Processo
1511/20.7BELSB
Data do documento 20 de maio de 2021
Relator
Ana Celeste Carvalho
TRIBUNAL CENTRAL ADMINISTRATIVO SUL | ADMINISTRATIVO
Acórdão
DESCRITORES
Dever de fundamentação de relatório da junta médica > Recurso hierárquico necessário > Erro nos pressupostos de direito > Admissão a estágio de embarque na marinha > Exclusão da marinha.
SUMÁRIO
I. Estando em causa aferir da legalidade de um ato que tem na sua base a aplicação de critérios que exigem e dependem de conhecimentos técnicos, próprios do foro da atividade médica, relativamente aos quais é mais dificultado o controlo jurisdicional, realizado em grande medida através da aferição do dever legal de fundamentação, para além da apreciação dos demais contornos que caracterizam o litígio, atinentes à relevância, absolutamente determinante, de realizar o mais completo e preciso diagnóstico clínico do Autor, por ser este a condicionar todo o demais desfecho da situação jurídica do Autor, é de entender enfermar o ato de homologação da Junta Médica de Revisão da Armada de falta de fundamentação.
II. O grau de exigência do dever de fundamentação varia consoante a natureza do ato ou da atividade impugnada, revestindo de particular acuidade a suficiência, congruência e cognoscibilidade da fundamentação, que permitam compreender as concretas razões de facto e de direito, no domínio da atividade discricionária, submetida a padrões de relativa indeterminabilidade ou a que seja dependente da aplicação de critérios técnicos, que não estritamente jurídicos, enquanto via para assegurar a sua respetiva impugnação contenciosa.
III. Fundamentar um ato consiste na indicação dos motivos, das razões de facto e de direito, importando que o destinatário entenda a que propósito aquele ato concreto foi praticado, em que medida afeta a sua esfera jurídica e em que medida pode atacá-lo contenciosamente.
IV. Embora o ato impugnado acolha na sua fundamentação o teor do parecer médico que considerou que o Autor apresenta uma incapacidade permanente para o desempenho de algumas funções relativas ao posto e classe, nomeadamente, todas as tarefas que impliquem esforços físicos de contacto, permanência em plataformas instáveis e/ou sujeitas a impactos (embarque), trabalhos em altura (riscos de queda) e o
afastamento de cuidados médicos diferenciados próximos, não são apresentadas as respetivas razões ou factos concretos, que considere a situação clínica do Autor, nem especificados quaisquer exames ou outros elementos de diagnóstico que permitam sustentar concretamente cada uma das limitações ou incapacidade permanente do Autor indicados, nem em que medida cada um dos exames permita sustentar as conclusões afirmadas.
V. Não é possível sustentar o ato impugnado se apenas são formulados juízos conclusivos quer sobre a caracterização da doença do Autor ou as limitações que enfrenta, quer sobre os riscos que enfrenta, sem ser especificada a sua concreta situação médica ou clínica, quanto à doença de que padece ou as limitações que a mesma acarreta.
VI. Sem a invocação dos motivos concretos, alicerçados em factos ou em juízos médicos, não é possível concluir pela suficiência da motivação do parecer médico emitido pela JMRA, determinante da situação jurídica do Autor na Escola Naval.
VII. Não indicando o ato impugnado de exclusão do Autor da Escola Naval especificamente a norma legal em que se baseia para sustentar a exclusão, se na alínea c) ou na alínea d) do artigo 200.º, n.º 1 do REN, aprovado pela Portaria n.º 21/2014, de 31/01, constando expressamente do projeto de decisão notificado ao interessado para o exercício do direito de audiência prévia, a menção à alínea c), do n.º 1 do artigo 200.º, não é possível extrair da decisão final que a Entidade Demandada tenha efetivamente alicerçado o fundamento da exclusão na alínea d) do n.º 1 do artigo 200.º.
VIII. Nos termos dos artigos 91.º, 92.º, 93.º e 98.º do Decreto Regulamentar n.º 10/2015, de 31/07, a decisão sobre os pareceres da Junta de Saúde Naval é suscetível de recurso hierárquico, cabendo à Junta Médica de Revisão da Armada (JMRA) emitir parecer sobre o recurso, o qual é sujeito a homologação do Chefe do Estado-Maior da Armada.
IX. Sendo o recurso hierárquico necessário, por força do artigo 110.º, n.º 1 do Estatuto dos Militares das Forças Armadas, aprovado pelo D.L. n.º 90/2015, de 29/05 e extraindo-se do artigo 189.º, n.º 1, do CPA, que as impugnações administrativas necessárias de atos administrativos suspendem os respetivos efeitos, o recurso hierárquico interposto pelo Autor, gozava de efeito suspensivo.
X. O caso em presença não permite configurar a verificação dos pressupostos para o aproveitamento do ato, nos termos do artigo 163.º, n.º 5 do CPA, não só considerando a natureza da matéria em causa, como também em decorrência do antecedente juízo de se julgar enfermado de falta de fundamentação o ato de homologação do parecer da Junta Médica de Revisão da Armada, determinante da sua respetiva anulação.
XI. Sendo alicerçada a decisão de exclusão do Autor da Escola Naval no facto de o aluno não ter realizado o estágio de embarque, sendo que tal circunstância de falta de realização do estágio se deve a isso estar
impedido por força do parecer da Junta de Saúde Naval (depois mantido pelo parecer da Junta Médica de Revisão da Armada), sem este parecer se encontrar devidamente consolidado na ordem jurídica, não podem ser tomadas quaisquer decisões definitivas sobre a situação jurídica do ora Recorrido, no âmbito do curso em questão, nem sobre a permanência na Escola Naval.
XII. Considerando a sucessão de atos praticados pela Entidade Demandada e ora impugnados, não podem existir dúvidas de que certos atos são consequentes de outros, no sentido de dependerem da verificação de certos pressupostos, os quais, sendo postos em crise, afetam inelutavelmente os pressupostos de facto e/ou de direito dos atos deles dependentes.
XIII. No presente litígio o desfecho sobre o teor do parecer da Junta Médica de Revisão da Armada é absolutamente determinante para todo o desenvolvimento e definição da situação jurídica do Autor.
XIV. Incorre a sentença em nulidade decisória, por excesso de pronúncia, nos termos do artigo 615.º, n.º 1, d) do CPC ao julgar procedentes os pedidos principais e, ainda assim, conhecer do pedido subsidiário, formulado apenas no caso de o principal não proceder.
XV. Resulta prejudicado o conhecimento do fundamento do recurso invocado de erro de julgamento, em relação a pronúncia jurisdicional anulada, por nulidade decisória.
TEXTO INTEGRAL
Acordam em conferência na Secção de Contencioso Administrativo do Tribunal Central Administrativo Sul:
I – RELATÓRIO
A Marinha Portuguesa e N... e N..., devidamente identificados nos autos, inconformados, vieram, cada um por si, interpor recurso jurisdicional da sentença do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, datada de 12/09/2020, que no âmbito da intimação para proteção de direitos, liberdades e garantias instaurada por N... e N... contra a Marinha Portuguesa – Chefe de Estado-Maior da Armada, julgou parcialmente procedente a presente intimação, anulando o ato de homologação do resultado da junta médica de revisão proferido em 12/03/2020, o ato de exclusão do Autor da Escola Naval e o ato de indeferimento do pedido de realização de estágio de embarque, julgou prejudicado o conhecimento do pedido de reconhecimento do direito à realização de estágio de embarque, condenou a Entidade Demandada a emitir novo parecer e respetivo ato homologatório em sede de junta médica de revisão e nova decisão do incidente sobre o pedido de reconhecimento do direito à realização de estágio de embarque sem restrições e julgou improcedente o pedido de reconhecimento do direito à realização do
estágio de embarque em terra ou numa unidade naval sem planeamento de navegação atribuído no período de estágio ou noutra unidade da Marinha.
*
Formula a Entidade Demandada, aqui Recorrente, nas respetivas alegações, as seguintes conclusões que se reproduzem:
“A. Pela douta sentença recorrida, o Tribunal a quo começou por anular o ato de homologação do resultado da JMRA, por falta de fundamentação.
B. O Requerente alegou, e o Tribunal a quo decidiu, que a decisão da JMRA padece de falta de fundamentação, na medida em que, de acordo com o seu entendimento, essa decisão assenta unicamente em estatísticas e meras probabilidades que podem não ocorrer (pese embora descure que podem, também, verificar-se), não tendo as condições específicas e concretas do seu estado de saúde atual sido consideradas, sendo que, em qualquer dos casos, a sua incapacidade para a prática das tarefas aí descritas não resultaria minimamente justificada.
C. Porém, situações como aquela que se encontra em análise são tendencialmente caracterizadas por uma quantificação de risco probabilístico, na medida em que os médicos não podem garantir o que irá acontecer, mas podem presumir, com adequada margem de certeza, que em determinada situação concreta, e num certo contexto (v.g., atividade militar a bordo de navio), haverá um risco acrescido e uma maior probabilidade de agravamento do seu quadro clínico.
D. Ademais, e por se encontrar aqui em juízo a apreciação do resultado de uma junta médica, decorre da jurisprudência dominante na matéria que a apreciação feita pelas mesmas corresponde a uma atividade inserida no âmbito da chamada discricionariedade técnica, a qual se traduz na aplicação de princípios e critérios de natureza técnica, próprios das ciências médicas.
E. Nesta matéria, a jurisprudência tem entendido, de forma sólida, que só em casos extremos é que o juiz deverá imiscuir-se no exercício da discricionariedade técnica da Administração, anulando os correspondentes atos administrativos com fundamento em "erro manifesto de apreciação" (cfr., de entre outros, os Acórdãos do STA de 16.1.1986, processo n.º 20.919; de 22.3.1990, processo n.º 18.093; de 16.2.2000, processo n.º 38.862; e de 30.1.2002, processo n.º 47.657).
F. E, para que ocorra um erro manifesto, é indispensável que o ato administrativo “assente num juízo de técnica não jurídica tão grosseiramente erróneo que isso se torne evidente para qualquer leigo” (cfr.
Acórdão do Colendo STA, de 31.5.2001, processo n.º 47.029).
G. Mas, no caso vertente, não se vislumbra, nem o Requerente logrou prová-lo, que tenha ocorrido um erro grosseiro ou manifesto que pudesse justificar a anulação do deliberado pela JMRA, ao que acresce ter o próprio Tribunal a quo reconhecido, na sentença ora recorrida, não ser possível “(…) aferir da eventual existência de um qualquer erro grosseiro ou manifesto (...)”.
H. Complementarmente, é notório que o ato administrativo judicialmente anulado, por assentar em vários pareceres médicos proferidos pelas juntas médicas da Armada, tem-se igualmente como devidamente fundamentado, porquanto um destinatário normal, face ao itinerário cognoscitivo e valorativo constante do ato em causa, fica em condições de saber o motivo por que se decidiu daquela forma.
I. Pelo exposto, o parecer da JMRA define de forma clara e suficiente a situação médica do Requerente e, partindo dessa situação concreta e do vasto conhecimento e experiência dos médicos que a compõem (incluindo o médico assistente indicado pelo próprio Requerente) sobre as exigências da carreira militar em geral, e das funções militares a bordo de unidades navais em especial, considerou, por unanimidade, e tendo por base pareceres médicos que ajudaram a suportar essa decisão, que a condição do Requerente, em conjugação com aquelas exigências, encerra riscos intoleráveis para a vida, saúde e integridade física da pessoa em causa, mas também, necessariamente, para a instituição – Marinha –, na medida em que uma eventual ocorrência a envolver o Requerente poderá condicionar, e mesmo colocar em risco, a segurança e a integridade de outras pessoas, de bens e equipamentos, e o cumprimento da própria missão da unidade naval em que se encontre a desempenhar funções.
J. Como tais razões constam do ato impugnado, entende-se que o mesmo não padece do alegado vício de falta de fundamentação, de tal modo que habilitou o Requerente a sindicá-lo em juízo sem qualquer dificuldade de interpretação, pelo que a sentença recorrida padece de erro de julgamento, por não ter apreciado corretamente a prova produzida e não ter aplicado adequadamente o direito aos factos.
K. A douta sentença recorrida decidiu ainda pela anulação do ato que excluiu o Requerente da EN, por entender ter havido violação do artigo 200.º, n.º 1, alínea c), do REN, e do artigo 189.º, n.º 1, do CPA, conjugadamente com os artigos 91.º, 92.º, 93.º e 98.º do Decreto Regulamentar n.º 10/2015, de 31 de julho, e artigo 110.º, n.º 1, do EMFAR, bem como pela anulação do ato de indeferimento do pedido de realização de estágio de embarque, por considerar, também aqui, ter existido o vício de falta de fundamentação,
L. E condenou a Recorrente a emitir novo parecer e respetivo ato homologatório em sede de JMRA, bem como a proferir uma decisão incidente sobre o pedido do Requerente de reconhecimento do direito à realização de estágio de embarque sem restrições, contendo a fundamentação legalmente exigida.
M. Todavia, face à factualidade dada como provada em juízo e ao direito aplicável, também neste âmbito a Recorrente não se conforma com o entendimento sufragado pelo Tribunal a quo.
N. Por motivos óbvios e já devidamente aclarados, o quadro clínico do Requerente, teve, necessariamente, impacto no seu percurso na EN, concretamente, nas decisões que levaram à sua exclusão daquele estabelecimento de ensino, bem como ao indeferimento do seu pedido de realização do estágio.
O. Deste modo, e numa perspetiva de salvaguarda da sua integridade física face a potenciais problemas que pudessem vir a ocorrer durante o estágio de embarque, o Requerente não realizou o referido estágio, e foi, por conseguinte, notificado, em 10.02.2020, da intenção de exclusão do curso «(…) por não ter realizado estágio de embarque, como aluno do 5º ano do curso “Jorge Álvares” da Escola Naval, considerando as condições de exclusão previstas na alínea c) do n.º 1 do artigo 200º da Portaria n.º 21/2014, de 31 de Janeiro, que publica em anexo o Regulamento da Escola Naval».
P. A alusão à alínea c) do n.º 1 do artigo 200.º do REN, por ser aplicável às situações em que os alunos são excluídos da frequência da EN por falta de aproveitamento escolar, foi por mero lapso de escrita citada pelo comandante da EN, porquanto, os casos de incapacidade, como sucede no presente caso, surgem contemplados na subsequente alínea d) do n.º 1 do mesmo preceito legal.
Q. Todavia, e não obstante o erro na citação da alínea c) do n.º 1 do artigo 200.º do REN, para efeitos de notificação ao Requerente da sua intenção de exclusão da EN, salienta-se que não é esse o ato que se encontra em causa e que foi judicialmente impugnado.
R. O ato impugnado é, relembra-se, pela decisão de exclusão (propriamente dita) do Requerente daquele estabelecimento de ensino.
S. E, na esteira do que antecede, esse ato foi dado a conhecer ao Requerente através de despacho datado de 28.02.2020 do comandante da EN, no qual ficou vertida a decisão de o excluir da EN, sendo então esse o ato que foi impugnado em tribunal,
T. Ato no qual ficou estabelecido que o motivo subjacente à tomada dessa decisão ficou a dever-se ao facto de o órgão competente para avaliar a condição física do Requerente, entenda-se, a JSN, se ter pronunciado
“(…) pela incapacidade do ASP L... para embarcar, atendendo às suas condições físicas e psíquicas, o que consequentemente impossibilitou a realização do respetivo estágio de embarque, condição necessária para concluir o mestrado integrado em ciências militares navais, especialidade em engenharia naval, ramo mecânica” (sublinhado nosso).
U. Como tal, carece de se trazer à colação que o real motivo pelo qual o Requerente não realizou o estágio de embarque foi por inaptidão física e não por falta de aproveitamento escolar, conforme atempadamente se corrigiu e deu a conhecer ao interessado por via do despacho que ditou a sua exclusão do referido estabelecimento de ensino, tendo a decisão do comandante da EN sido suportada em pareceres médicos
que foram, a posteriori, reiterados, e confirmados, pela JMRA.
V. Assim sendo, o processo de exclusão do Requerente do curso da EN e o seu consequente abate ao corpo de alunos assentaram, efetivamente, no pressuposto da sua incapacidade física para a vida militar, declarada inicialmente pela JSN e posteriormente corroborada e fundamentada pela JMRA, e não na falta de aproveitamento escolar.
W. Deste modo, cumpre elucidar que, de facto, e tal como resulta do ponto 17. da factualidade dada como provada, o teor do ato refere expressamente a “incapacidade do ASP L... para embarcar, atendendo às suas condições físicas e psíquicas, o que consequentemente impossibilitou a realização do respetivo estágio de embarque, condição necessária para concluir o mestrado”, o que, não obstante a menção genérica ao artigo 200.º do Regulamento da EN, é inequivocamente revelador de que o fundamento da exclusão do Requerente se reconduz, sem margem para dúvidas, à alínea d) do n.º 1 do mencionado artigo (sublinhado nosso).
X. E, pelo veiculado supra, constata-se que o ato do comandante da EN colocado em causa, que decidiu pela exclusão do Requerente daquele estabelecimento de ensino, não abriga, nessa medida, uma “errada escolha da norma aplicável” e não padece, portanto, do alegado vício de violação de lei por erro nos pressupostos de direito que lhe foi apontado no aresto recorrido.
Y. O Requerente veio arguir que a decisão do comandante da EN de o excluir daquele estabelecimento foi proferida quando o recurso hierárquico do resultado da junta médica ainda se encontrava pendente, recurso esse que tem efeitos suspensivos, nos termos do artigo 189.º, n.º 1, do CPA.
Z. Contrariamente ao entendimento plasmado na douta sentença recorrida, deverá ter-se por aplicável o princípio do aproveitamento do ato administrativo consagrado no artigo 163.º, n.º 5, do CPA, segundo o qual não se produz o efeito anulatório quando: (i) O conteúdo do ato anulável não possa ser outro, por o ato ser de conteúdo vinculado ou a apreciação do caso concreto permita identificar apenas uma solução como legalmente possível; ou (ii) Se comprove, sem margem para dúvidas, que, mesmo sem o vício, o ato teria sido praticado com o mesmo conteúdo.
AA. E foi precisamente esta última situação que se verificou, porquanto se confirmou que, mesmo que o comandante da EN tivesse aguardado pela decisão da JMRA para tomar a decisão de excluir o Requerente, o conteúdo da decisão tomada não poderia ser outro.
BB. Pelo que o ato teria, sem margem para dúvidas, sido praticado exatamente com o mesmo conteúdo e visando a mesma finalidade, uma vez que a JMRA manteve o sentido do parecer da JSN.
CC. Deste modo, o vício em causa não produz o efeito anulatório, por aplicação do princípio do
aproveitamento dos atos administrativos, consagrado na alínea c) do n.º 5 do artigo 163.º do CPA.
DD. Deve, portanto, concluir-se que tal anulação não iria alterar a decisão que foi dada a conhecer ao Requerente por parte do comandante da EN, pelo que a existência de tal vício não deve conduzir à anulação, por aplicação do princípio da inoperância dos vícios ou utile per inutile non vitiatur.
EE. É que, ainda que as formalidades essenciais tivessem sido escrupulosamente cumpridas, o sentido e conteúdo do ato seria exatamente o mesmo, o que faz com que o alegado vício, que, em regra, implicaria invalidade traduzida em anulabilidade, passe apenas a gerar uma mera irregularidade, devendo, por conseguinte, o ato permanecer na ordem jurídica tal e qual como se de um ato válido se tratasse.
FF. Por fim, na douta sentença recorrida determinou-se ainda a anulação do ato de indeferimento do pedido de realização de estágio de embarque, por se considerar também verificado o vício de falta de fundamentação.
GG. Igualmente se discorda deste segmento da sentença recorrida, dado que se esclarece que o embarque não foi realizado, tal como já foi anteriormente aclarado, por, numa fase inicial, persistirem dúvidas relativamente à condição física e psíquica do Requerente, e, numa fase posterior, por indicação médica da JSN nesse sentido (entretanto confirmada pela JMRA), motivo pelo qual, e por questões de segurança inerentes à sua integridade física, não lhe foi possível efetuar o referido embarque e, com isso, obter os 10 (dez) ECTS necessários à finalização do seu curso.
HH. Nestes termos, e conforme foi já elucidado, no caso em apreço não estamos, de facto, perante uma situação de falta de aproveitamento escolar, mas sim perante uma situação de incapacidade, que, por sua vez, remete para o artigo 204.º do REN, onde se dispõe que os alunos que, durante a frequência dos cursos, revelem falta de aptidão física ou outra incapacidade para a carreira a que se destinam são submetidos à apreciação da junta médica competente, mediante proposta do comandante, com a eventual consequência de abate por incapacidade para o serviço.
II. De resto, o conhecimento desta questão fica prejudicado pela solução a dar às questões que a antecedem, porquanto se constatou que, tendo a JMRA mantido a declaração de incapacidade do Requerente, então o mesmo nunca poderia vir a ser autorizado a realizar o estágio de embarque.
JJ. Tudo razões por que deve a douta sentença recorrida ser revogada, decidindo-se, a final, pela manutenção dos atos administrativos impugnados na ordem jurídica, com as legais consequências.”.
Pede que seja concedido provimento ao recurso e revogada a sentença recorrida, mantendo-se os atos administrativos impugnados na ordem jurídica.
*
O Autor, ora Recorrente, igualmente inconformado com a sentença, veio interpor recurso jurisdicional, em que formulou as seguintes conclusões:
“A - O presente recurso prende-se apenas com a decisão constante do ponto (vi) da sentença que julga
“improcedente o pedido de reconhecimento do direito à realização estágio de embarque em terra ou numa unidade naval sem planeamento de navegação atribuído no período de estágio ou noutra unidade da Marinha e, consequentemente, absolvo a MARINHA PORTUGUESA – CHEFE DO ESTADO-MAIOR DA ARMADA ao mesmo.”
B - Esta decisão diz respeito ao pedido subsidiário feito na petição inicial e que seria de ter em conta apenas “no caso de se manter a decisão da Junta Médica de Revisão” (sic), decisão essa que foi agora anulada por falta de fundamentação, mas o tribunal entendeu decidir o pedido subsidiário, mesmo após ter julgado procedente o pedido principal, sobre um pedido formulado subsidiariamente pelo autor e apenas no caso de o pedido principal improceder.
C - O autor não aceita esta decisão, não só porque é nula, por excesso de pronúncia, mas também porque não é adequada à situação, como se verá de seguida, para além de que ainda não há qualquer acto que a motive, dado que a decisão da Junta Médica de Revisão foi anulada e por isso apresenta o presente recurso também com vista à sua revogação.
D – Quanto à nulidade de tal decisão, o pedido de realização de estágio em unidade naval sem planeamento de navegação ou em terra feito pelo autor, surge, apenas e só, “no caso de se manter a decisão da Junta Médica de Revisão”, o que não se verificou no caso concreto.
E - Na verdade, a sentença anulou o acto de homologação do resultado da Junta Médica de Revisão, que era um dos pedidos principais, de cuja improcedência dependia então a consideração do pedido de realização do estágio em unidade naval sem planeamento de navegação ou em terra, estando- lhe, pois, vedada a possibilidade de decidir pedidos subsidiários, uma vez que foi concedido o pedido formulado a título principal.
F - Isto mesmo diz o nº. 1 do artigo 554.º do Cód. Proc. Civil, aqui aplicável supletivamente por força do artigo 1º do CPTA, bem como a mais recente jurisprudência dos tribunais administrativos de que é exemplo o Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul de 15.05.2020, proferido no processo nº.00111/11.7BEVIS, publicado em www.dgsi.pt, onde se lê: "(...) ao ignorar essa ordem de preferência manifestada pelo autor na petição inicial quanto aos pedidos que formulou e ao conhecer dos pedidos subsidiários por ele deduzidos sem que tivesse absolvido da instância ou do pedido o réu quanto ao pedido principal ou dos pedidos subsidiários anteriores, o tribunal incorreu em nulidade da decisão que proferiu,
quanto a esses pedidos subsidiários de que conheceu, por excesso de pronúncia, na medida em que se pronunciou sobre questão (causa de pedir, pedido e eventuais exceções e contraexceções opostas àqueles) de que não podia conhecer, por não lhe ter sido submetido pelas partes o respetivo julgamento sem que o pedido principal ou os pedidos subsidiários anteriores tivessem sido julgados improcedentes por decisão de mérito ou processual (absolvição da instância) e sem que pudesse conhecer oficiosamente dos mesmos (art. 668º, n.º 1, al. d) do CPC) Acs. TCS. de 05/06/2019, Proc. 1614/13.4TBELRS; STJ de 29/06/2017, Proc.
825/15.2T8LRA.C1.S1 e de 11/12/2012, Proc. 971/11.TBCTB.C1, in base de dados da DGSI." e ainda a jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça sobre esta matéria: veja-se o Acórdão proferido em 29- 06-2017, no processo 825/15.2T8LRA.C1.S1, onde se lê: I. Com a formulação de um pedido principal e um pedido subsidiário, o autor declara uma preferência pelo primeiro, devendo o tribunal apreciar essa pretensão jurisdicional e apenas passar à apreciação do pedido subsidiário, no caso do pedido principal improceder.
G - Deste modo, a sentença de que ora se recorre é nula quanto ao ponto (vi), nos termos do disposto no artigo 615º nº. 1 al. d) do Cód. Proc. Civil, aqui aplicável supletivamente por força do artigo 1º do CPTA, na medida em que conheceu “de questões de que não podia tomar conhecimento”, por terem sido pedidas a título subsidiário e o pedido principal ter sido julgado procedente, violando assim o artigo 554º do Cód. Proc. Civil acima citado.
H - Aliás, nem se compreende, como é que a sentença, por um lado, no ponto (iv), declara “prejudicado o conhecimento do pedido de reconhecimento do direito à realização de estágio de embarque sem restrições” por entender que, com a emissão de novo parecer da Junta Médica de Revisão, a Marinha deve decidir sobre a possibilidade de o autor fazer o estágio de embarque sem restrições e depois, por outro lado, se pronuncia sobre a impossibilidade de um eventual estágio sem navegação, quando as condições do estágio a realizar dependem do novo parecer da Junta Médica de Revisão e da nova decisão da Marinha quanto ao estágio; é que se o ponto (iv) ficou prejudicado, por maioria de razão também devia ter ficado prejudicado o ponto (vi), até porque, além do mais, era um pedido subsidiário.
I - Por isso, com os fundamentos acima expostos, deve ser considerada procedente a invocada nulidade da decisão do ponto (vi) da sentença, por consubstanciar o conhecimento de uma questão que o tribunal não podia conhecer, nos termos do artº. 615º., nº. 1, al. d) 2ª. parte do Cod. Proc. Civil, pelo que, deve ser anulada nessa parte a decisão contida na sentença proferida nos presentes autos.
J - No entanto e por cautela, o recorrente pronuncia-se sobre conteúdo da decisão do ponto (vi), manifestando estranheza sobre o facto de o Tribunal não aceitar que um estágio de embarque se possa fazer sem planeamento de navegação, mesmo tendo como objectivo primacial:
- “Desenvolver as competências técnico-militares e de liderança em contexto real_de trabalho (navio operacional) …
- “Proporcionar aos aspirantes um conhecimento directo dos problemas de organização e de chefia”
- “Praticar os ensinamentos adquiridos durante o curso, a fim de os adaptar gradualmente ao desempenho das funções e às responsabilidades que cabem aos subalternos da classe de Engenheiros Navais do ramo de Mecânica.
- “Adquirir capacidades e perícias em diferentes áreas designadamente R.H. e material” e
- “Desenvolver competências não-técnicas de natureza pessoal, intelectual e social”, sendo que
- “O estágio não será validado se não forem realizadas as tarefas consideradas nucleares”
K - Percorrendo o texto selecionado, que é parte do plano de estágio junto a fls 280-285 dos autos no SITAF, tal como é mencionado no ponto 8 dos factos provados, documento de que o autor só teve conhecimento quando foi junto aos autos, e tendo em conta a informação dada pela Marinha, no seu requerimento de 27-10-2020, ponto 2 de que “… o tempo efetivo de navegação depende da tipologia dos navios e das missões atribuídas nos referidos períodos, e bem assim de casos de força maior ou fortuitos (v.g. avarias, intempéries, etc) que possam eventualmente surgir.” e tendo ainda em conta que houve aspirantes que navegaram 4 dias no seu estágio de embarque de, pelo menos, 7 semanas, não se compreende como é que o tribunal chegou à conclusão de que fazer o estágio em navio atracado põe em causa a formação dos aspirantes do ramo de mecânica durante o período de estágio.
L – Questiona-se: Então se os aspirantes forem fazer o estágio num navio que sofre avaria grave e, por isso, não vai navegar? Ou se há mau tempo que impede de navegar? Ou se não há missões planeadas para esse navio? Significa isto que o seu estágio não é válido? Não haverá formas de aprender técnicas de navegação por simuladores? Navegar durante 4 dias fará a grande diferença na sua formação? Sobretudo na especialidade de engenharia ramo mecânica?
M - Por outro lado, o tribunal indeferiu genericamente estágios a bordo sem navegação e estágios em terra, que são situações diferentes como consta no artigo 88º do Regulamento da Escola Naval, sem talvez compreender o que se poderia alcançar em cada um deles, constatando-se que, afinal, fez falta a produção de prova testemunhal quanto a esta matéria, pela qual o tribunal tomaria conhecimento da dinâmica que envolve as funções dos engenheiros navais do ramo de mecânica, mencionadas e enquadradas nos artigos 136º, 137º e 140º da petição inicial e pela qual verificaria se efectivamente o estágio de embarque podia ou não ser substituído por outro tipo de estágio.
N – É que não chega ter em conta apenas o que a requerida diz sobre este assunto (que tais estágios nunca foram feitos de outra maneira; que nunca houve outra alternativa); interessava realmente verificar se havia ou não a possibilidade de uma alternativa que cumprisse todos os objectivos de um estágio de embarque, sem pôr em causa a formação completa que se exige a um engenheiro naval de ramo de mecânica e para isso tinha de se conhecer a realidade que envolve estes profissionais da Marinha!
O - Na verdade, há engenheiros desse ramo na Marinha a desempenhar funções cujo exercício não implica qualquer navegação, o que, a ser provado, sustentaria a aplicação da solução do estágio a bordo sem planeamento ou em terra, pois os conhecimentos específicos que lhes são exigidos pouco têm a ver com a situação efectiva de navegação; bem como há engenheiros que trabalham em terra, na reparação e limitação de avarias dos navios atracados ou a navegar, na gestão de material, sendo também certo que se tal departamento (nomeadamente a Direcção de Navios) não fosse de enorme utilidade e eficácia, certamente que não existiria, mas é aqui que é feita a actividade nuclear da especialidade no que respeita à manutenção dos navios.
P - Está em causa um estágio que vale 10 ECTS para concluir um curso de 300ECTS, curso esse que formou profissionais que na sua actividade profissional não navegam e, se tivesse havido produção de prova testemunhal, o tribunal teria ficado a conhecer toda esta dinâmica e constataria que um estágio sem navegar não põe em causa a ampliação e aplicação de conhecimentos necessários ao desempenho de funções de engenheiro, pelo que, a falta de produção de prova sobre este ponto inquina esta decisão de défice instrutório, dado que é tomada sem ter pleno conhecimento da situação concreta.
Q – Além disso a própria requerida criou alguma confusão ao minimizar as competências específicas da classe do autor, pois diz que houve aspirantes que navegaram 4 dias durante o estágio, sem especificar a sua classe, o que permite especular que até possam ser aspirantes da classe de marinha, sendo que, esses sim, quando forem oficiais, têm a seu cargo a “direcção, inspecção e execução de actividades relativas à navegação, hidrografia, oceanografia, farolagem e balizagem”, nos termos do disposto no artigo 204º al. a) ponto vii), do Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFA), aprovado pelo Decreto-lei 90/2015 de 29 de Maio, e se, eventualmente, aspirantes de classe Marinha navegaram apenas 4 dias, quando a navegação faz parte das suas competências específicas, muito menos necessário será navegar num estágio de um engenheiro.
R - Mas para verificarmos que o acima alegado também resulta da lei, vejamos quais as funções relacionadas com navegação que o Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFA) atribui à classe de engenheiros navais no artigo 204º al. b) desse mesmo Estatuto (classe de engenheiros navais), que foi mencionado a este propósito no artigo 140º da petição inicial, onde consta apenas no ponto “xii) Exercício de funções no âmbito das atividades relativas à navegação, hidrografia, oceanografia, farolagem e balizagem e do sistema de autoridade marítima, que requeiram a qualificação técnico-profissional da
classe;” ou seja, as funções dos engenheiros em actividades de navegação só são necessárias apenas na medida em que “requeiram a qualificação técnico- profissional da classe”, o que já não acontece com os oficiais da classe de marinha, como acima vimos.
S - Ora, partindo do princípio de que um dos objectivos do estágio é “Praticar os ensinamentos adquiridos durante o curso, a fim de os adaptar gradualmente ao desempenho das funções e às responsabilidades que cabem aos subalternos da classe de Engenheiros Navais do ramo de Mecânica”, parece que um estágio sem navegação pode atingir estes objectivos, mesmo sem essa componente ou com essa componente muito mitigada.
T - Só que, para o tribunal, parece que um navio que não navegue não está operacional; mas não é assim, pois é do conhecimento comum que um navio quando está atracado não está “fechado”, continua operacional, apenas não navega mas continua a ter actividade interna: continua a ter a sua guarnição activa (pessoal que nele trabalha) e a desempenhar as suas funções, sendo necessário organizar e fiscalizar o seu trabalho; as máquinas avariam-se e têm de reparar- se, sendo necessário proceder à sua manutenção; é necessário fazer uma gestão do material e do pessoal que trabalha nos diversos sectores do navio (e quanto maior este for, maiores problemas terá, mesmo atracado); há ocorrências entre pessoal, que por vezes exigem processos averiguações e processos disciplinares; enfim, há lugar a toda a actividade que faz parte das funções dos engenheiros (vejam-se as alíneas do artigo 204º al. b) do EMFA acima citado) e que pode e deve ser aprendida mesmo com o navio sem navegar, que continua operacional!
U - Voltando ao estágio do autor, é verdade que o plano de estágio (documento mencionado no ponto 8 dos factos provados) apresenta depois em detalhe as actividades que se devem fazer no estágio mas, se tomarmos atenção cada ponto específico, verifica-se que o que se pretende é que os aspirantes tenham um conhecimento geral, ainda que teórico, sobre os trabalhos e funções que se realizam num navio e não que obrigatoriamente tenham executado todas aquelas funções; se houve aspirantes que realizaram, durante o estágio, 4 dias de navegação (e nem conhecemos de que classe eram estes aspirantes!!) e o resultado foi terem obtido aproveitamento no estágio, isto não pode significar que tenham realizado em 4 dias todas as tarefas do plano que se referem a navegação, porque isso parece ser impossível, para além de que, por exemplo, não podem ter aprendido, na prática, os procedimentos de navegação com mau tempo (ponto 2.3 do plano) se durante esses 4 dias o tempo esteve bom!
V - Porém, isto não significa que os aspirantes que navegaram só durante 4 dias, nos restantes dias em que certamente estiveram atracados, não tenham aprendido e praticado todos os conhecimentos relativos às suas funções, dado que certamente, se eram da especialidade de engenheiros – o que não se sabe –, exerceram funções ligadas ao oficial de dia (em navio atracado e fundeado - ponto 1 do plano); actividades de oficial de quarto à ponte (aqui só em navio fundeado – ponto 2 do plano); actividades de imediato/serviços gerais (sem especificação – ponto 3 do plano) e, sobretudo, terão de ter realizado
actividades do departamento de propulsão e energia, (ponto 4), estas sim específicas da sua classe; senão como é que tiveram aproveitamento no seu estágio?!
W - Ao longo de todo o curso, os alunos da Escola Naval tiveram muitas actividades em navegação c o m o viagens de instrução, embarques de fim de semana e estágios, em que os alunos acompanharam e participaram na vida de um navio operacional, tal como foi alegado pelo autor no artigo 132º da petição inicial, embora com relevância na sua situação concreta; por isso, no estágio de embarque do 5º ano, o que é relevante, de acordo com o plano mencionado no ponto 8 dos factos provados, é que o seu âmbito respeite mais em concreto a funções específicas da Classe, por se tratar de um estágio de índole mais profissional.
X - No caso dos alunos do ramo de mecânica, tendo em conta as específicas funções que irão desempenhar no futuro, que constam do já citado artigo 204º al.b) do EMFA (nomeadamente nos pontos i), ii), iii), iv), v), xii) e xiii)); tendo em conta o plano de estágio desta especialidade, nomeadamente no seu ponto 4 (que parece conter as actividades nucleares, respeitante ao departamento de propulsão e energia, devendo os alunos “ter um conhecimento ou desempenho suficiente” sobre os diversos pontos ali mencionados), dúvidas não há de que navegar não parece ser a actividade nuclear para este estágio, como não o foi para os aspirantes que navegaram apenas 4 dias (fossem de que classe fossem).
Y - Se o autor fosse colocado num navio operacional que não navegasse, ou navegasse durante 4 dias (foi isto que se sugeriu no último requerimento apresentado pelo autor e não que o estágio tivesse a duração de 4 dias, como diz a sentença), o certo é que, durante as 7 semanas que ali passaria, exerceria funções e faria trabalhos (acompanhamento de manutenção de máquinas, de reparação de avarias, de gestão do material, de gestão do pessoal do departamento, para além de poder acompanhar todas as demais actividades dos outros departamentos existentes no navio) pelos quais iria adquirir as competências
"adequadas ao futuro desempenho do cargo de oficial subalternos a bordo de navios de guerra"
– como o adquiriram os aspirantes que navegaram durante 4 dias no seu estágio - alcançando os objectivos pretendidos com este estágio: - iria aprender a lidar com problemas de organização e de chefia, - praticaria ensinamentos relacionados com as funções e responsabilidades que cabem aos oficiais subalternos da sua classe; - adquiriria capacidades e perícias em diferentes áreas nomeadamente recursos humanos e de material e - desenvolveria competências não técnicas de natureza pessoal, intelectual e social.
Z - É em face deste cenário, que foi em parte alegado pelo autor nos artigos da petição inicial que mencionou (e que, na altura, tencionava fazer prova sobre o alegado), que em parte se retira dos documentos juntos ao processo e que também se retira da lei, que se tem de avaliar se navegar é assim uma actividade nuclear deste estágio, o que parece que não é.
AA - Porém, para o Tribunal, a navegação tornou-se pedra angular para não reconhecer ao autor o direito de fazer um estágio de embarque, em termos muito semelhantes aos dos aspirantes que apenas
navegaram 4 dias em 7 semanas, porque o mesmo foi impedido de ter “permanência em plataformas instáveis e/ou sujeitas a impactos (embarque)” pela decisão da Junta Médica anulada (por isso foi um pedido subsidiário que pressupunha a mencionada incapacidade), prejudicando desta forma o seu direito fundamental de concluir o seu curso de mestrado integrado!
BB - Por isso se recorre de tal decisão que, para além de ser uma nulidade processual, por conhecer uma questão que não poderia conhecer por ser um pedido subsidiário, é uma decisão carecida de base legal e até precipitada, que não se fundamenta nem nas alegações das partes, nem nos documentos que constam dos autos e nem na lei aplicável a este caso concreto, pelo que se pede a este tribunal superior que, caso não declare a nulidade do conhecimento e decisão da questão do ponto (vi) do segmento decisório da sentença ora recorrida, conforme a nulidade atrás arguida - o que apenas se considera como hipótese de raciocínio - revogue o ponto (vi) da sentença ora impugnada, por não atender às normas constantes do EMFA (artigo 204º), do plano de estágio de embarque (documento de fls 280-285 dos autos no SITAF) e do Regulamento da Escola Naval (artigo 88º) tendo em vista o direito de o autor poder concluir o seu curso, tudo nos termos acima expostos (…)”.
*
O Autor, ora Recorrido, veio contra-alegar o recurso interposto pela Entidade Demandada, para o que concluiu do seguinte modo:
“A - Insurge-se a recorrente Marinha Portuguesa contra a sentença que decidiu, entre outras questões, anular o acto de homologação do resultado da JMRA, por falta de fundamentação; anular o acto que excluiu o requerente da Escola Naval, por violação de normas; anular o acto de indeferimento do pedido de realização de estágio, por falta de fundamentação e condenar a recorrente a proferir novo parecer e respectivo acto homologatório, bem como nova decisão sobre o pedido de reconhecimento do direito à realização de estágio de embarque sem restrições, todo os actos devidamente fundamentados, só que o recorrido não pode de todo concordar com tal posição.
B – No que respeita à anulação do acto homologatório do resultado da JMRA, primeiro diz a recorrente que esta decisão incorre em erro de julgamento, na medida em que, no seu entender, esse acto agora anulado está devidamente fundamentado, porque a situação concreta do requerente tem de ser analisada numa perspectiva de “quantificação de risco probabilístico”, existente no contexto de “actividade militar a bordo do navio”, baseando-se em pareceres médicos que desaconselharam que o requerente continuasse a vida militar e, segundo, diz que o parecer da JMAR não pode ser posto em causa pelo tribunal por se estar no âmbito da discricionariedade técnica e não se ter demonstrado que houvesse erro grosseiro.
C - Quanto à falta de fundamentação, refere-se que, nos termos da alínea d) do n.º 1 do artigo 91.º do Estatuto dos Militares das Forças Armadas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 90/2015, de 29 de Maio, as juntas
médicas são meios de apreciação da “aptidão física e psíquica do militar” e, tratando-se da Marinha Portuguesa, são as juntas médicas da Armada os “órgãos técnicos de consulta” destinados a pronunciar-se sobre tal aptidão, nas quais se incluem a Junta de Saúde Naval e a Junta Médica de Revisão da Armada – cfr. artigo 74.º, n.ºs 1 e 2, alíneas c) e d), daquele diploma – sendo que esta emite parecer sobre o recurso relativo à decisão do CEMA baseada no parecer emitido pela Junta de Saúde Naval - cfr. artigos 88.º, alínea a), 89.º, n.º 1, 94.º, alínea a), e 95.º, n.º 1, do Decreto Regulamentar n.º 10/2015, de 31 de Julho, que aprova a orgânica da Marinha.
D - Tanto a Junta de Saúde Naval (JSN) como a Junta Médica de Revisão da Armada (JMRA) são órgãos colegiais de natureza consultiva que emitem pareceres nos quais é apreciada “a aptidão física e psíquica para o exercício das funções relativas ao posto, classe e ou categoria profissional.”, ensinando FREITAS DO AMARAL - in “Curso de Direito Administrativo”, volume II, Almedina, 2001, pp.
269 e ss. - que os “pareceres” são “actos opinativos elaborados por peritos especializados em certos ramos do saber ou por órgãos colegiais de natureza consultiva”, contendo “o seu ponto de vista acerca de uma questão técnica ou jurídica”; são “pronúncias administrativas que não envolvem uma decisão de autoridade, antes são auxiliares relativamente a actos administrativos decisórios.”
E - No caso concreto, a Marinha Portuguesa admite que os seus médicos presumiram um risco acrescido e uma probabilidade de agravamento de um quadro clínico, para depois concluir pela incapacidade do requerente aqui recorrido; só que a incapacidade não pode assentar em presunções, que não são juízos técnicos mas ilações (artigo 349º do Cód. Civil) devendo, antes, assentar em factos individuais e concretos que, depois de serem avaliados por um juízo técnico, permitam aferir da aptidão actual – e não futura, baseada em estatísticas e probabilidades – para o exercício de certas e determinadas funções, sendo esta a finalidade das juntas médicas mas que neste caso não foi cumprida.
F - Nunca foi afirmado pelas juntas médicas da Marinha que o requerente padecia de doença ou tinha sequelas q u e o incapacitassem; apenas foi dito que corria o risco de vir a padecer, fundamentando-se tal afirmação com estatísticas: afirma-se que tem um risco acrescido de epilepsia (mesmo sem ter tido uma única crise convulsiva) e tem hidrocefalia crónica só porque lhe foi aplicado um shunt (derivação ventrículo-peritoneal) numa fase aguda da sua recuperação.
G - Só que isto não corresponde à verdadeira situação do requerente dado que, resulta dos factos provados considerados na sentença sob os números 25, 28, 29, 30 e 31, que diversos médicos, neurologistas e neurocirurgião, observaram o requerente e analisaram os diversos relatórios de exames médicos, concluindo, a final, que o requerente não sofre de epilepsia, nem tem um risco elevado de vir a sofrer, e não sofre de hidrocefalia, muito menos crónica , sendo que a Marinha Portuguesa não se pronunciou sequer sobre estes relatórios de médicos da especialidade, nem concretamente sobre os exames médicos feitos ao requerente, por isso não avaliou a situação concreta do requerente nem a sua aptidão actual – e não futura – para o exercício de certas e determinadas
funções, como lhe competia.
H - Daí que, que se concorde que a sentença tenha julgado o acto de homologação da JMRA carecido de fundamentação, porque as razões invocadas pela Marinha Portuguesa para sustentar a incapacidade do requerente n ã o s ã o claras; n ã o identificam a s s u a s restrições concretas para o desempenho das funções; imputam ao requerente um risco de epilepsia assente em meras estatísticas, não em dados clínicos referentes ao próprio; e imputam ao requerente hidrocefalia crónica, só porque tem colocado um shunt, sem cuidar de verificar se o mesmo é necessário, pelo que não se pode ter por fundamentada a incapacidade declarada ao requerente.
I - Aliás, a sentença vai ao encontro do que a mais recente jurisprudência dos tribunais superiores tem decidido relativamente à fundamentação dos pareceres de juntas médicas, conforme os acórdãos já citados pelo requerente na petição inicial, nomeadamente, o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 07.03.2002 (processo n.º 48335), in www.dgsi.pt, (“Estamos perante um juízo pericial complexo, expresso numa linguagem ultrassintética, precisa, técnica, como é próprio da histórias clínicas, envolvendo um diagnóstico e prognóstico baseados em elementos objectivos observados, intervindo, na conclusão, certamente alguns elementos subjectivos. Sendo a fundamentação variável em função de cada tipo de acto praticado, estando-se em face de um acto determinado por observação médica, em cujo parecer/conclusão se alicerça, teremos que julgar suficiente a fundamentação que, em tais pareceres se baseie, se os mesmos tiverem um carácter, o mais objectivamente possível, de acordo com as regras científicas aceites no caso em análise.”) e o Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul de 06.06.2019 (processo n.º 2788/17.0BELSB), in www.dgsi.pt: (“Estes exames de avaliação ou de apreciação médica, devem apresentar-se, na maioria das vezes, sob a forma de um relatório ou parecer onde se descreve o resultado do ou dos exames efectuados e se interpreta esses mesmos resultados, elaborando-se uma conclusão devidamente fundamentada. Por conclusão devidamente fundamentada deverá entender-se a conclusão relativa aos diversos actos de avaliação médica, que contêm um esclarecimento concreto suficientemente apto para sustentar a decisão médica final, não podendo assentar em meros juízos conclusivos, sob pena de ficar prejudicada a compreensão da sua motivação. (…) Neste sentido, a fundamentação nos pareceres médicos, devem, sob pena de sofrerem de desvalor jurídico de anulabilidade, apresentar uma descrição clara, objetiva, pormenorizada e sistematizada das observações feitas e a indicação das fontes da informação; os conceitos usados devem ser definidos e os tempos verbais adequados à realidade do caso e rigor das informações, sendo que a medida e interpretação do dano deve ser isenta e imparcial, identificando-se os tipos/métodos de instrumentos utilizados (ex: escalas, tabelas, exames, etc.). Para mais acresce o facto, de que a função da junta médica, é saber dar resposta ao objectivo da avaliação, de forma imparcial e objectiva, e traduzir a complexidade da sua arte médica por palavras simples para que a possam apreciar sobre bases concretas, de modo a que a decisão administrativa final seja perceptível.”)
J - Assim, não é por assentar em pareceres médicos proferidos pelas juntas médicas da Armada que o acto
homologatório se tem, por si só, como fundamentado, mesmo que os pareceres não avaliem a situação concreta do requerente; tal como também não é pelo facto de o parecer da JMRA ter sido tomado por unanimidade dos elementos (onde estava uma neurologista e um neurocirurgião - por sinal de aspecto bem mais jovem do que qualquer dos médicos civis consultados pelo requerente – e onde o médico assistente indicado pelo requerente, subscritor do relatório mencionado no ponto 5 dos factos assentes, não participou na tomada de decisão, com a qual aliás nunca concordou, ao contrário do que a recorrente quer fazer crer nos pontos 25º e 49º das suas alegações – conclusão I), que dá consistência à eventual fundamentação “clara e suficiente” do respectivo parecer, porque, na verdade, da especialidade médica envolvida, foi maior o número dos médicos que concluiu pela ausência de limitações físicas do requerente para o exercício das funções da sua classe e posto de engenheiro naval ramo de mecânica.
K - Por outro lado, é a própria Marinha Portuguesa que reconhece que, “(…) o Requerente, aquando do momento do exame JMRA se encontrava alegadamente bem e sem sintomas aparentes do acidente sofrido” e que tal “nada contradiz o facto de o mesmo ser detentor de um quadro particularmente delicado, que pode vir a reduzir com significativa margem de probabilidade, a sua capacidade laboral no exercício da profissão militar (…)” (ponto 53º das alegações), mas depois não concretiza quais “… as limitações que caracterizam o quadro clínico do Requerente, (que) indubitavelmente, se poderão vir a reflectir na sua actividade laboral…” e, sem essa concretização, não se compreendem as razões para, em concreto, o requerente ter limitações na actividade de engenheiro naval ramo mecânica, seja em situações de embarque, de stress, desgaste físico e psíquico ou qualquer outro!
L - Tal como se deixou plasmado na petição inicial, ainda hoje o requerente desconhece que problemas de saúde terá que o impedem de embarcar, mas … já não de mergulhar! (Cfr. Doc. 35 junto com a petição inicial), sendo, pois, bem patente a falta de fundamentação adequada da decisão que homologou o parecer da JMRA, que declarou que o requerente tem incapacidade para embarcar, motivo pelo qual foi tal acto anulado – e bem – pela sentença e que, por isso mesmo se deve manter.
M – Ainda sobre o controlo judicial do acto homologatório do parecer da junta médica, diz depois a recorrente Marinha Portuguesa que, nos encontramos no âmbito da discricionariedade técnica da administração que, por envolver conhecimentos técnicos e especializados, só em casos-limite, nomeadamente em caso de erro grosseiro de apreciação, pode ser fiscalizada pelo tribunal, acrescentando que o requerente não conseguiu provar que, no caso concreto, tenha havido avaliação técnica tão grosseiramente errónea que até para o cidadão comum tal seria evidente
N - Embora a Junta de Saúde Naval e a Junta Médica de Revisão da Armada sejam órgãos competentes para emitir pareceres de apreciação sobre “a aptidão física e psíquica para o exercício das funções relativas ao posto, classe e ou categoria profissional.”, tal não significa que essa apreciação seja insindicável, tal como tem vindo a ser considerado pela jurisprudência e doutrina recentes (mencionadas
na petição inicial para a qual se remete) de que são exemplos os mais recentes acórdãos: Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 29.10.2020 (processo n.º 035/12.0BECBR) (é “errada” a ideia
“(…) de que a Administração possui uma prerrogativa de apreciação da prova produzida em procedimento administrativo que consideram ser praticamente exclusiva e absoluta, apenas restando aos tribunais um papel residual e secundário para os casos extremos de erros grosseiros. Mas não é manifestamente assim.
Um dos fundamentos de uma decisão justa é ela assentar, na medida do possível, nos factos tal como eles ocorreram na realidade. Ora, para alcançar essa verdade dos factos, os tribunais têm de dedicar tempo e cuidado à reconstituição dos factos objecto do processo, não devendo aderir acriticamente à versão da realidade dos factos de uma ou de outra das partes, ainda que uma delas seja a Administração. É que, se é verdade que o artigo 607.º, n.º 5, do CPC (aqui aplicável ex vi dos artigos 1.º e 140.º do CPTA) consagra o princípio da livre a apreciação da prova, não há como interpretar este princípio como conferindo ao julgador uma liberdade ilimitada de apreciação da prova, a qual incluiria a decisão de, pura e simplesmente, não a controlar – bastando, desde logo, para chegar a esta conclusão a leitura integral do mencionado n.º 5 –; e, sobretudo, não há que confundir este princípio com o exercício de poderes discricionários por parte da Administração.”) e Acórdão do Tribunal Central Administrativo Norte, de 30.10.2020, (processo nº. 01303/16.8BEBRG) (I- Os juízos médicos realizados pelas juntas médicas de verificação de incapacidades e pelas comissões de recurso, são o resultado de uma avaliação técnica efetuada por elementos dotados de formação especializada. II- Não está vedado ao Tribunal a consideração da informação médica vertida no relatório pericial elaborado pelo INMLCF, que conclui de forma diferente da avaliação efetuada pela Comissão de Recursos, conquanto se trata de substituir um juízo médico por outro, e não do Tribunal se substituir aos peritos médicos. III- O monopólio da verdade médica não é exclusivo das juntas médicas, não se descortinando na lei nada que limite a liberdade de apreciação e valoração das provas só por estar em causa uma deliberação de uma junta médica, da mesma forma que a lei não exige qualquer formalidade especial para se provar um facto contrário ao que foi considerado pela junta médica.) (sublinhado nosso)
O - Ora, para se levar a cabo a reapreciação da avaliação médica realizada pela Marinha, o parecer da respectiva junta médica tem de ser susceptível de sindicância judicial, de modo a aferir se o mesmo padece de erro de apreciação, sob pena de denegação de justiça, o que pressupõe a realização de diligências instrutórias, nomeadamente de prova pericial, feita por médicos com igual competência, dado que a apreciação da aptidão física e psíquica para o exercício de funções se insere na chamada discricionariedade técnica.
P - Nos presentes autos, tal prova só não foi produzida porquanto, como decorre do despacho que antecede a sentença proferida, o conhecimento do invocado erro de apreciação constante da junta médica ficou prejudicado pela procedência do vício de falta de fundamentação; tal como, por outro lado, também não corresponde à verdade que o Tribunal a quo tenha reconhecido, na sentença, não ser possível aferir da existência de um qualquer erro, desde logo porque nem sequer é possível aferir da existência de erro grosseiro sem uma adequada fundamentação, que o tribunal entendeu – e
bem – que não estava presente no acto de homologação, o que é bem diferente daquilo que a Marinha Portuguesa pretende retirar do que foi decidido.
Q - Porém, tendo em conta os relatórios médicos que foram juntos, é notório que, para concluir pela incapacidade do requerente, a Marinha Portuguesa partiu de pressupostos errados quanto ao seu estado de saúde, pois considerou que o mesmo tinha um risco acrescido de epilepsia e padecia de hidrocefalia crónica, o que, não resulta nem tem fundamento nos relatórios médicos juntos, pelo que a conclusão a que a Marinha Portuguesa chegou é, inevitavelmente, errada, o que poderá ser confirmado com uma perícia médica.
Assim, nada há a apontar à decisão que anulou o acto homologatório do resultado da JMRA que, pela sua legalidade, se deve manter.
R - Quanto à anulação do acto de exclusão da Escola Naval, a recorrente Marinha Portuguesa levanta sobretudo duas questões relacionadas com o fundamento do acto de exclusão da EN (considera que é a incapacidade do requerente e não a falta de aproveitamento escolar) e com a aplicação do princípio do aproveitamento do acto administrativo, para evitar o efeito anulatório por violação das normas relativas ao efeito suspensivo do recurso hierárquico.
S - No que respeita ao fundamento do acto de exclusão da Escola Naval, resulta da sentença, nomeadamente dos factos provados indicados sobre os números 13, 14 e 17, que a Escola Naval em 10/02/2020 notificou o requerente do despacho do seu Comandante com a intenção de excluir o requerente daquele estabelecimento de ensino “por não ter realizado estágio de embarque, como aluno do 5º ano do curso “Jorge Álvares” da Escola Naval, considerando as condições de exclusão previstas na alínea c) do artigo 200º da Portaria nº. 21/2014 de 31 de Janeiro, que publica em anexo o Regulamento da Escola Naval…”; após o exercício de audiência de interessados pelo requerente (ponto 14 dos factos provados), o requerente é notificado em 28/02/2020 de novo despacho do Comandante da EN (ponto 17 dos factos provados) que diz expressamente que mantém a exclusão do requerente, nos termos do artigo 200º da Portaria anteriormente mencionada (sem indicar alínea) mas referindo que o resultado da Junta médica impossibilitou a realização do estágio de embarque “condição necessária para concluir o mestrado”.
T - Resulta da leitura destes dois despachos que o fundamento invocado para a decisão de exclusão do requerente da EN é a falta de aproveitamento escolar por não ter realizado o estágio de embarque e foi sempre este fundamento para a exclusão que foi comunicado ao requerente, que com ele não concordou, motivo pelo qual o requerente informou, quer o Director de Ensino, quer o seu Comandante de Companhia, quer o Comandante do Corpo de Alunos que ia interpor recurso hierárquico para o Chefe de Estado Maior da Armada (CEMA) porque não se conformava com tal decisão – conforme alegou no artigo 37º da petição inicial.
U - E compreende-se porquê: quem na Escola Naval conviveu com o requerente depois do acidente, quer quando elaborou e defendeu a sua tese de mestrado, quer quando fez os estágios teórico-práticos, quer em qualquer outra situação em que o requerente se deslocava à EN, via como o requerente estava recuperado, em boa forma física e psíquica, a aguardar apenas que a junta médica se pronunciasse sobre a sua condição física para poder fazer o estágio de embarque; por isso quando a homologação do parecer da Junta de Saúde Naval foi publicada em 10/12/2019 (ponto 11 dos factos provados) apanhou todos de surpresa.
V - Até ser notificado do Processo Administrativo, já no âmbito da presente Intimação para Protecção de Direitos Liberdades e Garantias, o requerente desconhecia o documento do Comandante da EN que altera o fundamento da decisão de exclusão do requerente, conforme resulta dos pontos 22 e 23 dos factos provados, por isso, toda a explicação que a recorrente Marinha Portuguesa agora dá, para alterar o fundamento do acto de exclusão, não pode proceder porque foi declarado expressamente que a exclusão era por falta de aproveitamento (por falta do estágio de embarque) e o despacho definitivo sobre tal matéria diz expressamente que mantém a decisão de exclusão, sem alterar os fundamentos de facto ou de direito, pelo que tal despacho, de forma inequívoca, manteve também os fundamentos da decisão.
Foi esta decisão que o requerente impugnou!
W - Por outro lado, mesmo que se entenda que o acto de exclusão assentou no facto da incapacidade e no fundamento jurídico da falta de aproveitamento escolar, é sempre manifesto o erro nos pressupostos de direito, em virtude de a norma legal invocada para suportar a exclusão (alínea c) do n.º 1 do artigo 200.º do REN) nada ter que ver com o fundamento de facto que lhe esteve subjacente.
X – Alem disto, a anulação do acto de exclusão do requerente da Escola Naval teve também um problema formal, porque foi tomada sem respeito pelo efeito suspensivo que o recurso hierárquico necessário tem, nos termos do n.º 1 do artigo 110.º do Estatuto dos Militares das Forças Armadas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 90/2015, de 29 de Maio e do artigo 189.º, n.º 1, do CPA, porque tendo o recurso hierárquico necessário da decisão homologatória da Junta de Saúde Naval, interposto em 28.01.2020, efeito suspensivo e tendo o acto de exclusão sido proferido em 28.02.2020 – ou seja, antes da homologação da JMRA, ocorrida em 12.03.2020-, foi desrespeitado o referido efeito suspensivo e também por este motivo se impõe a anulação do acto de exclusão.
Y – Em face disto, a Marinha Portuguesa vem alegar que se deve ter em atenção o princípio do aproveitamento do acto administrativo, consagrado no artigo 163º nº. 5 al. c) do CPA, dizendo que se confirmou que, mesmo que o Comandante da EN tivesse aguardado pela decisão da JMRA, a decisão não poderia ter sido outra.
Z – Só que o princípio do aproveitamento do acto administrativo não é sequer equacionável na situação em apreço porque só faz sentido considerar a possibilidade de aproveitamento do acto quando se conclui que o mesmo não padece de erro nos pressupostos, questão que, embora alegada, não chegou a ser analisada por se ter entendido que a incapacidade nem sequer está fundamentada, pelo que o acto de exclusão só poderia ser considerado válido se improcedesse o invocado erro nos pressupostos, relativamente à incapacidade, em que o mesmo assentou, o que não aconteceu, por o Tribunal ter entendido que a própria decisão de incapacidade não está fundamentada para se averiguar se houve erro ou não.
AA – Aliás, caso o erro nos pressupostos venha a ser reconhecido e declarado pelo tribunal, com o seu consequente efeito anulatório, o conteúdo do acto mudará o conteúdo na medida em que o Comandante da Escola Naval declarou no seu despacho de 28/02/2020 (ponto 17 dos factos provados) que, no caso de o órgão competente para avaliar a capacidade do requerente mudar de posição e se a vontade do requerente for de persistir em seguir a vida militar, então poderá exercer o direito previsto no artigo 160º do Regulamento da Escola Naval que consiste em repetir o ano, com a consequente possibilidade de concluir o mestrado, que é a efectiva razão que levou o requerente a requerer a presente Intimação, logo o conteúdo do acto pode efectivamente mudar.
BB - Em face do exposto se conclui que, também à luz do princípio do aproveitamento dos actos administrativos, não é possível manter o acto de exclusão da Escola Naval, pelo que muito bem se decidiu na sentença pela sua anulação por, para além do erro nos pressupostos analisado supra, ter também violado as normas que impõem o efeito suspensivo de que gozava o recurso hierárquico interposto pelo requerente.
CC – Por último, quanto à anulação do acto de indeferimento do pedido de estágio, tal acto tem apenas como fundamento o facto de o requerente não ter sido ainda notificado da exclusão (como resulta dos pontos 15 e 16 dos factos provados), o que é incompreensível; se já na petição inicial o requerente dizia não compreender esta decisão e o seu fundamento, por não se vislumbrar qualquer relação entre a notificação de exclusão e a realização do estágio de embarque, bem como por ser absolutamente ilógico indeferir o estágio de embarque por não ter sido notificada a exclusão, o certo é que o tribunal também não conseguiu apreender o alcance de tais fundamentos e decisão, pelo que, se está perante um caso de manifesta falta de fundamentação por o seu conteúdo não ser inteligível, nem para o destinatário do acto, nem para o tribunal que o deve sindicar.
DD - A recorrente ainda tenta, agora, introduzir uma fundamentação, misturando a falta de aproveitamento escolar com a eventual incapacidade do requerente, mas sem que tal explicação consiga sequer ter suporte no documento, sendo por isso uma inadmissível tentativa de fundamentação a posteriori que não tem correspondência com o conteúdo do acto, nem se mostra assente em qualquer fundamento