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7. VALIDADE E LIMITES DAS CONCLUSÕES DO ESTUDO

7.3 Validade interna

Essa pesquisa se propôs a testar a teoria. Os resultados foram interpretados mais no caráter questionador dessa teoria, com prudência na refutação ou validação definitiva, do que conclusão de causalidade plena. Pelo recorte transversal, a variável “tempo” foi deixada de fora da análise. Desse modo, os resultados devem considerar a não atenção dada à dinâmica das relações.

O estado no qual uma relação se encontra sofre significativa influência de efeitos que distribuem seus impactos no tempo comparados aos efeitos que congregam para o mesmo momento. Assim, as escolhas dos agentes, no decorrer do tempo, também contribuiriam com a explicação para tal estado.

7.3.1...Incentivos temporários

Efeitos de incentivos temporários não isolados no modelo atenuam a baixa performance, mesmo na presença de fracos mecanismos de coordenação distorcendo a real efetividade da

coordenação na relação. Exemplo desses incentivos são as expectativas dos terceiros em participar de novas fases de expansão da Usina. O terceiro pode desejar aumentar seu capital reputacional ou de trust, com mais intensidade quando da aproximação de oportunidades de seleção para outros contratos expressivos. Essa expectativa pode aumentar a conformidade, não pela efetividade do arranjo (em reduzir riscos contratuais), mas por um elemento de incentivo temporário.

A natureza do negócio, a exclusividade atual e o tempo de implantação do serviço diferenciam, também, o tempo em que as oportunidades citadas (pela expansão da Usina) serão discutidas e como isso afetará a performance individual. Nisso há, igualmente, o efeito de path dependence entre terceiros: quando o primeiro inicia o movimento de aumento de performance, visando a aumentar o capital reputacional, os outros que não teriam razões para fazê-lo (pois não concorrem diretamente em serviços especializados) o fazem, aumentando nas diversas áreas a performance média, temporariamente.

Considera-se que o efeito citado está controlado por três razões:

a) Primeiro, o atual movimento de expansão afeta sobretudo relações não consideradas na amostra (transações da área de engenharia, como projetos civis e industriais de expansão);

b) Segundo, os terceiros citados na amostra, em certo momento futuro, perceberão a iminência da oportunidade, porém, como as prestadoras desses tipos de serviço só se beneficiam com a expansão quando a nova capacidade está em operação, todas de forma conjunta, para fins de análise comparada de desempenho, o efeito não é significativo; c) Terceiro, nenhum dos terceiros, na amostra, possui braços de prestação de serviços com

possibilidade de atuação nos serviços de expansão em momentos anteriores ao grupo na amostra.

7.3.2...Adaptabilidade

A velocidade com que um arranjo se adequa na direção do arranjo eficiente depende das fricções existentes na organização. Por isso, em determinado momento, quando é feito o corte para a comparação dos arranjos, isso pode significar uma comparação de arranjos estáticos e

outros dinâmicos, ainda em fase de adaptação. Alinhados ou não, estão respondendo a eventos passados.

A fricção envolve as burocracias existentes para adequação dos mecanismos, seja via contrato, seja via ordenamento privado. O supervisor buscará adequar a coordenação à medida que aumentar seu conjunto utilidade, na combinação (público x privado) que lhe trouxer menor custo de transação ex ante e melhores resultados ex post. A relação entre o custo de reescrever o acordo motivado por ajustes feitos na governança da relação (alteração do mix de coerção: público x privado, por exemplo), assim como o interesse em manter a assimetria de informação em relação a tais ajustes, podem promover um descolamento entre o contratado e o real à medida que tais ajustes não são formalizados nos contratos.

Uma significativa contribuição seria dada se fossem considerados a variação da má adaptação no tempo e os seus impactos na performance. Os arranjos alteram-se no decorrer do tempo e, como foi evidenciado, os contratos mantêm-se similares ao primeiro desenho. Sendo assim, ou as partes encontram uma forma de regular a relação ou a performance deveria cair. Dessa forma, a questão é como ocorre esse movimento ao longo do tempo. Ainda, questiona-se se a velocidade com que soluções factíveis emergem está relacionada com o tempo que a contratante pode ficar exposta ao risco contratual, este relacionado às características da transação, por exemplo, impacto econômico da falha.

7.3.4...Ambiente institucional interno e externo

A dinâmica das relações e a influência institucional61 não foram endogenizadas, mas controladas pelo corte transversal e pelo uso de uma única firma (ambiente de contratação e

61 De acordo com North (1990), as instituições são os códigos de comportamento, procedimentos esperados, leis e normas que representam a regra do jogo, no qual os agentes atuam. O ambiente institucional, em uma economia possibilita a propriedade privada no momento em que define direitos de propriedade, prevê mecanismos de coerção e de polícia, aumentando a probabilidade de efetiva propriedade, o que inclui exclusão de terceiros do uso do bem privado. Ademais, define direitos de decisão e de responsabilidades, como no caso dos agentes internos à organização. Variando as instituições, variam as expectativas de exploração de direitos de propriedade e de decisão. Os poderes internos à firma, de escolha de arranjos, sobre quem negocia, quem aprova, quem avalia e os graus de liberdade para isso, afetam a forma como os agentes irão lidar com mecanismos privados, pois a eles é dado maior ou menor poder discricionário para tanto. Analisar longitudinalmente as organizações permite captar impactos das alterações da distribuição de direitos ou da implementação de monitoramento sobre ação dos supervisores, verificando como isso afeta o uso de mecanismos de ornamento privado em substituição aos públicos. Ainda caberia analisar a relação entre os supervisores e a área de contratos

decisão homogêneo). Outras prevenções metodológicas serão necessárias para estudos replicados.

O ajuste de um arranjo existente em direção ao seu eficiente correspondente é limitado por definições institucionais, dentre elas: formas-padrão de contratação, esquemas-padrão de remuneração, cotas e limites orçamentários. No surgimento de uma instituição dentro (ou fora) da firma, para padronizar, existirão regiões ineficientes, pois substituem um arranjo único e específico à certa situação por um adaptado, ou seja, uma segunda melhor opção. Nas palavras de North (1990), as razões para o surgimento das instituições incluem economia de custos de transação ex ante e redução de incerteza quando, ao regular o modus operandi, comunicam a todos, DCON e supervisores, as regras do jogo.

Nos espaços não regulados ou sem monitoramento, os arranjos extracontratuais podem ser desenhados, o que mantém as relações com menores custos de transação dentro do desempenho aceito como satisfatório à continuidade do contrato. Assim sendo, nas regiões de ineficiência, os supervisores procurarão o equilíbrio da relação por meio de arranjos extracontratuais, temporários ou definitivos.

Por fim o efeito path dependence longitudinal às transações não foi tratado. Contudo, há evidências de sua existência na redação dos contratos e na forma como a Usina regula as relações.

A mudança do ambiente institucional externo pode alterar a coercividade, seja por nova lei, seja por diminuição de custos de mensuração para o árbitro (público) externo, via padrões. Novas tecnologias de monitoramento empregadas, que reduzem custos de monitoramento, podem também alterar o incentivo para usar a terceira parte, como câmaras de vídeo nos processos industriais.

Na dimensão de desempenho da conformidade de serviços, mesmo com a queda do custo de mensuração, o impacto econômico da falha pode impedir a relação de sair do extremo relacional. Já nas outras dimensões de desempenho (segurança, co-responsabilidade social e

ao longo do tempo, segundo a alteração dos poderes discricionários sobre as relações entre agentes da Usina e do Terceiro.

ambiente) o efeito pode ser sentido. A jurisprudência a favor de Terceiros em causas trabalhistas leva mais relacionalidade aos arranjos, enquanto o fim da co-responsabilidade ambiental pode relaxar os contratos (nessa dimensão de performance).