Eu analisei a questão de qual aparência, na economia de mercado moderna, a relação entre riqueza e trabalho assume. Existem inúmeros ou-tros aspectos para serem discutidos em O Capital de Marx, mas esse aspecto é central.
O essencial da minha contribuição foi o seguinte: houve e há, ainda, muitas incompreensões da teoria marxiana, as quais sempre vão em dire-ção do que não depende da supressão da reladire-ção de produdire-ção capitalista, mas sim da distribuição justa da riqueza capitalista, sem tocar o caráter da própria riqueza. Marx põe em evidência que o capitalismo não é um proble-ma de distribuição. O que merece ser criticado não é que as mercadorias e o dinheiro estão mal distribuídos. Há realmente riqueza material suficiente nessa sociedade. O problema não consiste em haver escassez. A questão é: o que falta a essa riqueza? Toda a riqueza vale somente como riqueza do dinheiro, a qual tem sua medida no dispêndio do trabalho.
Nessa sociedade não há nenhuma ordem racional de satisfação das necessidades, porque precisamente o dinheiro decide a esse respeito, o di-nheiro dita o que conta como necessidade. O problema não são os bens de luxo, mas sim que o consumo dos bens de luxo existe concomitantemente à maior pobreza. O quadro das necessidades é no fundo muito simples. Em primeiro lugar, trata-se da habitação, da vestimenta e da alimentação. Só então se pode pensar em luxo. Mas essa sequência racional da satisfação das necessidades não pode existir no capitalismo.
No final, eu quero pôr a questão acerca da alternativa a esse cenário, à qual Marx mesmo faz alusão. Quando vem a questão acerca da alternativa, ele tem um problema, pois, resistiu sempre contra a imaginação de uma al-ternativa. E, de fato, depende, sim, primeiramente, de apreender a sua crítica. Mas uma coisa resulta claramente de sua crítica: se a produção do valor tem as consequências apresentadas, então isso é uma indicação do fato de que Marx defende uma produção racionalmente planejada dos valores de uso.26 Para isso, o trabalho deve ser organizado. A finalidade não é planejar um produto do dinheiro. Há que se planejar uma produção dos bens de uso para a necessidade social. Economia planificada para a necessidade em vez de concorrência anárquica pelo dinheiro; isso é, para ele, o lema.27
Para isso, os homens teriam de ser libertados das condições de exis-tência que os obrigam para a produção do valor, quer dizer, a propriedade privada dos meios de produção teria que ser abolida. Nessa sociedade, isso seria a luta de poder contra o Estado moderno, porque ele põe a proprieda-de privada dos meios proprieda-de produção no mundo e garante essa propriedaproprieda-de com sua violência. A vontade para essa luta de poder tem que ser engen-drada somente uma vez. Antes da transformação prática das circunstâncias sociais, a crença nesse sistema tem que ser abalada teoricamente. Essa foi a aspiração de Marx, que aduz argumentos a favor da posição de que essa sociedade deve ser reformulada radicalmente, pois está organizada irracio-nalmente e é prejudicial para os produtores.
26 “Sociedade de homens livres” (CI, p. 100) é o título para o fim ético-social de Marx que ele já emprega em 1842 num artigo do Jornal Renano (cf. MEW 1, 95).
27 A dúvida que a questão pela “viabilidade” de um modo de economia racionalmente planejado mani-festa nega esse objetivo com a inexequibilidade representada e com a indicação para a concepção política supostamente ausente em Marx. Sobre isso deve ser dito que Marx, em primeiro lugar, não ficou devendo uma concepção positiva de uma organização racional da sociedade e, em segundo lugar, em toda a sua vida esteve à procura de uma dimensão política adequada para a criação de uma nova sociedade (cf. sua análise da comuna de Paris in: MARX, Karl. Bürgerkrieg in Frankreich [Guerra civil na França] (1871), MEW 17). Ele discute sua alternativa desde sua Crítica ao direito estatal hegeliano (1843) (cf. MEW 1, p. 203-333) sob o título “democracia verdadeira”, que não é mais uma forma estatal separada da sociedade, uma forma da dominação estatal sobre a sociedade, mas sim uma forma da auto-organização da sociedade (cf. ABEN-SOUR, Milguel. Democracia contra o Estado. Marx e o momento maquiaveliano. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998). Pode-se dizer que a ideia de Marx é a de uma nova autocriação da sociedade. Longe disso que nesse caso se trata de uma abolição do político; na democracia verdadeira o político, para Marx, chega a sua verdade, na medida em que nela o político converge com a configuração racional da sociedade. Sua primeira tarefa seria trazer as oposições sociais produzidas pelo capital a um equilíbrio.
Mas, assim se pergunta, como deve funcionar esse plano? A essa questão deve-se responder: cada empresa planeja sua produção no seu pró-prio âmbito, com todos os pormenores. Em toda empresa planeja-se para o lucro; na sociedade, ao contrário, domina a concorrência selvagem. Pode-se contra-argumentar: no socialismo real, em que, sim, tudo foi planejado, aí sim nada funcionou. Os “socialistas reais” tinham a posição de que a lei do valor deve ser implementada conscientemente. Eles têm instalado a merca-doria, o dinheiro, o capital, o lucro, o crédito etc., portanto, as categorias do capitalismo como alavanca para o plano. Ao contrário, diria Marx: a lei do valor deve ser revogada.
Plano ou não plano não é, também, de forma alguma, a diferença entre capitalismo e socialismo. É o objetivo do plano que constitui a diferença. No capitalismo, o empresário planeja seu lucro e, consequentemente, sua produ-ção. No socialismo é planejada uma produção do valor de bens de uso para a necessidade. Quem será o vencedor na concorrência, na verdade, não se pode planejar. Se a vantagem na concorrência de uma empresa fosse planejável, isso significaria que seria possível planejar o fracasso do concorrente no mercado, portanto, o exercício ativo e consciente do desperdício da força de trabalho, do material e dos meios de produção. Isso, porém, no capitalismo, não é o caso.
O pensar da utilidade, portanto, o ponto de vista prático-materialis-ta que se traprático-materialis-ta da sua própria utilidade, Marx não teve que propagandear, pois existe de uma maneira ou de outra. A consolidação da própria utilida-de não tem, utilida-de forma alguma, outro caminho que não seja o da renda do dinheiro, que é a barreira para a utilidade, à qual os homens almejam. Esse desvio para a aquisição do dinheiro, levando a um desvio pelo capital como uma condição do benefício, é o objeto da crítica de Marx. O ponto de vista da própria utilidade existe – como disse - também no capitalismo. Que os homens, com os meios econômicos com os quais se defrontam (mercadoria, dinheiro e capital), perseguem sua utilidade é o que é criticado por Marx. O que importa é o conhecimento de que as trajetórias sociais dadas, as quais são as condições para a utilidade individual, não estão aí para a utilidade dos homens. Que o objetivo individual não concorda com a finalidade so-cial – e isso em função de razões sistêmicas necessárias – é o que merece, na ótica de Marx, ser o objeto da crítica.
Resumindo: como alternativa ao capitalismo, Marx oferece a pers-pectiva de que a divisão social do trabalho necessário seja planejada ra-cionalmente e organizada coletivamente, ou seja, comunitariamente para a necessidade social. Economia planificada para a necessidade em vez de concorrência pelo dinheiro: eis o lema. Para discutir esse projeto seria ne-cessária outra apresentação.