O Bruxo do Cosme Velh,o ou Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de Junho de 1839. Recebeu este apelido do velho amigo José de Alencar, pois este acreditava que Machado tinha o dom de ver o interior dos seres humanos, que Machado conhecia como poucos as virtudes dos homens, seus anseios, suas vontades, seus interesses, enfim, acreditava que Machado era um verdadeiro vidente da alma humana.
Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, Machado foi cronista, contista, romancista, jornalista, dramaturgo, poeta, novelista e crítico. Aos 16 anos, em 1855, publicou seu primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito, de quem obteve seu primeiro emprego de tipógrafo, na citada publicação. Trabalhou na Marmota Fluminense por quase um ano e de lá saiu para trabalhar com Manuel Antonio de Macedo, o Maneco, célebre autor de Memórias de um sargento de milícias, na Imprensa Nacional. Maneco logo percebeu que seu empregado não levava muito jeito para seguir carreira na Imprensa Nacional, pois Machado vivia com os bolsos carregados de livros e perdia horas de serviço lendo pelos cantos. Apresentou Joaquim Maria ao jornalista Francisco Otaviano, que dirigia o jornal Correio Mercantil. Otaviano convidou Machado para ser editor de textos e ao mesmo tempo escrever em pequenos jornais, como O Espelho e Revista de Teatros. Estava prestes a completar 20 anos com a cabeça repleta de idéias, como
escreveu certa vez a Salvador de Mendonça, “íamos completar 20 anos, verdes, quentes, ambiciosos”.73
O Rio de Janeiro de 1859 começava a se entregar aos prazeres do teatro. Machado de Assis assistia a muitas peças em cartaz nos teatros São Pedro, Provisório, Ginásio, São Luis e São Januário. Joaquim Maria iniciava sua vida de critico de peças teatrais e traduziu algumas peças do francês para o português, como Os descontentes, de Racine, e O barbeiro de Sevilha, de Rossini. Também escreveu algumas comédias como O caminho da porta e O protocolo. Mas as peças de Machado não foram tão bem recebidas quanto seus romances e contos, que o consagraram como escritor.
Em 1889, Machado de Assis lança Páginas Recolhidas, que seria nas palavras do próprio autor “uma diversidade de ervas, uma salada”. De fato, o livro possuía oito contos, um discurso feito na inauguração da estátua de Alencar, a peça sobre Camões “Tu, só tu, puro amor”, as memórias do “Velho Senado”, cinco crônicas, uma resenha das cartas de Renan e uma elegia em prosa a Garnier. Machado definia seus contos como “figuras que vi ou imaginei ou simples idéias que me deu na cabeça reduzir à linguagem”.74
Machado de Assis gostava de freqüentar quase que diariamente uma das mais luxuosas ruas do Rio de Janeiro, a famosa Rua do Ouvidor. Lá estava situada não só a livraria e editora Garnier, como também era ponto de encontro de damas e cavalheiros que se reuniam para comentar sobre algum ato político, sobre os saraus e bailes da cidade e sobretudo, sobre a vida alheia.
Machado retrata, na maioria de suas obras, personagens que fazem parte de seu ciclo de vida, pessoas notáveis que realmente estão presentes em cada esquina, em cada baile, em casa episódio de seu mundo.
Seus personagens quase nunca saíram de seus limites relativamente estreitos do Rio de Janeiro. Assim como na realidade, na ficção também foram raras as vezes que deixamos de presenciar o cotidiano fluminense. Em Quincas Borba, podemos nos deparar com duas viagens, uma para Barbacena e outra para Vassouras, curiosamente cidades que o próprio Machado esteve. Mas quando Brás Cubas teve que ir a Portugal, ao chegar, preferiu não tocar neste assunto:
73 PIZA, Daniel. Machado de Assis: um gênio brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo, 2005.
Já agora não digo o que fiz em Lisboa na península e em outros lugares da Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti às alvoradas do Romantismo, que também eu fui fazer poesia afetiva no regaço da Itália; não direi coisa nenhuma. Teria que escrever um diário de viagens, e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a substância da vida75
Por mais que Machado nunca tenha deixado o Brasil, a influência européia fazia visitas diárias às suas obras. O estilo de vida da burguesia européia constituiu, durante todo o Segundo Reinado, como um modelo civilizado a ser adaptado pela sociedade fluminense; as casas eram construídas e decoradas de acordo com o estilo Europeu, como é o caso de Agostinho e Santos de Esaú e Jacó, e era considero o cúmulo da elegância ter criados franceses ou espanhóis, como Rubião, em Quincas Borba, que também chega ao requinte de usar chinelas tunisianas. Notamos, portanto, inclusive nas obras de Machado a influência européia a que se submetiam os personagens de sua sociedade.
Ao assumir um ponto de vista fundamental sobre a condição humana, a partir de uma linguagem polissêmica, os contos de Machado vêm assegurando sua permanência e atualidade. Ao dizer de um tempo, se diz na verdade de vários tempos, integrando passado, presente e futuro. Assim cada novo leitor, armado de seu arsenal cultural, de seu olhar subjetivo, poderá ser capaz de identificar, nas entrelinhas de cada obra, emoções adormecidas, sonhos ainda desconhecidos e até mesmo se identificar com personagens, lugares, histórias de amor, séculos passados ou que ainda estão por vir.
Nesse contar de vidas a que Machado se propõe, consegue, por meio da simulação do particular, atingir dimensões de universalidade. Seus personagens ultrapassam os próprios limites individuais e fictícios, para se converterem em metonímias do homem do ocidente.
Esta preocupação se torna ainda mais latente em seus contos. Nestes, o que importa é ainda a atitude e o sentir de seus personagens, mais do que as ações, a trama ou o espaço.
Ao satirizar o comportamento subserviente de seus personagens, seja com instituições, dinheiro, status social, ou até mesmo relacionado a outros personagens, Machado não referenda: denuncia, embora não acuse diretamente.
Em outras palavras, seus contos, distribuídos pelos vários livros publicados em diversos momentos e variados jornais, tratam do autoritarismo, das imposições sociais como determinador do comportamento dos indivíduos.