• Nenhum resultado encontrado

VI O TEMA DO CONTRATADO NA PROSA

No documento O Contratado da Poesia Cabo-verdiana (páginas 42-51)

VI - O TEMA DO CONTRATADO NA PROSA

Para além dos poemas, ressaltam ainda certos contos e capítulos de alguns romances que abordam o mesmo assunto.

Onésimo Silveira foi um dos mais contundentes escritores cabo- verdianos ao fazer tal abordagem em prosa. O Conto: «Toda gente fala: sim senhor!» (1960) A história de Tigusto, um lavrador de meia- idade, da ilha de S. Antão, que a seca obrigou a vender a sua propriedade para embarcar para S. Tomé como contratado. Editou A

Saga das As-Secas e das Graças de Nossenhor (1991), romance cujo capítulo XIII é

uma retoma da ida dos contratados e da sua vivência. O capítulo aborda o destino de Bia de Canda.

Convém abordar, ainda que de forma fugaz, o contudo dos contos, «Bia de Canda» e «Nhanha Santa» d e Onésimo Silveira. A acção centra-se sobretudo na maneira como as contratadas (mulheres) organizavam a vida dura na roça.

Relativamente à organização de trabalho havia funções específicas para as mulheres, para além de trabalhar nas roças a capinar e nas fábricas de óleo de palma, eram as escravas de trabalho doméstico, preparavam as refeições, lavavam e consertavam as roupas do trabalho. Também elas trabalhavam nas senzalas. Para exemplo: as duas figuras femininas que predominam no conto, Bia de Canda e a Nhanha Santa. Convém referir que as crianças trabalhavam também e para isso tinham meio contrato. Logo o trabalho delas era mais leve e consistia na descasca de cacau.

As formas de diversão no domingo

Aos domingos nas roças ―o escravo virava forro‖. É no domingo que recebiam visitas dos amigos e vizinhos da mesma roça comiam, bebiam e dançavam. Ex: ―Beto badio ritmando com força (…) ―Bia de Canda e Nhanha Santa foliavam as duas a rebolar que nem duas perdidas‖

Apesar de trabalho de roça ser árduo e massacrante nem por isso deixam de se divertir aos domingos, é essa diversão que lhes reconstituía. Por ex: ― baile de gaita e ferro, restituía a seiva dos contratados‖. Durante a capinagem o que os animavam era a morna e o convívio aos domingos, porque o resto era somente a tristeza. Também era no

35

domingo que usavam as raras peças de roupas mais costuradas e escolhidas. É de salientar que a melhor alimentação também era no domingo, isso porque comiam guisados com tempero o que era diferente da fuba de todos os dias.

É de salientar que o cabo-verdiano nunca abandona verdadeiramente o seu arquipélago uma vez que, mesmo longe do seu país, o exilado continua em contacto com ele. Este contacto manifesta-se através de (dialecto, culinária, formas musicais). Muitos são os poemas (especialmente os do cancioneiro de S. Tomé) que testemunham esta correspondência/ligação que o exilado mantém com a terra natal. Igualmente os poemas em crioulo traduzem o sentimento da necessidade de manter laços íntimos entre seres dispersos por razões económicas nas margens do atlântico, no Arquipélago mais ao sul de Cabo Verde.

Os aspectos religiosos

Aos domingos em vez de rezarem uma missa rezada celebravam ―uma missa dançada com a liturgia redentora de funaná‖.

Podemos constatar que as personagens do conto manifestam a fé e a devoção, isso porque sempre que são afrontados com situações difíceis, que ultrapassam as suas capacidades de resolução, recorrem a instâncias superiores ao Pai Divino para pedir auxílio. Isso demonstra de uma certa forma a manifestação da religiosidade como uma forma de refrigério e de ponto de apoio no sofrimento sentido.

Resumo do conto

O conto relata a situação degradante do povo, consequência da seca que sufocava a ilha obrigando os seus habitantes a contratarem-se para as roças de S. Tomé e Angola. Ainda refere a história de pessoas que, mesmo em situação difícil, nunca perderam a esperança, mesmo incerta pelo sofrimento do contrato. Para exemplificar: a fala de uma das personagens ― terra de S. Tomé não tira cristom de bordêra. Mas livra

me de vergonha de viver sem saber por onde virar”.

O conto baseia-se essencialmente na história de Bia de Canda que estava destinada ao contrato sem que nada nem ninguém a conseguisse segurar. A partida da sua terra natal para a roça é feita através de um relato e de uma forma minuciosa, desde

36

as razões/motivos para tal ida, as formas como eram transportados até ao destino final, das distribuições e da organização do trabalho.

Para além dos aspectos acima mencionados, verifica-se igualmente que o conto tem pontos convergente com os poemas, nomeadamente os de Osvaldo Alcântara e Terêncio Anahory que também salientam as condições precárias, a desumanidade, e as más condições das viagens e o sofrimento do povo das ilhas. Assim como o poema de Anahory mostra as contraste entre Cabo Verde e S. Tomé também o conto ilustra esse contraste.

O verso do poema, apenas um pequeno registo, de Terêncio Anahory diz que: “roça tem sol/roça tem água/café maduro/cacau gostoso…”

Assim também o conto de Onésimo Silveira reitera que “ (…) S. Tomé terra de

muita chuva, muito café, muito cacau, mas tudo só para roceiro (…)

Com o ensaísta, contista e médico, Henrique Teixeira de Sousa, temos conto «A

Raiva» em que analisa as devastadoras consequências nosológicas e psicossociais da

emigração para S. Tomé. Aliás, Teixeira de Sousa, tanto no desenvolvimento das suas actividades como médico e investigador, como também na prossecução do seu labor ficcional, prosseguiu de forma ampla o tema da emigração para S. Tomé e Príncipe. O conto ―A Raiva‖ é um perfeito exemplo disso.

No mesmo sentido e numa outra obra do mesmo autor, o romance, Ilhéu de

Contenda, autor denuncia as condições muito manipuladas desde o início pelo logro e

pela fraude, associadas às secas, nas quais se processa o recrutamento dos contratados para as roças do sul. Avultam nesta ficção, o sentimento e a expressão da desonestidade e a ganância tanto do negro e novo-rico, Soares como do branco ―desqualificado‖ Felisberto, ambos ao serviço da SOEMI, o primeiro como comerciante e contratador com escritório montado, o segundo como homem de expediente vários e escusos, ora empregado como agente do primeiro e encarregado de recrutamento de gentes esfaimadas e induzidas ao contrato cativadas e seduzidas, isto é, enganadas com o verde paraíso das plantas e fazendas do sul, sistematicamente prometido pelos agentes e contratadores da SOEMI, e para lá conduzidos em grandes levas amontoados na promiscuidade dos porões, muitas vezes insalubres e infectos de desumanidade.

37

Ressaltam ainda no trama romanesco de Teixeira de Sousa, quer o posicionamento crítico do Dr. Spencer, médico mulato possivelmente uma espécie de alter-ego do próprio Teixeira Sousa na sua abordagem da causa médica na ilha do Fogo, quer ainda a rebeldia politicamente contestatário de Ovídio Soares, filho do comerciante negro e novo-rico, acima referido, que recusa o financiamento dos seus estudos por dinheiro sujo, angariado com a exploração da situação de miséria dos contratados.

Gabriel Mariano com o conto «Vida e Morte de João Cabafume» faz a referência sobre a embarcação para o sul.

Do mesmo modo e focando o mesmo tema, temos o conto de Mana Nha Teresa de Maria Helena Spencer, que aborda o fim triste de Nha Teresa que passou por mudanças trágicas da sua vida devido a calamidade naturais (falta de chuva) esquecida por todos e também por si, regressa sem nada, insana, meio louca, sem que alguém a pudesse valer no seu regresso a Santiago. Resumindo: a personagem do conto trágico de Maria Helena Spencer perdeu tudo, até a lembrança do seu nome de registo.

Segundo o conto, a personagem viveu dois momentos: antes da emigração em que prosperava a bonança. Mana Treza era a cantadeira e a dançarina mais afamada e procurada dos Picos. Depois veio a desgraça e os anos de seca sucessivos obrigaram- na a partir.

A desgraça do Cabo-verdiano pobre está muito assente na sua condição natural de pertencer a uma terra sem recursos naturais e sujeita ao regime instável das chuvas. Ora é assim que a emigração surge como uma solução para este feito.

38

VII- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao finalizar o texto que elaborei sobre o tratamento dado ao tema do ―Contratado para S. Tomé‖ na poética cabo-verdiana, gostaria de, nestas breves considerações finais, tecer alguns comentários que passo a enumerar:

1. A temática em análise, estendeu-se na Literatura cabo-verdiana por quase um século de escrita. E esta escrita apresentou-se ao leitor de várias formas; quer sob forma de poemas, quer sob forma de romance, de novelas e de contos, quer ainda sob forma de artigos jornalísticos de forte pendor crítico.

2. O ―Contratado para S. Tomé‖ mereceu quase sempre, da parte dos intelectuais cabo-verdianos, com destaque para os escritores, um posicionamento que diria de grande oposição, por vezes expressa de forma inequívoca e bem clara. E isto está fartamente documentado no nosso património literário desde os inícios de século XX, através da pena de Eugénio Tavares, na sua dupla valência de poeta e de jornalista, passando aos poetas da ―Claridade‖, seguindo-se os da ―Certeza‖ e os do ―Suplemento Cultural,‖ indo até aos chamados poetas da ―Nova Largada‖ dos anos 60 do século XX.

3. A poética do ―Contratado para S. Tomé e Príncipe‖ mereceu dentro da grande temática da Emigração, lugar destacado e frequente na poesia cabo-verdiana dita de circunstância, de intervenção social e política de expressão panfletária. Aliás, o grande recorte, enquanto motivo poético que teve o tema em apreço na poesia cabo-verdiana, demonstra amplamente o grau de envolvimento dos poetas de então, numa causa que os preocupou e os motivou durante larga faixa de tempo. 4. Torna-se interessante notar a grande unanimidade havida entre os poetas de

diferentes gerações na condenação, muitas vezes veemente, feita às condições degradantes e por eles considerados quase desumanas no processo que levou ao Arquipélago de S. Tomé e Príncipe centenas de famílias que fugiam à fome e buscavam a sobrevivência nas ilhas mais fartas e mais verdes que as do seu rincão natal. Se houve temática convergente na poesia criada pelos poetas das

39

ilhas de Cabo Verde, essa convergência é totalmente alcançada nos poemas que abordam a questão do Contratado para S. Tomé e Príncipe.

5. Finalmente reafirmar, tal como dissera no início do texto, que o tema que constituiu o fulcro do meu Trabalho de Final do Curso, atraiu- me bem cedo ao longo do curso e fixei-o desde logo como o escolhido para a monografia que haveria de elaborar como término da minha formação.

As razões que estiveram na base da minha escolha são várias, mas devo apenas mencionar duas delas, pois que as considero mais marcantes:

a) Apesar de já não ser da geração que viu partir muita gente da ilha de Santiago para trabalhar nas roças de S. Tomé, a verdade é que desde a minha infância que venho ouvindo familiares e próximos falarem e contarem factos e histórias sobre este tipo de emigração. Portanto, também fez parte da minha socialização conhecer, ainda que de modo superficial, o fenómeno que tanto marcou o cabo-verdiano de extracto social mais baixo e mais pobre.

b) Em segundo lugar, o meu grande encontro com o tema, dá-se ao longo dos estudos da Literatura cabo- verdiana e aí, passei a prestar atenção ao modo como a Literatura nacional envolveu e transfigurou em palavra poética o drama, a saga da partida para S. Tomé. Outrossim, o folclore cabo-verdiano no seu todo, também se apossou do tema do Contratado, quando, para exemplificar a música, através das mornas e das coladeiras o cantou de forma plangente.

Para fechar o trabalho, acrescentarei que foi com muito e ntusiasmo da minha parte que fiz este pequeno ―roteiro‖ através da poesia nacional sobre um problema que à época foi registado em páginas de imensa e trágica poesia, pelos maiores nomes da nossa escrita literária e que o abordaram em facetas várias, através de textos reveladores da solidariedade dos Homens cultos da terra sobre questão tão candente.

40

BIBLIOGRAFIA

ALCÂNTARA, Osvaldo, Cântico da Manhã Futura. Lisboa: ALAC, 1991

ANDRADE, Mário de — Antologia Temática de Poesia Africana. Na Noite Grávida de

Punhais, 2.ª ed., vol. I, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1977.

ANDRADE, Maria Margarida, Introdução a Metodologia de Trabalho Cientifico, 7ª ed. Altas [s.t]

ALFREDO, Margarido, Literaturas das Nações Africanas de Língua Portuguesa AZEVEDO, Pedro Corsino — «Terra Longe», in Claridade, 4, S. Vicente — Cabo Verde, Janeiro 1947.

BARBOSA, Jorge, Obra Poética e dispersa ed. ALAC 1993

BRITO, Manuel Semedo, A Construção da Identidade Nacional -Analise da Imprensa

entre 1877e1975, ed. IBNL, Praia, 2006

CARREIRA, António Migração nas Ilhas de Cabo Verde, Lisboa, 1983 FERREIRA, Manuel (org.) No Reino de Caliban. Lisboa: Plátano, 1975, vol. I FERREIRA, Manuel, 50 poetas Africanos. Lisboa: Plátano

HAMILTOM, Russell G. literatura africana Literatura Necessária (II Moçambique

Cabo Verde Guiné Bissau e S. Tomé e Príncipe), Lisboa, Biblioteca dos estudos

Africanos.

MARIANO, Gabriel -Vida e morte de João Cabafume MARIANO, Gabriel, Ladeira Grande, vega, 1993

MARTINS, Ovídio -Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasargada-100 poemas 1973 Edições Anti – Evasão.

NASCIMENTO, Augusto, O sul da diáspora. Cabo-verdianos em plantações de S.

Tomé e Príncipe e de Moçambique, Praia, Edição da Presidência da República de Cabo

Verde, 2003

TAVARES, Eugénio de Paula, Poesia Contos Teatro ed.ICLD-Praia

OLIVEIRA, João Nobre de, A Imprensa Cabo-verdiana (1820/1975), Macau, Fundação Macau, 1998.

41

TEIXEIRA, António Manuel da Costa, Almanach Lusa Africana, org. Paris: Aillard Guilhard, vol.I 1898.

SANTOS, Elsa Rodrigues dos, A Mascara Poética de Jorge Barbosa e a Mundividencia Cabo-verdiana. Lisboa, caminho, 1989.

SILVEIRA, Onésimo -Consciencialização da Literatura Cabo verdiana, 1963 Casa dos estudantes do império Lisboa

SILVEIRA, Onésimo -Hora Grande, Nova Lisboa, Colecção Balindo 1962

SILVEIRA, Onésimo -Consciencialização da Literatura Cabo verdiana, 1963, Casa dos Impérios.

SOUSA, Henrique Teixeira de -Ilhéu de Contenda 1983 Lisboa: Europa - América SOUSA, Henrique Teixeira de — «A Raiva 1960», in boletim de propaganda de

informação, Janeiro 1960.

SPENCER, Maria Helena, Contos Crónicas e Reportagens, ed. IBN, Praia, 2005 SPINOLA, Daniel Euricles Rodrigues, Evocarão vol. I IBN- Praia 2002

«http://www. cronopiois.com/site ensaio» acessado em 29 de Janeiro de 2010 Periódicos de Cabo Verde

O Independente (Praia 1912-1913) O Progresso (Praia 1914-1913)

O Futuro de Cabo Verde (praia 1913-1916) O Popular (Praia1914-1915)

42

No documento O Contratado da Poesia Cabo-verdiana (páginas 42-51)

Documentos relacionados