CAPÍTULO 2 – HIBRIDISMO E MEIO DIGITAL
2.2 A LINGUAGEM DOS NOVOS MEIOS SEGUNDO LEV MANOVICH: OS
2.2.6 UTILIZANDO OS CINCO PRINCÍPIOS PARA COMPREENDER O
Entendo que é útil, para ampliarmos a inteligibilidade do objeto desta pesquisa, levar um pouco além a descrição dos cinco princípios, tentando relacioná-los, mais diretamente, ao Storify e à prática da curadoria digital.
Destaco, nesse sentido, primeiramente, o fato de que, em conjunto com os dois tipos de automação (de baixo e alto nível), Manovich já apontava, cerca de treze anos atrás, para o fato de que os computadores (inclusive os servidores de web) se constituiriam como meios de estocagem e de acesso à enorme quantidade de material de mídia “nova”, assim como “digitalizada”. Essa quantidade tão grandiosa, já dizia, criaria a necessidade de encontrar caminhos mais eficientes para classificar e procurar objetos de mídia do que os modos tradicionais da biblioteconomia e práticas classificatórias usuais. Essa “previsão” do autor, como já dito no Capítulo 1, não deixava de apontar, ainda que indiretamente, para a valorização e expansão da curadoria, aliada a novas possibilidades e a novos formatos técnicos, o que viria a ser hoje a curadoria digital.
É possível afirmar que, no Storify, a automação de baixo nível é claramente vista no processo de curadoria, que envolve a busca automática de fontes e de itens de mídia para a composição das stories. Tal processo integra as informações dos bancos de dados
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proporcionados pelas redes sociais e as formata segundo o template e script de construção da story, projetado pelos engenheiros da plataforma, o qual faculta certa linearidade e sequencialidade para o encadeamento dos elementos trazidos pelo algoritmo, por assim dizer. Esse tipo de automação remove a necessidade de grande conhecimento técnico por parte do usuário e está intimamente ligada à simplicidade da interface que compõe a plataforma.
Muito embora Manovich não aborde a nomenclatura utilizada para dar nome a essa prática, é claramente reconhecível que ali estava em gestação o conceito de curadoria digital, sobretudo porque se trata de uma prática que se beneficia, sobremaneira, de princípios como o da automação e o da variabilidade. Ao reconhecer a abundância de informação como condição básica de nossa sociedade, o autor também indica a existência do que chama de “softwares agentes”, que auxiliam o processo de busca de informação relevante.
Os softwares agentes são divididos, basicamente, em dois tipos: aqueles cuja funcionalidade é filtrar informação de forma automática a partir dos critérios do usuário; e aqueles que permitem que os usuários aproveitem a experiência de terceiros, seguindo a seleção e escolha já feita por estes (MANOVICH, 2001). É possível afirmar que, no caso específico do Storify, esses dois tipos de atuação dos agentes automáticos ocorrem simultaneamente. Quando o usuário da plataforma escolhe um tema para elaborar sua story, este assunto se torna o mote para a procura de informações relevantes por parte do buscador da interface de criação das mesmas. Essas informações, por sua vez, já foram criadas por outros usuários de redes sociais – como o Facebook e o Twitter – ou de sites de compartilhamento de vídeos e fotos, como o Youtube e o Flickr, respectivamente. Entretanto, essa é só uma etapa preliminar do processo, já que é o criador/curador do objeto textual story quem fará a seleção final dos elementos que estarão presentes em sua publicação.
Além da questão da automação do processo de criação das stories, alguns casos particulares do princípio de variabilidade envolvem fatores importantes a serem considerados. O que se vê, em relação ao Storify, é a variabilidade estendida não apenas às diversas formas de instanciação de um mesmo objeto, mas à recontextualização de diversos itens de mídia, até então alocados em suas respectivas redes sociais, num
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mesmo bloco: a própria story. Essa recontextualização naturalmente tem a ver com os processos de customização pressupostos pelas novas mídias.
Ainda com relação à variabilidade, convém destacar, como uma de suas manifestações, a própria hipermídia, se entendermos os diferentes percursos de navegação e leitura facultados ao hiperleitor como um processo de (re)montagem de módulos (lexias) relativamente independentes. Desse modo, a variabilidade, no caso da hipermídia, relaciona-se com as variadas possibilidades de combinação dos módulos (lexias), disponíveis em diferentes formatos e em diferentes instâncias de um mesmo objeto.
Quando se cria um mashup de vídeo que é disponibilizado no YouTube, por exemplo, é possível assisti-lo em um smartphone, na TV, em um netbook ou em um telão, sendo cada uma dessas instâncias prenhe de significados que podem ou não ganhar destaque em cada uma dessas situações. Em síntese, a modularidade é um princípio que possibilita outro – a variabilidade – porque multiplica as combinações. No caso do Storify, temos esses princípios funcionando de forma ainda mais intensa, justamente porque a prática da curadoria tem a ver com combinar e (re)montar diferentes instâncias de objetos (itens de mídia) para produzir ainda outros objetos (as stories).
Entretanto, a variabilidade também facilita a modularidade, no sentido de que é possível tomar uma instância de um objeto para ser módulo de outro, sem que isso interfira na fonte desse objeto: conseguimos colocar um vídeo do YouTube dentro de uma story, por exemplo, agregando-o a ela, mas na verdade estamos colocando apenas uma instância, uma variação do vídeo, cuja fonte está, de fato, alocada no site do YouTube.
Em suas diferentes manifestações, a variabilidade torna possível, entre outros exemplos, que as stories produzidas com o auxílio da plataforma Storify possam utilizar um mesmo item de mídia, ainda que o tema (ou mesmo o produto final para a publicação) estabeleça-se de forma distinta. Por exemplo, diferentes usuários podem utilizar um mesmo vídeo do YouTube para “citar” a posse do papa argentino Francisco I; no entanto, isso não garante que eles produzam, ao final da coleção de itens de mídia que recolheram, uma mesma story, já que podem customizar individualmente as suas experiências e impressões em relação a esse evento. É claro que isso é permitido pela
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sua própria intervenção – experiências e impressões –, mas também é viabilizado pelo princípio da modularidade em consonância ao de variabilidade.
Finalmente, convém notar que, já em 1999, três anos antes da publicação de seu livro de 2001, Manovich discutia a relação simbiótica entre os algoritmos e as estruturas dos bancos de dados, que formam a ontologia do mundo segundo a lógica computacional e se que relacionam, portanto, à transcodificação:
O mundo é reduzido a dois tipos de objetos de programação que são complementares: estruturas de dados e algoritmos. Qualquer processo ou tarefa é reduzida a um algoritmo, uma sequência final de operações simples que um computador pode executar para cumprir uma tarefa 48. (MANOVICH, 1999, s/p)
Com relação ao meu objeto, cabe aqui questionar a costumeira, e não muito acurada, classificação binária passivo-ativa da informação versus algoritmo, já que a informação precisa ser gerada, não existindo por si só. Isso é especialmente importante para a discussão acerca da curadoria quanto ao viés da intervenção humana, em contraposição ao dos algoritmos curadores. A informação, uma vez digitalizada, tem que ser organizada e indexada. São os algoritmos, portanto, que especificam a sequência de passos que deve ser seguida por um conjunto de dados, tal qual a estrutura da hipermídia especifica um conjunto de percursos de navegação possíveis (MANOVICH, 2001). No entanto, ainda é o ser humano o responsável pelas escolhas finais desse processo e pela própria criação dos algoritmos, em primeira instância.