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VALIDACÃO DO ESTÁGIO

No documento Data do documento 20 de maio de 2021 (páginas 30-40)

B. Recurso interposto pelo Autor:

7. VALIDACÃO DO ESTÁGIO

Admite-se que o estágio possa decorrer em navios diferentes tendo em vista permitir a execução das diferentes tarefas listadas.

O estágio não será validado se não forem realizadas as tarefas consideradas nucleares” (cf. cópia do plano de estágio junta a fls. 280-285 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

9. Em 04.11.2019, o Requerente foi sujeito a junta médica, aí tendo sido alvitradas “Restrições permanentes no desempenho”, tendo por base a “INCAPACIDADE PERMANENTE PARA O DESEMPENHO DE ALGUMAS FUNÇÕES RELATIVAS AO POSTO E CLASSE, NOMEADAMENTE TODAS AS TAREFAS QUE IMPLIQUEM ESFORÇOS FÍSICOS DE CONTACTO; PERMANÊNCIA EM PLATAFORMAS INSTÁVEIS E/OU SUJEITAS A IMPACTOS (EMBARQUE); TRABALHO EM ALTURA (RISCO DE QUEDA); TRABALHO EM CONTACTO DIRECTO COM MÁQUINA E O AFASTAMENTO DA REGULAR FREQUÊNCIA DA CONSULTA DE ESPECIALIDADE. MAS APTO PARA O DESEMPENHO DE OUTRAS A VERIFICAÇÃO DA APTIDÃO FÍSICA E PSÍQUICA PARA EFEITOS DE INGRESSO NO QUADRO PERMANENTE, PROMOÇÃO E FREQUÊNCIA DE CURSOS, DE ACORDO COM O ARTIGO Nº 62 ALÍNEA B) DO EMFAR CONJUGADO COM A PORTARIA Nº 730/99 DE 7 DE SETEMBRO, TABELA B E C, É DA COMPETÊNCIA DAS JUNTAS MÉDICAS DA ARMADA” (cf. cópia da ficha de aptidão para o serviço junta a fls. 79 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

10. Em 18.11.2019, o Requerente apresentou um requerimento junto da Requerida, exercendo o seu direito de audiência relativamente à ficha de aptidão a que se alude no ponto anterior, aí defendendo que as conclusões ali formuladas não estão demonstradas com base em factos concretos e que, essencialmente, as mesmas não correspondem com os exames médicos a que o mesmo foi sujeito (cf.

cópia do requerimento junta a fls. 80-87 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

11. Em 10.12.2019, foi proferido despacho pelo Senhor Director de Pessoal da Requerida, homologando a opinião da Junta de Saúde de Naval que, em sessão de 05.12.2019, e após a reapreciação da situação clínica do Requerente, reiterou as conclusões a que se aludem no ponto 9. supra (cf. cópia da publicação

junta a fls. 88 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

12. Em 28.01.2020, o Requerente interpôs recurso hierárquico do despacho homologatório a que se alude no ponto anterior, aí reclamando uma reavaliação médica por junta médica de revisão por médicos da especialidade de neurologia e neurocirurgia, a revogação do referido acto e a sua substituição por outro que homologue novo parecer que declare que não tem incapacidade para o exercício das suas funções (cf.

cópia da petição de recurso junta a fls. 89-104 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

13. Em 10.02.2020, o Requerente foi notificado da intenção da sua exclusão da EN “por não ter realizado estágio de embarque, como aluno do 5º ano do curso “Jorge Álvares” d a Escola Naval, considerando as condições de exclusão previstas na alínea c) do n.º 1 do artigo 200º da Portaria n.º 21/2014, de 31 de Janeiro, que publica em anexo o Regulamento da Escola Naval” e instado a, querendo, pronunciar-se por escrito, no prazo de 10 dias (cf. cópia do termo de notificação junta a fls. 110 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).04.03

14. Em 19.02.2020, o Requerente apresentou um requerimento junto da EN, aí pugnando pela sua manutenção na EN e que se aguardasse pela conclusão do recurso hierárquico a que se alude no ponto 12.

supra, autorizando-se posteriormente a realização de estágio de embarque e a conclusão do curso de mestrado por a falta de realização de tal estágio não lhe ser imputável (cf. cópia do requerimento junta a fls. 111-116 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

15. Em 19.02.2020, o Requerente apresentou um outro requerimento junto da EN, solicitando autorização para realizar o estágio de embarque em falta “logo que tal lhe seja permitido pela JMRA”, ao abrigo do artigo 160.º, n.os 3 e 5, do REN (cf. cópia do requerimento junta a fls. 117-118 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

16. Em 28.02.2020, foi proferido despacho pelo Senhor Comandante da EN, indeferindo o pedido a que se alude no ponto anterior, na medida em que:

“1. Tal como refere no requerimento, o requerente não realizou o estágio de embarque, condição necessária para concluir o curso de Mestrado (…) e nesta sequência reprova por falta de aproveitamento escolar, nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 200.º do Regulamento da Escola Naval (…).

2. Muito embora tendo presente o prazo previsto no n.º 5 do artigo 160.º do REN, cabe informar que na presente data o requerente não foi, ainda, notificado da exclusão, razão pela qual indefiro o pedido” (cf.

cópia do despacho junta a fls. 119 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

17. Em 28.02.2020, foi proferido novo despacho pelo Senhor Comandante da EN relativo ao requerimento a que se alude no ponto 14. supra, cujo teor se transcreve parcialmente infra:

“1. Mantenho a exclusão do ASP L..., nos termos do artigo 200º do Regulamento da Escola Naval (…), considerando que, o órgão competente, Junta de Saúde Naval, se pronunciou pela incapacidade do AASP L... para embarcar, atendendo às suas condições físicas e psíquicas, o que consequentemente impossibilitou a realização do respetivo estágio de embarque, condição necessária para concluir o mestrado (…).

2. Mais informo que, na eventualidade do órgão competente para avaliar a capacidade física e psíquica do ASP L... ser alterada, e a manter- se a vontade do ASP L... em seguir a vida militar, poderá este exercer o direito previsto no artigo 160.º do REN” (cf. cópia do despacho junta a fls. 120 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

18. Em 04.03.2020, houve lugar a reunião da junta médica de revisão da Armada, composta, entre outros, por médicos das especialidades de neurocirurgia e neurologia, bem como por médico assistente indicado pelo Requerente, a qual, por unanimidade, deliberou que “EM CONFORMIDADE COM A “LEGIS ARTIS” DE ATOS MÉDICOS PERICIAIS EM LOGÍSTICA SANITÁRIA (NAVAL) E ESPECIALIDADES DE NEUROLOGIA E NEUROCIRURGIA, CONCLUI-SE QUE O MILITAR EM APREÇO APRESENTA INCAPACIDADE PERMANENTE PARA O DESEMPENHO DE ALGUMAS FUNÇÕES RELATIVAS AO POSTO E CLASSE, NOMEADAMENTE TODAS AS TAREFAS QUE IMPLIQUEM ESFORÇOS FÍSICOS DE CONTACTO; PERMANÊNCIA EM PLATAFORMAS INSTÁVEIS E/OU SUJEITAS A IMPACTOS (EMBARQUE); TRABALHO EM ALTURA (RISCO DE QUEDA) E O AFASTAMENTO DE CUIDADOS MÉDICOS DIFERENCIADOS PRÓXIMOS”, porquanto:

“ALUNO DA ESCOLA NAVAL (ASP. OFICIAL DA CLASSE EN-MEC) COM 24 ANOS DE IDADE.

VÍTIMA DE ACIDENTE DE VIAÇÃO (07DEZ17 – CHOQUE FRONTAL POR MOTOCICLO) DO QUAL RESULTOU TRAUMATISMO CRANIANO (CONTUSÃO CEREBRAL FRONTAL) COM HEMORRAGIA SUBARACNOIDEIA COMPLICADO DE QUADRO DE HIDROCEFALIA E COMA PROLONGADO. COLOCADA DERIVAÇÃO VENTRICULO PERITONEAL DEFINITIVA E M 08JAN18 E REALIZAÇÃO DE TRAQUESTOMIA ENTRE 20DEZ17 E 23JAN18, TENDO HAVIDO COMO INTERCORRENCIA PNEUMONIA DO LOBO INFERIOR DTO. RESULTOU AINDA DO ACIDENTE LESÃO AXONAL DO PLEXO BRAQUIAL ESQ; LESÃO DO OLHO ESQUERDO, FRATURAS MÚLTIPLAS DOS OSSOS DA FACE (PIRÂMIDE NASAL, CORNETOS, SEIOS MAXILAR, ETMOIDAL E ESFENOIDAL, MANDIBULA), FRATURA DO RADIO E CÚBITO (BILATERAL). INTERNAMENTO NA UCIP/NEUROCRITICOS E SERVIÇO DE MAXILO FACIAL (SMF) DO HSJ, TENDO ALTA CLÍNICA DO SMF A 28FEV18. PRESENTE A JSN EM 12/4/18, FOI-LHE ATRIBUÍDA ITA POR 60 DIAS, SEGUIDA DE ITP ATÉ 04NOV19, ALTURA EM QUE É RECONHECIDA IPP.

A EVOLUÇÃO CLÍNICA (CONFORME PLANO DE TRATAMENTO E REABILITAÇÃO PROPOSTO PELA COMPANHIA

DE SEGUROS – T...) É LENTA MAS VERIFICANDO-SE UMA PROGRESSIVA MELHORIA, APESAR DO ESTABELECIMENTO DE ALGUMAS SEQUELAS.

EM SEDE DA PRESENTE SESSÃO DE JUNTA MÉDICA, FORAM APURADAS AS SEGUINTES CONCLUSÕES:

- RISCO PARA O REGRESSO À ATIVIDADE:

- HIDROCEFALIA CRÓNICA(G91) (CONTROLADA ATUALMENTE ATRAVÉS DA COLOCAÇÃO DE DVP E QUE SE CONSIDERA NECESSÁRIA E DEFINITIVA (Z98.2).

ATENTO A LITERATURA MÉDICA, A PRESENÇA DA DVP, IMPLICA UM RISCO DE DISFUNÇÃO DO SISTEMA (AO LONGO DE TODA A VIDA) COM CONSEQUENTE DESCOMPENSAÇÃO DA HIDROCEFALIA PREVIAMENTE CONTROLADA. ESTÁ PUBLICADO UM RISCO DE DISFUNÇÃO NO CASO DE HIDROCEFALIA GERAL (TODAS AS CAUSAS DE HIDROCEFALIA) DE 22% AOS QUATRO ANOS, 46% AOS 9 ANOS E 84% AOS 20 ANOS. NO SUBGRUPO DA HIDROCEFALIA PÓSTRAUMÁTICA, ESTÁ PUBLICADO UM RISCO DE DISFUNÇÃO DE 60% AOS 5 ANOS. ESTES DADOS EM CONTEXTO NÃO MILITAR, DENOTAM POR SI SÓ, A EXISTÊNCIA DE UM RISCO ACRESCIDO DE EVENTUAL NECESSIDADE DE INTERVENÇÃO CIRÚRGICA URGENTE (PARA REVISÃO DA DVP).

ESTA CIRCUNSTÂNCIA É ESPECIALMENTE GRAVE EM SITUAÇÃO DE EMBARQUE, AFASTADO DE CENTRO NEUROCIRURGICO.

A CONDIÇÃO MILITAR IMPLICA UM RISCO ACRESCIDO DE TRAUMATISMO DIRETO SOBRE O SISTEMA DE DVP, NOVAMENTE COM RISCO DE DISFUNÇÃO DO MESMO.

- RISCO AUMENTADO DE EPILEPSIA PÓS-TRAUMÁTICA: AS ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS PÓS-TRAUMÁTICAS DOCUMENTADAS EM EXAME DE IMAGEM (LESÕES CLÁSTICAS CORTICO-SUBCORTICAIS E DEPÓSITOS DE HEMOSSIDERINA CORTICAIS) CONDICIONAM RISCO AUMENTADO DE EPILEPSIA FUTURA RELATIVAMENTE À POPULAÇÃO EM GERAL (NA LITERATURA PUBLICADA A PREVALÊNCIA DE EPILEPSIA APÓS UM TRAUMATISMO CRÂNIO-ENCEFÁLICO GRAVE É SUPERIOR A 5%, E O RISCO É PELO MENOS CINCO VEZES SUPERIOR AO DA POPULAÇÃO EM GERAL), RISCO QUE É AGRAVADO TAMBÉM PELA PRESENÇA DA DVP.

ADICIONALMENTE AS CARACTERÍSTICAS DAS MISSÕES DE EMBARQUE TÊM INERENTES CIRCUNSTÂNCIAS QUE PODERÃO FAVORECER ESTE RISCO ACRESCIDO DE BASE, NOMEADAMENTE PELA PRIVAÇÃO DE SONO E STRESS SIGNIFICATIVO QUE IMPLICAM.

- DEVEMOS AINDA CONSIDERAR QUE AS MISSÕES DE EMBARQUE, PELAS SUAS ESPECIFICIDADES, ACARRETAM DIFICULDADES DE ASSISTÊNCIA MÉDICA DIFERENCIADA EM CASO DE OCORRÊNCIA DE QUALQUER DAS COMPLICAÇÕES ACIMA DESCRITAS.

- EVENTUAIS RESTRIÇÕES NO DESEMPENHO:

- PERMANÊNCIA EM PLATAFORMAS INSTÁVEIS E/OU SUJEITAS A IMPACTOS (EMBARQUE)

- ESFORÇOS FÍSICOS DE CONTACTO;

- TRABALHO EM ALTURA (RISCO DE QUEDA)

- AFASTAMENTO DE CUIDADOS MÉDICOS DE PROXIMIDADE.” (cf. cópia da acta junta a fls. 106-109 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

19. Em 12.03.2020, foi proferido despacho pelo Senhor Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, homologando o resultado da junta médica de revisão a que se alude no ponto anterior (cf. cópia da publicação junta a fls. 105 dos autos o SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

20. Em 27.05.2020, a decisão a que se alude no ponto anterior foi objecto de publicação (facto confessado, cf. artigo 13.º da douta resposta apresentada).

21. Em 01.07.2020, o Requerente interpôs recurso hierárquico das decisões a que se aludem nos pontos 16. e 17. supra, aí peticionando a sua revogação e substituição por outras que lhe permitissem realizar o estágio de embarque numa unidade naval sem planeamento de navegação atribuído no período de estágio ou noutra unidade da Marinha (cf. cópia da petição de recurso junta a fls. 121-138 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

22. Em 28.08.2020, o Senhor Comandante da EN remeteu uma nota ao Senhor Almirante Chefe do Estado-Maior da Força Armada, pronunciando-se sobre o recurso hierárquico a que se alude no ponto anterior e aí dando conta de que:

“(…) 6. Dispõe o artigo 200.º do Regulamento da Escola Naval (REN), aprovado pela Portaria n.º 21/2014, de 31 de janeiro, que os alunos são excluídos da frequência daquele estabelecimento de ensino quando, entre outras situações, por faltas ou por incapacidade. No caso em apreço não estamos perante a situação de faltas mas perante situação de incapacidade.

7. Tal situação remete de imediato para o artigo 204º do REN, que dispõe que os alunos que durante a frequência dos cursos revelem falta de aptidão física ou outra incapacidade para a carreira a que se destinam, são submetidos à apreciação da Junta de Saúde Naval, mediante proposta do Comandante, com a eventual consequência de abate por incapacidade para o serviço.

8. Face ao que antecede, o ASPOF não realizou o estágio de embarque por inaptidão confirmada pela JMRA.

Sendo este uma unidade curricular do mestrado integrado em ciências militares navais - ramo de

engenharia naval requerida para a conclusão com aproveitamento do referido ciclo de estudos, e não estando prevista nenhuma outra forma de compensação pela não realização do estágio, o discente em causa não consegue concluir o mestrado em conformidade com o plano de curso em vigor, pelo que, nos termos do REN, não existe alternativa à exclusão do respetivo curso e consequentemente, por imperativo legal, o abate ao corpo de alunos.” (cf. cópia da nota junta a fls. 312-313 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

23. A nota a que se alude no ponto anterior não foi notificada ao Requerente (cf. processo administrativo).

24. Em 01.10.2019, foi elaborado relatório por médico neurocirurgião do Hospital das Forças Armadas, cujo teor se reproduz parcialmente infra:

“O Doente, em epígrafe sofreu em Dezembro de 2017 um grave T.C pelo que foi ventilado e tratado em UCI devido a contusão cerebral frontal bilateral com HSA difusa complicada com uma Hidrocefalia, tendo-lhe sido colocado um Shunt Ventrículo peritoneal.

Recuperou lentamente e hoje apresenta-se autónomo sem aparentes deficites motores ou sensitivos.

A nova R. Magnética feita em julho de 2019, apresenta múltiplas imagens sequelares (vide Relatório) resultantes do referido traumatismo, e que, passados quase 2 anos após o acidente, não irão desaparecer, assim como a necessidade de manter o shunt funcionante.

Em face do exposto, entendemos que o doente não deve ter uma vida militar embarcado, pois existe sempre o risco do shunt deixar de funcionar, subitamente, devido a uma pequena intercorrência, o que exigiria uma intervenção cirúrgica de urgência; de igual modo em situação de stress ou grande consaço [sic] físico há o risco de fazer uma crise convulsiva.” (Cf. cópias do relatório médico e relatório de ressonância magnética juntas a fls. 151-152 dos autos no SITAF, documentos que se dão por integralmente reproduzidos).

25. Em 24.11.2019, foi elaborado relatório por médico neurologista, cujo teor se reproduz parcialmente infra:

“Na qualidade de NEUROLOGISTA e sobre e sobre os dois critérios apresentados pela Junta de Saúde Naval como impeditivos do embarque do Aspirante a Oficial N... N..., considero necessária a análise da fisiopatologia dessas entidades neurológicas, que passo a expor:

1. Sobre a Hidrocefalia, importa dizer que se trata de um quadro patológico caracterizado pelo aumento da quantidade de Líquido Céfalo-Raquidiano (LCR) no Sistema Ventricular Cerebral;

1.1. O Sistema Ventricular Cerebral é constituído por dois Ventrículos Laterais, cavidades situadas no interior dos hemisférios cerebrais, onde é produzido o LCR, que daí passa ao III Ventrículo, saindo deste por um estreito canal, o Aqueduto de Sylvios, para o IV Ventrículo e donde drena finalmente para o exterior do cérebro, para cumprir a sua função de envolvimento protector da estrutura cerebral. Com um volume médio de cerca de 150 mL e uma pressão habitual de cerca de 1/6 do valor da Tensão Arterial sistémica média;

1.2. A Hidrocefalia pode surgir de entre outras causas, pela obstrução à normal circulação do LCR neste sistema, determinando assim a sua acumulação e consequente quadro de Hipertensão Intracraneana (HIC).

No caso dos Traumatismos Craneoencefálícos (TCE), essa obstrução pode situar-se no Aqueduto ou nos orifícios ventriculares por coágulos sanguíneos ou pelo edema pós-traumático das paredes do Aqueduto;

1.3. Contudo, ainda que a instalação deste processo possa ser aguda, qualquer que seja a sua etiologia, o seu quadro clínico não surge com grande dramatismo, mas sim de forma multo insidiosa, iniciando-se por cefaleias progressivas, a que se associam posteriormente apatia, sonolência, alterações mentais, vómitos e só mais tarde, alterações da consciência com coma e sinais de disfunção neurovegetativa como hipertensão e bradicardia, conduzindo inexoravelmente à morte, senão solucionado com o procedimento cirúrgico de colocação de um Shunt;

1.4. A duração do processo pode demorar de muitos dias ou até meses, não só devido à baixa pressão do sistema ventricular, assim como à capacidade de compensação através da absorção de algum LCR excessivo por parte do parênquima cerebral;

1.5. Assim é falacioso considerar o risco de aparecimento de Hidrocefalia, qualquer que seja a sua etiologia, seja por disfunção do Shunt Ventrículo- Peritoneal, seja pela ocorrência de um Traumatismo Craneano minor com sangramento intraventricular, como uma emergência com necessidade correcção imediata, já que a sua história natural é de longe mais longa que qualquer tempo de viagem num embarque da Marinha Portuguesa.

2. Sobre a aludida hipótese de Epilepsia, é importante saber que:

2.1. O diagnóstico clínico de Epilepsia exige a existência de mais que uma Crise Convulsiva;

2.1.1. Na ausência de Crises o diagnóstico de Epilepsia é excluído, mesmo com a existência de anomalias eletroencefalográficas (EEG) ou a toma de medicação antiepiléptica.

2.2. A toma de medicação anticonvulsiva, por razões protocolares, ainda que em dose terapêutica, não permite o diagnóstico de Epilepsia ou inferir mesmo das suas consequências;

2.2.1. A prescrição protocolar de anticonvulsivos como o Levetiracetan, nos TCE justifica-se, segundo o Professor Dr. J... e colaboradores, para o controlo da disfunção bioquímica que se encontra na génese das Crises Convulsivas precoces (até ao fim da 13 semana), cujo mecanismo é distinto do das Crises Convulsivas tardias decorrentes da glíose cicatricial meningo-cerebral e para o qual a citada medicação não possui efeito preventivo;

2.2.2. A toma contínua e prolongada de medicação anticonvulsiva seja por Epilepsia ou outra patologia, obriga à sua supressão gradual, sob pena de originar Convulsões por Abstinência Medicamentosa.

2.3. Por outro lado, é favorável à exclusão do diagnóstico de epilepsia, o facto de o exame de Electroencefalografia (EEG) resultar sem evidência de alterações sugestivas de comicialidade.

2.4. As lesões com potencial epileptogéneo são as localizadas a nível do córtex cerebral;

2.4.1. As lesões Subcorticals ou profundas não têm efeito epileptogéneo;

2.4.2. O Hematoma Subdural, colecção liquida intracraneana e extra cerebral, decorrente de lesões traumáticas pode induzir Crises Convulsivas, mas só se tiverem efeito compressivo sobre o córtex cerebral e consequentemente com indicação de terapêutica cirúrgica;

2.4.3. Os depósitos de Hemossiderina são indicadores da existência no passado de sangue nessa localização e por si só desprovidos de efeito epileptogéneo.

2.5. Assim, após a suspensão progressiva e total da medicação, como é recomendado, o risco de Crise Convulsiva é estatisticamente idêntico ao da população normal, incluindo os casos de convulsões decorrentes de excessos ou abstinência abrupta, de hábitos alcoólicos ou medicamentosos, ou privações significativas do sono;

2.5.1. Isoladamente o “esforço físico", mesmo que exagerado, não é considerado como desencadeador de Crises Convulsivas e apenas se associado a desidratação grave, outras alterações metabólicas ou patológicas, pode ser causa de Convulsões.

Em conclusão e com base no exposto, considero que o Aspirante a Oficial N... N..., já não apresenta Hidrocefalia obstrutiva e nunca teve Epilepsia, pelo que numa óptica de SAÚDE OCUPACIONAL, informa que o mesmo, não sofre de qualquer tipo de limitação para o desempenho de todas tarefas que impliquem esforços físicas de contacto; permanência em plataformas instáveis e/ou sujeitas a impactos (embarque);

trabalho em altura; trabalho em contacto directo com máquina” (cf. cópia do relatório médico junta a fls.

153-154 dos autos no SITAF, documento que se dá por integralmente reproduzido).

26. Em 24.05.2018, 14.01.2019 e 07.01.2020, o Requerente foi sujeito a uma tomografia computorizada crânio-encefálica e duas ressonâncias magnéticas crânio-encefálicas (cf. cópias dos respectivos relatórios juntas a fls. 155-159 dos autos no SITAF, documentos que se dão por integralmente reproduzidos).

27. Em 24.03.2019, 29.05.2019 e 03.12.2019, o Requerente foi sujeito a três encefalogramas por três médicos neurologistas distintos, os quais concluem pelo “Traçado com características dentro dos limites da normalidade”, pela “ausência de alterações epileptiformes” e que “Não se registou actividade epilética interictal ou ictal (…) ou de outra natureza”, respectivamente (cf. cópias dos relatórios médicos juntas a fls.

160-161 e 163 dos autos no SITAF, documentos que se dão por integralmente reproduzidos).

28. Em 07.11.2019, foi elaborado relatório por médico neurologista do Hospital Lusíadas do Porto, cujo teor se transcreve parcialmente infra:

“Para os devidos eleitos declaro que o utente supracitado de 24 anos, aspirante oficial sofreu traumatismo craniano em Dezembro de 2017 do qual recuperou sem sequelas neurológicas, cognitivas ou emocionais, tendo até retomado e completado em Setembro 2019 o plano curricular na Escola Naval, faltando apenas o estagio de embarque.

O utente tem actividade física regular com pratica de desporto sem qualquer limitação. Esta medicado com levetiracetam, e em fase de desmame, por profilaxia de crises convulsiva, nunca tendo havendo registo clinico destas crises. Realizou inclusivamente duas EEG que não revelam qualquer actividade paroxistica.

Para controlo de hidrocefalia pós-traumatica em fase aguda foi realizada DVP em 9 de Janeiro de 2018. A RM cerebral realizada em 18 de Julho de 2019 mostra um sistema ventricular de configuração e tamanho normais. Atendo ao caracter agudo da fisiopatologia da hidrocefalia pós-traumatica, e da sua historia natural, é muito provável que o utente não esteja depende do funcionamento da derivação ventriculo-peritoneal, podendo até esta ser retirada sem qualquer problema adicional, não fazendo contudo sentido submetê-lo a essa cirurgia.

Em conformidade, não existe nem risco acrescido de crise convulsiva nem risco de disfunção de derivação ventriculo-peritoneal com repercussão clinica, pelo que o Nuno L... apresenta robustez fisica e mental suficiente para poder estar embarcado sem qualquer limitação.” (cf. cópia do relatório médico junta a fls.

Em conformidade, não existe nem risco acrescido de crise convulsiva nem risco de disfunção de derivação ventriculo-peritoneal com repercussão clinica, pelo que o Nuno L... apresenta robustez fisica e mental suficiente para poder estar embarcado sem qualquer limitação.” (cf. cópia do relatório médico junta a fls.

No documento Data do documento 20 de maio de 2021 (páginas 30-40)