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3 A CRISE ECONÔMICA NO PARADIGMA INSTITUCIONALISTA

3.5 CRISE

3.5.1 Veblen e Mitchell

Para Veblen há uma oscilação entre bons e maus tempos na economia, apesar de (com a

5 Exemplo dessa inadequação é o fato de o Tesouro não estar autorizado, à época, para injetar liquidez nas instituições privadas. Da mesma forma que o banco central estadunidense (Fed) não possuía mecanismos para lidar com a situação.

industrialização) o nível de qualidade de vida médio tender a melhorar. Para Veblen, com o início do período em que o sucesso nos negócios foi associado ao êxito no comércio houve uma mudança importante: os preços passaram a governar as relações econômicas. A sociedade acostumou-se a medir seu bem-estar a partir do nível de preços e não mais através do nível de sua qualidade de vida.

Crises, depressions, hard times, dull times, brisk times, periods of speculative advance, "eras of prosperity," are primarily phenomena of business; they are, in their origin and primary incidence, phenomena of price disturbance, either of decline or advance. (VEBLEN, 1975, p.214).

As oscilações nos preços só afetam a indústria, segundo Veblen, porque ela e toda economia passaram a ser geridas como um comércio, em termos de margens e lucros. Ao mesmo tempo em que a industrialização avançava em meados do século XVIII, os preços tornaram-se a referência para toda atividade econômica. Dessa forma, através dos preços, ocorre a difusão das oscilações entre os diversos setores e atividades.

Nos períodos anteriores à industrialização, as crises e colapsos não eram fruto de ações especulativas de natureza inflacionária, pois estavam associadas a especulações comerciais, apostas erradas ou problemas gerados por clima e guerras. Entretanto as coisas mudaram. Os estímulos econômicos não surtirão efeito se não houver um canal para o qual se possa direcionar os produtos resultantes da oferta que não foi realizada (exportações, desperdício, guerra, colonização ou qualquer gasto situado numa esfera extraindustrial). Os governos devem assumir suas responsabilidades6 nessa função de estabilização, já que os agentes privados precisam atender suas próprias necessidades.

Além disso, Veblen constatou que os períodos de crise e depressão estavam se tornando cada vez mais frequentes e prolongados, o que era diferente dos períodos anteriores. Ele entende que as depressões crônicas não estiveram presente antes de meados do século XVIII, mas se tornaram persistentes a partir do início do século XIX. Antes, os negócios conheciam períodos de bonança e carestia, mas, no entanto, eram mais espaçados e se comportavam como ciclos que se seguiam uns aos outros.

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Responsabilidades essas que já foram previamente estabelecidas nas leis e regras que regem as sociedades.

Por isso, seria um engano os economistas buscarem a origem das crises nas empresas apenas, pois o funcionamento destas já é bem conhecido e previsível: “Business depression and

exaltation are, at least in their first incidence, of the nature of psychological fact, just as price movements are a psychological phenomenon (VEBLEN, 1975, p.219). Para uma compreensão

mais adequada do fenômeno é preciso investigar a nova forma de relação estabelecida entre as companhias e o capital financeiro, inaugurada na Inglaterra do século XVIII. A origem das crises modernas deve ser buscada no funcionamento dessa nova etapa da história econômica.

Desde essa época os empresários passaram a ver suas empresas apenas através do retorno que podem proporcionar como razão do investimento que precisaram fazer. Desse modo, não existe mais uma diferença importante entre uma empresa e a especulação com ações, já que, de fato, o que importa é o retorno sobre o investimento – o preço de um negócio com relação a outro.

As relações entre as empresas passam a ser apenas de tipo pecuniário, uma relação de barganha através da qual busca-se sempre o preço mais vantajoso. Atrela-se os contratos às expectativas de lucros futuros e à disponibilidade conceder crédito no momento da transação. O crédito deve tornar-se pervasivo a todas as etapas do processo produtivo e colocar-se como um requisito para a performance: sucesso ou fracasso nos negócios.

Os financiadores são basicamente os bancos que, além de emprestar para empresas, emprestam para o público em geral e sempre com prazos curtos. Isso pode gerar um descasamento entre as datas de vencimento do ativo e passivo das empresas, piorando sua situação em momentos de turbulência. Do lado dos bancos há sempre incerteza sobre qual o nível prudente de alavancagem e sobre o perfil de suas carteiras. Em resumo, a incerteza é um elemento ineludível no processo de tomada de decisão.

É possível verificar nesse ponto a convergência entre os pensamentos de Veblen e Mitchell. Este último, ao desenvolver seu estudo sobre as crises, destaca as causas que são internas aos ciclos econômicos e também aquelas que lhe são externas. Como exemplos do primeiro grupo são citados: mudanças organizacionais e tecnológicas, integração, poder de mercado e

descoberta de novos materiais. Exemplos de causas externas são: efeitos climáticos, mudança em padrões monetários, guerras, políticas governamentais, revisões tarifárias e novas tecnologias produtivas.

Mitchell concentra sua explanação nas crises geradas pelos ciclos econômicos, pois estas são características do período pós Revolução Industrial. “Even in the eighteenth century most

English crises arose from other than business sources… This brief recital indicates that business cycles are much later in appearing than economic, or even strictly financial crises”

(MITCHELL, 1913, p.584). A principal característica do período moderno é a orientação ao lucro e não à satisfação das necessidades.

Durante um período essa orientação gera prosperidade nos negócios, mas essa mesma prosperidade atinge um limite que é então seguido por um declínio.

The optimistic temper which prevails disposes most men to under-rate the risks and to over-rate the probable gains. Even the active and experienced men of affairs do not escape this infection of over-confidence, and the mass of investors are especially subject to it. Indeed, the credulity of the latter class offers a tempting opportunity to enterprising promoters, who launch plausible schemes, sells them out to the general public, and abandon them to their fate. (MITCHELL, 1913, p.498).

São as expectativas otimistas de que o nível de preços permaneça elevado e os custos de financiamento baixos que impelem os agentes a assumirem riscos cada vez maiores. Por outro lado, há sempre os investidores que ficam atentos aos sinais do fim dessa fase e procuram se proteger reduzindo sua exposição (alavancagem) e cobrando dívidas enquanto os devedores possuem recursos.

A exuberância é uma fase carregada de tensões, as quais decorrem do aumento dos custos que pode ser originado por diferentes fatores: queda na eficiência do trabalho, aumento de salários, obsolescência das máquinas etc. A incerteza e o desconhecimento de uma fórmula que impeça o avanço dos custos sobre o lucro refletem o quão limitado é o domínio que as pessoas têm sobre a economia. Essa realidade sofre uma tentativa de precificação nos mercados de juros e crédito, o que é de grande importância dado o crescimento da estrutura financeira nas economias modernas.

Isso pode ser observado no comportamento das taxas de juros de longo prazo cobradas pelos bancos. Elas são mais altas, pois envolvem maior insegurança e isso desestimula investimentos mais vultuosos entre os empresários, fazendo os mesmos se voltarem para horizontes de curto prazo, onde as projeções são mais favoráveis. No entanto, mesmo durante as crises, algumas pessoas saem ganhando. Há oportunidades para aquisições a baixo custo e para ocupação de mercados ociosos. Apesar de as pessoas experientes nos negócios poderem incorrer em erros de avaliação, como todos, elas não deixam escapar as oportunidades de lucro rápido que aparecem, o que acontece, sobretudo, em períodos de exuberância.

Além disso, Mitchell (1913) chama a atenção para a elevação das taxas de retorno e nível de financiamento em períodos de prosperidade. Os empresários investem e os bancos emprestam na expectativa de que esse ambiente favorável irá perdurar, o que pode deixá-los muito expostos para o caso de um arrefecimento. A situação se agrava ainda mais quando as taxas bancárias aumentam mais rapidamente que as taxas de investimento, gerando um descolamento entre o mercado financeiro e o mercado produtivo.

O fato é que em determinado momento os lucros prospectivos sofrem uma queda em determinado setor e, a partir daí, se espalha de forma generalizada. Para se entender uma crise é preciso encontrar esse setor onde tudo se originou e os mecanismos que conectam todos os setores. “To understand this development, it is necessary to examine the bearings of the rate

of prospective profits upon outstanding credits” (MITCHELL, 1913, p. 504).

De uma maneira geral os institucionalistas entendem que os processo de crise não podem ser evitados. As incertezas são incontornáveis e encontram-se na origem das oscilações e mudanças pelas quais passam as instituições. Mas há um espaço para as sociedades escolherem a maneira como esses períodos serão vivenciados, quem arcará com os prejuízos e quem ficará com os lucros.