2 AGRICULTURA FAMILIAR E SUSTENTABILIDADE, AS NECESSIDADES SOCIO-
3.4 Vigiar e punir, mas sem oferecer alternativas
Para ampliar a compreensão sobre o passivo/ativo ambiental dos estabelecimentos, buscou-se informações dos agricultores, sobre o que foi encontrado no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Esse instrumento foi criado pela Lei nº 12.651/2012, para amparar o Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (SINIMA), (BRASIL, 2012). O CAR é um
registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais. Tem por finalidade, integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, referentes à situação das Áreas de Preservação Permanente (APP), das áreas de Reserva Legal (RL), das florestas e dos remanescentes de vegetação nativa, das Áreas de Uso Restrito e das áreas consolidadas. Buscou-se, por meio do CAR compor uma base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental, econômico e combate ao desmatamento, que é uma das principais críticas ao desenvolvimento e expansão da agricultura.
As informações apresentadas na Tabela 15, mostra que 68,5% da amostra investigada apresentou pendências ambientais encontradas nos estabelecimentos rurais, no ato de elaboração do Cadastro Ambiental Rural (CAR), outros 31,5% informaram estar em situação regular. Dessa forma, é razoável admitir que mesmo com as constantes alterações legislativas, o problema do passivo ambiental dos estabelecimentos rurais ainda persiste. Os instrumentos legais e financeiros e que são necessários para recuperá-los nunca chegaram. Neste sentido, é pertinente o apoio institucional lembrado por Neuman e Loch (2002).
Tabela 15 – Irregularidades na cobertura de vegetação dos estabelecimentos rurais encontradas e anotadas no CAR.
Irregularidades no CAR Frequência %
Sim 37 68,5
Não 17 31,5
Total 54 100,0
Fonte: Dados da pesquisa (2019).
Na aprovação da Lei nº 12.651/2012 (BRASIL, 2012), o novo Código Florestal, foi introduzido no artigo 41, um rol de dispositivos legais, que autoriza o Estado a criar mecanismos de apoio e incentivo aos proprietários rurais, para a promoção do “desenvolvimento ecologicamente sustentável”. O legislador quis acenar com iniciativas tributárias e econômicas sustentadas pelo Estado, que pudessem induzir práticas mais amigáveis à proteção e conservação dos bens e ativos naturais. Contudo, o ordenamento jurídico brasileiro determina que o Legislativo não pode criar despesas. Essa é uma atribuição do poder Executivo, que por ora, não tomou nenhuma iniciativa, passou por promessas vazias.
Art. 41. É o Poder Executivo federal autorizado a instituir, sem prejuízo do cumprimento da legislação ambiental, programa de apoio e incentivo à conservação do meio ambiente, bem como para adoção de tecnologias e boas práticas que conciliem a produtividade agropecuária e florestal, com redução dos impactos ambientais, como forma de promoção do desenvolvimento ecologicamente sustentável, observados sempre os critérios de progressividade..[...]. (BRASIL, 2012).
A Lei nº 12.651/2012, (BRASIL, 2012) abriu espaço para a elaboração de políticas de PSA (sequestro de carbono, beleza cênica, patrimônio natural, etc.), obtenção de crédito agrícola e seguro agrícola com condições diferenciadas, dedução das áreas de APP e RL e de uso restrito da base de cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), (cuja cobrança chega ao ridículo de tão inexpressiva que é), incentivos para comercialização de produtos sustentáveis, disponibilização de inovação e aceleração das ações de recuperação, conservação e uso sustentável das florestas de demais tipos de vegetação, dedução da base de cálculo do imposto de renda do proprietário ou possuidor de imóvel rural, pessoa física ou jurídica, de parte dos gastos efetuados com a recomposição das áreas de APP e RL, entres outras. Contudo, nenhum dos instrumentos apontados foi implementado até agora.
A pesquisa levantou dados sobre os tipos de irregularidade apontadas no ato de elaboração do CAR (Tabela 16), e 38,9% informaram pendências nos estabelecimentos relativas a RL a menor do que é estabelecido na Lei nº 12.651/2012. Nos estados da região Sul, o percentual previsto é de no mínimo de 20% de RL da área total do estabelecimento, 29,6% dos estabelecimentos possuem áreas de APP abaixo do é determinado na lei.
Tabela 16 – Irregularidades encontradas nos estabelecimentos rurais pesquisados.
Irregularidades apresentadas no CAR Frequência %
Percentual de reserva legal a menor do que o exigido pela Lei nº 12.651/2012 (mínimo de
20% do estabelecimento para a região Sul, computando as áreas remanescente de APP). 21 38,9 Metragem de área de preservação permanente a menor do que o exigido pela Lei nº
12.651/2012 (mata ciliar, conforme “escadinha”, estabelecimentos com até 1 módulo fiscal: 5 metros, de 1 a 2 módulos: 8 metros, de 2 a 4 módulos: 15 metros (Art. 61-A.). Acima de 4 módulos conforme artigo 4º, inciso I.
16 29,6
Não foi encontrada e anotada no CAR nenhuma irregularidade 17 31,5
Total 54 100,0
Fontes: Dados da pesquisa (2019).
Os dados das Tabelas 15 e 16, informam que o passivo ambiental dos agricultores não é trivial, tanto que 25,9% dos estabelecimentos foram multados por infrações ambientais cometidas (Tabela 14). Um documento elaborado pelo Instituto Sócio Ambiental (ISA), sobre o acúmulo do passivo ambiental, dá uma ideia do passivo florestal no Brasil e anota que:
[...] olhando apenas para a dimensão da legislação florestal, é o acumulo de um grande passivo ambiental no meio rural. Embora as estimativas não sejam precisas, aponta- se para algo em torno de 21 milhões de hectares11 o tamanho do passivo florestal do
setor agropecuário, o que equivale a 9,1% da área ocupada com pastagens12, já́
11 Estimativa de déficit de 78% em áreas de RL e 22% em APPs, esses números vão sendo refinados conforme a
atualização do CAR amplia cobertura. (COSTA, 2016).
12 Estimativas feitas pelo Professor Britaldo Soares-Filho, da UFMG, no artigo “Impacto da revisão do Código
segundo as regras da nova lei florestal (Lei Federal 12.651/12), que diminuiu em 58% o passivo existente sob a legislação anterior (Lei Federal 4.771/65). (ISA, 2013, p. 4).
Com foi antecipado, as estimativas sobre o passivo florestal não são precisas, por precariedade ou mesmo ausência de instrumentos técnicos e cartográficos consistentes, mesmo assim, de acordo com os cálculos realizados por Soares-Filho (2013), ainda restariam 42% de passivo florestal (cerca de 8,8 milhões de hectares a serem recuperadas). Nesse raciocínio, procede a crítica dos ambientalistas no debate sobre a flexibilização da legislação, em anistiar aos desmatadores que cometeram infrações ambientais antes de 22 de julho de 2008. Esse passivo foi perdoado sob a tutela e abrigo do conceito de áreas rurais consolidadas (BRASIL, 2012), ou seja, “ [...] as áreas que foram ocupadas “historicamente”, às vezes com “ajuda do governo”, ou quando “era permitido”, não necessitam ser recuperadas, pois significaria perda para a agricultura nacional e injustiça para muitos agricultores.” (SOS FLORESTAS, 2011, p. 13, grifos no original). Entretanto, já existe proposta no Congresso Nacional com o objetivo de ampliar as “áreas consolidadas”, a Medida Provisória 867, convertida em Projeto de Lei de Conversão - PLV 9/2019, (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2019), que aguarda votação. Essa iniciativa acrescentaria cerca de 41 milhões de hectares passíveis de recomposição florestal (IHU-UNISINOS, 2019), pela Lei 12.651/2012 (BRASIL, 2012).