O motivo para o impactante título deste tópico é, sim, este que você está imaginando, leitor. O terceiro grupo é o dos verbos selva- gens, criaturas sem amor, sem pai, mãe e sem radicais e terminação verbal suficientemente padronizados para que possamos chamá-los como tais. Com eles, o jeito é pegar um lápis, uma folha de papel e, mediante cópia, tentar decorar como são conjugados. Praticamen- te, cada caso é um caso. Neste tópico, conjugaremos apenas alguns deles, a título de exemplo. Outros serão encontrados na tábua de verbos.
Vejamos o verbo dire (dizer): Je dis Tu dis Il/Elle/On dit Nous disons Vous dites Ils/Elles disent
O verbo dire é um pouco parecido com um cara que vamos co- nhecer agora, o verbo partir (partir). Observe:
Je pars Tu pars Il/Elle/On part Nous partons Vous partez Ils/Elles partent
E agora você poderia me dizer: “Mas que droga, homem! Esse verbo não termina em IR? Ele deveria ser do segundo grupo!”. Pois é, deveria, mas não é! Na verdade, existe alguma controvérsia sobre o assunto, mas é uma briga que não vou comprar. O importante, aqui, é fazer com que o leitor absorva as estruturas fundamentais do francês. Quando essas estruturas não são óbvias, tento apresentar alguns esquemas de memorização. Dessa forma, observe o que ocorre com o faire (fazer):
Je fais Tu fais Il/Elle/On fait Nous faisons Vous faites Ils/Elles font
Bastante parecido com o dire, não? E o dire, por sua vez, se parece um pouco com o partir. Apenas uma ou outra pessoa destoa. Note como quase não há radical nesses exemplos. Para bagunçar o core- to, observe o verbo boire (beber):
Je bois Tu bois Il/Elle/On boit Nous buvons Vous buvez Ils/Elles/On boivent
Nas três primeiras pessoas, é possível perceber uma similaridade com os outros verbos. Parece haver uma terminação em comum (-
is, -is, -it), até que todas as esperanças caem por terra nas três últi- mas pessoas. Porém, observe o verbo devoir (dever):
Je dois Tu dois Il/Elle/On doit Nous devons Vous devez Ils/Elles doivent
Fora a primeira e segunda pessoas do plural (nous e vous), a se- melhança é notável, não é mesmo? Neste ponto, chegamos a um ensinamento: os verbos do terceiro grupo podem ser estranhos, mas eles se entendem entre eles, como se entende o pessoal do fundão de uma sala de aula, a galera que joga RPG, ou os esqui- sitões que dormem com a foto da mãe debaixo do travesseiro! É preciso encontrar essas semelhanças e cultivá-las, para facilitar a memorização. Vejamos dois outros verbos: pouvoir (poder) e vou-
loir (querer): Je peux Tu peux Il/Elle/On peut Nous pouvons Vous pouvez Ils/Elles peuvent
Sem dúvida, o mais esquisitão de todos, até o momento. Como sempre há uma bota velha para um pé fedido, veja o vouloir:
Je veux Tu veux Il/Elle/On veut Nous voulons Vous voulez Ils/Elles veulent
O esquisitão arrumou um parceiro!
Terminamos, assim, os verbos do terceiro grupo, e, com eles, o tópico sobre presente do indicativo. Lembramos que, para cada um dos grupos, haverá mais alguns verbos na tábua.
L´impératif (o imperativo)
Napoleão Bonaparte, talvez o maior general de campo que o mundo já conheceu, para subir na hierarquia militar francesa, e, posteriormente, fazer tremer a Europa, empregou diversos recur- sos, dos mais pessoais, como coragem e carisma de líder, até os mais externos, como boas tropas, canhões e ambiente político favorável. No entanto, há um elemento que, de tão importante, se faltasse, Napoleão não teria conseguido conquista alguma. Falo aqui do im- perativo, modo do verbo utilizado para expressar ordens, coman- dos, conselhos e pedidos. Vejamos:
Mange les végétaux! (Come os vegetais!)
Mangez des végétaux peu glycémiques. (Coma vegetais pouco glicêmicos.)
Dieu, écoutez mes prières! (Deus, escutai minhas preces!)
No primeiro dos exemplos, é fácil imaginar o que ocorre: uma mãe desesperada se descabela para fazer o filho comer alguma coi- sa saudável. Extenuada, depois de aviõezinhos e outros truques, ela recorre ao último recurso: dá uma ordem. O segundo exemplo tam- bém é fácil de imaginar. Trata-se de um médico aconselhando mais um gordinho a ter uma vida saudável. Por fim, temos um pedido; alguém invoca a intervenção divina.
No entanto, na prática as coisas não são tão separadinhas assim. Uma frase, por exemplo, pode ser, ao mesmo tempo, um pedido e um conselho:
Nesse exemplo, ao mesmo tempo em que pede para que a es- posa lembre o chefe de algo, pode haver no ar o tom de conselho, como quem diz: “É melhor fazer isso...”.
Feitas as explicações devidas sobre os valores do imperativo, va- mos, agora, estudar sua formação, ou seja, como fazemos o impe- rativo.
Em primeiro lugar, como vocês devem ter notado, o imperativo é um presente sem sujeito, ou seja, os verbos conjugados estão no presente, e sem a presença do pronome pessoal. Chegamos, assim, a uma primeira regrinha: para fazer o imperativo, retira-se o pro- nome/o sujeito. A segunda regra tem origem na própria vocação do imperativo, ordens e conselhos. Ordens e conselhos são dados, sempre, a uma segunda pessoa. É impossível dar ordens a si mesmo (eu), ou a terceiros (ele/eles). Dessa forma, os tempos canônicos do imperativo são a segunda pessoa do singular (tu), e a segunda do plural (vous). Ou seja, as pessoas para as quais se fala1. Aqui, no en-
tanto, há um adendo: a primeira pessoa do plural (nós/nous) tam- bém entra nessa dança. O valor de “nós” é Eu + Tu/Vós. Esconde- se em “nós” um valor de segunda pessoa, e podemos, assim, dar ordens e conselhos para uma coletividade da qual fazemos parte. Vamos dar um exemplo para sair da abstração. Em negrito, estão os imperativos:
Tu obéis. Obéis! (Obedeça!)
Nous obéissons. Obéissons! (Obedeçamos!) Vous obéissez. Obéissez! (Obedecei!)
Do lado esquerdo, temos simplesmente os verbos conjugados. Sem nada de mais. Do lado direito, os verbos no imperativo: foram retirados os pronomes da segunda pessoa do singular e da primeira
1 A terceira pessoa do singular e a terceira do plural são as pessoas de quem
e segunda do plural. É só isso, sem segredos. Se você ainda acha muito estranho a primeira pessoa do plural ter imperativo, imagine o padre, na missa, quando pede: Cantemos todos em coro!
Chantons tous en cœur!
Para finalizar, há uma regra importante: na escrita, o “s” da se- gunda pessoa do singular desaparece para os finais em “e”, e para o verbo aller. Assim:
Tu regardes. Regarde! Tu manges. Mange! Tu habites. Habite! Tu vas. Va!
Observe que, antes do “s”, sempre há um “e” dando sopa.
Como nem tudo é belo e fácil, a seguir, apresento os verbos que têm imperativos irregulares:
• Être:
• Tu es bon. Sois bon!
• Nous sommes bons. Soyons bons! • Vous êtes bons. Soyez bons!
• Avoir:
• Tu as peur la nuit. Aie peur la nuit!
• Nous avons peur la nuit. Ayons peur la nuit! • Vous avez peur la nuit. Ayez peur la nuit!
• Savoir:
• Tu sais que c´est facile. Sachez que c´est facile!
• Nous savons que c´est facile. Sachons que c´est facile! • Vous savez que c´est facile. Sachez que c´est facile!