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O Contratado da Poesia Cabo-verdiana

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Academic year: 2021

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Universidade de Cabo Verde Departamento das Ciências Sociais e Humanas

Sob a orientação da Professora: Ondina Ferreira, Elaborado por: Nélida Maria Tavares Rocha

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Departamento das Ciências Sociais e Humanas

Sob a orientação da Professora: Ondina Ferreira, Elaborado por: Nélida Maria Tavares Rocha

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Trabalho científico apresentado à Universidade de Cabo Verde para a obtenção do grau de licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses, sob a orientação da Professora Ondina Ferreira.

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Elaborado por Nélida Maria Tavares Rocha, aprovado pelos membros do júri, foi homologado pelo concelho científico como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciatura em Estudos Cabo- verdianos e Portugueses.

MEMBROS DO JURI

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espiritual de várias pessoas por isso seria pouco ético não abrir um parêntese para agradecer a todos que me ajudaram a concretizá- lo, desta forma sou grata:

À Deus que nos deu o dom da vida;

À minha orientadora Ondina Ferreira, pelo seu apoio incondicional na realização deste trabalho, demonstrando paciência e dedicação;

Ao meu marido e ao meu filho, pelo modo amoroso em que suportaram todos esses anos do curso e pela ajuda incondicional em todos os momentos de aflição;

A minha mãe a quem Deus lhe deu a lucidez de me encaminhar para os estudos;

Igualmente quero agradecer a membros da minha família, amigos, colegas e professores por depositarem confiança em mim e asseguraram a ajuda necessária.

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Dedico este trabalho ao meu querido e amado filho que soube ser paciente e compreensível pela minha ausência pela minha falta de dedicação e o meu amor.

Esta dedicatória é extensiva ao meu marido que me ajudou a suportar os sacrifícios de todos esses anos de formação por tudo que tem feito por mim e pela ajuda que me proporcionou.

De igual modo dedico este trabalho à minha mãe, aos meus familiares, amigos e colegas da longa caminhada.

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(…) As rugas que o suor cava

não são rugas são enganos

são perdas lágrimas danos

que suar por conta alheia

não compensa nunca paga

quanto suor se semeia.

“Trova do emigrante”

Manuel Alegre

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1.1 Justificação da escolha do tema ... Erro! Indicador não definido. 2-Objectivos... Erro! Indicador não definido. 2.1 Objectivos Gerais... Erro! Indicador não definido. 2.2Objectivos Específicos ... Erro! Indicador não definido. 2.3 Perguntas de partida ... Erro! Indicador não definido. 3-Metodologia ... Erro! Indicador não definido. 4-Estrutura do trabalho... Erro! Indicador não definido. I – CONCEITOS TEÓRICO DE CONTRATO E DE CONTRATADO ... Erro! Indicador não definido. Definição do termo contratado no contexto do presente trabalho: ... Erro! Indicador não

definido.

II - A EMIGRAÇÃO PARA S.TOME-ALGUNS DADOS HISTÓRICOS... Erro! Indicador não definido. III – O CONTRATO NA LITERATURA E NA IMPRENSA CABO-VERDIANAErro! Indicador não definido.

IV – OS ANOS de 1960/1970 – A POESIA DE REVOLTA... Erro! Indicador não definido. V- ANÁLISE DE POEMAS SELECCIONADOS ... Erro! Indicador não definido. VI - O TEMA DO CONTRATADO NA PROSA... Erro! Indicador não definido. VII- CONSIDERAÇÕES FINAIS... Erro! Indicador não definido. BIBLIOGRAFIA ... Erro! Indicador não definido. Anexo ... Erro! Indicador não definido.

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1- INTRODUÇÃO

O presente trabalho, cujo tema é O contratado na poesia cabo-verdiana, vem na sequência da investigação para a apresentação do trabalho científico de fim de curso como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses, (ECVP). Além de obedecer este requisito, este trabalho constitui um contributo para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo desses anos académicos e conciliar conhecimentos teóricos e práticos ao especificá- los e ao aplicá- los num trabalho escrito específico como este ora apresentado.

1.1

Justificação da escolha do tema

A escolha do tema ―O Contratado na poesia cabo-verdiana‖ surgiu no âmbito de uma das aulas de literatura cabo- verdiana. Desde então, o gosto pelo aprofundamento deste assunto tratado pelos nossos poetas, aliado à paixão pelo conhecimento, constituíram-se como fortes causas que nos motivaram a lançar este desafio, como objectivo uma análise do ponto de vista histórica social e literária sobre o tema do contratado.

Ainda, compreender as circunstâncias que motivaram o surgimento da nossa literatura, e a necessidade de aprofundar os conhecimentos nessa área, relacionar a produção poética cabo-verdiana com o contexto histórico, político e social em que foi produzido, conduziram a escolha do tema como trabalho científico. É neste sentido que se pretende conhecer e entender como é conduzido, metaforizado, simbolizado e reelaborado de ponto de vista poético, o perfil e o conflito do contratado cabo-verdiano para as roças de S. Tomé e Príncipe.

Este será o fulcro do nosso trabalho. Escolhidos os poemas e os poetas mais representativos em termos temáticos, faremos igualmente o enquadramento histórico e social da época e das condições que motivaram essa partida por muitos considerada ―forçada” em demanda de vida melhor fora de Cabo Verde.

Apresentadas as razões e a opção temática para o trabalho de Fim de Curso, aproveitaríamos a oportunidade para explicitar uma ou duas razoes do foro mais pessoal e particular que nos incentivaram a elaborar o presente trabalho :

 É minha percepção de que os poetas escolhidos para o trabalho, abordaram o tema de uma forma abrangente em que a simbiose entre a revolta humana e a

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lírica poética é perfeita. Daí a minha curiosidade em confirmar esta hipótese com a leitura e análise dos poemas seleccionados.

 Por outro lado, considero- me apreciadora de poesia e comungo da ideia de que a poesia, para além de ser uma linguagem humana (no caso dos poetas) que é utilizada com fins estéticos, o sentido da mensagem nela contida e veiculada é igualmente deveras importante, sobretudo quando foca algo que diga respeito à condição humana como, é o caso dos poemas transcritos neste trabalho e que focam a condição do Contratado para o trabalho nas roças de S. Tomé e Príncipe.

 A atitude criativa dos poetas, identificada com a própria arte, ao transfigurarem através de determinados recursos ditos formais e estéticos, o discurso de intervenção e da denúncia social do drama do contratado, consubstanciado no real, fazem desses textos poéticos, a meu ver, autênticas fontes referenciais carregadas de memória histórica.

Na sequência apresentamos os objectivos que nortearam a nossa pesquisa.

2-Objectivos

2.1 Objectivos Gerais

Analisar abordagem em textos narrativos e poéticos na literatura nacional.

 Ver se o tema constitui uma categoria poética específica dentro da grande poética Cabo-verdiana.

 Ver qual é a importância do tema e o seu tratamento em textos poéticos e narrativos da literatura Cabo-Verdiana.

2.2Objectivos Específicos

 Mostrar até que ponto o tema do contratado para as roças de S. Tomé influenciou e ocupou a poesia Cabo-verdiana de uma época.

 Conhecer as questões que mais inspiraram e que foram problematizadas e questionadas por alguns poetas que ainda hoje nos interpelam.

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2.3 Perguntas de partida

Partindo dos objectivos acima traçados, levantamos algumas questões referentes ao tema em estudo.

 Como é que a literatura chamou a si o tema do contratado?

 Quais são os autores Cabo-Verdianos mais emblemáticos no tratamento do tema do contratado?

 Como convergem ou divergem estes poetas na construção poética do tema?

3-Metodologia

O estudo será desenvolvido por meio de pesquisas bibliográficas, ou seja, faremos o levantamento e análise de dados existentes, leitura e análise de textos poéticos e narrativas, analisando os autores considerados mais relevantes bem como os estudos literários que se façam necessários.

Sendo assim o trabalho encontra-se estruturado da seguinte forma:

4-Estrutura do trabalho

O trabalho encontra-se estruturado em quatro capítulos, além da introdução e das partes reservadas a considerações finais, a bibliografia e anexos.

No primeiro capítulo destinamos ao conceito do contrato e do contratado. O segundo capítulo é reservado para dar conta, ainda que de forma breve, muito sumária e sob forma de retrospectiva, da história da nossa emigração para o arquipélago de S. Tomé e Príncipe.

No terceiro capítulo, vamos verificar a partir de quando foi introduzido na literatura nacional o tema do contratado e qual foi a geração mais expressiva.

No quarto capítulo saímos da teoria e passamos à componente prática que constitui o fulcro do nosso trabalho, ou seja, ao estudo dos poemas, de alguns contos e autores que consideramos mais expressivos relativamente ao tema supra citado. E

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finalmente as considerações finais partindo do estudo realizado, que reduzirá na comprovação das nossas hipóteses.

I – CONCEITOS TEÓRICO DE CONTRATO E DE CONTRATADO

Dicionário de língua Portuguesa Contemporâneo Acade mia das Ciências de Lisboa define o termo Contrato como 1 -acto ou efeito de contratar, pacto entre duas ou

mais pessoas, que se obrigam a cumprir o que foi entre elas combinada sob a determinada condições. Acordo de vontade entre as partes, com fim a adqui rir, resguardar, transferir, modificar, conservar, ou extinguir direitos.

2-Que está sob as condições de um contrato, que assinou um contrato

Dicionário Houaiss define o termo contratado da seguinte forma: que se

contratou, diz-se de ou pessoa com quem se celebrou um contrato ou cujos serviços foram encomendados e ajustados; diz-se de ou funcionário admitido no serviço publico por contrato temporário ou para desempenhar função especializada.

Ainda no Grande Dicionário Enciclopédico o termo contrato significa – acto ou

efeito de contratar, acordo entre duas pessoas para criar, modificar ou extinguir direitos e obrigações. Dentro de limites de lei as partes têm a faculdade de fixar livremente o conteúdo dos. A vontade dos contratantes para o contrato ser valido deve ser livre e esclarecida: isto é, para a validade do contrato requerer-se consentimento das partes contraentes deliberado e livre. Havendo erro ou dolo essencial, o contrato será inválido; se for só acidental, o contrato é valido mas rescindível. Celebrando-se o contrato sob condições suspensas ou resolutórias apenas se tomará definitivamente valido ou nulo depois de verificadas tais condições. No caso de estes serem impossíveis ou imorais; o contrato ter-se-á por inválido ou inexistente.

O mesmo Dicionário define o termo contratado da seguinte forma : relativo ao

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Definição do termo contratado no contexto do presente trabalho:

Segundo Alfredo Margarido (1980) contrato é uma forma de exploração de

força de trabalho, que obriga os homens e as mulheres a abandonar a sua terra natal, as suas formas de vida para trabalharem nas plantações ou nas indústrias.

De acordo com o mesmo autor, o contrato era descrito como uma forma mal

disfarçada do trabalho forçado, tanto mais evidente quanto se sabe que a maioria dos proprietários das Roças estava sempre aquém das normas administrativas, pagando pouco, ou quase sempre nada, alimentando mal e alojando pessimamente os trabalhadores.

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II - A EMIGRAÇÃO PARA S.TOME-ALGUNS DADOS

HISTÓRICOS.

Neste capítulo pretendemos dar conta, ainda que de forma breve, muito sumária e sob forma de retrospectiva, da história da nossa emigração para o arquipélago de S. Tomé e Príncipe. A história da emigração cabo- verdiana para S. Tomé remonta à segunda metade do século XIX, mais concretamente no ano de 1864 e processou-se até 1970.1 Assim, em meados de oitocentos, maltratados pela fome, pela extrema miséria, pela falta de trabalho e de recursos de toda a espécie, e pela própria conjuntura social, económica e politica esta emigração constitui uma ―triste aventura‖ para muitos cabo-verdianos.

Por isso abriu-se ―a larga porta de saída‖ no dizer de António Carreira, para S. Tomé e Príncipe para onde emigraram milhares de cabo-verdianos saídos da franja populacional mais pobre.

A emigração para S. Tomé e Príncipe não é um fenómeno recente, aconteceu e perdurou no período colonial, em meados do século XIX e perdurou, mais precisamente até aos finais dos anos 60 do século XX.

Segundo António Carreira e outros historiadores os desequilíbrios demográficos e económicos quase estruturais das ilhas de Cabo Verde teriam sido aproveitados pelas instâncias do poder e por meio de legislações e actuações administrativas, a endereçar a mão-de-obra abundante e por um baixo salário para as roças de S. Tomé e Príncipe1.

Nesses idos tempos, tendo em conta a conjuntura política social e económica do país, e a existência de muita mão-de-obra disponível, alguns proprietários de S. Tomé à instância do Governo, vieram engajar braços na ilha de S. Tiago para os trabalhos agrícolas nessa província. Uma portaria régia de 19 de Dezembro de 1863 determinou que o Governo- geral de Cabo Verde facilitasse «por todos os meios ao seu alcance» a

1

NASCIMENTO, Augusto, O SUL da Diáspo ra. Cabo Verde nas planta ções de S. Tomé e Príncipe e

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emigração de braços livres e em condições favoráveis que os referidos proprietários pretendessem utilizar, «como meio eficaz de socorrer os habitantes de S. Tiago (…) mais avexados de fome, com grande utilidade de uma importância possessão igualmente portuguesa.»2

Segundo SEMEDO, na sequência de portaria de (de Março de 1864) o Governo Carlos Alberto Franco ―manda dar passagem gratuita, nos seus barcos a todos os indivíduos

que quiserem emigrar para a ilha de S. Tomé ou para Luanda tomando-os no porto da Praia ou no porto de S. Vicente.‖ (pg.248)

“O governo do reino incentivava emigração para S. Tomé e ordenava ao governador da província que «em qualquer transporte de que possa dispor, ou nos paquetes, faça transportar para as ilhas de S. Tomé até mil indivíduos de ambos os sexos, empregando para esse fim os meios possíveis de persuasão», ordenava veementemente que se continuasse a «desacumular a população da cidade (da Praia), obrigando a regressar para a povoação de onde vieram (…) empregando para esse fim medidas políticas e que toda a população enferma que não for possível pelos meios indicados fazer sahir do prompto da cidade, deve ser logo transportado para o ilhéu de (de Santa Maria).»

Menos de um mês depois, o Governador do Reino recomenda que «enquanto

durar a actual crise alimentícia do archipelago, continue a facilitar a emigração voluntária dos pontos onde sobrar população indigente. » Com esta alternativa

apresentada aos esfomeados da grande fome de 1864/1866 começava uma nova forma de subsistência.

Posteriormente, em 1903-1904 uma nova e tremenda crise dizimava cerca de um terço da população da ilha de S. Tiago, obrigando os sobreviventes sem recursos para se dirigirem a outros pontos, a aceitaram o contrato como único refúgio contra a morte. A esses impunha o dilema: morrer à fome ou emigrar para S. Tomé.

2

Portaria n° 250, de 19 de Dezembro de 1863 publicado no B. O., n° 3, Praia Janeiro de 1864, citado pr Brito Semedo

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Mais tarde, no século XX e na década de quarenta sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, que contribuiu para a crise do Porto Grande, levando ainda mais a diminuição de entrada de barcos. A agravar ainda mais a situação difícil que se vivia nas ilhas, voltaram as crises de falta de produção agrícola, primeiro em 1941-1943 e depois em 1947/1949 provocando milhares de mortos, e à semelhança do que acontecia nos anos oitocentos várias crises agrícolas eclodiram nos anos novecentos, primeiro em 1902-1904 depois segue-se a de 1920-1922 e finalmente entre 1940 e 1950 sendo esta a mais grave porque vitimou mais pessoas (segundo dados estatísticos), também por ser em plena guerra em que havia naturalmente, escassez de alimentos por toda a parte.

Igualmente a emigração para a América encontrava-se interditada para pessoas ―de cor e analfabetas.” Ora, com tudo isso a acontecer não restou outra saída para o cabo-verdiano pobre, a não ser o contrato para S. Tomé e Príncipe.

As obras do historiador António Carreira são as que melhor descreve m, no meu entender, as tragédias vividas nas ilhas, afirmando em «Migração nas Ilhas de Cabo

Verde»: ―por causa da fome e da carestia de géneros alimentícios estando a fome na base de elevado número de mortos na década de 40, portanto a ida para S. Tomé era a solução para uma população não morrer de fome.”

Igualmente, outro analista da questão da emigração Cabo- verdiana, Alfredo Margarido, considera que esta emigração para S. Tomé tal como a emigração para Dakar, era de sinal negativo. Logo, desprestigiante para o Cabo-verdiano, sendo a emigração de sinal positiva a que se fazia para América e para Europa.

Portanto das teses aqui referidas tentaremos encontrar nas análises dos poemas os reflexos da desestruturação social então vivida por este tipo de emigração.

Face a essa situação, o Cabo-verdiano pobre não tinha muitas opções quando a seca se prolongava e a fome se declarava. Embarca r para o sul e sujeitar-se as indescritíveis privações que lhes eram impostas ou aguardar a morte eram as escolhas possíveis. E nestas circunstâncias os Governos aproveitaram para incentivar e encaminhar por meio de medidas legislativos ou de processos administrativos, para a saída de população com objectivo de proporcionar mão-de-obra abundante e a baixo salário, às organizações agrícolas e industriais da região tropical ou equatorial o que fez desta a ―emigração forçada” (Carreira 1983).

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António Carreira denominou essa emigração de ―emigração forçada‖.3

Esta emigração deve-se ao facto dela ter ocorrido em circunstâncias impulsionadoras. Por exemplo, as crises de seca e de fome que assolava o arquipélago e sobretudo pela pressão do Governo Português por meio de varias legislações.

Carreira definiu a ―emigração forçada‖ como sendo toda emigração que se

processa em consequência de ruptura de equilíbrio produção/população, ruptura esse provocado por secas, fome, mortandades ou pressão demográfica e de que os Governos se aproveitaram para incentivar e encaminhar, a saída da população com o objectivo deliberado de proporcionar a mão-de-obra abundante e a baixo salário para as organizações agrícolas e industriais tipo capitalista de regiões tropical ou equatorial. 4

João Lopes Filho apresenta uma definição similar, ―emigração forçada”

processa-se como uma consequência do desequilíbrio produção/população (por exemplo no caso concreto de Cabo Verde é causado pela influencia das secas e pela pressão demográfica que leva o Estado a, em alguns casos, incentivar a saída dos trabalhadores com a colaboração das organizações industriais e agrícolas privadas de tipo capitalista, com a finalidade de lhes fornecer mão-de-obra abundante e barata), ou devido as invasões de territórios que dantes ocupavam.5

Por outro lado Augusto Nascimento defende que a emigração cabo-verdiana para S. Tomé e Príncipe sucedeu em inicio e meados de novecentos, não se trata de uma ―emigração forçada”, por não ― (…) abarcar a multiplicidade de experiencias sociais

nem tão pouco, as mutações nos moldes de angariação de braços em várias épocas.6Argumenta que o recrutamento foi uma oportunidade para os roceiros e embora, a miséria de Cabo Verde tivesse contribuído ela não fo i premeditada. Uma vez ocorrida coincide com o período de processo de instauração das roças e de luta pela

3

CARREIRA, op. cit. 1983 pg. 149

4

Carreira, Lisboa, Janeiro 1977, pg.36

5

LOPES, João Filho, Ilha de S. Nicolau Forma ção de sociedade e Mudança Cultural, II vol., 1° ed. Secretaria Geral Ministério de Educação, 1996, pg.240

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supremacia em S. Tomé em que o acesso ao ferro, e à mão-de-obra era um instrumento decisivo.‖

Para o pesquisador Augusto Nascimento (2007), no livro ― Fim de Caminhu

Longi” o ―trabalho escravo‖deve ser entendido como falta de alternativa do

cabo-verdiano que ―se via obrigado a dar o nome no contrato e alistar-se temporariamente

para o trabalho semi-escravo das famigeradas roças para não morrer de fome‖.

Nota-se que a opção dos cabo-verdianos pelo contrato para S. Tomé era voluntária. Nascimento (2007) explica o fenómeno como “(…) o retorno para S. Tomé para o

cumprimento de um novo contrato ou a permanência nesse território mesmo depois de findo os tempos de contratação, as quais, como sabido, perfaziam um período assaz limitado muitas vezes (era) determinado pela duração das secas cíclicas em Cabo Verde (...)‖ Nascimento 2007 p.7

Ele introduz um novo conceito, ―emigração induzida.‖7

Este conceito transmitiu uma ideia similar àquela defendida por Carreira. As pessoas não eram forçadas a emigrar, mas tinham o poder decisão, não obstante, a administração intervinha no sentido de persuadir as pessoas à emigração.

Portanto admite-se que forçada ou induzido a emigração dos cabo- verdianos para as roças de S. Tomé foi influenciada pelas crises de secas e consequentemente das fomes e pelas legislações criadas pelo Estado. Essa emigração foi durante muito tempo, um refúgio da fome para muitos cabo-verdianos, a saída mais viável que se lhes ofereceram: a única porta aberta.8

7

NASCIMENTO, Augusto, Fim de Ca minho Longi, ed. Ilhéu editora, Mindelo, Abril 2007, pg. 13

8

NASCIMENTO, Augusto, Vidas de S. Tomé Segundo Vozes de Sonsente, ed. Ilhéu Editora, Mindelo, 2008,pg.58

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III – O CONTRATO NA LITERATURA E NA IMPRENSA

CABO-VERDIANA

Na literatura nacional verifica-se que o tema da roça e do contratado para S. Tomé e Principie atravessa de forma significativa e bem expressiva tanto a prosa como na poesia durante um período significativo que vem desde a geração de Eugénio Tavares passando pela geração de ―Claridade‖ indo até a geração de 60; através de autores nomeadamente: Pedro Corsino de Azevedo, Jorge Barbosa, Osvaldo Alcântara, Gabriel Mariano, Ovídio Martins e Onésimo Silveira foram os poetas que melhor ―trilharam o caminho de S. Tomé” na poesia cabo-verdiana.

Este tipo de emigração foi profundamente ―antipático‖ e tido como negativo pelo cabo- verdiano. É neste sentido que os periodistas dos inícios de novecentos, nomeadamente, Luís Loff de Vasconcelos (Brava 1857? -1923), José Lopes da Silva (S. Nicolau 1872-1962), Eugénio de Paula Tavares (Brava 1867-1930) e Pedro Cardoso (Fogo 1881 - 1942) entendiam que se devia fazer a mais rasgada e publica propaganda contra a emigração para S. Tomé e em contrapartida: ―animar a saída, protegê-la e ou

até subsidiá-la‖ para a América, a Argentina e o Uruguai.

Na imprensa escrita o tema ocupou os intelectuais e os jornalistas por longo período de tempo. Os primeiros periódicos publicados nos inícios da Republica –― A Voz de Cabo Verde‖ (Praia 1911-1919), ―O Independente‖ (Praia 1912-1913) ―O Progresso‖ (1912-1913), ―O Futuro de Cabo Verde‖ (1913- 1916), ―O Popular‖ (1914-1915) e ―o Cabo-verdiano‖ (1918- 1919) uniram-se no combate contra a reabertura da contratação de serviçais para o trabalho nas roças de S. Tomé e Príncipe na sequência da terrível fome de 1900-1903.

―A emigração‖ é um tema do editorial ―A Voz de Cabo Verde‖ (1911/1919), tema aliás, que estará sempre presente na imprensa cabo-verdiana – que defende a emigração para América, Brasil, Uruguai, Argentina e condena a emigração para S. Tomé e Príncipe. Considera-se que a emigração para S. Tomé (embrutece e empobrece o emigrante) e que se o destino for o Continente Americano (educa e enriquece o emigrante). Por exemplo ―o progresso material, moral e intelectual das ilhas de Fogo e

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Brava.‖ O mesmo jornal posiciona-se contra e condena a emigração para aquela ilha porque era vista como uma emigração forçada devia-se ―atrair trabalhadores – não

arrebanhar escravos!”A essa emigração forçada opunham-se porque para além disso,

feria os direitos do homem e o orgulho dos cabo-verdianos.

O contrato é um dos grandes temas do jornalismo cabo-verdiano, da época. Condena-se, por vezes de forma veemente, a emigração para S. Tomé. Chegando a elite republicana cabo-verdiana a reagir contra os republicanos de Lisboa, quando alguns destes propuseram o envio de cabo-verdianos para as roças de S. Tomé, como forma de lhes mitigar a fome. É neste sentido que «A Voz» se posicionou contra a posição tomada pelos seus correligionários metropolitanos.

«Essa emigração forçada opunha-se para além dos direitos do homem, o orgulho dos cabo-verdianos. “Em Cabo Verde, é facto, têm-se morrido fome… a cada passo se encontra em Cabo Verde, um homem que morre sem uma queixa; mas é difícil encontrar um preto ou mestiço que suportem a chicotada sem responder com essa criminosa energia, à qual raros sobrevivem os que vibram o chicote e o ultrajam. O cabo-verdiano tem esse grande defeito de se não prestar a um certo número de trabalho». 10

No ―ataque‖ à emigração para S. Tomé ―A Voz‖ não estava sozinha, ―O

Independente‖ é também um outro jornal que surgiu na capital e que se posicionou

contra essa emigração. Num artigo intitulado “Emigração‖ publicado no número 35 do referido jornal, Orion, (pseudónimo de Eugénio Tavares) lamenta que o cabo-verdiano seja obrigado a abandonar a sua terra, abandono esse a que é obrigado pela miséria reinante, pela ameaça de uma crise alimentícia ―para a qual os Governos nunca

olharam com o empenho que bem merecia (…) emigram em massa, encamada na terceira classe dos vapores, como rezes que vão para matadouro11…”

9

VOZ DE CABO VERDE, n°8 19 de Abril de 1911

10

VOZ de CABO VERDE, 5 de Fevereiro de 1912

11

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O mesmo periódico considera a emigração para Estados Unidos como bem vista, pois “civiliza, educa, remedeia ou enriquece o emigrante‖ e para S. Tomé ela é condenável, pois, ―embrutece, depaupera e mata muitas vezes o serviçal‖, pelo que esta emigração tinha que acabar e Orion propõe “guerra à emigração para S. Tomé e Príncipe, que é a morte dos naturais de Santiago; protecção e auxílio para a emigração

para as repúblicas do norte e sul da América (Uruguai e Argentina) ‖ a propósito da

emigração para S. Tomé e Príncipe Eugénio Tavares (1912) publicou um soneto intitulado ―Emigração‖ em que faz o retrato realista da partida para as roças e do regresso desolador dos contratados e de caminho, o poeta no mesmo poema faz a apologia da emigração para América – »ide mais distante; ide à América/terra de

trabalho e liberdade.»12

A emigração para S. Tomé era a menos desejada pe los cabo-verdianos, como prova em tomadas de posição, Eugénio Tavares. Q uando em 1915, o Governo dos Estados Unidos quis impedir a entrada dos africanos analfabetos no seu território e le expressou-se da seguinte maneira: ―proibir a emigração cabo-verdiana para Estados

Unidos, é pedir ao povo cabo-verdiano tire os sapatos, dispa o casaco, pegue na enxada, e que salte para os morgadios de Santiago e de S. Antão e do Fogo onde há falta de braços. Foste até aqui o livre trabalhador da América, de agora em diante passas a ser uma espécie de contratado para as roças de S. Tomé (…) de hoje em diante irás comer em gamelas de pau, o pão da escravidão que o diabo amassa – dessa escravidão encamisada de liberdade, que é o insulto à dignidade humana. Tiveste, até este casa e terras, sobre as quais os teus avós derramaram o seu suor de honra, desde esta hora, teus filhos sob a vergasta da necessidade com lágrimas fertilizarão malditas terras alheias.”13

É de salientar que, um dos poucos pontos em que todos os jornais cabo-verdianos, durante toda a época das levas dos contratados estiveram sempre de acordo, foi em condenar a emigração para S. Tomé e em denunciar os abusos cometidos nas roças.

12

CF. Capítulo da análise e interpretação dos poemas.

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Ao tentarmos conceptualizar as causas da emigração e de toda a complexidade que se encontra por detrás deste fenómeno que é humano, social e económico ; sentimos enorme dificuldade em expressá-las.

De acordo com (Danny Spínola) «antes de mais é preciso uma atitude

persecutória perante este assunto perguntar, questionar sobre as razões e as motivações profundas que conduzem as pessoas a escolher o árduo caminho da emigração».

Realmente as razões são várias e pertinentes. Segundo o estudos feitos, de documentos literários, a fome, a seca, os empregos pouco gratificantes, o desemprego, a vida dura do ilhéu, a carência de recursos materiais, de meio viáveis que possibilitam satisfazer as necessidades mínimas de uma sobrevivência mais co ndigna são as principais causas

IV – OS ANOS de 1960/1970 – A POESIA DE REVOLTA

Digamos que existia uma ambiência histórica cultural e social em cabo Verde predisposta a condenar a forma do contrato do cabo-verdiano pobre para S. Tomé e Príncipe. Daí ser natural que se levantassem as vozes solidárias dos poetas e dos escritores numa dimensão humanística de condenação de tal prática.

Ora bem, a emigração mereceu atenção redobrada e muito particular, tanto dos escritores e intelectuais da época pré-claridosa e da dos claridosos, como também e sobretudo, da geração da ―Nova Largada” da literatura cabo- verdiana nos anos 50/60 do século passado, com efeito, é com o grupo denominado do Suplemento Cultural que a poesia cabo-verdiana deu um salto qualitativo e tomou novos rumos, graças aos jovens poetas que a partir de então, lançaram mãos da chamada poesia contestária para se posicionarem contra a situação vigente em Cabo Verde. Essa atenção aos problemas, desdobrou-se quer na reflexão crítica, ensaística, quer pela virulência da palavra jornalística, quer ainda na sentida meditação da poesia e ficção literária. Os poetas da

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geração de 60 apossaram-se do tema da emigração, introduzindo-o de forma definitiva e irreversível, na poesia cabo-verdiana.

Com efeito, tratou-se de uma geração que denunciou em textos poéticos os abusos do contrato para as roças de S. Tomé e Príncipe, e fê- lo de uma forma tão tocante e contundente, que acabou por construir literariamente um discurso protestativo explícito na literatura nacional.

Na realidade, foi na década de sessenta, que a denominada poesia de revolta encontrou terreno propício para germinar. Ao lado dos outros poetas africanos de língua portuguesa e de outros quadrantes do mundo, em que o mesmo tipo de discurso literário de protesto e de intervenção social se fazia ouvir dos seus poetas, também encontrou caminho em Cabo Verde, onde vozes poéticas fizeram eco da situação.

Data dessa altura alguma abundância de poemas que versam o tema do contrato e do trabalho forçado. A sensibilidade dos poetas das ilhas foi tocada pelo flagelo deste aviltamento da condição humana. Os poetas conscientes da problemática encontraram uma forma ajustada para exprimir testemunhos revoltosos sobre o facto.

Ovídio Martins, Gabriel Mariano e Onésimo Silveira, de entre outros nomes, foram o trio que liderou de forma directa e aberta, através da palavra poética, ―a luta‖ contra a prepotência e a injustiça que até então reinavam em matéria da deslocação forçada para o arquipélago do cacau. Eles serviram-se da poesia, fazendo da ―criação

literária um meio e uma forma de denúncia global do sistema (…)».14

A problemática da emigração para S. Tomé mereceu desde muito cedo críticas, sobretudo feitas pelos nossos homens de literatura. A geração claridosa também se debruçou sobre este aspecto, este tipo de emigração deu origem a uma espécie de Cancioneiro poético cabo-verdiano, pela pena de Osvaldo Alcântara, no seu poema ―Filho‖ um dos poemas do ciclo ―O Romanceiro de S. Tomé.” Igualmente, Jorge Barbosa, através dos ― «13 Poemas in memorial de S. Tomé» dedica a sua palavra poética ao tema da emigração e do contrato para S. Tomé e Príncipe.

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Ovídio Martins foi também um poeta que levantou a voz contra a emigração para S. Tomé e juntou-se para protestar contra a máquina capitalista da roça, destruidora de valores humanos. A este respeito o poema ―Aviso” elucida o leitor, de modo muito contundente, como ele condena a forma violenta como resulta a situação vivida pelos cabo-verdianos durante as viagens e nas roças. No poema ―Emigração”, o poeta também não esconde a sua ira e a sua angústia, face à desumanização do homem cabo-verdiano.

A respeito deste poeta, Alfredo Margarido afirma o seguinte: «A poesia de

Ovídio Martins é um canto de amor e de luta ritmado pela obsessão constante de libertação, que em todos os seus momentos dialécticos rejeita a solução conformista, reaccionária dos problemas que lastram a personalidade do africano insular de Cabo Verde». É bom recordar que a tese poética defendida por Ovídio Martins recomendava a

não partida do Homem cabo- verdiano das ilhas, partida motivada na necessidade de sobrevivência. Pelo contrário, é dele a célebre expressão: «querer ficar e ter de partir». Embora polémica, numa semântica abrangente, o contexto em que foi proferida continha as premissas para que ela (a expressão ou o verso de Ovídio Martins) encontrasse eco positivo.

Ao lado de Ovídio Martins, esteve também Gabriel Mariano que m, tal como os outros, manifestou a sua indignação contra a situação vivida pelos cabo-verdianos nas terras de S. Tomé. Em alguns poemas de Gabriel Mariano como ―Comissário ad hoc‖ a critica é feita de uma forma aberta sobre a situação desumana por que passavam os cabo-verdianos durante as viagens e nas roças.

Um outro poeta que brilhou nessa época e já aqui referido foi sem dúvida, Onésimo Silveira. Nas suas publicações ele procurou, através de um discurso panfletário e quase directo, representar o drama da emigração cabo- verdiana, do contrato para as roças de S. Tomé e dos retornados.

Pode-se afirmar, sem muita margem de erro que a crítica à emigração para S. Tomé, constituiu uma das temáticas preferenciais dos poetas cabo- verdianos, tendo ganho impulsos diferentes, consoante as épocas.

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Falando agora de forma mais particularizada e tendo em consideração o contexto histórico em que surgiu a geração de ―Suplemento Cultural,‖ os seus poetas fundadores, naturalmente que munidos de outros dados, tomariam uma outra atitude, uma vez que o próprio ambiente político e social da época a isso propiciava e facilitava, pois, nessa altura, vários países africanos se encontravam empenhados na luta armada contra o colonialismo francês e português. ― Hoje sabemos que a integridade da obra não

permite adoptar visões dissociadas e só podemos entender a obra, fundindo texto e contexto numa interpretação dialecticamente íntegra (…)

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V- ANÁLISE DE POEMAS SELECCIONADOS

Neste capítulo ocupar- nos-emos em transcrever e em analisar os poemas e os poetas mais representativos em termos do tema fulcro deste trabalho.

Nunca é demais lembrar que isto constitui de facto e no nosso entender a parte substantiva do nosso trabalho. Em consequência, e para melhor articulação do tema proposta, iremos ―construir‖ uma espécie de itinerário poético do contratado, visto e percepcionado numa trajectória que vai da partida de Cabo Verde; o retrato da sua vida na roça e o regresso à terra. Pretendemos assim elaborar um painel poético com a movimentação e as vicissitudes por que passou o contratado através da visão e da solidariedade dos poetas que sobre ele se debruçaram e que a nós legaram páginas poéticas que embora trágicas, não deixam de ser belas em termos da poesia que contêm. O primeiro poema analizado relativamente ao tema do contrato trata-se de um soneto de Eugénio Tavares publicado em 1912 intitulado ―Emigração.”

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Para além dos periódicos da época este é talvez o primeiro poema que versa o tema do contratado. Podemos ver que o sujeito poético elege como a melhor emigração para o cabo-verdiano a que é dirigida para os Estados Unidos da América e não a forçada para S. Tomé e Príncipe. Eugénio Tavares, em tom apelativo em que o vocativo ―vós” com que se refere aos emigrantes é disso expressivo, ele toma a liberdade de manifestar a sua opção, ao convidá- los a sonhar mais alto e a irem mais além. De não se sujeitarem a uma emigração que, ao invés de lhes melhorar a vida, os atrasaria. A comprovar este sentimento negativo estão os adjectivos e nomes como: ―triste,”

“desolador,” “sofrimento,” “dor,” “desterro,” “acorrentada,” “maldita,” entre

outros, que se destacam ao longo do soneto. Temos o retrato realista da par tida para as roças e do regresso desolador dos contratados e a apologia à emigração para América – ―ide mais distante; ide a América/terra de trabalho e liberdade.”

Na mesma linha, um dos grandes poetas da “Claridade‖ Osvaldo Alcântara entendeu e solidarizou-se com o sofrimento e o sentido de saga que o contratado para S. Tomé sofreu no corpo e no espírito.

Ele retrata simbólica e poeticamente a figura do Contratado em «Nicolau» a personagem a quem o poeta dedica os versos e acompanha ao longo do seu «Romanceiro de S. Tomé».

Eis aqui o registo de um excerto do poema: «Filho» (...) Nicolau, menino, entra /

onde estiveste, Nicolau, / que trazes a arrastar / o teu brinquedo morto? // Nicolau, menino, entra. / Vem dizer-me onde foi que tu estiveste/ e a estrela fugiu das tuas mãos. // Tens comigo o teu catre de lona velha. / Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe. // Dorme sem medo, / que o fantasma ficou lá longe. //Quando acordares a jornada será mais longa. // Nicolau, menino, / onde foi que tu deixaste / o corpo que te conheci? // Deus há-de querer que o sono te venha depressa / no meu catre.

Para além deste expressivo e significativo poema sobre o drama em análise, Osvaldo Alcântara, produziu outros poemas sobre o tema em que se destacam «O

Grito» «Mãe» «Porão» «Amigo» apenas para destacar alguns dos títulos mais

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Gabriel Mariano é um dos poetas que para além de escrever poemas motivados pelo sistema das roças e pela situação dos serviçais, abordou igualmente a questão, possivelmente nos seus aspectos jurídico/legais, pois que jurista de formação e de profissão, por isso, considera a emigração de trabalhadores Cabo-verdianos para as roças como um autêntico crime.

O poema comissário ad hoc foi publicado entre 1960 a 1963, quando Gabriel Mariano encontrava-se em Cabo Verde, na cidade da Praia, onde fora colocado e exercia a função de Procurador da República e Conservador dos Registos Civis.

É um poema, dirigido não directamente ao Contratado, mas ao cabo-verdiano que o conduz na viagem para as roças, então chamado ―Comissário ad hoc‖ uma espécie de vigilante, funcionário que tinha entre outras funções, tinha coma a principal, a de vigiar para que a viagem dos contratados decorresse em ordem até à chegada ao destino. O poeta apoda-o de “capataz de escravos.” É neste poema que Mariano descreve as condições de ida dos contratados para as roças de S. Tomé

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Em todo o poema percorre um estado de revolta, que associa a repetição sincopada, expressa em duas situações extremas de um mesmo tipo de exploração. A primeira estrofe centra-se na figura do ―capataz / comissário‖ a quem é dado algum estatuto de dignidade, vislumbrado nos versos: ―tu segues em camarote fino, preparado,

reservado irmão‖ e a segunda, a situação extrema está centrada no ―serviçal/escravo” a

quem não é reconhecido qualquer condição ou estatuto humano. O poeta chama atenção para isso, nos versos: ―não os vês nos porões seguindo?‖. Por outro lado e igualmente no mesmo poema, o sujeito poético identifica fraternalmente o comissário e os serviçais através do ―sangue e sofrimento‖. Demonstra-o nos versos: «…comissário irmão de

sangue, irmão de sofrimento…». Portanto, é no entender do poeta que a diferença é

mais aparente do que real entre o Comissário ad hoc e os ―serviçais.” O ―eu” lírico iguala os contratados e o comissário naquilo que mais os caracteriza e os aproxima: «eles os que seguem nos porões cantando/são homens de carne como tu/de carne e

nervo como tu». O poema constitui uma contundente denúncia das condições

degradantes em que os serviçais eram transportados. Temos no poema as marcas expressivas interrogativas e exclamativas e a acção verbal no presente com o objectivo de fazer sentir ao leitor o estado emotivo do poeta e o apelo que o poeta faz a quem de direito culpando-o pelo desenrolar desses acontecimentos.

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Assim como outros poetas da época, Ovídio Martins atento ao sofrimento dos homens, diante da miséria e da fome, do grave problema da insularidade, em que eles são obrigados a partir para a distante ilha de S. Tomé como contratado, ele expõe nos seus versos o drama de os que estão distantes nos trabalhos forçados e nas pressões em S. Tomé e convoca todos para prestar solidariedade aos sofridos e distantes companheiros Cabo-verdianos. Para exemplificar temos o poema intitulado ―emigração” .

Portanto, nos seus poemas o sujeito poético manifesta a gravidade da situação do terra- longismo, a emigração forçada, as falsas promessas dos contratantes, a dor, a violência e o sofrimento pelos quais passavam os contratados.

Sob a denominação de caminho de perdição, insere cerca de dez poemas sobre a temática de emigração forçada pra S. Tomé. Destaca-se o poema intitulado Aviso um dos mais violentos onde a revolta chega á ameaça pela forma desumano como o contratado/serviçal/escravo é tratado nas roças, e o sujeito poético avisa ao destinatário interlocutor, por qualquer atitude mais violento que venha a ser tomado em acto de desespero, pelas vítimas.

Contudo é no poema “Caminho Longe,” que o poeta O. Martins aborda o longínquo caminho trilhado pelos contratados. O próprio título do poema já nos dá a ideia de distância, de partida, do terra- longismo, de uma saga a penar nesse ―caminho‖.

A primeira estrofe descreve ―caminho longe‖ como sendo igual à dor e ao sofrimento. Na segunda estrofe, o primeiro verso está expressa a ideia de fatalidade, no sentido de não se puder fazer nada, embora pudesse ser de outra maneira ―devia

sorrir de outro modo/o Cristo que vai de pé” isto é, equipara o sofrimento dos

contratados ao de Cristo a caminho do calvário.

No verso ―E as bocas reservas fechadas‖ significa que não tinham o direito de se queixarem, de reclamarem; o sofrimento era abafado, calado de tal modo que ―a dor

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para mais além ‖ simboliza o que não se sabia, ou seja, até quando permaneceria essa

dor e até que ponto ela seria suportável.

O processo anafórico utilizado mostra a lentidão da saga, o percurso indesejado e no desejo do sujeito poético de que o caminho deveria ser o inverso, deveria ser de regresso e não de partida. Mas não há outra solução/remédio ou alternativa, o caminho continua o mesmo, tinha de ser percorrido ainda que sob grande sofrimento.

Estamos perante uma forma de poesia que quase faz a transposição da realidade, reelaborando-a embora em linguagem figurativa e simbólica. Trata-se na realidade de uma verdadeira poesia de circunstância, isto é, um retrato ―decalcado‖ do e sobre o acontecimento em tom panfletário e de denúncia presente.

Com efeito o tema da emigração passo u em definitivo, a ser considerado uma das constantes da poesia cabo- verdiana, a par da seca, da fome e da inquietação permanente e estrutural da debilidade económica do Arquipélago.

Manter- nos-emos no mesmo tema, mas agora na pena de um outro poeta, Jorge Barbosa publicado em 1963, intitulado memorial de S. Tomé posiciona se contra a contratação de serviçais cabo-verdianos para aquela colónia e se interroga sobre o modo de partida, sobre a forma como os contratados viajavam de Cabo Verde para o porto de destino, São Tomé.

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“O poema nº 1” de Jorge Barbosa inserido no memorial de S. Tomé descreve a

situação da partida dos serviçais de roça para S. Tomé. O poema divide-se em três partes. Na primeira parte, o sujeito poético evoca o santo que dá o nome a ilha desfazendo qualquer equívoco que possa surgir com o facto de serem homónimos. Na segunda parte, o poema deixa claro que é dedicado à condenação das condições precárias daqueles que partem para a dita ilha e explica as razoes que os levam a esse destino: ―é a miséria que os leva”.

Por último e na terceira parte, o sujeito poético evoca com muita fé São Tomé, o santo protector que cuide e olhe pelos que lá vão ter, livrando-os de todos os riscos. Trata-se de um longo poema constituído por (16) estrofes, com número de versos irregulares em cada estrofe, feito nos moldes dos poemas característicos deste poeta em que sobressai o ritmo sincopado da métrica e de uma cadência musical espelhados em versos curtos.

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Emigrar não envolve apenas a tomada de decisão tendo em conta as causas que poderão estar na sua origem. Engloba todo um processo que se inicia com a intenção de partir abrangendo também uma serie de outras etapas: a viagem, a primeira instalação do migrante no país da chegada, a inserção, a fixação e o retorno.

O retorno é uma vertente inversa das migrações que reflecte o processo inverso. Depois de sair do seu país o migrante retorna ao seu país de origem.

O retorno não é uma decisão voluntária, contudo, vários aspectos motivaram esta atitude, na medida em que, é muito desejado, principalmente, para os idosos que sonham matar saudade e rever a família, a falta de condições económicas bem como a insatisfação económica alcançada no país do destino influi na decisão de retorno.

Um outro factor que exerce influência na decisão de retorno é o lugar, terra de origem, este tem um forte peso simbólico partindo do pressuposto que o lugar é o locus de realização de vida, cria assim, um sentimento de pertença do sujeito para com o lugar. Esta carga simbólica pode ser laço afectivo como as relações pessoais/sociais, ligado a família, amigos parentescos entre outros. Este sentimento de pertença a um lugar e a atracção pelos laços de relações ali criados fazem com que o migrante retorne ao lugar onde ele deixou raízes socioculturais e afectivas.

No entanto (caso de S. Tomé) muitos vêm o retorno como algo irrealizável. Saíram de Cabo Verde ainda jovens e levaram consigo uma imagem negativa do seu país (fome, miséria, falta de trabalho etc.)

Os que retornavam vinham inválidos e com saúde debilitada, os trabalhadores regressam com varias doenças e lesões graves.

Onésimo Silveira, que foi um desses emigrantes que prestou serviços em S. Tomé, como meteorologista aborda de uma forma muito contundente a questão dos retornados (especialmente no seu poema intitulado : O Regresso), Nos poemas que antecede vimos a triste partida, a longa viagem e a amarga estadia dos cabo-verdianos nas roças de S. Tomé. Em Regresso vamos ver nos longos versos de Silveira como é

doloroso o momento da “devolução” do contratado (ou o que resta dele), fechando assim o ciclo dos serviçais cabo-verdianos para as roças do cacau: o recrutamento,

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feita pela Sociedade de Emigração (SOEMI), seguida de viagens nos porões, para a realização de trabalho escravos nas roças e posterior regresso, no fim do contrato, com doenças e sem recursos.

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Em todo o poema perpassa uma descrição do estado do regresso/retorno do contratado à origem, nota-se que a semântica sobressai com uma carga extremamente negativa desde o início do poema. Na primeira estrofe os contratados são considerados pelo sujeito poético como vítimas inocentes da liberdade. O primeiro impacto da recepção aparenta num misto de duas sensações, a da tristeza e a da alegria pelos seus conterrâneos e familiares.

A linguagem metaforizada continua a descrever essas sensações nas estrofes seguintes cujo pesar é evidente em confronto com a alegria do regresso do ente querido mais pobres e insignificantes regressam como farrapos e mais desgraçados, que sem ao menos têm condições de prevalecer os seus direitos, pois são os ciganos de sujeição, dependente da vida incerta e errante que veriam encontrar em Cabo Verde. O estado deplorável e das consequências das roças são evidentes no poema que demonstra o acréscimo das desgraças que descaem sobre os contratados, intertextualizando caminho

longe de Gabriel Mariano. Onésimo Silveira fecha o poema descrevendo o trajecto da

emigração enquanto ilusão estrada de sangue, portanto, o poema é a exposição mais completa e autentica do problema. A sua linguagem poética vibra não apenas nas queixas contra o destino impiedoso que condena o cabo- verdiano à emigração, mas vai mais longe, precisando o calvário quotidiano do trabalhador rural das plantações de S. Tomé.

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VI - O TEMA DO CONTRATADO NA PROSA

Para além dos poemas, ressaltam ainda certos contos e capítulos de alguns romances que abordam o mesmo assunto.

Onésimo Silveira foi um dos mais contundentes escritores cabo- verdianos ao fazer tal abordagem em prosa. O Conto: «Toda gente fala: sim senhor!» (1960) A história de Tigusto, um lavrador de meia- idade, da ilha de S. Antão, que a seca obrigou a vender a sua propriedade para embarcar para S. Tomé como contratado. Editou A

Saga das As-Secas e das Graças de Nossenhor (1991), romance cujo capítulo XIII é

uma retoma da ida dos contratados e da sua vivência. O capítulo aborda o destino de Bia de Canda.

Convém abordar, ainda que de forma fugaz, o contudo dos contos, «Bia de Canda» e «Nhanha Santa» d e Onésimo Silveira. A acção centra-se sobretudo na maneira como as contratadas (mulheres) organizavam a vida dura na roça.

Relativamente à organização de trabalho havia funções específicas para as mulheres, para além de trabalhar nas roças a capinar e nas fábricas de óleo de palma, eram as escravas de trabalho doméstico, preparavam as refeições, lavavam e consertavam as roupas do trabalho. Também elas trabalhavam nas senzalas. Para exemplo: as duas figuras femininas que predominam no conto, Bia de Canda e a Nhanha Santa. Convém referir que as crianças trabalhavam também e para isso tinham meio contrato. Logo o trabalho delas era mais leve e consistia na descasca de cacau.

As formas de diversão no domingo

Aos domingos nas roças ―o escravo virava forro‖. É no domingo que recebiam visitas dos amigos e vizinhos da mesma roça comiam, bebiam e dançavam. Ex: ―Beto badio ritmando com força (…) ―Bia de Canda e Nhanha Santa foliavam as duas a rebolar que nem duas perdidas‖

Apesar de trabalho de roça ser árduo e massacrante nem por isso deixam de se divertir aos domingos, é essa diversão que lhes reconstituía. Por ex: ― baile de gaita e ferro, restituía a seiva dos contratados‖. Durante a capinagem o que os animavam era a morna e o convívio aos domingos, porque o resto era somente a tristeza. Também era no

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domingo que usavam as raras peças de roupas mais costuradas e escolhidas. É de salientar que a melhor alimentação também era no domingo, isso porque comiam guisados com tempero o que era diferente da fuba de todos os dias.

É de salientar que o cabo-verdiano nunca abandona verdadeiramente o seu arquipélago uma vez que, mesmo longe do seu país, o exilado continua em contacto com ele. Este contacto manifesta-se através de (dialecto, culinária, formas musicais). Muitos são os poemas (especialmente os do cancioneiro de S. Tomé) que testemunham esta correspondência/ligação que o exilado mantém com a terra natal. Igualmente os poemas em crioulo traduzem o sentimento da necessidade de manter laços íntimos entre seres dispersos por razões económicas nas margens do atlântico, no Arquipélago mais ao sul de Cabo Verde.

Os aspectos religiosos

Aos domingos em vez de rezarem uma missa rezada celebravam ―uma missa dançada com a liturgia redentora de funaná‖.

Podemos constatar que as personagens do conto manifestam a fé e a devoção, isso porque sempre que são afrontados com situações difíceis, que ultrapassam as suas capacidades de resolução, recorrem a instâncias superiores ao Pai Divino para pedir auxílio. Isso demonstra de uma certa forma a manifestação da religiosidade como uma forma de refrigério e de ponto de apoio no sofrimento sentido.

Resumo do conto

O conto relata a situação degradante do povo, consequência da seca que sufocava a ilha obrigando os seus habitantes a contratarem-se para as roças de S. Tomé e Angola. Ainda refere a história de pessoas que, mesmo em situação difícil, nunca perderam a esperança, mesmo incerta pelo sofrimento do contrato. Para exemplificar: a fala de uma das personagens ― terra de S. Tomé não tira cristom de bordêra. Mas livra

me de vergonha de viver sem saber por onde virar”.

O conto baseia-se essencialmente na história de Bia de Canda que estava destinada ao contrato sem que nada nem ninguém a conseguisse segurar. A partida da sua terra natal para a roça é feita através de um relato e de uma forma minuciosa, desde

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as razões/motivos para tal ida, as formas como eram transportados até ao destino final, das distribuições e da organização do trabalho.

Para além dos aspectos acima mencionados, verifica-se igualmente que o conto tem pontos convergente com os poemas, nomeadamente os de Osvaldo Alcântara e Terêncio Anahory que também salientam as condições precárias, a desumanidade, e as más condições das viagens e o sofrimento do povo das ilhas. Assim como o poema de Anahory mostra as contraste entre Cabo Verde e S. Tomé também o conto ilustra esse contraste.

O verso do poema, apenas um pequeno registo, de Terêncio Anahory diz que: “roça tem sol/roça tem água/café maduro/cacau gostoso…”

Assim também o conto de Onésimo Silveira reitera que “ (…) S. Tomé terra de

muita chuva, muito café, muito cacau, mas tudo só para roceiro (…)

Com o ensaísta, contista e médico, Henrique Teixeira de Sousa, temos conto «A

Raiva» em que analisa as devastadoras consequências nosológicas e psicossociais da

emigração para S. Tomé. Aliás, Teixeira de Sousa, tanto no desenvolvimento das suas actividades como médico e investigador, como também na prossecução do seu labor ficcional, prosseguiu de forma ampla o tema da emigração para S. Tomé e Príncipe. O conto ―A Raiva‖ é um perfeito exemplo disso.

No mesmo sentido e numa outra obra do mesmo autor, o romance, Ilhéu de

Contenda, autor denuncia as condições muito manipuladas desde o início pelo logro e

pela fraude, associadas às secas, nas quais se processa o recrutamento dos contratados para as roças do sul. Avultam nesta ficção, o sentimento e a expressão da desonestidade e a ganância tanto do negro e novo-rico, Soares como do branco ―desqualificado‖ Felisberto, ambos ao serviço da SOEMI, o primeiro como comerciante e contratador com escritório montado, o segundo como homem de expediente vários e escusos, ora empregado como agente do primeiro e encarregado de recrutamento de gentes esfaimadas e induzidas ao contrato cativadas e seduzidas, isto é, enganadas com o verde paraíso das plantas e fazendas do sul, sistematicamente prometido pelos agentes e contratadores da SOEMI, e para lá conduzidos em grandes levas amontoados na promiscuidade dos porões, muitas vezes insalubres e infectos de desumanidade.

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Ressaltam ainda no trama romanesco de Teixeira de Sousa, quer o posicionamento crítico do Dr. Spencer, médico mulato possivelmente uma espécie de alter-ego do próprio Teixeira Sousa na sua abordagem da causa médica na ilha do Fogo, quer ainda a rebeldia politicamente contestatário de Ovídio Soares, filho do comerciante negro e novo-rico, acima referido, que recusa o financiamento dos seus estudos por dinheiro sujo, angariado com a exploração da situação de miséria dos contratados.

Gabriel Mariano com o conto «Vida e Morte de João Cabafume» faz a referência sobre a embarcação para o sul.

Do mesmo modo e focando o mesmo tema, temos o conto de Mana Nha Teresa de Maria Helena Spencer, que aborda o fim triste de Nha Teresa que passou por mudanças trágicas da sua vida devido a calamidade naturais (falta de chuva) esquecida por todos e também por si, regressa sem nada, insana, meio louca, sem que alguém a pudesse valer no seu regresso a Santiago. Resumindo: a personagem do conto trágico de Maria Helena Spencer perdeu tudo, até a lembrança do seu nome de registo.

Segundo o conto, a personagem viveu dois momentos: antes da emigração em que prosperava a bonança. Mana Treza era a cantadeira e a dançarina mais afamada e procurada dos Picos. Depois veio a desgraça e os anos de seca sucessivos obrigaram- na a partir.

A desgraça do Cabo-verdiano pobre está muito assente na sua condição natural de pertencer a uma terra sem recursos naturais e sujeita ao regime instável das chuvas. Ora é assim que a emigração surge como uma solução para este feito.

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VII- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao finalizar o texto que elaborei sobre o tratamento dado ao tema do ―Contratado para S. Tomé‖ na poética cabo-verdiana, gostaria de, nestas breves considerações finais, tecer alguns comentários que passo a enumerar:

1. A temática em análise, estendeu-se na Literatura cabo-verdiana por quase um século de escrita. E esta escrita apresentou-se ao leitor de várias formas; quer sob forma de poemas, quer sob forma de romance, de novelas e de contos, quer ainda sob forma de artigos jornalísticos de forte pendor crítico.

2. O ―Contratado para S. Tomé‖ mereceu quase sempre, da parte dos intelectuais cabo-verdianos, com destaque para os escritores, um posicionamento que diria de grande oposição, por vezes expressa de forma inequívoca e bem clara. E isto está fartamente documentado no nosso património literário desde os inícios de século XX, através da pena de Eugénio Tavares, na sua dupla valência de poeta e de jornalista, passando aos poetas da ―Claridade‖, seguindo-se os da ―Certeza‖ e os do ―Suplemento Cultural,‖ indo até aos chamados poetas da ―Nova Largada‖ dos anos 60 do século XX.

3. A poética do ―Contratado para S. Tomé e Príncipe‖ mereceu dentro da grande temática da Emigração, lugar destacado e frequente na poesia cabo-verdiana dita de circunstância, de intervenção social e política de expressão panfletária. Aliás, o grande recorte, enquanto motivo poético que teve o tema em apreço na poesia cabo-verdiana, demonstra amplamente o grau de envolvimento dos poetas de então, numa causa que os preocupou e os motivou durante larga faixa de tempo. 4. Torna-se interessante notar a grande unanimidade havida entre os poetas de

diferentes gerações na condenação, muitas vezes veemente, feita às condições degradantes e por eles considerados quase desumanas no processo que levou ao Arquipélago de S. Tomé e Príncipe centenas de famílias que fugiam à fome e buscavam a sobrevivência nas ilhas mais fartas e mais verdes que as do seu rincão natal. Se houve temática convergente na poesia criada pelos poetas das

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ilhas de Cabo Verde, essa convergência é totalmente alcançada nos poemas que abordam a questão do Contratado para S. Tomé e Príncipe.

5. Finalmente reafirmar, tal como dissera no início do texto, que o tema que constituiu o fulcro do meu Trabalho de Final do Curso, atraiu- me bem cedo ao longo do curso e fixei-o desde logo como o escolhido para a monografia que haveria de elaborar como término da minha formação.

As razões que estiveram na base da minha escolha são várias, mas devo apenas mencionar duas delas, pois que as considero mais marcantes:

a) Apesar de já não ser da geração que viu partir muita gente da ilha de Santiago para trabalhar nas roças de S. Tomé, a verdade é que desde a minha infância que venho ouvindo familiares e próximos falarem e contarem factos e histórias sobre este tipo de emigração. Portanto, também fez parte da minha socialização conhecer, ainda que de modo superficial, o fenómeno que tanto marcou o cabo-verdiano de extracto social mais baixo e mais pobre.

b) Em segundo lugar, o meu grande encontro com o tema, dá-se ao longo dos estudos da Literatura cabo- verdiana e aí, passei a prestar atenção ao modo como a Literatura nacional envolveu e transfigurou em palavra poética o drama, a saga da partida para S. Tomé. Outrossim, o folclore cabo-verdiano no seu todo, também se apossou do tema do Contratado, quando, para exemplificar a música, através das mornas e das coladeiras o cantou de forma plangente.

Para fechar o trabalho, acrescentarei que foi com muito e ntusiasmo da minha parte que fiz este pequeno ―roteiro‖ através da poesia nacional sobre um problema que à época foi registado em páginas de imensa e trágica poesia, pelos maiores nomes da nossa escrita literária e que o abordaram em facetas várias, através de textos reveladores da solidariedade dos Homens cultos da terra sobre questão tão candente.

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