Você já deve ter se dado conta de que há variedades lingüísticas também na escrita, ao se deparar, ao longo da vida, com textos diferentes. Por exemplo, o bilhete que escreveu para sua mãe, dizendo que chegaria mais tarde; o texto do jornal de seu bairro, falando sobre a construção
A escrita é uma das várias formas de expressão que as pessoas alfabetizadas podem usar para comunicar algo.
Primeiro: numa cultura como a nossa (de tradição gráfica), ela pode ser garantia de direitos e de definição de papéis (o papel de vendedor/o papel de comprador). Segundo: a garantia e a definição de papéis só se concretizarão se a variedade lingüística usada, tanto na fala quanto na escrita, estiver adequada à situação em que é utilizada.
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Desenvolvendo competências
Fazendo um contrato
Imagine agora que o texto a seguir seja o contrato que você fez com o comprador de seus bois, para garantir o negócio.
“Senhor comprador: estou vendendo os meus boizinhos com muita dó no coração. Mas fazer o quê? Assim é a vida, não é? Espero que você cuide bem deles; trate-os com carinho e chame-os pelos nomes. Ah! Já ia me esquecendo: tem a Joaninha, o Bartolomeu, a Cristeva, o Juquinha... Mas, vamos aos negócios. Vou esperar o seu pagamento naqueles dias que combinamos. Se precisar de mais uns dias, não tenha vergonha de me falar. Um abraço. O vendedor”
Em sua opinião:
a) A linguagem que o autor utilizou é apropriada para um contrato de compra e venda, pois é formal, objetiva e clara, sem palavras que indiquem afetividade.
b) As informações realmente importantes foram colocadas no texto: os prazos para o pagamento, o valor de cada parcela, como efetuar o pagamento.
c) O nome dos bois e vacas vendidos era uma informação fundamental para a realização do negócio.
d) A linguagem afetiva e informal utilizada nesse texto não é apropriada para um contrato, pois o autor parece estar escrevendo uma carta pessoal para um amigo.
de uma nova escola; a redação que fez para disputar uma vaga num concurso; o contrato de compra/venda dos bois. Todos são textos diferentes: com finalidades diferentes, escritos em contextos (situações) diferentes e, portanto, com linguagem diferente.
Observe os trechos da letra da música Bye, Bye, Brasil, de Chico Buarque.
(...)
Pintou uma chance legal, Um lance lá na capital, Nem tem que ter ginasial, Meu amor.
(...)
Eu vou dar um pulo em Manaus, Aqui tá quarenta e dois graus, O sol nunca mais vai se pôr, Eu tenho saudade da nossa canção, Saudades de roça e sertão.
(...)
Eu acho que vou desligar, As fichas já vão terminar, (...)
BUARQUE, Chico; MENESCAL, Roberto. Bye, Bye, Brasil. [S.I.]: Philips, 1980.
O que você consegue perceber desse texto? Como foi escrito? É possível dizer algo só lendo o texto?
Acreditamos que seja possível, sim. O texto, escrito para ser cantado, apresenta uma linguagem coloquial, descontraída: o compositor usa gírias (“pintou” uma chance “legal”/ um “lance” lá na capital). Há intimidade entre os interlocutores (quem fala/quem ouve): na expressão “meu amor” e na frase “eu tenho saudade da nossa canção”.
O que ele deseja com isso? Falar para o seu amor como está se sentindo e o que está acontecendo com ele. É como se ele estivesse conversando com esse amor, via telefone. Por isso, sua linguagem pode ser afetiva, sem as preocupações formais da variedade culta padrão da língua. O contexto da letra de música permite essa descontração. Quando há conhecimento das muitas variedades que a língua portuguesa apresenta, é possível optar pela variedade que melhor se encaixe ao contexto. Foi assim com o compositor. Ele, propositadamente, quis representar a
comunicação, via telefone, de um sujeito saudoso de casa e de seu amor. O que ele parece ter percebido? Que ao tentar aproximar sua escrita da “fala ao telefone”, deu mais realidade ao que queria contar.
Observe agora a situação
Um jovem vai a uma entrevista para uma vaga de balconista em uma loja de roupas masculinas, bastante tradicional em sua cidade. Essa loja costuma atender clientes economicamente abastados (ou seja, com bastante dinheiro) e de meia idade (homens com mais de 50 anos). O gerente pede que ele escreva uma redação dizendo por que deseja o emprego, quais são suas qualidades para o cargo e seus objetivos.
“Tô precisando liberar adrenalina nesse trampo! Dá uma reciclada nas idéias. Tipo assim... Sei lá. Botá um bando de coisas maneras no meu modo de pensar. Aí, cê sabe o lance das influências cabeça? Fala sério. Tô super preparado pro cargo. Cê pode me contratar no sossego que, tipo assim, esse cargo tem tudo a ver comigo. Fala sério!” O gerente lê o texto e diz que o jovem não serve para o cargo.
O que há de estranho na situação acima? Se observarmos bem a situação e a linguagem utilizada no texto, poderemos entender qual a falha nessa comunicação. Você percebeu que a loja em questão é uma loja tradicional, que atende um público que tem padrão econômico elevado e que, provavelmente, deve falar de maneira mais formal, próxima a uma variedade culta padrão da língua?
O que esse público e o gerente da loja esperam de um novo funcionário é clareza na fala e
formalidade para atendê-los.
Como o jovem se apresentou no texto? “Descolado”: quer dizer, falou de uma maneira totalmente coloquial, usando muitas gírias (expressões próprias de um grupo específico), o que tornou muito difícil entender o que realmente estava dizendo. Afinal, o que é “botar adrenalina nesse trampo”, “lance das influências cabeça”? Como o jovem deveria ter se expressado nesse contexto? Se você estivesse no lugar dele, escreveria assim?
O problema da situação apresentada não é exatamente escrever certo ou errado, mas se adequar a um determinado contexto, considerando o interlocutor (gerente) e a formalidade da situação.