MURPHY E WAGONER se surpreenderam ao entrar no
local do evento na van de carga alugada. Se a super-lotação do estacionamento indicava alguma coisa, a multidão presente à Cruzada da Fé em Deus, de J.B. Sonstad, aumentara. Duas tendas menores e superlotadas haviam sido erguidas para acomodar o público adicional. Os homens de colete cor de laranja mantinham-se muito ocupados tentando fazer com que todos estacionassem de forma ordenada.
Murphy seguiu o fluxo de trânsito e virou na direção da grande tenda. Passou a primeira fila de
carros estacionados e manobrou até uma vaga não muito longe do caminhão com o equipamento televisivo de Sonstad. Havia também por perto duas vans menores estacionadas pertencentes a estações locais de televisão.
Murphy parou perto das vans. Ele e Wagoner saíram e colocaram duas antenas em cima da van em que tinham chegado.
Murphy foi o primeiro a falar.
-Descobriu alguma coisa sobre Sonstad desde
nossa última visita?
-Sim, procurei na internet e descobri que Sonstad é
casado e tem três filhos. A única filha, a caçula, casou-se no ano passado.
-Nada de extraordinário nisso.
-Tem razão, exceto por uma coisa. Deparei-me
com um artigo de jornal que dizia que Sonstad ofereceu um grande casamento para ela num clube de campo exclusivo. Dignitários e empresários importantes de todo o mundo estiveram presentes. Foi um jantar formal animado com a presença de cantores e músicos conhecidos. Flores em profusão, cardápio fino, champanhe caro. E o artigo ainda forneceu o custo total. Arrisca dar um palpite?
-Cinqüenta mil dólares?
-Um milhão e duzentos mil dólares.
-Está brincando! Quanto tempo se leva para
ganhar esse dinheiro todo? E gastar num casamento! De onde veio o dinheiro?
-Como assim, Murphy? Os pastores de igrejas não
costumam gastar um milhão e duzentos mil dólares no casamento da filha?
-Acho que eu não deveria me surpreender. Uma
pesquisa que fiz indicou que os Sonstad têm propriedades em Atlanta e San Diego, sem falar no rancho em Montana e nas participações em uma rede de televisão.
-Bem, pelo menos sabemos que a pregação de que
Deus quer que as pessoas sejam ricas funciona para ele.
Wagoner e Murphy continuaram os preparativos e, em seguida, foram para a tenda principal. Como o local estava lotado, juntaram-se aos que estavam em pé, no fundo.
Observaram as pessoas fazendo o aquecimento com música para o evento. A entrada de Sonstad no palco foi ainda mais feérica do que da vez anterior. Ele acalmou a platéia e começou a suposta conversa com Deus.
-Sim, Senhor. Estou ouvindo... O que está
dizendo?... Vai acabar o conflito entre palestinos e judeus... Eles viverão em harmonia... Quando isso vai acontecer, Senhor?... Em um ano e meio... Louvado seja Deus! Obrigado!... Direi ao povo.
A essa altura as pessoas estavam em pé, gritando e aplaudindo. O barulho era ensurdecedor.
Wagoner se inclinou e gritou no ouvido de Murphy:
-Ah, me lembrei de uma coisa. Quando eu
pesquisava sobre Sonstad, li que ele costuma profetizar sobre acontecimentos futuros.
-Alguma dessas profecias já se concretizou? -
gritou também Murphy.
-Duas. Mas eram tão gerais que eu ou você
poderíamos ter feito. Pelo menos uma dúzia das que li nunca aconteceram.
-A Bíblia não diz que um profeta, quando ele fala
em nome de Deus, tem de acertar cem por cento?
-É verdade.
-Não apedrejavam profetas que não diziam a
verdade?
-Sim, apedrejavam. Mas não creio que veremos
alguém atirando pedras em Sonstad hoje.
-Bem, Bob, tenho de admitir que ele é um grande
orador. Ele sabe manipular a multidão. Ele se daria bem vendendo carros velhos ou geladeiras para esquimós.
Murphy deixou Wagoner por alguns minutos e foi até a van.
-O que eu perdi? - ele perguntou ao voltar. -Não muito.
A cruzada continuou. Sonstad conversou com Deus e evocou pessoas que sofriam de alguma doença. Ao ouvirem seus nomes, elas subiam ao palco, Sonstad as tocava na cabeça, caíam ao chão, eram ajudadas pelos auxiliares e voltavam a seus lugares. Na altura da vigésima cura, o público estava fora de si. Era chegada a hora de fazer uma boa doação.
Enquanto as contribuições eram recolhidas, Murphy e Wagoner comentavam o que viam.
-Bob, já reparou como Sonstad lida com as
contradições?
-O que você quer dizer?
-Um modo de lidar com elas é dizer que, se você
tiver bastante fé, será curado. Isso lhe dá uma boa saída se nada acontecer e a pessoa não for curada. Significa que ela não tinha fé suficiente. Não é culpa de Sonstad.
-Mas Jesus não curou gente que não tinha fé
alguma nas curas que Ele fazia?
-Certo, Bob. Um outro modo é dizer "O Senhor nem
sempre cura na reunião. Muitas vezes ele faz a cura em casa, quando você está sozinho". Isso lhe dá uma outra saída quando alguém não é curado na reunião.
-Uma outra coisa que notei foi que a maioria das
supostas curas era para problemas ou doenças que não se podiam ver. Coisas como doenças hepáticas, renais ou diabetes. Como alguém pode saber na reunião se foi realmente curado? Não havia como saber.
-Isso dá a Sonstad outra rede de segurança, não é,
Michael?
-Certo. E reparou que ninguém com alguma
deficiência no braço ou na perna foi curado? Isso seria algo para se notar. Nenhum cego recuperou a visão. Não houve cura para nenhum leproso. Nem para pessoa alguma com deficiência física ou mental.
Murphy e Wagoner observaram o público sair da reunião muito animado com o que tinha visto. Ouviram muita gente comentar que J.B. Sonstad
era mesmo maravilhoso e um grande mensageiro de Deus entre os homens.
-Acha que funcionou? - perguntou Wagoner já a
caminho da van alugada.
-Vamos ver. Tudo estava ligado e funcionando
quando saímos.
Abriram a van, entraram e fecharam a porta. Murphy viu que as luzes vermelhas continuavam acesas e o gravador estava ligado.
-Vamos rebobinar a fita e ver o que temos.
-Onde conseguiu todo esse equipamento? -
perguntou Wagoner.
-Peguei emprestado de Levi Abrams. Ele disse que
captaria qualquer conversa dentro de meio quilômetro.
Murphy pôs a fita para tocar. Podiam ouvir claramente a voz de uma mulher falando.
-Olhem para a esquerda. No terceiro grupo de
fileiras. O homem de camisa azul. Ele se chama Carl e sofre de diabetes há três anos.
-Não é possível, Michael. Quando você me disse
que Sonstad devia ter um receptor acoplado ao microfone, pensei que estivesse louco. Quem é essa mulher falando?
-É a mulher de Sonstad. Eu a vi quando voltei para
ligar o equipamento na van. A porta traseira do caminhão com todo o equipamento de TV estava aberta e eu pude vê-la olhando para os monitores. Eu a reconheci por causa dos cartazes colocados fora da tenda.
-Como ela conseguia informações sobre as pessoas
-Muito fácil. Lembra de quando entramos na
tenda? Recebemos cartões de oração perguntando se precisávamos de cura e qual era o problema, a fim de que a equipe deles pudesse orar por nós. Eles escolhiam algumas pessoas e anotavam o que vestiam e onde se sentavam. Depois a mulher de Sonstad pegava o cartão e transmitia as informações para ele, que estava no palco.
-Então ele realmente estava conversando com
alguém... só que não era Deus.
-Você entendeu, Bob. Vejamos se o resto da fita é
audível.
Murphy e Wagoner ouviram a fita inteira. Havia vinte mensagens bem claras da mulher de Sonstad para ele. Ouviram até suas últimas palavras antes de terminar a transmissão.
-Não demore muito hoje. Temos um jantar
marcado para mais tarde do outro lado da cidade. Estou com fome. Aliás, a última senhora que você vai chamar esteve num hospital para doenças mentais. Diga que ela nunca mais precisará voltar.
-É inacreditável! - revoltou-se Wagoner. -
Precisamos denunciá-los de alguma forma.
-Acho que devemos entregar as fitas a Steven
Bennett, da Raleigh Gazette. Ele é um repórter sério, feroz, investigativo, e saberá usar essas informações. Tenho certeza de que dará a isso um tratamento para pôr fim à cruzada embusteira de Sonstad.
-Michael, o que ele está fazendo é ilegal?
-Não tenho certeza. No mínimo é enganoso, anti-
todos os ministros e organizações dedicados à obra de Deus. Mas não sei se o público em geral será capaz de distinguir uma coisa da outra. Talvez joguem tudo por água abaixo. A meu ver, gente desse tipo causa grande mal e deve ser responsabilizada por isso.
Uma semana depois Murphy recebeu um telefonema de Wagoner.
-Viu Steven Bennett entrevistando J. B. Sonstad na
televisão?
-Não, Bob. O que aconteceu?
-Bennett mostrou a ele trechos da fala da esposa.
E ele disse; "Sim, é minha mulher. Não fazíamos nada de errado. Só estávamos tentando fortalecer a fé fraca de algumas pessoas na platéia. Quando pensam que Deus está falando diretamente a elas, a esperança se acende em seus corações. A semente da fé brota em suas mentes e pela primeira vez acreditam que Deus se preocupa com elas o bastante para curá-las da doença. Isso, por sua vez, motiva-as a levantar e ir para a frente para serem curadas. No fim das contas, Deus fica com a glória e todo mundo sai contente." Depois disso, Sonstad convidou Bennett para ir pessoalmente às reuniões.
-Inacreditável! - disse Murphy. - Inacreditável!