2 MATERIAL E MÉTODO
VAGINOSE BACTERIANA
VARIÁVEISSAÚDE BUCAL
VAGINOSE BACTERIANA
Valor de p
Ausente Presente
(n = 21) (n = 15)
Índice de Placa Visível (IPV) 1,34±0,72 1,05±0,78 0,13
Índice Periodontal Comunitário (IPC) 1,71±0,78 1,47±1,06 0,26
Média±dp; Teste Mann Whitney; Nível de significância (p≤0,05).
Fonte: Dados da pesquisa.
Os resultados apresentados na presente pesquisa sugerem uma análise discursiva de aspectos importantes como: as características de risco que as gestantes apresentam quando admitidas nos referido serviço de saúde, as condições de saúde bucal e o conhecimento das mesmas sobre hábitos de higiene bucal; e o perfil do serviço prestado pelo Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA) as mulheres gestantes oriundas da capital e do interior do estado de Alagoas.
4 DISCUSSÃO
Os resultados da presente pesquisa, mostraram que as gestantes atendidas no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), apresentaram como perfil sócio-demográfico: Idade média materna de 21,9 ± 5,58 anos (Média ± DP), o que as classifica como adultas jovens, provenientes do interior de Alagoas, com nível educacional básico, donas de casa e vivendo em situação conjugal estável. Foi observado também um número maior de gestantes primigestas, com idade gestacional maior ou igual a 37 semanas e que tiveram parto cesareana.
No período estudado, de setembro de 2015 a janeiro de 2016, observou-se maior percentual de gestantes com parto a termo (52,8%) e a maioria dos bebês nascidos apresentavam peso normal (66,7%). Tal situação mostra que o referido hospital não atendeu, nesse período, pacientes que justificassem perfil de gestação de alto risco.
Foram realizados cruzamentos das variáveis sócio-demográficas, gestacionais e odontológicas, entre os grupos parto a termo e bebê de peso normal, com parto prematuro e bebê de baixo peso, e a partir desses dados realizada inferência estatística.
Quando foram analisadas as variáveis peso do recém-nascido (RN) e a idade gestacional (IG) observou-se que as gestantes que tiveram parto pré-termo apresentaram uma maior prevalência de bebês de baixo peso (Mann Whitney; p=0,001). O baixo peso ao nascer e a prematuridade, são os fatores mais importantes na determinação da mortalidade neonatal. Essas crianças, apresentam um risco de mortalidade superior aos bebês nascidos com peso maior ou igual a 2500g e idade gestacional maior ou igual a 37 semanas (KILSZTAJN, 2003).
Como conseqüência da pouca maturidade de seus órgãos, os recém- nascidos prematuros e com baixo peso, estão mais sujeitos a agravos futuros, como: problemas respiratórios, neurológicos e psíquicos, além de distúrbios do comportamento como déficit de atenção, dificuldade de aprendizagem e hiperatividade (ZANATTA et al., 2007; ALMEIDA et al., 2013).
Ao longo do tempo, a literatura tem demonstrado uma associação entre a restrição do crescimento intrauterino (RCIU), o baixo peso ao nascer (BPN) e as doenças na vida adulta, como doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e doenças metabólicas, particularmente o diabetes mellitus (DM) tipo 2 (PRATI, 2011).
Vários fatores de risco são reconhecidos para a ocorrência de parto pré-termo e baixo peso ao nascer sendo importante discutir as relações analisadas na presente pesquisa.
Os cruzamentos das variáveis sócio-demográficas estudadas, não apresentaram diferenças significativas entre os grupos de gestantes que tiveram parto a termo e bebê de peso normal, com aquelas que tiveram parto prematuro e bebê de baixo peso. Ou seja, a idade, a procedência e escolaridade, não apresentaram influência sobre o desfecho na população estudada. Corroborando com o estudo de Bragion et al. (2012), que avaliaram 45 puérperas e concluíram que não houve diferença das características demográficas entre o grupo de mulheres com parto a termo ou pré-termo. Fatores como: idade materna, o nível de escolaridade, estado civil e número de gestações anteriores são considerados, na literatura científica, categorias de risco para baixo peso e/ou prematuridade (KILSZTAJN et al, 2003).
A gravidez na adolescência, e nos extremos da vida reprodutiva, podem provocar complicações na gestação, como: desordens hipertensivas, rotura prematura de membranas e mais chances de parto prematuro e de recém nascido de baixo peso ao nascer (KILSZTAJN, 2003; JOSEPH et al., 2005; PELISSARI et al.,
2008). Ainda enfatizando fator de risco pode-se observar associação entre menor nível de escolaridade materna e BPN, por estar relacionado ao baixo padrão sócio- econômico dessas mães, que possivelmente ganham menos peso na gravidez, e possuem um menor número de consultas pré-natal (UCHIMURA et al., 2008).
Quanto às características obstétricas foi observado que o número de gestações anteriores não apresentou relação com o PP e RNBP (Mann Whitney; p = 0,26), o que também foi verificado nas pesquisas de Hay et al. (1994), Ridvan et al. (1993) e Santos, Duarte (2014). A paridade é apontada como fator de risco associado ao PP e RNBP e, citada pela literatura científica, como na pesquisa de Almeida et al. (2012), que mostrou que a condição de ser mãe primípara, possuir assistência pré-natal deficitária, e a presença de intercorrências clínicas gestacionais, podem aumentar as chances de prematuridade em duas, cinco e quatro vezes, respectivamente. Pesquisas como a de Goldenberg (1998), Uchimura et al. (2008), Bezerra, et al (2008) e Rojas (2013) citam a paridade como um fator que, em conjunto com aspectos sociodemográficos, como a idade e baixa escolaridade, podem elevar o risco de um nascimento prematuro.
Na presente pesquisa não foram identificadas relações estatisticamente significativas entre as variáveis parto prematuro anterior, uso de fumo e álcool na gestação, síndrome hipertensiva, infecção urinária e amniorexe prematura, com a prematuridade e BPN. Tal resultado, referente ao uso de fumo e álcool, pode ser justificado pelo fato de mais de 90% das gestantes, de ambos os grupos, relatarem não utilizar fumo e álcool durante a gestação. A ausência de relação do uso de fumo e álcool durante a gestação com o parto prematuro e recém nascido de baixo peso também foi descrita nas pesquisas de Torres et al. (2006), Surita et al. (2011) e Almeida (2012). No entanto pesquisas apontam que os fatores de risco mais prevalentes associados ao trabalho de parto prematuro, parto prematuro e recém nascido de baixo peso são: as infecções cervico-vaginais, como a vaginose bacteriana, e do trato urinário (RIBEIRO, RIELA, 2011; PEREIRA et al., 2013; PASSINI JR et al., 2014), a história de parto prematuro (FLOOD, FERGALEM 2012; PASSINI JR et al., 2014) seguido de recém nascido de baixo peso (PASSINI JR et al., 2014), número de gestações (PASSINI JR et al., 2014), tabagismo (CORRÊA, 1995; McCOWAN, 2009; REZENDE, 2011; LEVY et al., 2013; PASSINI JR et al., 2014) e alcoolismo (YAMAGUSHI et al, 2008; HERMANN, 2009; MESQUITA, SEGRE, 2009) durante a gestação, síndrome hipertensiva (OLIVEIRA et al., 2006;
SALGEL et al., 2009; MONTENEGRO, PEREIRA, REZENDE, 2011; PORTO et al., 2013) e amniorrexe prematura (PASSINI JR et al., 2014).
A infecção do trato urinário (ITU) está associada ao risco aumentado de PP, BPN e mortalidade perinatal. Uma proporção de 30 a 40% das mulheres grávidas, com bacteriúria assintomática não tratada, desenvolvem infecção urinária sintomática (RIBEIRO, RIELA, 2011). Na gestação a ITU é a terceira ocorrência clínica mais comum, devido as mudanças anatômicas e fisiológicas do trato urinário (NASCIMENTO et al., 2012).
As gestantes que fumam apresentam 1,5 a 3,5 vezes mais probabilidade de ter RNBP, porque tanto a nicotina como o monóxido de carbono são vasoconstritores poderosos, e estão associados a danos a placenta e a diminuição do fluxo sanguíneo uteroplacentário e, ambas as condições, levam ao PP e RNBP (REZENDE, 2011).
O consumo de álcool durante a gestação é prejudicial tanto para a mãe quanto para o bebê, visto que o etanol atravessa facilmente a barreira placentária, podendo determinar efeitos teratogênicos no feto. No 3º trimestre, o álcool lesa os tecidos do sistema nervoso, como o cerebelo, o hipocampo e o córtex pré-frontal, e tem sido relacionado a um aumento do risco de infecções, descolamento prematuro de placenta, retardo do crescimento intra-uterino e trabalho de parto prematuro (YAMAGUSHI et al, 2008; HERMANN, 2009).
As síndromes hipertensivas, tem uma participação relevante nos desfechos perinatais sendo classificadas em: 1) a hipertensão crônica (pressão arterial ≥ 140/90 mmHg) observada antes da gravidez ou até a 20ª semana de gestação, ou diagnosticada pela primeira vez durante a gestação, mas sem resolução até doze semanas após o parto; 2) a hipertensão gestacional, observada após a 20ª semana gestacional, com níveis pressóricos retornando ao normal em até 12 semanas após o parto; e 3) a pré-eclâmpsia, uma combinação da hipertensão induzida pela gestação e a ocorrência de proteinúria (>0,3 g/24h). Essa última pode evoluir para a eclâmpsia, caracterizada pela presença, na gestante, de convulsões tônico-clônicas generalizadas ou do estabelecimento de estado de coma (MONTENEGRO, PEREIRA, REZENDE, 2011).
Os resultados obtidos nesta pesquisa mostraram que a VB não se definiu como um fator de risco para PP e RNBP, nos grupos estudados (Mann Whitney; p = 0,28), o que está em concordância com os estudos realizados por Subtil et al. (2002)
e Torres et al. (2006). No entanto as pesquisas realizados por Goldenberg et al. (1998), Simões et al. (1998), Laxmi et al. (2012), Flood, Malone (2012), Passini Jr et al. (2014) apresentaram relação entre vaginose bacteriana e parto prematuro e bebê de baixo peso.
A ruptura prematura de membranas (RPM) amnióticas é a perda de líquido amniótico antes de iniciado o trabalho de parto, independente da idade gestacional, e quando iniciada antes da 37ª de gravidez é designada como RPM pré- termo. Em 2 a 18% das gestações é causa de 30 a 40% dos partos prematuros e de 20% dos óbitos perinatais. O impacto que a RPM determina na gestação é decorrente da morbidade e mortalidade materna e perinatal que a acompanham. Para o feto estão aumentados os riscos de prolapso e compressão de cordão umbilical, descolamento placentário, oligodramnia, infecção e prematuridade. Entre as conseqüências maternas, destacam-se os aumentos nas taxas de infecção e o número de cesarianas (GOLINO, CHEIN, BRITO, 2006).
Quando analisada os hábitos e percepção das gestantes sobre saúde bucal observou-se que a maioria não teve acesso ao atendimento odontológico, apresentou uma frequência de escovação de 3 vezes ao dia, não usava fio dental e não usava enxaguatório bucal. Tal perfil mostra o desconhecimento sobre a importância da prática de hábitos saudáveis, no âmbito de saúde geral e bucal, que repercutem na vida da gestante, no desenvolvimento fetal e no futuro bebê. Um dos fatores que devem ser levados em consideração é o acesso ao atendimento odontológico durante a gestação, pois a gestante receberá tratamento odontológico e informações sobre os benefícios da remoção de placa bacteriana e os riscos que as infecções bucais podem proporcionar na vida gestacional e perinatal.
O índice de placa visível (SILNESS, LOE, 1964) foi aplicado pelo fato da placa bacteriana ser agente etiológico da doença periodontal. O presente estudo buscou analisar a média dos escores de placa visível, mais severos, em cada paciente, para avaliar o nível de higiene bucal e risco de desenvolvimento de doença periodontal. Os resultados mostraram que a média dos escores IPV, encontrada no estudo, está relacionada com baixo nível de acúmulo de placa bacteriana, o que não foi constatado por Alin, Abdi (2012) que mostraram grande acúmulo de placa bacteriana em pacientes gestantes em pesquisa realizada na Malásia.
Quando analisada a procedência das gestantes os resultados mostraram que as pacientes oriundas do interior apresentaram maior nível de acúmulo de placa
bacteriana (Mann Whitney; p=0,003), no entanto variáveis como: uso de fio dental e uso de enxaguatório bucal, não foram capazes de reduzir significativamente o nível de placa bacteriana no presente estudo (Mann Whitney; p>0,05). Aspecto digno de observação foi o maior acúmulo de placa bacteriana nas gestantes que mencionaram ter tido acesso ao atendimento odontológico durante a gestação (Mann Whitney; p=0,03) e relataram freqüência de escovação maior ou igual a 3 vezes ao dia (Mann Whitney; p=0,04). Tais situações sugerem que as respostas das gestantes, na entrevista de percepção de hábitos de saúde bucal, podem ter sido superestimadas.
A análise das condições periodontais das gestantes foi realizada através da aplicação do índice Periodontal Comunitário (OMS, 1999) que mediu a presença de higidez e sangramento gengival, bolsas periodontais rasas e profundas. A aplicação desse índice permitiu analisar a presença de doença periodontal como fator de risco gestacional e perinatal, principalmente por sugerir parto pré-termo de bebê de baixo peso (MUWAZI et al., 2012; ALIN, ABDI, 2012; PARIHAR et al., 2015). Os resultados da presente pesquisa mostraram ausência de doença periodontal nas gestantes analisadas, situação justificada pela alta prevalência do escore referente a cálculo dental e ausência de escores relacionados a bolsas periodontais. Pesquisa realizada por Muwazi et al., (2012), com gestantes da Uganda, também mostrou uma alta prevalência de pacientes com cálculo dental que não apresentavam doença periodontal.
As gestantes que relataram uso de fio dental, durante a entrevista, apresentaram escore médio de IPC mais baixos (Mann Whitney; p=0,004), no entanto aspectos como: morar na capital, acesso a atendimento odontológico, frequência de escovação maior que 3 vezes ao dia e uso de enxaguatório bucal, não foram capazes de melhorar os escores do índice periodontal comunitário (Mann Whitney; p>0,05). Diante desses resultados, fica mais uma vez evidente, que as respostas da entrevista sugerem um aumento de cuidados de saúde bucal diferentes da realidade praticadas pelas gestantes.
Os resultados mostraram que nenhuma variável de saúde bucal influenciou a idade gestacional das mulheres, sendo assim não existiu relação entre a percepção e condição de saúde bucal das gestantes com o parto prematuro no presente estudo (Mann Whitney; p>0,05).
Quando analisada a relação da condição periodontal das gestantes com o conjunto parto prematuro e nascimento de bebês de baixo peso, os resultados mostraram que o grupo de gestantes com PP e RNBP apresentou escore médio mais severo de IPC = 2,00±0,77 (Média±dp). Apesar desse escore, representar a presença de cálculo dental e, ainda, não mostrar a presença de bolsa periodontal, pode ser considerado um preditor relacionado com o desenvolvimento de doença periodontal nas gestantes, justificando assim a sua relação com o PP e RNBP (Mann Whitney; p≤0,05).
A relação da presença de doença periodontal com o parto prematuro e nascimento de bebês de baixo peso foi observada através de várias pesquisas como a de Offenbacher (2001), Louro et al. (2001), Cruz et al. (2005), Lopes et al. (2005), Zanatta et al. (2007), Singh et al. (2011), Tejada et al. (2012), Bragion et al. (2012), Wang, Liou, Pan (2013), Sanz (2013), Andonova, Iliev, Zivkonic (2014), Reddy, Sampathkumar, Aradhya (2015). Entretanto, essa relação não está completamente estabelecidada, principalmente, porque outros estudos que questionam essa associação têm sido publicados nos últimos anos (CAMARGO, SOIBELMAN, 2005; MOIMAZ et al., 2009; ATAULLAH, 2014).
Apesar de muitos estudos terem relatado essa associação, a heterogenidade entre eles, quanto à definição de DP, pequeno tamanho amostral e viéses de confundimento, podem influenciar na validade dos resultados (MACDOUGALL, COBBAN, COMPTON, 2011; CORBELLA et al., 2012), no entanto os dentistas devem incentivar as gestantes a previnir e realizar tratamento periodontal (TARANNUM et al., 2015), principalmente no segundo trimestre de gestação, por se mostrar seguro e eficaz na redução dos fatores desencadeadores de DP materna (MACDOUGALL, COBBAN, COMPTON, 2011).
Nesta pesquisa não foi observada relação entre vaginose bacteriana e parto prematuro e recém nascido de baixo peso (Mann Whitney; p>0,05). Nenhuma variável odontológica, inclusive doença periodontal apresentou relação com o surgimento de vaginose bacteriana (Mann Whitney; p>0,05). Hill, em 1998, também não encontrou essa relação.
A reduzida freqüência de associações na presente pesquisa pode ser justificada pelo fato das pacientes examinadas não apresentarem escores que as classificassem com doença periodontal e o nível de acúmulo de placa foi considerado baixo. Os antecedentes pessoais, as características gestacionais e
perinatais, não representavam, em sua maioria, fatores de risco para parto prematuro e recém nascido de baixo peso, inclusive a vaginose bacteriana, não foi uma condição de maior prevalência entre as gestantes pesquisadas.