Comecemos com a primeira determinação, a qual Marx descobre na riqueza capitalista. A primeira sentença do livro diz:
A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura--se numa “imensa acumulação de mercadorias”, e a mercadoria, iso-ladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso, nossa investigação começa com a análise da mercadoria (CI, p. 57). 5 Oriento-me, antes de tudo, pelo capítulo 1, “A mercadoria”, do livro I de O Capital de Marx (= CI), in: Marx, Karl. O Capital. Crítica da Economia Política. O Processo de Produção do Capital. Vol. I e II. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. 26ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. (cit.: CI), p. 55-106. Em alemão: Marx, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. Vol. I. In: Marx, Karl/Engels, Friedrich: Werke (cit.: MEW). Vol. 23. Berlin: Dietz Verlag, 1977, S. 49-98.
Essa é uma afirmação que, com certeza, nenhum homem contradiz: a riqueza da sociedade capitalista se apresenta como uma “imensa acumu-lação de mercadorias”. Com essa expressão “imensa acumuacumu-lação de mer-cadorias”, está posto em evidência que essa sociedade não conhece a cate-goria da escassez. Cada supermercado na esquina é um corte do mercado mundial. Há tudo, tudo existe, mas não enquanto disponível para todas as pessoas. Essas coisas úteis povoam o mercado como mercadorias, as quais têm que ser compradas por dinheiro.
A riqueza da sociedade, portanto, deve ser comprada, e só compran-do pode-se utilizá-la e gozá-la. Isso Marx esclarece no valor de uso e no va-lor de troca dos bens. Vava-lor de uso são as coisas úteis, como, por exemplo, ferramentas, telefones, carros, casas, pão, mas também serviços, etc., satis-fazendo qualquer carecimento. De qual natureza esse carecimento é, se é material ou espiritual, ou pura extravagância, como, por exemplo, um Pors-che ou um “Pappnase” (nariz de papelão), não vem ao caso. Os valores de uso constituem a riqueza material em todas as sociedades. A peculiaridade do capitalismo consiste no fato de que os valores de uso são tão somente os portadores materiais do valor de troca.6
O valor de troca das coisas úteis é, primeiramente, um obstáculo a ser superado, a fim de poder utilizar o valor de uso. O valor de troca é fami-liar a cada um como o dinheiro com que se paga alguma coisa ou como o dinheiro que se poupa para alguma coisa. E essa troca geral no mercado, a qual não se realiza ocasionalmente, mas sim constitui o princípio da troca de mãos em nossa sociedade, é uma indicação de qual é o objetivo da pro-dução. Não se produz para a necessidade, mas para a troca. A necessida-de do produtor é eliminada, necessida-desnecessida-de o início, como finalidanecessida-de. Os produtores de mercadorias não produzem para si e nem para o comprador. Através do comprador, o produtor quer, sim, adquirir o dinheiro.
Se isso é assim, então se pode concluir que: tal coisa como uma divi-são racional do trabalho não existe no capitalismo. Aqui, a coisa não funcio-na como se se fizesse um planejamento adequado e se olhasse para o que é
6 “Os valores de uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela. Na forma de sociedade que vamos estudar, os valores de uso são, ao mesmo tempo, os veículos materiais do valor de troca” (CI, 58).
utilizado. Aqui domina uma concorrência privada, uma competição na qual os produtores usam uns aos outros e produzem um para o outro e, ao mesmo tempo, se privam mutuamente do que eles criam e carecem.7 Os consumido-res são chantageados, seu carecimento é tomado como sua fraqueza, a fim de obter seu dinheiro. O preço da mercadoria é a separação do comprador do produto. Só pelo pagamento de um equivalente, ele obtém o que ele precisa. Aqui não há nenhuma operação conjunta, mas prepondera uma dependência um do outro, que inclui uma oposição entre si. A afirmação de Marx é: isso não é nenhuma relação racional entre produtores e consumidores.
Retenhamos: qual papel os bens úteis desempenham no capitalis-mo? Se mercadorias são produzidas, e têm que ser vendidas e compradas, então o lado útil não é o fim, mas sim o meio para o comprador desembol-sar dinheiro. O carecimento do comprador vale como a fraqueza na qual se pode capturá-lo, a fim de obter seu dinheiro. Se não for possível comprar os alimentos que são necessários, então se passa fome nessa sociedade.
Então vem uma primeira objeção dos economistas profissionais. Es-ses renomearam a dependência e a oposição dos produtores e dos consumi-dores no mercado numa invisible hand (numa mão invisível). Eles têm a po-sição de que o mercado regulamenta, muito melhor do que uma economia planificada, a produção para o consumo. Por isso, pela produção privada, a totalidade é abastecida otimamente com o necessário.
Contudo, essa afirmação é irrealista, quer dizer, alheia ao mundo: há carência e miséria, por um lado, e, por outro, ricos sem fim. Além das mer-cadorias invendáveis, há uma quantidade de pessoas que poderiam utilizar bem tais coisas. Não se produz nem para uso pessoal, nem para as neces-sidades das outras pessoas. Em última instância, o consumidor tem acesso à riqueza se ele tem poder aquisitivo. O consumidor conta somente como alguém que possui poder de compra, logo, solvência. Para Marx não se trata, portanto, do elogio da troca de mercadoria por dinheiro como grande inte-gração entre produção e consumo, mas sim da descoberta das contradições inerentes a esse movimento.
7 “Só se contrapõem, como mercadorias, produtos de trabalhos privados e autônomos, independentes entre si” (CI, 64).
Em princípio, na compra e venda universal das mercadorias por di-nheiro, realiza-se uma equiparação prática delas. Na identificação das mer-cadorias por dinheiro, estas são equalizadas também uma com a outra. Se se pode, diz Marx, trocar um quartel de trigo por x de graxa, ou por y de seda ou z de ouro, então essas coisas são valores de troca com a mesma grandeza de um quartel de trigo.8
Pergunta Marx: Onde reside a coisa comum dessa equiparação? Os valores de troca vigentes da mesma mercadoria exprimem o igual. Se coisas diversas possuem o mesmo valor de troca, então elas exprimem algo que ne-nhuma das coisas diversas é para si. Qual é um terceiro ponto em comum? Procurada, é a propriedade que torna as mercadorias permutáveis.
A igualdade dos bens diversos na troca não reside nas propriedades das mercadorias que as tornam coisas úteis, tampouco na avaliação que os homens fazem das mercadorias. A igualdade consiste no trabalho existente nelas. E precisamente se trata do trabalho puro e simples. Esse trabalho, no qual não mais conta aquilo em que ele consiste, esse trabalho puro, Marx denomina de trabalho humano abstrato. Não o que é trabalhado, nem em que consiste o produto do trabalho útil, mas sim a força de trabalho des-pendida é o que é decisivo, de modo que se põe somente ainda a questão: quanto trabalho existe nisso?
O trabalho abstrato empregado é o que constitui o valor das mer-cadorias. Esse é o conteúdo trivial da assim chamada teoria marxiana do valor-trabalho, a qual tem por conclusão o trabalho como a substância dos valores, dos valores das mercadorias. Mercadorias que são trocadas têm va-lor de troca. Isso é indiscutível. Quando se chega ao trabalho como a
subs-8 “Mas, uma vez que cada um dos itens, separadamente – x de graxa ou y de seda ou z de ouro –, é o valor de troca de uma quarta de trigo, devem x de graxa, y de seda e z de ouro, como valores de troca, ser permutáveis e iguais entre si. [...] Os valores de troca vigentes da mesma mercadoria expressam, todos, um significado igual. [...] As duas coisas [trocadas] são, portanto, iguais a uma terceira, que, por sua vez, delas difere [...]. Se prescindirmos do valor de uso da mercadoria, só lhe resta ainda uma propriedade, a de ser produto do trabalho. [...] Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, também desa-parece o caráter útil dos trabalhos neles corporificados, desvanecem-se, portanto, as diferentes formas de trabalho concreto, elas não mais se distinguem umas das outras, mas reduzem-se, todas, a uma única espécie de trabalho, o trabalho humano abstrato. [...] Esses produtos passam a representar apenas a força de trabalho humana gasta em sua produção, o trabalho humano que neles se armazenou. Como configuração dessa substância social que lhes é comum, são valores, valores-mercadorias” (CI, 60).
tância do valor, então há disputa. Não muito depois de Marx desenvolver sua teoria, já no final do século XIX, uma nova seção da Economia Política virou-se contra a teoria do valor-trabalho com a afirmação: não o trabalho, mas a avaliação subjetiva decide sobre o valor de uma coisa. A conclusão do valor ao trabalho não foi registrada.9
O terceiro ponto em comum, assim foi afirmado, é a utilidade. Con-tudo, não há uma utilidade comum nas coisas diversas. A utilidade se mede num valor de uso determinado. Uma dimensão comum da “utilidade” é uma ideia absurda. A utilidade não pode ser comparada. O ato de sentar e o de comer não se deixam comparar. O que vale mais: uma cadeira ou uma mesa? Comer cinco vezes não vale sentar-se por uma vez. A utilidade diversa dos valores de uso é apenas o pressuposto da troca. Só diversos valores de uso são trocados um com outro. A utilidade, que as coisas diversas servem aos homens, não pode, portanto, constituir a uniformização das mercadorias.
A teoria do valor-trabalho de Marx não é nenhuma teoria que calcu-la os preços no mercado. Mas exatamente, dessa maneira, a Economia Polí-tica moderna compreende a teoria do valor-trabalho. Marx não quer calcu-lar os preços, mas sim explicar o movimento deles. Os preços são resultado de uma luta de concorrência anárquica no mercado. Nós não vivemos numa sociedade na qual o emprego do trabalho é planejado antecipadamente, mas sim a sociedade é constituída pelos produtores privados concorrentes um contra o outro. Dessa concorrência resulta, pelas costas dos homens, tal coisa como o trabalho socialmente necessário.
9 Já o socialista e poeta Georg Bernard Shaw não acompanhou a conclusão da equiparação praticada na troca de bens diferentes como mercadorias equivalentes no seu fundamento, o trabalho humano abs-trato, e fixou a determinação do valor das mercadorias na dimensão abstrata da utilidade: “[...] Por que o processo de reduzir o trabalho do sapateiro e o trabalho do carpinteiro ao trabalho humano abstrato com aquilo que é abstraído do seu caráter específico não é aplicado à utilidade dos sapatos e das mesas? Se se abstrai também da sua utilidade específica como calçados e portadores de alimento e se tem sua desejabilidade abstrata, a sua propriedade comum é a de servir às necessidades humanas. Essa desejabi-lidade abstrata é o fundamento verdadeiro, a razão, a substância, a causa final, a causa eficiente – como sempre se gosta de nomear – do valor” (SHAW, Georg Bernard. Wie man den Leuten die Werttheorie aufherrscht [Como se impõe às pessoas a teoria do valor] (1889). In: FETSCHER, Iring. Der Marxismus. Seine Geschichte in Dokumenten [O marxismo. Sua história nos documentos]. Vol. II, München: Piper Verlag, 1964, p. 216. “O valor não é, segundo isto, de natureza subjetiva apenas conforme sua essência, mas sim também conforme sua medida” (MENGER, Carl. Grundsätze der Volkswirtschaftslehre
O trabalho formador de valor é o mesmo trabalho humano-abstrato, realizado numa duração que é a do tempo de trabalho socialmente necessá-rio. Esse padrão do tempo de trabalho resulta de uma comparação dupla: em primeiro lugar, da comparação com outros fornecedores da mesma mercado-ria. A preguiça e a falta de habilidade não são a medida, mas sim uma média universal de quanto trabalho é necessário com um dado método de produ-ção.10 Quem permanece abaixo desse padrão, quem fica sentado sobre seus produtos, não é remunerado pelo seu tempo de trabalho individual. A segun-da comparação é a comparação com o “estômago” do mercado e seu poder de compra, quer dizer, com a necessidade de riqueza solvente da sociedade.11
Numa produção privada anárquica, todos os riscos são privatizados. O desajeitado produz com seu trabalho menos valor, embora ele produza necessariamente uma utilidade. Isso vale também para os doentes e os fra-cos. Aquele que se engana com a avaliação da necessidade social tem azar. Muitos se arruínam para que o mercado possa seguir sua marcha. Muitos tentam estabelecer uma abertura de crédito com uma empresa, que, então, fracassa. Então essas pessoas apoiam suas dívidas na sua vida. No que con-cerne ao tempo de trabalho, não é, portanto, o tempo de trabalho individu-al, mas sim o trabalho médio socialmente necessário que determina o valor da mercadoria. Nisso reside o aviso de um paradoxo da produção capitalis-ta: se e quanto dinheiro se poupa no mercado pelo emprego do trabalho é o que decide sobre o tempo de trabalho socialmente necessário e, com isso, sobre o valor do produto do trabalho.
Com o padrão do tempo de trabalho socialmente necessário, levan-ta-se uma pretensão dupla no trabalho: - Ele tem que ser relativamente, quer dizer, por pedaço, o mais curto possível, para que se possa vencer o concorrente no mercado e, desse trabalho relativamente o mais curto pos-sível, tem que - ser despendido absolutamente muito.
10 “Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor de uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais, existentes e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho” (CI, 61).
11 “Uma vez que o mercado não absorve a quantidade global de linho ao preço normal de 2 xelins por metro, fica demonstrado que foi gasta em tecelagem de linho uma porção excessiva do tempo de traba-lho total da comunidade. Haveria o mesmo efeito se cada tecelão, individualmente, tivesse despendido em seu produto mais do que o tempo de trabalho socialmente necessário” (CI, 134).
Se for assim que o emprego do trabalho em comparação com outros determina o valor dos produtos, então o dinheiro não é meio da produção, mas sim, inversamente, a produção é meio para a geração do dinheiro. O dinheiro é a finalidade de todo o trabalhar. O dinheiro não é o suplemento da produção. A venda não é um adicionamento, um “também ainda”, mas a aquisição do dinheiro, que foi ambicionada com o emprego do trabalho, é que finaliza o objetivo da produção. Esses são pensamentos insólitos de Marx sobre trabalho e sobre tempo de trabalho. Ao mesmo tempo, torna-se saliente que nisso reside um grande conhecimento.
O dinheiro, através do qual o valor de cada coisa é mensurado, é po-der social enquanto objeto. O dinheiro é popo-der social sobre pessoas, sobre seu trabalho e seus serviços e sobre as coisas que elas têm. A riqueza nessa sociedade é o poder de acesso aos bens, e não o seu deleite. A riqueza não consiste de coisas belas, que melhoram e embelezam a vida. A riqueza, em torno da qual tudo gira, é o dinheiro. O dinheiro é a possibilidade da rique-za. Precisamente a riqueza abstrata, não a real, é o mais importante nessa sociedade. O dinheiro é a única necessidade que é realmente desmedida.12
Diz-se que o homem é insaciável. Isso não é verdade. Cada neces-sidade tem sua medida em si. Ninguém quer beber cerveja ou fazer sexo infinitamente, etc. Só o dinheiro não tem nenhuma medida. Dele nunca se tem o suficiente. Muitos riem sobre o entesourador, por exemplo, sob a figura de Tio Patinhas, de Walt Disney. Ele ama a riqueza abstrata por si. Isso é entendido como loucura. Mas, por nossa miséria, somos obrigados a adorar a riqueza abstrata. Por exemplo: tem-se que poupar para a velhice. Tem-se que acumular dinheiro sem pensar nas necessidades atuais, a fim
12 “O dinheiro é […] a comunidade real, desde que ele seja a substância universal do existente para todos e, ao mesmo tempo, o produto comunitário de todos” (MARX, Karl. Grundrisse. Manuscritos econômicos de 1857/58. Esboços da crítica da economia política. Tradução Mario Duayer, Nélio Schneider (colabo-ração de Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011, p. 169). “A dependência recíproca e universal dos indivíduos indiferentes um contra outro forma sua cone-xão social. Essa conecone-xão social está expressa no valor de troca, em que para cada indivíduo sua própria atividade ou seu produto apenas se torna uma atividade e um produto para ele; ele tem que produzir o produto universal – o valor de troca ou, este isolado para si, individualizado, o dinheiro. De outro lado, o poder que cada indivíduo exerce sobre a atividade dos outros ou sobre as riquezas sociais consiste nele como proprietário de valores de troca, de dinheiro. Ele carrega consigo seu poder social, assim como sua conexão com a sociedade, na bolsa” (idem, p. 105). “Por essa razão, o dinheiro não é apenas um objeto da mania de enriquecimento, mas sim o seu objeto” (idem, p. 165).
de satisfazer as necessidades futuras. Nesse caso é sempre melhor poupar mais do que menos.
Resumindo: 1. No capitalismo, a produção está voltada para o mer-cado; o trabalho produz mercadorias e cria, com o valor delas, o meio com o qual se compete na apropriação do dinheiro. 2. Produz-se propriamente o dinheiro, o valor de troca como coisa independente, o poder de disposição sobre o produto e o trabalho alheio. 3. O carecimento social, ao qual o valor de uso serve, não é o objetivo da produção no capitalismo, mas sim o meio da apropriação do dinheiro, a fraqueza pela qual aqueles que carecem são capturados. 4. Porque o trabalho é organizado como meio para a apropria-ção do valor de troca, no valor ninguém recebe “trabalho remunerado”, mas sim na troca por dinheiro se experimenta se e em que medida se tem reali-zado em geral o trabalho socialmente necessário.