1 APRESENTANDO A PROBLEMÁTICA E O
1.5 VEREDAS
Nossa história de vida é nossa melhor referência (SEVERINO, 1990).
Desde o início do nosso processo de doutoramento, o objetivo desenhado para esta pesquisa, cercava a ideia de analisar a ciência no discurso de professoras do ensino primário, por meio de um estudo da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina na década de 1960. Este objeto e objetivo se delinearam ao concluirmos nosso estudo de mestrado no ano de 2008. Identificamos algumas concepções do que se admitia como ciência, em uma perspectiva mais administrativa, oficializada na década de 1960 nos governos de Celso Ramos (1961/65) e Ivo Silveira (1966/70). Essas concepções se articulavam com desenvolvimento econômico, produção de pesquisas, planejamento e modernização. Uma inquietação nos instigou ao fim do estudo de mestrado: sendo os professores protagonistas na consolidação do projeto proposto por estes governos, como a ciência aparecia em suas práticas discursivas, e quais as apropriações por eles feitas de ciência na década 1960?
Pensávamos obter algumas respostas a partir do manuseio de questionários, principal evidência empírica com a qual lidaríamos. Esses questionários foram coligidos pelo projeto Memória Docente e Justiça Escolar: os movimentos de escolarização e de profissionalização do Magistério em Santa Catarina17, e foram distribuídos entre os
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Projeto financiado pelo Programa de Bolsa de Produtividade em Pesquisa CNPq. Coordenado pela Prof.ª Dr.ª Ione Ribeiro Valle. Está sendo desenvolvido no âmbito do Grupo de Pesquisa Ensino e Formação de Educadores em Santa Catarina/GPEFESC, e envolve pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC e da Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC. Este projeto é um desdobramento, uma segunda etapa do projeto que vigorou entre os anos de 2009 e 2012. Sua vigência é até o ano de 2015 e aborda-se, atualmente, o problema da justiça escolar. Em sua primeira etapa (2009-2012) intitulou-se Memória Docente: os impactos do movimento de escolarização em Santa Catarina sobre a carreira docente, as identidades profissionais e o trabalho pedagógico de professores da Rede Estadual de Ensino. Por meio deste projeto, estudos tais como A laicização do ensino em Santa Catarina: disputas de espaço ou divisão de responsabilidade, desenvolvido por Rafaela
professores aposentados da Rede Estadual de Ensino do Estado de Santa Catarina. Uma de suas metas é recuperar e registrar a memória dos docentes catarinenses, objetivando produzir fontes de pesquisa. As questões nele abordadas abrangem temas que se iniciam com os dados pessoais, até os mais caros ao professorado, tais como a Trajetória Escolar, desenvolvimento da Carreira Profissional e Experiência Pedagógica.
Ao responderem o que lhes foi solicitado no espaço reservado, os professores não se limitaram a isso. Foram além, “contestando” e “invadindo” os “espaços em branco”, ociosos do questionário, incorporando elementos significativos que revelam “segredos” da profissão e do ser professor, constituindo um acervo riquíssimo. Contudo, após estabelecermos os primeiros contatos com as fontes, procuramos nelas pistas possíveis, acerca da noção de ciência para analisarmos as apropriações e os sentidos de ciência investigados, a partir das práticas discursivas das professoras primárias da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina na década de 1960. A fonte silenciou-se, recusou-se a dialogar, tendo em conta que as perguntas a ela dirigidas eram equivocadas.
No decorrer do processo de doutoramento cresceu a cumplicidade e a intimidade com as fontes, que ao serem manuseadas indicavam a formação de professores como questão decisiva para o êxito do projeto de modernização do Estado e para este problema voltamos nossa atenção. Quanto mais nos aproximávamos das fontes, mais percebíamos que sobre esse objeto elas tinham muito a nos esclarecer. Assim, as leituras dessas fontes de pesquisa indicaram como objetivo geral deste estudo: analisar a formação de professoras/res em um contexto de modernização, focando o da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina na década de 1960. Mas, voltemos ao começo de tudo, à minha história acadêmica: “minha melhor referência”.
São raros os momentos que passamos pensando em quem fomos, no que somos e no que poderemos vir a ser. No nosso caso, tanto o ser,
Azevedo de Souza, foram elaborados nos âmbitos de subprojetos vinculados ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC/CNPq – BIP/UFSC, entre outros já aprovados pelo mesmo programa. Também foi desenvolvido o estudo de mestrado, Entre rigidez e flexibilidade legal: os impactos das exigências de escolaridade sobre a identidade profissional dos professores primários em Santa Catarina (1950 -1980), concluído em 2011 e realizado por Danielly Samara Besen no PPGe/UFSC.
quanto o vir a ser, estão diametralmente ligados à aquisição do capital escolar. Em largas linhas, tentaremos demonstrar de que modo este estudo foi adquirindo consistência em nosso trajeto, até o momento de sua realização.
Nasci mineira. O lugar chama-se São José do Mantimento, uma cidade do Estado de Minas Gerais e o ano foi 1964, em uma família que não seguia, até então, uma tradição de “pessoas estudadas”. Meus pais não possuem o ensino primário completo. Fui a filha que, enquanto solteira, completou o 2º grau, com o Curso de Magistério; a graduação em Pedagogia foi realizada quando já estava a mais de 20 anos fora da instituição escolar, por incentivo do “maridão”, que matriculou-me, sem minha permissão, no primeiro Curso Pré-Vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Assim retomei meus estudos, tendo frequentado esse curso durante todo o ano de 2000. Prestei o exame vestibular para o Curso de Pedagogia nesse mesmo ano, fui aprovada e pude aproveitar, na graduação, todas as possibilidades que o curso oferece: a experiência como monitora; a participação em grupo de estudos sobre sociologia e história da educação e a prática da iniciação científica.
Ao findar esse ciclo, participei do processo seletivo ao Curso de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC. O objeto eleito para investigação18 originou-se do estudo de Iniciação Científica A pesquisa e a formação dos professores catarinenses nas décadas de 1950 e 1960, que integrava o Projeto de Pesquisa As políticas públicas de formação docente em Santa Catarina: Contextos e trajetórias no século XX, desenvolvido entre os anos de 2003 e 2004, pelo “Grupo de Pesquisa Ensino e Formação de Educadores em Santa Catarina”. Após completar os estudos de Mestrado, participei do processo seletivo para professor substituto na mesma instituição, o que aventou a oportunidade de adquirir experiência profissional, tendo em vista que, como professora na UFSC, pude ministrar disciplinas da área pedagógica em diversas licenciaturas tais como Filosofia, Biologia, Química, Física, Letras e Pedagogia. Esse exercício exigiu esforço de estabelecimento de diálogo coerente com tais áreas e reflexões acerca da função das disciplinas pedagógicas no processo de formação dos
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Trata-se de Dissertação de Mestrado Sílvio Coelho dos santos - um intelectual moderno no Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (Cepe) - SC: pertencimento, missão social e educação para a formação/modernização (1960/1970), defendida no ano de 2008, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC.
licenciandos.
Após essas etapas, fixou-se em nós a vontade de escolher e delimitar, dentro do campo da História e Sociologia da Educação, um tema de pesquisa para o doutoramento como prosseguimento do processo formativo. Deveríamos, ainda, de acordo com o que ensina Severino (1990, p. 122), pressupor para a escolha do objeto, “sua relevância não só acadêmica, mas social”. Entendemos, assim, que o estudo que ora se apresenta está aberto às possibilidades de apreender e dividir. Como nos inspira Gaston Bachelard (1989, p. 11), miramos “a chama [que] determina a acentuação do prazer de ver algo além do sempre visto” e a possibilidade de aventar outras direções. Acreditamos que um dos caminhos que dão o tom da originalidade e nos desviam daquilo que é evidente, se faz por meio da interface entre a história pessoal do pesquisador e sua inserção em um universo de problematização.
Assim, compreendemos que o esboço do nosso objeto de estudo ganhou seus primeiros traços ainda no curso de graduação em Pedagogia, quando a disciplina “Pesquisa e Prática Pedagógica” nos iniciou e orientou, por meio de estudos sobre a temática da juventude, à realização de uma monografia19, que permitiu trabalhar com memórias de pessoas que viveram sua juventude na década de 1960, na cidade de Florianópolis. O aspecto relevante no período de graduação foi a inserção e a participação mais contundente em um campo de pesquisa: o campo educacional, por meio do auxílio com o desenvolvimento do projeto já mencionado As políticas públicas de formação docente em Santa Catarina: Contextos e trajetórias no século XX, coletando dados referentes aos programas das disciplinas ministradas no Curso Normal, nas décadas de 1930 e 1940. Essa experiência nos proporcionou “intimidade” com o Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, com a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina (BPSC), com a Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina Professor Silvio Coelho dos Santos20, além de permitir o acesso a
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A monografia intitulou-se Trabalhos de Memória: jovens nas décadas de 1950/60 e foi apresentada no ano de 2003.
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Nome concedido por meio do Parecer nº 14/CUn/2012, constante do Processo nº 23080.014425/2012-09, que Aprovou “a alteração do nome da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina para Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina Professor Silvio Coelho dos Santos”.
leituras e discussões sobre a temática educacional realizadas extra Curso de Pedagogia, no Grupo de Pesquisas Ensino e Formação de Educadores em Santa Catarina” (GPEFESC). Integrar este grupo possibilitou (e possibilita) participar dos debates travados por graduandos, mestrandos, doutorandos e professores pesquisadores das temáticas da formação, da profissão e da memória docente, fundamentadas na Sociologia e na História da Educação, desde o ano de 2003.
Participar do GPEFESC constituiu-se nos passos iniciais de nossa trajetória, o que cooperou para firmar nosso olhar no que diz respeito ao campo de discussão, por meio da prática de bolsista de Iniciação Científica. Esta oportunidade muito concorreu com nossa formação acadêmica, considerando o protagonismo no processo. Não ser unicamente colaboradora, nos levou a garimpar as fontes pertinentes ao estudo21 e a nos confrontarmos com o desafio de sua interpretação. Essa experiência nos legou compromissos maiores em congressos nacionais e internacionais22 para a sua divulgação. O estudo desenvolvido na Iniciação Científica indicou a projeção de Sílvio Coelho dos Santos como principal articulador do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (Cepe). Isso nos motivou, após a conclusão do curso de graduação em Pedagogia, a participar no ano de 2006, do processo seletivo ao mestrado como sinalizamos anteriormente. Nossa intenção era compreender a contribuição desse intelectual (que no contexto, atuava como técnico na instituição), por meio de sua atuação no interior do Cepe, coordenando a realização de pesquisas em educação, fundamentadas nos procedimentos teórico-metodológicos das Ciências Sociais, o que levou a configuração e consolidação do campo educacional catarinense.
Realizar a pesquisa de mestrado foi adentrar de modo mais fundante nos campos vastos da Sociologia e da História da Educação, não só catarinense, mas brasileira, mostrando a necessidade de novos
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Desenvolvemos o estudo A pesquisa e a formação dos professores catarinenses nas décadas de 1950 e 1960, (PIBIC/CNPq), que objetivou compreender a criação de órgãos destinados à realização de pesquisas educacionais no Brasil e no Estado de Santa Catarina, bem como verificar sua importância face à necessidade de planificação do governo estadual, visando tornar as políticas governamentais mais científicas e produtivas.
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Participamos de eventos destinados a difundir estudos desenvolvidos na História da Educação como, por exemplo, o Congresso Brasileiro de História da Educação (CBHE) e o Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação (COLUBHE).
estudos, devido à complexidade, fertilidade e abundância de objetos de pesquisa nesses campos que se entrelaçam. Ao concluirmos o estudo de mestrado, identificamos que na década de 1960 no Estado de Santa Catarina, nos governos de Celso Ramos (1961/65) e Ivo Silveira (1966/70), a proposta de modernização colocava a educação em um lugar central, visto que sua função era promover a aceleração do desenvolvimento e que, inserida nesse campo mais amplo, a formação de professores deveria ser percebida como um dos pilares capazes de contribuir para sustentar o projeto modernizador e promover o desenvolvimento. Consideramos que essas concepções se articulavam com as ideias de desenvolvimento econômico, de produção de pesquisas, de planejamento e modernização, mas que foram “fragilizadas” pelo “mundo de origem” e pela herança familiar do corpo docente catarinense. Estes aspectos relacionados à formação e à memória docente instigou o estudo que ora se apresenta.
1.6 SOBRE OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E