3.5 O software utilizado e a sequência percorrida
3.5.2 Utilizando o ATLAS/ti
Iniciei a análise após ter realizado a transcrição das três primeiras entrevistas que, juntamente com respectivos áudios, os introduzi como documentos no Atlas/ti criando uma Unidade Hermenêutica, no jargão do programa, a qual denominei ‘A exportação compreendida pelo comportamento psicossocial subjetivo’.
Posteriormente, inseri outros 16 (dezesseis) arquivos, sendo 6 (seis) deles, entrevistas realizadas em revisitas aos informantes e uma revisão bibliográfica da formação sociocultural da população de Arapongas. Pelo gerenciador de documentos (Primary Docs Manager), todos os documentos podem ser visualizados e manipulados.
O primeiro passo da análise denominada de codificação aberta, em que os conceitos foram identificados e deram origem às categorias com suas respectivas propriedades e dimensões. Dei início, primeiramente, recortando as partes dos textos consideradas relevantes, sejam eventos, incidentes ou acontecimentos, sem necessariamente discriminá-los desta forma. No ATLAS/ti este procedimento é denominado de criação de citações (quotes) e pode ser listado e manipulado pelo gerenciador de citações (quotation manager).
Na medida em que destacava as citações, atribuí um rótulo de identificação cujos
termos procuraram remeter a imagens ou significados evocados pelo informante, sempre que possível associados a um adjetivo. Importante observar que não há um rótulo para cada citação, pois o rótulo, significando uma ideia, pode estar presente em distintas citações que apresentem associação com esta ideia.
Cada fenômeno rotulado deu origem a um conceito, que como explicam Strauss e Corbin (2008, p.105), conceitos são a “[...] representação abstrata de um fato, de um objeto ou de uma ação/interação que um pesquisador identifica como importante nos dados”. Na estrutura do Atlas/ti são denominados códigos (codes) e são acessados através de seu gerenciador de códigos (code manager).
No momento da rotulação das citações, cuidei para que algumas tivessem o recorte de áudio associado ao trecho transcrito, seja por terem algum elemento que despertou minha atenção, seja porque a transcrição não permitiu captar todo seu significado. O Atlas/ti oferece esta operação, denominada ancoragem, através de um comando de hyperlink.
Também fiz associações com hyperlink entre citações da mesma entrevista, seja por que os interpretei como continuação de uma fala, por conter contradições, seja por ser uma explanação de uma ideia, ou ainda justificativa ou expansão de uma ideia anterior. Desta forma, construí vínculos lógicos entre os elementos de maneira a facilitar as associações seguintes.
O Atlas/ti revela a existência do vínculo entre duas citações através dos sinais ‘<’ e
‘>’ nos extremos do termo que identificam o tipo de relação eleita para associar duas citações, quais sejam: continuação de (continued by); contradição (contradicts);
crítica (criticizes); verbalização (discusses); expansão (expands); explanação (explains), justificação (justifies), e sustentação (supports). Estes termos aparecem logo abaixo da marcação da citação, na margem direita da tela de visualização.
Outra maneira de visualização é através do gerenciador (Hyperlink Manager) disponível através da opção Network na barra de ferramentas.
Com o intuito de propiciar o gerenciamento destas associações, para cada uma delas elaborei notas explicativas, acessíveis pelo gerenciador de citações, elucidando a interpretação que motivou à associação. Além disso, elaborei notas explicativas para todos os códigos criados ressaltando as características da ideia que ele representa, bem como os critérios que fazem de uma citação candidata a ser
ligada a ele, como sugerem Bandeira-de-Mello e Cunha (2003).
O Atlas/ti sinaliza a existência de notas explicativas inserindo o símbolo ‘~’ logo após o termo que identifica a citação, código ou memorando.
Uma vez elencados os conceitos, os agrupei de maneira a se constituírem em uma categoria conceitual, recebendo uma nova rotulação. Para rotular cada categoria, tomei um dos conceitos que se destacou como mais amplo e mais abstrato ou uma ideia que me pareceu trazer compreensão, de forma abrangente, ao conjunto de fenômenos agrupados.
O Atlas/ti permite duas formas de agrupamentos que dão origem às categorias: a) através da criação de famílias; e b) através da criação de vínculos. Agrupar distintos conceitos sob a égide de uma família, significa dizer que cada um destes conceitos pertence ou é propriedade desta família, ou ainda, “[...] são características ou atributos, gerais ou específicos, de uma categoria” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p.117).
Portanto, ao designar um conjunto de códigos para uma determinada família, eu estava criando uma categoria e ao mesmo tempo definindo suas propriedades. A cada uma destas propriedades (os códigos que são originados da família) designei uma dimensão própria (alto/ baixo, grande/pequeno, muito/pouco), ou seja, a cada propriedade atribuí um gradiente dimensional.
Para determinar as propriedades de cada família, ou dito de outra forma, determinar quais códigos estariam arranjados no mesmo agrupamento, bem como posicionar cada propriedade ao longo de suas dimensões, recorri às ferramentas de comparação teórica, tanto por comparação sistêmica (fechada e incomum), quanto por comparação flip-flop. Estes processos os descrevi em notas criadas a cada família.
As operações de criação, visualização e edição de famílias são realizadas no Atlas/ti a partir da opção Open Family Manager disponível em Documents/Edit family para criar famílias de documentos, Codes/Edit family para criar famílias de códigos, e Memos/Edit family para criar famílias de memorandos.
A outra forma de geração de categorias que utilizei foi através da criação de vínculos. A diferença básica entre uma estratégia de associação e outra, está na finalidade de cada uma delas. Enquanto que na criação de famílias a ideia está
voltada a associar códigos que possuem uma relação de pertencimento, a criação de vínculos está voltada a associar relações paradigmáticas. Esta é a etapa de codificação axial, onde examinei as relações entre categorias para construir as proposições da teoria substantiva.
Conforme explicam Strauss e Corbin (2008), a relação paradigmática envolve a relação entre fenômenos que são condicionantes, interagentes ou consequentes.
Utilizei neste momento a estratégia de comparações teóricas a fim de determinar propriedades e dimensões de cada categoria e respectivas subcategorias e comparações do tipo incidente-incidente.
O Atlas/ti oferece as seguintes opções no momento da criação de vínculo: é associado com (is associated with); é parte de (is part of); é causa de (is cause of); é uma contradição (contradicts); é um (is a); é propriedade de (is property of).
Entre as atividades de geração de categorias fui compelido a retornar ao campo com o propósito de colher novos dados junto aos respondentes a fim de diminuir dúvidas, esclarecer fatos, ampliar informações e validar conceitos.
A cada passo deste processo fui criando registros escritos das análises, como orientam Strauss e Corbin (2008), que os denominam memorandos. Nestas notas de análise busquei registrar o raciocínio que desenvolvi, os insights que tive, os resultados das comparações, entre outros, de forma a manter registrado meu caminho interpretativo. Manter estes registros é fundamental, explicam Bandeira-de-Mello e Cunha (2003), pois:
[...] são o principal instrumento para futuras auditorias no processo de pesquisa utilizado e por isso o pesquisador deve ser claro, e ter em mente que outras pessoas ao lerem seus apontamentos devem ser capazes de seguir o mesmo caminho trilhado (BANDEIRA-DE-MELLO; CUNHA, 2003, p. 8).
Embora cada um dos componentes do ATLAS/ti permitam a adição de um comentário (utilizando o comando edit comment), podemos entender os memorandos como comentários em um nível qualitativo superior, visto que são aquelas anotações oriundas do processo de análise, podendo abarcar notas na forma de lembretes para posterior análise ou ida a campo, hipóteses de trabalho, explicações sobre as relações encontradas, conclusões, etc., enquanto que os
comentários inseridos nos próprios documentos têm mais uma característica descritiva do que analítica.
Strauss e Corbin (2008) classificam os memorandos em três categorias: a) notas de codificação, que são os memorandos que contêm os produtos reais dos três tipos de codificação (aberta, axial e seletiva); b) notas teóricas, que são os memorandos que contêm considerações e as ideias do analista sobre a amostragem teórica; e c) notas operacionais, que são os memorandos que contêm direções de procedimento e lembretes.
Bandeira-de-Mello e Cunha (2003), por sua vez, sugerem que se dê um código para cada memorando, que remeta à etapa da análise em que cada um deles foi gerado.
Desta forma os memorandos que criei apresentam a seguinte codificação: OC, para quando gerados no processo de codificação aberta; AC, quando gerados no processo de codificação axial; SC, quando gerados no processo de codificação seletiva; e AT, quando referentes a revisitas à amostragem teórica.
Assim, cada memorando segue a classificação proposta por Strauss e Corbin (2008) e a nomenclatura proposta por Bandeira-de-Mello e Cunha (2003). Além disso, tomei o cuidado de datá-los e de ser o mais conceitual no momento de sua elaboração.
A geração dos memorandos no ATLAS/ti faz- se utilizando os comandos disponíveis no gerenciador de memorandos (memo manager). Um memorando pode estar associado a uma citação, a um código ou mesmo a outro memorando. Neste caso utiliza-se a opção link memo to, optando-se por uma destas possibilidades (quotations, codes, memos). Outra opção é a criação de memorandos sem associações. Neste caso a opção é Create Free Memo.
O próprio ATLAS/ti já embute a facilidade de dar um nome que associe o memorando à etapa de análise através de uma janela editável de título (Title) e a classificação do memorando com três opções (Commentary, Theory, Memo), bem como a possibilidade de inserir data e horário da geração do memorando através da opção Insert Date/Time.