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De acordo com as características mencionadas pode-se relacionar a comunicação democrática com a utopia e o seu oposto, a comunicação não-democrática ou totalitária, com a distopia. Esta oposição radical entre os modelos117 tem aqui uma função didática para que

seja possível atribuir a cada um deles características específicas. Na prática, os modelos podem ser híbridos e multifacetados, explicitando a dialética inerente a eles. Isto é, assim como na comunicação totalitária há brechas (ainda que não-oficiais) para a manifestação dos

117 Por modelo entende-se um construto teórico que comporta e serve para explicar teoricamente os sistemas

aqui analisados. Para operarem efetivamente como categorias metodológicas, os modelos estabelecidos reproduzem a realidade perceptível em termos bastante genéricos, partindo do pressuposto que não há interferências externas nos sistemas em questão, nem a influência dos afetos dos sujeitos. Sua construção é realizada pela aglutinação de diversas características dos objetos e mediante a organização de fenômenos e dados, formando um quadro homogêneo que possibilita o estudo do que denominamos de utopias e distopias da comunicação.

sujeitos, existe na comunicação democrática certo controle (mesmo que sutil)118. Porém, os

regimes democráticos ou totalitários são tratados de forma antagônica, ressaltando-se suas especificidades e não as possíveis congruências. Fazê-lo resulta em construções meramente teóricas que não necessariamente correspondem à realidade, mas que possibilitam categorizações e análises. Quando se afirma taxativamente que a comunicação ocidental contemporânea é democrática, diz-se na realidade: “aquilo que é percebido como comunicação ocidental contemporânea tem características predominantemente democráticas”. Ou seja, a democracia é o que se percebe de determinado sistema em dado momento. O mesmo é valido para a comunicação totalitária. A simples organização em modelos esconde um caráter fortemente ideológico: ou toma-se partido de um tipo de comunicação ou de outro, pois, ao serem observados separadamente, seus antagonismos parecem irreconciliáveis. Os modelos de comunicação democrático e totalitário, por se situarem em extremos, personificam respectivamente utopia e distopia da comunicação. Ou seja, um tipo de comunicação que contribui com a democracia e com os direitos do homem e outro em que a comunicação, ou a sua ausência, contribui para aprisionar os indivíduos nas tiranias.

Os modelos democrático e totalitário nascem dos anseios e temores da sociedade, mais especificamente dos setores que lidam diretamente com a comunicação. A visão democrática pressupõe que desfeita a União Soviética, último baluarte não-democrático do ocidente, a comunicação caminha – processo acelerado com o advento da internet – para integrar os povos e fortalecer a democracia. Isto se dará globalmente, por permitir que “verdades” circulem em todo o mundo, por viabilizar a expressão de pensamento e o livre debate. No ocidente, a comunicação totalitária é um fantasma do que foram os regimes nazi-fascista, o populismo, as ditaduras sul-americanas e o regime soviético. A discussão sobre este tipo de comunicação é trazida para a contemporaneidade apenas pela postura de países como a China, das ditaduras africanas ou árabes. Acredita-se que a tendência é caminharmos para um futuro em que “liberdade, igualdade e fraternidade” serão praticadas integralmente e as diferenças deixarão de existir. A comunicação teria uma participação gloriosa neste processo, mediando as relações humanas em todos os níveis. Julga-se que o totalitarismo e a tirania não mais ameaçam o mundo ocidental e que subsistem de forma residual em regimes já ultrapassados, o que corresponde a uma visão pós-colonialista na qual se crê que certas localidades (América

118 A este respeito Althusser (1985 p. 35) afirma que mesmo a democracia é uma fachada para que as classes

dominantes exerçam seu poder hegemônico. Para ele, a democracia política realizará, para manter o status quo vigente, uma sutil dominação cotidiana no que Lênin chama, depois de Marx, de ditadura da burguesia. Trata-se de uma visão bastante radical, porém que evoca o potencial de controle autoritário nas democracias.

do Norte e Europa Ocidental) são mais evoluídas do que outras (países subdesenvolvidos e em desenvolvimento). Tal antagonismo parece menos nítido na medida em que o capitalismo da China se amplia, por exemplo. Assim, enquanto o país é criticado pelas agências humanitárias por seus aspectos ditatoriais, é festejado por seu desenvolvimento e por ser um dos motores da economia mundial.

Modelos de comunicação são apenas idealizações de sistemas reais; generalizam-se determinadas características sob tais termos. Daí o empréstimo da literatura dos conceitos de utopia e distopia para nomeá-los. Por utópicas denominam-se as sociedades harmônicas e estáveis, nas quais a felicidade e a paz de seus membros são perenes. Além de se situar num não-lugar, a utopia pode ser a-histórica. Isto significa que ela acontece tanto no passado quanto no futuro, elegidos como fuga do momento presente. No caso da comunicação utópica, sabemos que ela não se dá no passado, porque os sistemas anteriores tendiam para o totalitarismo, nem no presente, pois mesmo democrática a comunicação apenas caminha para a perfeição utópica, mas no futuro, quando todos os cidadãos tiverem acesso à informação. Trata-se desta questão como se a evolução dos sistemas de comunicação fosse inexorável e partindo-se da crença geral que as práticas atuais podem estabelecer os parâmetros de democracia no futuro.

O ponto em comum entre utopias literárias e utopias da comunicação é a aura de profilaxia, limpeza e expurgo, como se de fato fosse possível remover as práticas nocivas das sociedades. Pouco objetivo, o projeto utópico é ameaçado pelas singularidades dos sujeitos, que a vida social não é capaz de anular senão pelo uso da força bruta. Rousseau (1980) afirma que, para evitar a guerra de todos contra todos, os homens abdicam de alguns de seus direitos em prol de outros, o que não significa sob nenhuma hipótese que haja a abdicação total dos direitos naturais. É justamente nesta questão que o enlevo utópico apresenta sua maior fragilidade: como efetivar a democracia na comunicação, considerando que esta implica em poder e que os homens se atêm prioritariamente aos seus interesses particulares? Ou, como efetivar a democracia da comunicação no capitalismo, considerando que o desejo de democratizar meios e informações está submetido à lógica do capital? Tais problemas às vezes passam despercebidos diante da crença cega na utopia. A resposta para estas questões costuma ser simplesmente “por meio da técnica” ou, de modo mais elaborado, “com a democratização das tecnologias informacionais”. De fato, a tecnologia mais barata e acessível facilitaria a comunicação de todos com todos, fomentando a democracia. Porém, ela também pode conduzir ao totalitarismo ao permitir que se exerça um maior controle sobre os sujeitos.

O início do século XXI tem mostrado que, ao contrário do que se acreditava no início do século anterior, a tecnologia não é capaz de solucionar sozinha os problemas da humanidade. Pelo contrário, ela pode agravá-los. Por isso, a utopia tecnológica se apresenta também como distopia, possibilidade de aniquilação da humanidade e de controle. Conceitualmente distopia é o contrario da utopia, desconstrução da vida em sociedade conforme a concebemos.

A anti-utopia é formada pela utopia, alimenta-se dela como um parasita. Se a utopia é o original, a anti-utopia a cópia – só que, sempre colorida de preto […] Ela evocará o lado negro da espécie humana como o seu lado preponderante. Os homens são criaturas caídas e pecaminosas (KUMAR, 1987).

É na distopia que a tensão constante da ameaça do homem sobre o homem se torna real. Neste contexto, a liberdade é cerceada e diferentes formas de comunicação são absolutamente controladas ou proibidas. O plano da distopia parece ser realizável – e neste ponto tanto quanto o da utopia – por ser formulado pela radicalização dos dados fornecidos pelo real. Contudo, enquanto as utopias da comunicação nunca se realizaram completamente, projetando-se para o futuro, as distopias já aconteceram de maneiras distintas e com várias intensidades entre as décadas de 1930 e 1980. Disto decorrem duas implicações. A primeira é a crença dos que defendem a comunicação democrática de que a humanidade não é capaz de repetir os mesmos erros e retornar – considerando uma visão evolucionista das civilizações – a um estágio anterior, à época dos regimes totalitários. Parte-se do pressuposto que os processos comunicacionais evoluem continuamente, disseminando-se e criando raízes no corpo social, o que serviria de blindagem contra quaisquer intentonas totalitárias. A segunda implicação é pessimista e defende que o totalitarismo deve ser continuamente analisado, pois embora não esteja na iminência de reaparecer, seu fantasma ronda a humanidade justamente por ser o desejo de poder uma característica inata aos indivíduos.

Não se trata de acreditar que as sociedades estão podres ou que os homens são naturalmente maus, mas de perceber que, pelo menos frente ao contexto atual, a utopia parece ainda distante e que crises no modelo estabelecido podem acontecer a qualquer momento por conta da fragilidade das próprias instituições democráticas. Se a utopia descreve como o mundo deveria ser, a distopia nasce de um pessimismo histórico. A utopia tem ainda a peculiaridade de apelar para a razão e para a moral do homem, libertando-o das trevas que o faziam cativo. Já a distopia questiona se é possível apelar para a razão e para a moral e se coloca em posição defensiva diante de tal crença. Na dúvida, diriam os que temem a distopia, é melhor se preparar para combater o totalitarismo do que se fiar ingenuamente na

democracia. Este ponto de vista leva a refletir sobre como o entusiasmo com o progresso cega os indivíduos para as ameaças que este mesmo progresso apresenta.

Utopia e distopia são contingenciais, características inerentes ao contexto ideológico no qual os sistemas de comunicação estão inseridos. Em si, as mídias são neutras e cabe àqueles que as operam defender este ou aquele ponto de vista de acordo com as suas inclinações. Como decorrência, não se pode dizer que no futuro a comunicação será necessariamente uma coisa ou outra, isto dependerá de fatores sócio-políticos exteriores a ela. No entanto, há uma tendência para a democratização dos conteúdos veiculados e do acesso à informação, o que leva muitos pensadores de comunicação à euforia. Todavia nenhuma mídia é capaz de sustentar sozinha a democracia. Para que o futuro utópico democrático se efetive é necessário que o sistema representativo como um todo amadureça. Paradigmas utópicos e distópicos são criados ou resgatados mais por sua capacidade de proporem análises sobre a realidade do que simplesmente por suas características de otimismo ou pessimismo. Assim utopias e distopias acionam o imaginário sobre o futuro com base em elementos do presente, funcionando como crítica e reflexão do momento atual.

5 IDEOLOGIA, COMUNICAÇÃO E PODER

Se o leão tivesse consciência, sua raiva do antílope que ele quer comer seria ideologia (ADORNO apud EAGLETON, 1996, p. 201).

O termo ideologia recebe ao longo do tempo sentidos e conotações diversas. De “ciência das ideias” como proposto por De Tracy119, ideologia passa a significar o vazio de

determinadas ideias ou as ideias da classe dominante, conforme a crítica marxista120. Com

Marx o conceito ganha um lugar central nas ciências sociais. Na tentativa de se elaborar uma concepção de ideologia fora da tradição marxista, ela aparece no pensamento de Mannheim como algo negativo, contrapondo-se à utopia. Thompson (1995b) alerta que a noção de ideologia não aparece uniformemente nos escritos marxistas, mas de formas distintas de acordo com o contexto em que é apresentada. Mesmo Marx a utiliza de maneira fluída, conforme seus interesses, contudo a divisão social do trabalho e a ênfase na superestrutura121

são fundamentais para a compreensão de ideologia no marxismo. Ao criticar a visão marxista de ideologia, Althusser (1985) enfatiza a categoria sujeito. Para o autor, toda ideologia funciona através do sujeito e é somente nela que o sujeito existe. Daí a aplicação do conceito de interpelação122. A sociedade reconhece os sujeitos, como se eles fossem chamados pelo

nome, identificando-os a si e aos grupos. Com a interpelação, mascara-se a irrelevância do sujeito para que ele seja capaz de ocupar seu papel na sociedade. A coerência deste, ainda que ilusória e provisória, seria atribuída pela ideologia.

Mais do que impor ideologias manifestas, cabe às classes dominantes, para manter-se como tal, transmiti-las e disseminá-las simbolicamente no cotidiano. A dominação deve ser velada e mascarada com ares de compreensão e consentimento para que opere adequadamente. Neste ponto, a racionalidade técnico-científica, aparece como ideologia e como justificativa ideológica. O que pode ser racionalmente explicado é o que deve ser feito. Em adição, estando a racionalidade (em função da técnica) em toda parte, sua ideologia

119 O iluminista Francês Destutt de Tracy introduz o termo ideologia no século XVIII. Segundo Thompson

(1995b, p. 43), desde então “tornou-se uma arma numa batalha política travada no terreno da linguagem”.

120 A noção de ideologia como conjunto de ideias da classe dominante reverbera nos conceitos de hegemonia de

Gramsci e de Aparelhos Ideológicos de Estado de Althusser.

121 Em A ideologia alemã (1846), como crítica aos jovens hegelianos, a ideologia é apresentada como “uma

doutrina teórica e uma atividade que olha erroneamente ideias como autônomas e eficazes e que não consegue compreender as condições reais de produção e as características da vida sócio-históricas” (MARX; ENGELS apud THOMPSON, 1995b, p. 50).

122 Althusser empresta o conceito de interpelação de Lacan. Na visão de ambos, somos sempre interpelados

também está. Pêcheux (1996, p. 144) concorda que as ideologias se disseminam com a reprodução/transformação das relações de produção. Segundo o autor, estas relações ocorrem no complexo dos Aparelhos Ideológicos de Estado contidos numa dada formação social. O predomínio de uma ideologia se dá porque a reprodução das condições de produção é mais eficaz do que sua transformação. Não existe prática, a não ser através de uma ideologia e por meio dela, e nem existe ideologia, exceto pelo sujeito e para os sujeitos (Ibidem, p. 147); daí a importância do discurso e da comunicação. A comunicação é racional em seus sistemas e mídias, o que a torna ideológica. É também suporte para a linguagem e para os símbolos que materializam as ideologias circulantes em determinada sociedade. Por meio de ambas – tecnologia e linguagem – as ideologias se espalham nos tecidos sociais e são introjetadas pelos indivíduos que passam a normatizá-las e adotá-las como suas.

Os Aparelhos Ideológicos são utilizados pelo Estado para garantir a reprodução das relações de produção através da disseminação contínua da ideologia dominante ou das “diferentes ideologias, religiosas, moral, jurídica, política, etc.” (ALTHUSSER, Ibidem, 1985, p. 26) que integram, juntamente com o nível jurídico-político, a superestrutura de uma sociedade. Para explicar esta noção, recorre-se à metáfora do edifício. Numa construção, os andares superiores (superestrutura) não se mantêm se não forem assentados sobre sua base (infraestrutura). Todavia, existe uma “autonomia relativa” da superestrutura em relação à base, assim como uma “ação de retorno” da superestrutura sobre a base (Ibidem, p. 27), pois a produção material exige uma estrutura ideológica que a retroalimente. Embora Althusser trate da comunicação como Aparelho Ideológico, referindo-se a sua possibilidade de servir aos interesses dominantes e situar os indivíduos na cadeia produtiva, cabe a Adorno e Horkheimer (1985) explicitarem esta relação. Para eles, a Indústria Cultural exerce o papel de transmissora das ideologias dominantes. A técnica a que os homens se submetem é brutalizante e os torna cativos do sistema produtivo, o que diminui a capacidade de mobilização e a consciência das massas, por um lado, e impede a formação de indivíduos autônomos e capazes de decidir conscientemente, por outro. Neste sentido, o próprio lazer proporcionado pela Indústria Cultural seria uma forma de mecanizar os sujeitos, pois ocupa o tênue espaço entre a pausa e o retorno ao trabalho em que não caberia quaisquer reflexões, mas apenas formas de distração e entretenimento que permitam a volta regular às atividades produtivas.

Pelas leituras de Althusser, Gramsci e Adorno e Horkheimer, apreende-se que a comunicação é parceira do poder estatal. Os meios de comunicação hegemônicos corroboram com a ideologia do Estado, compartilham-na e a disseminam. A comunicação ou a

informação como Aparelho Ideológico inclui imprensa, rádio, televisão e quaisquer outras instituições públicas ou privadas cuja função é inocular e disseminar ideologias no corpo social. O Aparelho Ideológico da informação funcionaria levando a “todos os ‘cidadãos’, doses quotidianas de nacionalismo, chauvinismo, liberalismo, moralismo, etc” (ALTHUSSER, 1985, p. 63) e recheando-os da ideologia que convém ao papel que os indivíduos devem desempenhar na sociedade de classes. Além das ideologias, estes aparelhos atuam utilizando formas de repressão simbólica. Exclusões, seleções e censura de elementos informativos realizadas no processo comunicacional são exemplos desta repressão. Os meios de comunicação de massa permitem que determinados conteúdos ideológicos tenham, em detrimento de outros, o maior alcance possível, atingindo os sujeitos em situações distintas e permitindo que adquiram características homogêneas.

A mídia de massas se configura como transmissora em larga escala das ideologias dominantes. Nas entrelinhas das notícias e mesmo nos mais inofensivos programas de entretenimento estão expressas, às vezes em doses homeopáticas, outras escandalosamente, as formas de pensamento hegemônico. Olhando mais atentamente o caso dos jornais, Marx (1980, p. 44) nota, já em 1842, que mesmo onde não havia censura institucionalizada o “jornalismo como negócio” representava uma ameaça à liberdade de imprensa devido às imposições e restrições dos proprietários dos meios. Mesmo não havendo controle direto da comunicação pelo governo, a ditadura do capital prevaleceria, reproduzindo os conteúdos simbólicos da classe dominante sob a carapuça da liberdade. Aqueles que mantêm o controle dos meios de produção usarão os Aparelhos Ideológicos para transmitir as ideias que tenham interesse de reproduzir e perpetuar. As ideologias da classe dominante integram uma rede de representações, regras, valores e imagens que sustentam o que compreendemos como realidade. Tal rede determina os limites de ação dos indivíduos, moldando pensamentos e condutas, conforme postulado por Althusser ao mencionar a transmissão dos valores dominantes. Embora forneça conforto e favoreça a vida em sociedade, a rede de valores construída, neste caso, pelas mídias oculta as contradições da vida social.

Por definirem certo e errado, as ideias propagadas pela classe dominante estruturam padrões de comportamento, limitando o espaço dos desejos e ambições pessoais e definindo possível e impossível dentro do que é considerado socialmente aceitável. A partir da disseminação e assimilação das ideologias da classe dominante, acontece o processo de condicionamento, possível apenas pela introjeção efetiva dos sistemas simbólicos. A comunicação de massa se destaca como ferramenta de transmissão de tais sistemas. Trata-se

de moldar os sujeitos por aquilo que eles apreendem como realidade e como padrões de comportamento através da mídia. Isto viabiliza a manutenção do poder, passando as ideologias de uma classe a ser incorporadas pelas demais, assumindo um caráter de normalidade e normatividade. A disputa política implica em disputa ideológica que é travada recorrentemente no âmbito da comunicação. Por diferentes subterfúgios, as classes dominantes controlam os meios de comunicação, assim as informações divulgadas correspondem aos seus interesses e busca-se disseminar apenas aquilo que contribui para a manutenção do status quo destas classes.

No sentido weberiano racionalização significa submissão a padrões de decisão racional. Habermas (1983, p. 313) comenta que a racionalização da sociedade se relaciona à institucionalização do progresso científico e técnico, especialmente na medida em que estes avançam sobre as instituições sociais, integrando-as, transformando-as e fazendo com que ideias e crenças anteriormente estabelecidas desmoronem. O mecanismo de dominação descrito por Habermas é ao mesmo tempo simples e sofisticado: a racionalização das condições de vida implica em institucionalização e, por conseguinte, na extensão do agir racional-com-respeito-a fins por toda sociedade. Uma vez que se baseia na técnica e na ciência, a racionalidade dispensa explicações políticas, já que estas estão na sua própria finalidade que é a instrumentalização das atividades humanas. Os sistemas de dominação construídos em torno da técnica camuflam suas ideologias. O fato da ideologia aparecer como conteúdo subliminar à dominação pela técnica não significa sua ausência. Marcuse (apud HABERMAS, 1983, p. 314) argumenta que o próprio conceito de razão técnica de Weber é uma forma de ideologia, assim como a técnica em si. Segundo Habermas, Marcuse defende tal argumento desde 1967, quando indica que a dominação nas sociedades capitalistas