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Cap´ıtulo

4.2 Verifica¸ c˜ ao do Problema de Biotransferˆ encia de Calor

O c´odigo computacional desenvolvido em MATLAB para resolver o problema t´ermico foi verificado por meio da solu¸c˜ao anal´ıtica de um problema similar, por´em considerando um meio homogˆeneo onde foram adotadas as propriedades f´ısicas do tecido muscular. Uma vez considerando as mesmas condi¸c˜oes iniciais e de contorno, o problema assume a seguinte formula¸c˜ao matem´atica:

k α ∂T ∂t = ∇ · (k∇T ) + Q, 0 < x < L, 0 < y < L, t > 0 (4.1) T = f (x), x = 0, 0 < y < L, t > 0 (4.2) T = f (x), x = L, 0 < y < L, t > 0 (4.3) T = f (x), y = 0, 0 < x < L, t > 0 (4.4) T = f (x), y = L, 0 < x < L, t > 0 (4.5) T = f (x), 0 ≤ x ≤ L, 0 ≤ y ≤ L, t = 0 (4.6) Nessa formula¸c˜ao, α e k representam a difusividade t´ermica e a condutividade t´ermica, respectivamente, enquanto L representa o lado do dom´ınio num´erico igual a 45 mm. Al´em disso, f (x) indica a distribui¸c˜ao de temperatura ao longo da dire¸c˜ao x, e pode ser representada pela equa¸c˜ao (4.7), onde T1 = 25 °C e T2 = 37 °C. O

termo adicional x1representa a espessura da camada d’´agua, de valor igual a 26 mm. f (x) =      T1, se 0 ≤ x ≤ x1 T2, se x1 < x ≤ L (4.7)

Com a substitui¸c˜ao T = θ + f (x), ´e poss´ıvel reescrever a formula¸c˜ao matem´atica de tal forma que as condi¸c˜oes inicial e de contorno sejam nulas. Logo, o problema ser´a matematicamente representado por:

k α ∂θ ∂t = ∇ · (k∇θ) + Q ∗ , 0 < x < L, 0 < y < L, t > 0 (4.8) θ = 0, x = 0, 0 < y < L, t > 0 (4.9) θ = 0, x = L, 0 < y < L, t > 0 (4.10) θ = 0, y = 0, 0 < x < L, t > 0 (4.11) θ = 0, y = L, 0 < x < L, t > 0 (4.12) θ = 0, 0 ≤ x ≤ L, 0 ≤ y ≤ L, t = 0 (4.13)

Na equa¸c˜ao (4.8), Q∗ cont´em tanto a gera¸c˜ao de energia quanto a segunda deri- vada de f (x), como mostrado pela rela¸c˜ao a seguir:

Q∗ = Q + kd

2f (x)

dx2 (4.14)

Como o problema envolve um dom´ınio bidimensional e apresenta uma gera¸c˜ao de energia dependente tanto do espa¸co quanto do tempo, ser´a feito uso da T´ecnica de Transformada Integral Cl´assica (CITT) [41, 42]. De acordo com [41], o problema assume a solu¸c˜ao indicada pela equa¸c˜ao (4.15), onde (4.16) e (4.17) representam termos auxiliares que constituem a solu¸c˜ao anal´ıtica.

θ =  2 L 2 ∞ X m=1 ∞ X n=1 senmπ L x  sennπ L y  ˜θ (4.15) ˜ θ = α exp  −α tπ L 2 (m2+ n2)  Z t0 0 ˜ Q exp  α tπ L 2 (m2+ n2)  dt (4.16) ˜ Q = Z L 0 Z L 0 senmπ L x  sennπ L y  Q∗dxdy (4.17)

Essa solu¸c˜ao envolve s´eries e integrais que precisam ser resolvidas numericamente. Foi notado que, caso fosse mantida a malha utilizada nos problemas anteriores, os valores obtidos para a solu¸c˜ao anal´ıtica ainda n˜ao iriam convergir para a solu¸c˜ao real. Para que fosse ent˜ao poss´ıvel obter valores devidamente precisos, foi utilizada uma malha inicial de 984 x 984 pontos, gerando uma malha final de 1024 x 1024 pontos com a adi¸c˜ao da PML. Isso resultou em uma resolu¸c˜ao espacial de aproxima- damente 0,05 mm e possibilitou que as integrais fossem numericamente resolvidas de maneira adequada. Al´em disso, para que as s´eries assumissem um pequeno erro de truncamento ao serem numericamente resolvidas, foi adotado o valor m´aximo de 1250 para os ´ındices m e n.

A figura 4.1 mostra a compara¸c˜ao entre as solu¸c˜oes num´erica e anal´ıtica. As figuras 4.1c e 4.1f ilustram, respectivamente, as diferen¸cas absolutas entre ambas as solu¸c˜oes considerando os per´ıodos ap´os o aquecimento e ap´os o resfriamento. Foi notada uma boa equivalˆencia entre as solu¸c˜oes, o que permitiu comprovar a efic´acia do m´etodo de solu¸c˜ao num´erica utilizado para resolver o problema de transmiss˜ao de calor.

4.3

Resultados

´

E poss´ıvel perceber pela figura 4.2a que a press˜ao ac´ustica referente ao terceiro harmˆonico j´a ´e pequena quando comparada `a do primeiro, o que mostra que n˜ao h´a necessidade de computar as informa¸c˜oes do quarto harmˆonico em diante. Conside- rando ent˜ao as press˜oes dos trˆes primeiros harmˆonicos, ´e poss´ıvel encontrar o campo de press˜ao no dom´ınio (figura 4.2b), com valor m´aximo 5,53 MPa. Aplicando os

(a) (b) (c)

(d) (e) (f)

Figura 4.1: Compara¸c˜ao entre as solu¸c˜oes num´erica e anal´ıtica. (a) Solu¸c˜ao num´erica p´os aquecimento. (b) Solu¸c˜ao anal´ıtica p´os aquecimento. (c) Compara¸c˜ao entre as solu¸c˜oes p´os aquecimento. (d) Solu¸c˜ao num´erica p´os resfriamento. (e) Solu¸c˜ao anal´ıtica p´os resfri- amento. (f) Compara¸c˜ao entre as solu¸c˜oes p´os resfriamento.

efeitos da atenua¸c˜ao, nota-se uma gera¸c˜ao de energia m´axima na regi˜ao do tumor de 102,7 W/cm³, conforme indicado na figura 4.2c.

A temperatura da regi˜ao no final do per´ıodo de aquecimento (figura 4.3a) mostra que o tumor foi aquecido at´e a temperatura de aproximadamente 75 °C e o calor foi difundido pela regi˜ao ao seu redor, tamb´em atingindo elevadas temperaturas. A temperatura decai ap´os a a interrup¸c˜ao do aquecimento, como mostrado pela figura 4.3b, e o tempo de 90 segundos foi suficiente para que a temperatura m´axima fosse inferior a 43°C. O dano t´ermico foi concentrado na regi˜ao do tumor, como mostrado na figura 4.3c, o que foi consequˆencia do posicionamento adequado do transdutor. A figura 4.3d ´e uma estimativa da regi˜ao afetada pela abla¸c˜ao t´ermica, onde a regi˜ao na cor verde representa queimaduras de primeiro grau (0.53 ≤ Ω < 1) e a regi˜ao em vermelho representa queimaduras de segundo grau (Ω ≥ 1).

A figura 4.4 ilustra as cadeias de Markov, obtidas por meio do algoritmo de Metropolis-Hastings, para a potˆencia ac´ustica e para o tempo de aquecimento. Como esperado, essa figura mostra a forte rela¸c˜ao entre as cadeias desses dois parˆametros, o que ´e evidente pelo fato de que o tempo de aquecimento aumenta `a medida em que

(a)

(b) (c)

Figura 4.2: Resultado da simula¸c˜ao ac´ustica. (a) Press˜ao ac´ustica para cada harmˆonico no eixo do ultrassom. (b) Distribui¸c˜ao de press˜ao ac´ustica. (c) Gera¸c˜ao de energia.

a potˆencia ac´ustica decresce. Al´em disso, h´a per´ıodos em que as cadeias atingem diferentes distribui¸c˜oes de equil´ıbrio. As m´edias desses equil´ıbrios est˜ao ilustradas na figura 4.4 por linhas de diferentes cores. As diferentes distribui¸c˜oes de equil´ıbrio correspondem `as m´ultiplas solu¸c˜oes do problema de otimiza¸c˜ao que satisfazem a fun¸c˜ao objetivo. As m´edias e os desvios padr˜oes das trˆes distribui¸c˜oes de equil´ıbrio observadas na figura 4.4 est˜ao representados na tabela 4.2.

Os danos t´ermicos resultantes obtidos com as m´edias apresentadas na tabela 4.2 est˜ao representados nas figuras 4.5a, 4.6a e 4.7a, respectivamente, enquanto a dife- ren¸ca absoluta entre esses valores est´a ilustrada na figura 4.8. As regi˜oes correspon- dentes a Ω ≥ 1 est˜ao representadas nas figuras 4.5b, 4.6b e 4.7b, respectivamente.

(a) (b)

(c) (d)

Figura 4.3: (a) Temperatura ap´os o aquecimento. (b) Temperatura ap´os o resfriamento. (c) Dano t´ermico. (d) Regi˜oes correspondentes a 0.53 ≤ Ω < 1 e Ω ≥ 1 representadas em verde e vermelho, respectivamente.

Essas figuras mostram que o dano t´ermico otimizado ´e bem restrito `a regi˜ao do tumor, conforme desejado.

A demanda computacional para o problema de otimiza¸c˜ao com o algoritmo de Metropolis-Hastings foi de aproximadamente 48 horas, para um c´odigo em MATLAB executado em um computador com processador Core i7 e 8 GB de mem´oria RAM.

(a)

(b)

Figura 4.4: Resultados da otimiza¸c˜ao. (a) Otimiza¸c˜ao da potˆencia ac´ustica. (b) Oti- miza¸c˜ao do tempo de aquecimento.

Tabela 4.2: M´edias e desvios padr˜oes das distribui¸c˜oes de equil´ıbrio

Potˆencia Ac´ustica [W] Tempo de Aquecimento [s] M´edia Desvio Padr˜ao M´edia Desvio Padr˜ao Distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 1 0.982 0.0098 0.204 0.0040 Distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 2 0.930 0.0094 0.218 0.0041 Distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 3 0.884 0.0086 0.232 0.0039

(a) (b)

Figura 4.5: Resultados para a distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 1. (a) Dano t´ermico. (b) Regi˜ao correspondente a Ω ≥ 1 em vermelho.

(a) (b)

Figura 4.6: Resultados para a distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 2. (a) Dano t´ermico. (b) Regi˜ao correspondente a Ω ≥ 1 em vermelho.

(a) (b)

Figura 4.7: Resultados para a distribui¸c˜ao de equil´ıbrio 3. (a) Dano t´ermico. (b) Regi˜ao correspondente a Ω ≥ 1 em vermelho.

(a) (b)

(c)

Figura 4.8: Diferen¸ca absoluta entre os danos t´ermicos para as distribui¸c˜oes de equil´ıbrio: (a) 1 e 2; (b) 1 e 3; (c) 2 e 3.

Cap´ıtulo 5

Conclus˜oes

Este estudo apresentou a simula¸c˜ao num´erica e a otimiza¸c˜ao sob incertezas de um tratamento por abla¸c˜ao t´ermica de um tumor, com o aquecimento imposto por um ultrassom focalizado de alta intensidade (HIFU). O problema ac´ustico foi mode- lado com o toolbox k-Wave, onde foram consideradas as rela¸c˜oes de conserva¸c˜ao de massa e de quantidade de movimento linear para um meio heterogˆeneo com dis- sipa¸c˜ao de energia. A distribui¸c˜ao de press˜ao foi computada ap´os o sistema atingir o regime permanente, o que possibilitou o c´alculo da gera¸c˜ao de energia proveniente do transdutor, a qual assumiu o valor m´aximo na regi˜ao focal de 102,7 W/cm3. A equa¸c˜ao de biotransferˆencia de calor foi ent˜ao resolvida pelo m´etodo de diferen¸cas finitas expl´ıcito, onde foi considerado o termo fonte do transdutor obtido anterior- mente. A distribui¸c˜ao de temperatura ap´os o aquecimento de 2 segundos mostrou uma temperatura m´axima na regi˜ao focal de aproximadamente 75 °C, e o tempo de resfriamento de 90 segundos foi suficiente para que a temperatura m´axima se reduzisse a menos de 43 °C. O dano t´ermico resultante mostrou que a regi˜ao onde o tumor est´a localizado ´e atingida pela abla¸c˜ao t´ermica sem apresentar danos rele- vantes `a regi˜ao adjacente, o que foi consequˆencia da escolha correta dos valores da potˆencia e do tempo de aquecimento, al´em do adequado posicionamento do trans- dutor. As simula¸c˜oes foram realizadas em um computador com processador Core i7 2,4 GHz e 8 GM de mem´oria, e os tempos necess´arios para resolver os problemas de ac´ustica e de biotransferˆencia de calor foram de 37 segundos e 4 segundos, res- pectivamente. A solu¸c˜ao proporcionada pelo k-Wave foi validada por meio de uma nova simula¸c˜ao considerando os parˆametros presentes em [40], o que comprovou a

precis˜ao do m´etodo num´erico. A efic´acia do m´etodo de diferen¸cas finitas utilizado no problema de biotransferˆencia de calor foi comprovada por meio da compara¸c˜ao com a solu¸c˜ao anal´ıtica de um problema similar, considerando um meio homogˆeneo, a qual mostrou uma boa concordˆancia entre os valores obtidos.

Em rela¸c˜ao `a otimiza¸c˜ao sob incertezas, foi utilizado o m´etodo de Monte Carlo via cadeias de Markov (MCMC), implementado por meio do algoritmo de Metropolis- Hastings. Ao todo foram consideradas 300 mil amostras de estado, e a simula¸c˜ao foi finalizada em aproximadamente 48 horas. Apesar de ser evidente que, para aplica¸c˜oes reais, o m´etodo MCMC requer uma demanda computacional elevada para os padr˜oes atuais, este trabalho mostrou que ´e poss´ıvel estimar os parˆametros otimi- zados para uma regi˜ao afetada pela abla¸c˜ao t´ermica previamente estabelecida. Os resultados mostrados acima tiveram como principal objetivo encontrar os valores otimizados da potˆencia ac´ustica do transdutor e do tempo de aquecimento.

A continua¸c˜ao desse trabalho planeja considerar maiores incertezas para outros parˆametros de modelo, al´em de criar um c´odigo espec´ıfico para realizar simula¸c˜oes considerando um dom´ınio tridimensional. As propriedades f´ısicas ser˜ao o foco do estudo, uma vez que, al´em de variar de pessoa para pessoa, podem sofrer altera¸c˜oes mesmo em um ´unico indiv´ıduo caso este esteja sob diferentes condi¸c˜oes fisiol´ogicas.

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