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6 ATUAÇÃO PROFISSIONAL DOS EGRESSOS DO CEDMN

6.1 INGRESSO NO MERCADO DE TRABALHO

6.1.2 Valor do diploma para o ingresso no mercado de trabalho

Outro tópico abordado nas entrevistas em relação à inserção no mercado de trabalho foi o valor do certificado de conclusão do Curso Técnico. Torna-se interessante observar que Fernando foi o único que declarou já ter utilizado o diploma para conseguir um emprego, e para ele isso faz diferença: “Em meus projetos eu coloco a xérox. Eu acho que de alguma forma é uma segurança pra quem tá lendo o projeto, de saber que eu tive uma formação, pior é um projeto sem nada. Eu acho que serviu aquele papel”. E Vinícius foi o único que precisou do diploma para um emprego:

Meu diploma, não me deram até hoje, eu já fui lá mais de dez vezes pegar, eu ia falar com o secretário de cultura sobre isso. Uma vez foi lá na escola P. que eu precisei do meu diploma pra me empregar e não me deram, fui lá várias vezes, a diretora nunca tava, disse que tava doente, fez cirurgia, disse que tava não sei o que. Depois disse que tava descansando, depois não sei o que, depois não sei o que. Eu não peguei meu diploma até hoje, e eu não posso todo dia ir lá, entendeu? Eu trabalhei lá (na escola que solicitou o diploma) porque também tinha amigos quando eu entrei lá, tinha S. (professor do Curso Técnico). Então não, a gente sabe que ele tem um diploma, que ele é formado pelo curso técnico, que é reconhecido no Brasil inteiro. Então eu posso ensinar, eu não posso ensinar em faculdade, superior, e foi um trabalho. Eu me lembro que eu levei uma revista Isto É que na época que ela me pediu saiu sobre o

curso uma matéria grande, falando sobre o curso técnico, esse curso que eu fiz que

era reconhecido, eu levei até pra ela a revista. E não consegui pegar meu diploma23

. No Brasil, a Lei n º 3 857 de 22, de dezembro de 1960, criou a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), dispondo também sobre a regulamentação da profissão. O Art. 1º do capítulo 1 desta lei diz que a OMB tem como finalidade: “[...] exercer, em todo o país, a seleção, a disciplina, a defesa da classe e a fiscalização do exercício da profissão do músico, mantidas as atribuições específicas do Sindicato respectivo” (BRASIL, 1960). E o Art. 28º do capítulo 2 deixa claro que para o livre exercício da profissão o músico deve ser diplomado por um Conservatório ou Universidade, ou estar nos últimos dois anos de um curso de uma destas instituições, ou então ser um professor catedrático de música. A outra possibilidade é ser aprovado em exame prestado a uma banca examinadora, exame de responsabilidade do OMB.

Atualmente, a OMB de Minas Gerais24 informa em seu site oficial que todos os que exercem a música como atividade profissional devem estar filiados a esta organização. Apresenta três modalidades de carteiras e dois de exames: músico prático, execução de três músicas, para avaliação rítmica, melódica e harmônica; exame profissional, com um exame teórico e outro prático e, por fim, a carteira para músico estrangeiro. Importa ressaltar, ainda, que o site menciona que os músicos se afiliam à esta ordem para “ter respaldo legal na hora de negociar melhores contratos e reivindicar condições de trabalho mais dignas” (BRASIL..., 2005).

Sobre estes exames vale citar o que afirma Lima (2003), quando questiona se é possível exigir dos conservatórios e das escolas de música que cumpram a nova LDB nº 9 394/96: “[...] diante da existência de um órgão representativo como a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), que habilita um instrumentista ou regente mediante um exame que na mais fleumática afirmação, é inescrupuloso frente às necessidades de uma formação profissional bastante peculiar.” (LIMA, 2003, p. 84).

Analisando as falas dos colaboradores, a legislação da OMB e a Lei nº 3 857/60, percebe-se que apesar da lei prevê a possibilidade de diplomados exercerem a profissão sem exame, precisam realizá-lo para obter a carteira. Por outro lado, tanto os colaboradores como muitos outros músicos, continuam atuando profissionalmente sem necessidade de apresentar nenhuma certificação ou mesmo carteira.

23 Da mesma forma que Vinícius não conseguiu seu diploma, alguns documentos importantes para a pesquisa

não foram encontrados no arquivo do Colégio.

24 Como não foi encontrado o site oficial da Ordem dos Músicos da Bahia, o site oficial do Conselho de Minas

A ausência de escrúpulos nos exames realizados pela OMB, levantada por Lima (2003); algumas irregularidades cometidas pela OMB, como a antecipação das eleições do Conselho da Bahia para o mês de julho, nos anos de 2002 e 2005, e a inércia na luta pelos interesses da classe, têm levado ao descrédito esta Ordem e que se duvide de sua capacidade de atuação e de sua competência para exercer a certificação de músicos.

Ainda sobre a necessidade de certificação para o ingresso no mercado, destaca-se a possibilidade levantada por Vinícius de ensinar em qualquer instituição, que não de nível superior. Apesar da Lei n º 3 857 não falar de regulamentação específica do curso técnico em instrumento musical, no Art. 33, do capítulo 2, cita a possibilidade do ensino em domicílio ou estabelecimento de ensino regularmente organizado, apenas para o instrumentista “portador de diploma do Curso de Formação de Professores da Escola Nacional de Música ou estabelecimento equiparado ou reconhecido” e o instrumento de sua especialidade.

Contudo, esta exigência não vem sendo cumprida, o que observa-se no depoimento de Vinícius, na prática cotidiana de professores de aulas particulares e de escolas especializadas. Outro setor de ensino que não exige certificação são as Organizações não-Governamentais (ONG). Quando Fernando fala sobre a utilização do diploma em projetos, está se referindo a projetos encaminhados para estas instituições. Ele considera que o diploma faz diferença, entretanto, Carvalho (2005), em pesquisa realiza da em três ONG da Região Nordeste, conclui:

A realidade observada denota que a qualificação acadêmica não é requisito fundamental. A qualidade do ensino de arte nas ONGs não está, necessariamente, relacionada à titulação. Ao lado das habilidades técnicas profissionais, o saber, aptidões e características pessoais são muito importantes para a realização de um trabalho apropriado (CARVALHO, 2005, p. 92).

Almeida (2005), em pesquisa no projeto Descentralização da Secretária Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre, também chega à mesma conclusão que Carvalho (2005). A respeito dos oficineiros deste projeto, ela afirma:

O critério inicial da contratação é ser músico profissional. Todos os oficineiros têm uma atuação comprovada na cidade de Porto Alegre, tanto como compositores quanto cantores e instrumentistas. Procuraram o projeto para atender a uma convocação feita anualmente pela SMC, da qual tomaram conhecimento por meio da mídia, de amigos, entre outros. A seleção é feita a partir do currículo e as experiências anteriores em projetos

sociais são consideradas importantes pelo ativista25. A licenciatura, porém não é exigida, muito embora o ativista afirme que o licenciado em música pode se inscrever (ALMEIDA, 2005, p.54).

Mesmo sem intenção de realizar uma discussão a respeito da formação acadêmica necessária para exercer a função de professor, não é possível deixar de pontuar a importância, inclusive já apresentada em muitos artigos e relatos de pesquisa, de um olhar mais aprofundado dos cursos de formação de professores de música para estes espaços de atuação. Vale ressaltar que a discussão, que hoje é nacional, sobre a OMB e sobre a regulamentação do exercício profissional de professores de música não freqüenta muito a pauta das associações de Educadores Musicais. Outra questão, que deve ser levada em consideração, é a carência de licenciados em música, para atender a todos os de campo de atuação que estão surgindo. Entretanto, a realidade é que este mercado se utiliza destes “oficineiros” como mão-de-obra barata, que sem formação profissional de nível superior, muitas vezes, se submetem a condições de trabalho e remuneração degradantes. Isso sem comentar a evidente desqualificação para o exercício de uma atividade estratégica para a área musical.