que reuniu tendências e expressões com afinidades e semelhanças sociopolíticas e artísticas. No
entanto, o seu tratamento, como de outros – e.g. de arquivo de arquitetos, geólogos - deve ter como base os princípios arquivísticos.
O ato de registrar os acontecimentos encontra-se aliado ao de reuni-los e preservá-los. As espécies documentais são provenientes do processo de acumulação e o arquivo privado reflete o perfil singular de seu detentor. Nesse caso, os escritores acumulam dossiês arquivís- ticos complexos, decorrentes de atividades literárias, de ações cívicas e culturais, de atividades exercidas no meio social e de caráter livre. Cada arquivo representa unidade orgânica e sua organização deve compreendê-lo com sua totalidade de documentos.
Entendemos que não é a forma, o suporte, o tipo, nem o conteúdo informativo que singularizam um documento de arquivo, mas, sim, a sua origem, ou seja, o modo como ele foi produzido, em consequência e no decurso da atividade da entidade produtora.
Compreendido o documento de arquivo na sua acepção, facilmente será também percep- tível que ele não tem significado enquanto entidade individual ou distante de seus pares. Na realidade, é o contexto orgânico de produção dos documentos que lhes dá significado próprio que não pode ser deixado de lado.
Não entendemos a organização de um arquivo em compartimentos (repartido). Os do- cumentos nascem a partir de ações neles registradas. No geral, essas ações possuem contin- gências que irão estabelecer o delineamento do arquivo.
A especificidade faz com que um arquivo seja diferente do outro. Nele, os documentos possuem unicidade porque se constituem de peças únicas, que, soltas, perdem sentido. A or- denação obedece à tipologia documental e deve refletir a relação orgânica da documentação. Não se pode pensar em arquivo sem pensar em documentos que possuam relacionamentos próprios com as ações e atividades exercidas por quem os acumulou num determinado percur- so de vida pessoal e jurídica.
Por exemplo, os documentos do arquivo pessoal de Godofredo Filho possuem caracte- rísticas históricas, legais e administrativas que irão representar sua substância e a razão de sua existência. Nele encontramos manifesta a vontade do titular, a evidência do ato, a sua memória.
Cada arquivo é produzido por uma pessoa singular, possuidora de um passado único, com sua existência também única. A leitura não pode ser de outro modo, senão revendo o interior e, mais precisamente, os enunciados comuns dos itens documentais do mundo do titular. Os enunciados encontrados no arquivo pessoal de Godofredo Filho fazem parte de seus sonhos e de seu modo de vida. Cada um tem seu objeto próprio, ou se cerca de um mundo também por ele mesmo construído.
Embora o conteúdo do documento isolado seja único, sabemos que, em arquivo, não existe documento órfão. Ou seja, o documento sozinho não tem sentido, valendo ele, isso sim, no seu conjunto orgânico.
O fator que norteia a constituição do arquivo pessoal de Godofredo Filho é a origem do documento. O que ele representou no momento de sua criação. A razão pela qual foi criado, sua função em concordância com os objetivos do titular.
Para tornar possível a recuperação de todo o arquivo pessoal, ele não foi retalhado, re- partido. Se assim fizéssemos, estaríamos negando os princípios arquivísticos e, mais ainda, re- jeitando a possibilidade de recuperação da informação, do volume organicamente catalogado.
Não concebemos o retalhamento, a distribuição do arquivo pessoal de Godofredo Filho e nem qualquer outra tomada de decisão que promova a separação de espécies e tipologias docu- mentais com tratamento diferenciado. Definitivamente, o fundo do arquivo pessoal analisado foi organizado de modo a salvaguardar sua história, numa perspectiva de conjunto documen- tal e não de frações/subconjuntos documentais ou de documentos solitários.
Concordamos com estudiosos que militam na mesma linha de pensamento e com o mes- mo ponto de vista de Tessitore (1989, p.25), quando esta diz que o tratamento arquivístico de um conjunto documental não propõe “um vínculo entre o arranjo e as expectativas da pes- quisa, pois esse papel de restabelecer o elo entre o cientista e o documento cabe - como se encontra há muito estabelecido - aos instrumentos de pesquisa”.