2.3 SISTEMAS DE CONTROLE DO CRIME ORGANIZADO
2.3.7 O Poder Judiciário
2.3.7.1 Varas especializadas de justiça para atuação no crime
Em 2006, o Conselho da Justiça Federal recomendou aos Tribunais Regionais Federais, bem como aos Tribunais de Justiça dos Estados, a especialização de varas criminais, com competência exclusiva ou concorrente, para processar e julgar delitos praticados por organizações criminosas53. Essas recomendações encontram-se no Anexo B.
No ano de 2007, entrou em vigor a Resolução n.18 de 24 de abril de 2007 (ANEXO C), que dispõe sobre a inclusão dos crimes praticados por organizações criminosas, independentemente do caráter transnacional das infrações na competência das Varas Federais e a reorganização das competências das Varas Federais Criminais da Justiça Federal da 4ª Região.
Ocorre que, atualmente, essas Varas especializadas ainda não estão implementadas de forma satisfatória na Justiça Federal. Houve um grande debate sobre as varas especializadas destinadas aos delitos de lavagem de dinheiro, com propostas de retrocesso, desse sistema.
Quanto à criação de Varas especializadas na Justiça Estadual, atualmente, foi instituída, apenas no Estado de Alagoas, abrindo debates
53 Também em 2006, foi editada a Resolução n. 517 do CNJ, que possibilitou aos Tribunais Regionais Federais uma nova estrutura tendente à criação de varas especializadas em crimes praticados por organização criminosa, firmando competência para processar e julgar os crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.
para instituir em outros Estados, principalmente depois da morte de uma magistrada, ocorrida neste ano, em São Gonçalo/RJ.
No terceiro capítulo será debatida a importância desse instrumento de Varas especializadas no fomento de controle do crime organizado.
Dessa forma, procurou-se fazer um estudo sobre as perspectivas criminológicas e técnico-jurídicas do crime organizado, bem como o modelo brasileiro de controle dessa criminalidade. Pode-se observar que é complexo e que as estruturas existentes não são bem sistematizadas.
Quanto às teorias que se amoldam na interpretação do crime organizado, foi possível observar que ainda não existe consolidação teórica, indicando que algumas características do crime organizado se amoldam a determinadas propostas teóricas.
Quanto ao modelo brasileiro de controle, foi possível constatar que, embora existam diversos mecanismos legais/instrumentais para tratar do crime organizado, integralizando diversas leis especiais que se referem ao termo “organizações criminosas”, “associações” e, especificamente, a lei que trata do crime organizado, não delimita condutas, tampouco há sistematização desse fenômeno criminoso. Alguns institutos previstos em lei também carecem de regulamentação, ou estão sendo usados de forma, ao que parece, improvisados, como é o caso do termo “organização criminosa”.
A proposta deste capítulo foi de trazer informações não mais fáticas sobre o crime organizado, que se reservou ao primeiro capítulo, e sim trazer informações conceituais e relacionar os meios de controle existentes no Brasil, para, então, no capítulo derradeiro, fazer debate sobre o modelo existente e inferir propostas ou alternativas de melhorar o controle desse fenômeno criminoso.
Neste capítulo, propõem-se relacionar alguns dos instrumentos de controle do crime organizado no Brasil, com vistas a uma reflexão de seus pontos fracos e pontos fortes. Também se propõem algumas medidas para superar tais deficiências, por meio da otimização dos órgãos de controle e sistema penal.
Entre as tendências contemporâneas do processo penal está a busca do equilíbrio entre a exigência de assegurar ao investigado, ao acusado e ao condenado a aplicação de garantias fundamentais do devido processo legal e a necessidade de maior efetividade do sistema persecutório para a segurança social.
Dessa forma, entende-se que, apoiados na visão integrada e articulada de política criminal54, com vistas a esse equilíbrio e com somatório da eficiência dos órgãos e instrumentos, melhor será a prevenção e a repressão do crime organizado.
No contexto complexo e dinâmico do crime organizado, as regras são, às vezes, flexíveis e/ou rígidas, dependendo da razão inexorável aos seus desígnios. Nessa criminalidade, com algumas características regulares, segue-se um modus operandi peculiar, sujeito mudanças e adaptações para, por meio das falhas de repressão do Estado, permanecer no tempo e no espaço, como acontecem com as facções criminosas do Brasil.
Em geral, os criminosos, que atuam de forma organizada fazem análise prévia sobre os “termômetros” da lei, da atuação policial, da justiça, das políticas públicas, analisando, igualmente, os riscos (os prós e os contras) das suas empreitadas criminosas.
Por dever de ofício, o Estado, para fazer frente a esse tipo de criminalidade, tem que se instrumentalizar de forma adequada, pelo contrário, não vai ter a organização necessária, diante de uma criminalidade que tem como característica a “organização”. Então, cabe ao Estado empreender uma política integrada de controle, que são medidas de cunho político, jurídico e boa estrutura dos órgãos Públicos afetos, inclusive, com apoio da própria sociedade e mídia.
Para ajudar na compreensão dessa sistematização e articulação, de controle a esse fenômeno criminoso, entende-se necessário uma visão
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Zaffaroni (1999, p. 132) define Política Criminal como “ciência ou arte de selecionar os bens (ou direitos) que devem ser tutelados jurídica e penalmente e escolher os caminhos para efetivar tal tutela, o que iniludivelmente implica a crítica dos valores e caminhos já eleitos”.
articulada e integrada. De forma a fundamentar com diagnóstico, planos, programas, projetos ou políticas. Pode-se dizer que é uma ferramenta de apoio à decisão, pois a realidade é apresentada como um todo orgânico, funcional e auto-regulado, para esse diapasão, sugere-se apoio à teoria sistêmica.55
Como foi verificado no segundo capítulo deste estudo, existem, no Brasil, diversos órgãos com atribuições no controle do crime organizado e diversos instrumentos em uso, como meio de obtenção de prova para essa repressão.
Por outro lado, observa-se a necessidade de adequação do sistema jurídico brasileiro. Prima facie, é identificável a falta de articulação e sistematização de alguns desses instrumentos, tanto em alguns comandos legais, quanto às atribuições de órgãos. Por exemplo, falta uma política integrada de Segurança Pública no Brasil. O artigo 144 da Constituição Federal, que dá os fundamentos das intervenções (competências), é estanque e diferenciado, de tal forma que as polícias brasileiras, especialmente as estaduais, vicejam disputas legislativas no que tange suas competências, falta-lhes estrutura e não existe um padrão de atuação nas Unidades Federativas brasileiras. Observa-se, na prática, que poucas dessas Unidades possuem banco de dados intercomunicáveis. Ressalta-se que, na maioria dos Estados, sequer as policias estaduais têm banco de dados compartilhado entre elas.
55 A Teoria Sistêmica é aplicável principalmente nos sistemas da física, da biologia e da sociedade. Embora, nesse estudo, ela é mencionada mais no sentido de integração e articulação dos mecanismos e órgãos responsáveis pela implementação de políticas e ações de controle da criminalidade organizada. Entende-se que sem essa articulação não é possível qualquer resultado efetivo. Para fundamentar a teoria sistêmica, destacam-se autores como Maturana (1996), usando o termo “autopoesis” apoiado na teoria da cibernética, em que o sistema produz a si mesmo e além de suas estruturas. Por sua vez, Oliveira (2002) refere-se a sistemas como um conjunto de partes interagentes e interdependentes que, conjuntamente, forma um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinada função. (BUCKLEY, s/d), de forma simplificada, postula na teoria de sistemas de informática (processo): – Entrada; – Saída; – Retroalimentação. Visando sempre, a correção de cada uma dessas partes ou fases. Para Luhmann (2009) a unidade já não se manifesta como teoria, e tampouco como conceituação de seu objeto, mas sim como complexidade pura, no sentido de que há uma diversidade de saberes, que não deve ficar adstrito a uma disciplina. Este autor, referindo-se aos sistemas voltados para o sentido (sociais), em que a ênfase é o “intercâmbio”; postula que os sistemas orgânicos se pensa em intercâmbio de energia; para os sistemas de sentido, em intercâmbio de “informação”. Em ambos os casos, a entropia faz com que os sistemas estabeleçam um processo de troca entre sistema e meio, e por sua vez, que esse intercâmbio suponha que os sistemas devam ser abertos. Então, no sistema social, a base de reflexão é a complexidade da sociedade e sua capacidade de comunicação. Este autor ainda diz que “a sociedade consiste numa reprodução contínua de formas, o método da sociologia deverá consitir na capacidade de emular essa permanente reprodução” (LUHMANN, 2009, p. 22).
A legislação brasileira da base penal e processual é antiga, com inúmeras alterações e inúmeras leis especiais que dificultam sua compreensão e até mesmo eficácia. Muitas normas neste âmbito ainda carecem de regulamentação, por serem vagas em alguns dispositivos, como se vê, por exemplo, na lei 9.034/95.
O sistema prisional brasileiro também é deficiente. Na verdade, reproduz criminalidade, pelo fato de permitir o surgimento e a manutenção de facções criminosas no seu interior. Ademais, é de conhecimento a alta taxa de reincidência criminal.56
Por todas as deficiências existentes, o paradigma tradicional de segurança pública deve ser mudado, que vai além da atuação nas conseqüências e que possibilite visão integrada do problema (políticas públicas), atuando nas causas. No Brasil, não é difícil identificar essas causas, como já exposto acima, sendo a esta somada a corrupção, as deficiências na infraestrutura urbana, na educação e na saúde, no controle das fronteiras, na punibilidade, entre outras.
Por essa razão, no Brasil, é preciso que o Poder Público e a sociedade como um todo, façam a lição básica de controlar, distribuir e fiscalizar. Esse é um padrão de reorientação quando se quer contingenciar algo arruinado ou com deficiências e que apresentam riscos permanentes.
Deve-se levar em consideração, principalmente com relação ao crime organizado, que existe certa sofisticação, que inclui em sua atividade, conforme Elvio Fassone denomina “cultura da supressão da prova”, destruindo documentos, ameaçando ou eliminando fontes testemunhais, restringindo conversas telefônicas, fazendo com que seja necessário que os órgãos de investigação disponham de instrumentos eficazes.
A efetividade da prevenção/repressão do crime organizado, passa pela eficiência penal e o equacionamento das garantias individuais, no sentido de equilíbrio (punibilidade/direitos fundamentais). Esse deve ser um desafio constante do Estado, para estabelecer a medida que o legislador deve realizar esse “sacrifício”. Trata-se de uma proporcionalidade que deve estar sempre respaldada, tanto pela motivação fundamentada como, principalmente, por um parâmetro legal.
56 É necessária uma adequação da Lei de Execuções Penais e do sistema prisional, no sentido de dar-lhes estrutura dequada à ressocialização. Também implementações de medidas, como exemplo, tornar indireta a comunicação do preso ligado às facções criminosas, usando um sistema de comunicação interna gravada, do preso no contato com advogados e familiares, para evitar transmissão de ordens criminosas, como as que aconteceram e acontecem principalmente com grupos ligados ao PCC e CV, bem evidenciados na mídia brasileira.
Entende-se que a limitação de algumas garantias individuais tem, em contrapartida, o condão de preservar os direitos mais sagrados das pessoas, quais sejam, o direito à vida, à dignidade, à liberdade, à cidadania, à segurança, esta última com base para desenvolver todos os demais direitos.
As garantias devem ser sempre a salvaguarda do direito da pessoa e não como manto para encobrir a ilegalidade, pois, nessa tipologia criminal, medidas cautelares de natureza real (sequestros, p. ex.), probatórias (busca e apreensão, interceptações, ação controlada, p. ex.) ou pessoais (prisão preventiva, temporária, p. ex.), sempre que utilizadas, devem estar respaldadas pela conveniência de sua aplicação, uma vez que o principio da eficiência, que é a busca da verdade e da celeridade do processo, visando à proteção da sociedade.
Todavia, os instrumentos de controle do crime organizado não devem recair somente no sistema penal processual e, sim, devem acompanhar os processos de inovação tecnológica, de informatização, de automatização, aos processos gerenciais, além de ter em mente as melhores estratégias de prevenção. Toma-se como exemplo a política repressiva ao tráfico de drogas dos EUA, que é o que mais combate e atualmente ainda é o maior consumidor do mundo.
As demandas de novos direitos a serem tutelados, nesse novo aspecto criminal da modernidade e que há novas conformações sociais, requer, legislações e órgãos de controle, adaptados e dinâmicos às exigências apresentadas.
Portanto, para tratar das medidas Estatais adequadas para atuar frente ao fenômeno criminoso, começa-se por descrever, em síntese, o elementar papel do Estado na defesa social.
3.1 O ELEMENTAR PAPEL DO ESTADO NA DEFESA DA