Lenizane Vanderlei Cavalcante1 Sandra Conceição Maria Vieira 2 Lygia Maria Pereira2 1
Mestranda do Programa de Hebiatria/UPE. 2Docente do Programa de mestrado em
Hebiatria/UPE.
E-mail:[email protected]
RESUMO: Os adolescentes com deficiência estão entre os mais expostos a sofrer
violência quando comparados a população em geral, por isso o presente estudo teve o objetivo de conhecer e descrever como este fenômeno se comporta no Estado de Pernambuco em suas mesorregiões assim como verificar suas associações. Para isso foram utilizados os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) sobre violência física, psicológica, sexual e negligência no período de 2009 a 2013. A análise foi realizada por meio da estatística analítica e descritiva através do SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) na versão 21. Registraram-se 289 casos de violência dos quais 65,1% era do sexo feminino, (48,1%) pardos e (46,4,3%) possuíam ensino fundamental incompleto. Houve associação significativa com a mesorregião de ocorrência para a violência sexual e negligência (p < 0,05), em que a negligência representou 31,4% na RMR, e a violência sexual
predominou na Mata (73,3%); para os outros tipos de violência, destaca-se que: a física apresentou frequência elevada no Sertão (76,2%), e a psicológica no Agreste (41,7%). Acredita-se que as especificidades da região pode determinar de alguma forma, em alguns casos, a tipologia da violência, especialmente quando associa-se a outras variáveis, como por exemplo, o tipo de deficiência. Daí a necessidade de elaboração de estratégia de enfrentamento levando em consideração as características loco-regionais.
Palavras-Chaves: Pessoas com deficiência, violência, adolescente, adolescência.
ABSTRACT: Adolescents with disabilities are among the most exposed to violence when
compared to the general population, so this study aimed to discover and describe how this phenomenon behaves in the state of Pernambuco in their meso and verify their association. For this we used the data from the Notifiable Diseases Information System (Sinan) on physical, psychological, sexual and neglect from 2009 to 2013. The analysis was performed using the analytical and descriptive statistics using SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), version 21 were registered 289 cases of violence of which 65.1% were female (48.1%) and brown (46,4,3%) had incomplete primary education. There was a significant association with the middle region of occurrence for sexual violence and neglect (p <0.05), in which the negligence represented 31.4% in RMR, and sexual violence predominated in the Forest (73.3%); for other types of violence, it is emphasized that: physical showed high frequency in the Hinterland (76.2%), and psychological in the arid zone (41.7%). It is believed that the specific region can be determined in some way, in some cases, the type of violence, especially when it is associated with other variables, such as the type of disability. Hence the need for coping strategy of development taking into account the local and regional characteristics.
Introdução
A violência contra adolescentes é reconhecida como problema de saúde pública, tendo índices elevados em todo o mundo. Só no Brasil, em 2011, houve cerca de 98.115 atendimentos por violência na população em geral, dos quais 39.281 correspondiam a crianças e adolescentes, e destes 5851 pertenciam ao Estado de Pernambuco1.
Mediante dados epidemiológicos registrados para esse mesmo ano, Pernambuco, através do município de Ouricuri, representou a trigésima colocação de setenta municípios eleitos com as maiores taxas de atendimentos por violência contra crianças e adolescentes no SUS.1 Além disso, dentre os casos registrados houve uma centralização de atendimentos na faixa de 15 a 19 anos, configurando uma maior exposição para os grupos de adolescentes1.Tem sido bem evidente a vulnerabilidade desse segmento populacional, havendo fortalecimento da problemática quando associado a deficiência. Alguns estudos de base epidemiológica afirmam que há maior probabilidade de pessoas com deficiência estarem expostos a violência, possivelmente por fatores culturais, sociais e econômicos2
.
Os adolescentes com deficiência desde o nascimento estão mais expostos a discriminação, por não projetarem a imagem do filho sonhado podendo, eventualmente lhe ser tirado os cuidados necessários que a circunstância exige. Somado a isto estão as relações familiares e conjugais que se desestruturam, colocando o filho como o pivô, tornando o mesmo possível vítima de maus tratos3.
Do ponto de vista psicanalítico um filho com deficiência gera conflitos internos para os pais, pois os mesmos idealizaram um bebê que surge totalmente diferente da alusão do filho perfeito sem defeitos. Há de início sentimentos inconscientes de ambivalência, negação e aceitação, sendo necessário um tempo para que haja o processo de luto pelo filho idealizado e aceitação pelo filho com deficiência concebido4. Logo, percebe-se que os
possíveis e maiores perpetradores da violência contra os adolescentes com deficiência são os próprios pais, a família ou o cuidador caracterizando o evento como violência doméstica.
No Brasil, há muito tempo não existia dados epidemiológicos confiáveis sobre violência contra crianças e adolescentes, o que existia eram registros inconsistentes e isolados5 No entanto, a partir da obrigatoriedade da notificação dos casos de violência, a problemática passou a ganhar maior visibilidade e com isso um aumento na sensibilização para os registros. Todavia, apesar dessa conquista para a saúde pública, com a violência sendo um agravo de notificação compulsória e universal, há que se destacar as iminentes subnotificações que existem em decorrência da própria problemática, do medo, do silêncio da sociedade e das dificuldades dos profissionais de saúde em identificar e realizar o registro dos casos.
Dada a importância da temática violência contra adolescentes com deficiência e os dados dispersos e inconsistentes sobre essa população, compreende-se que é fundamental conhecer e descrever como este fenômeno se comporta no Estado de Pernambuco, em especial nas suas mesorregiões, para que assim haja informações mais apuradas acerca do fenômeno que subsidiem ações específicas para cada região específica do Estado.
Metodologia
Trata-se de um estudo epidemiológico, ecológico exploratório de múltiplos grupos, com uso de dados secundários realizado no Estado de Pernambuco no período de 2009 a 2013. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado possui uma área de 98.148,323Km2 e uma população estimada para 2013 de 9.208.550
habitantes, estando dividida em cinco mesorregiões (Região Metropolitana do Recife- RMR, Zona da Mata, Agreste, Sertão e Vale do São Francisco)6.
Para a elaboração do estudo, foram utilizados dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), acerca de violência doméstica, sexual e/ou outras violências, sendo considerados os casos suspeitos e/ou confirmados da violência doméstica de natureza física, psicológica, sexual e negligência.
A definição de todas as variáveis aqui estudadas encontra-se acessível no Instrutivo de notificação de violência doméstica, sexual e outras violências elaborado pelo Ministério da Saúde7.
Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva com frequências absolutas e relativas para as variáveis de caracterização da vítima, e estatística analítica, por meio do teste de qui quadrado e Fisher para verificar associação entre os tipos de violência e a mesorregião da ocorrência. O programa estatístico utilizado para digitação dos dados e obtenção dos cálculos estatísticos foi o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) na versão 21 com margem de erro para as decisões dos testes estatísticos de 5% e os intervalos obtidos com 95,0% de confiança.
Mesmo se tratando de dados secundários, a pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco sob o protocolo CAAE nº 30313914000005207
Resultados
Foram registrados 289 notificações de violência contra adolescentes com deficiência no Estado de Pernambuco no período de 2009 a 2013. Destas, (65,1%) era do sexo feminino, sendo o maior percentual de pardos (48,1%) seguido dos que eram brancos (16,3%) e para 22,1% a informação não estava disponível; Em relação a escolaridade as duas maiores
frequências foram o ensino fundamental incompleto (46,4%) e o item ignorado/ branco (30,8%). Estratificando a mesorregião de residência por sexo, teve-se a maioria (58,8%) residente na RMR, dos quais 35,6% eram do sexo feminino e 23,2% do masculino e os percentuais das outras 4 mesorregiões variaram de 5,5% para 12,8%. Para os tipos de deficiência/transtorno, os dois maiores percentuais foram: deficiência mental (38,4%), transtorno comportamental (26,3%) e transtorno mental (23,2%) sendo que para 33,1% a informação não estava disponível (Tabela 1).
Tabela 1 – Distribuição dos casos notificados de violência segundo os dados de caracterização
por sexo, em Pernambuco, 2009-2013.
Variáveis Sexo TOTAL Masculino Feminino N % N % N % Raça Branco 11 3,8% 36 12,5% 47 16,3% Pardo 45 15,6% 94 32,5% 139 48,1% Negro 14 4,8% 22 7,6% 36 12,5% Amarelo 0 0,0% 1 0,3% 1 0,3% Indígena 0 0,0% 2 0,7% 2 0,7% Não informado 31 10,7% 33 11,4% 64 22,1% Idade 10-14 54 18,7% 103 35,6% 157 54,3% 15-20 47 16,3% 85 29,4% 132 45,7% Escolaridade Analfabeto 14 4,8% 22 7,6% 36 12,5%
Ensino Fundamental incompleto 47 16,3% 87 30,1% 134 46,4%
Ensino Médio Incompleto 2 0,7% 9 3,1% 11 3,8%
Ensino Médio Completo 0 0,0% 1 0,3% 1 0,3%
Ensino Superior Incompleto 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0%
Ensino Superior Completo 0 0,0% 0 0,0% 0 0,0%
Não Se Aplica 6 2,1% 4 1,4% 10 3,5% Ignorado/Em Branco 31 10,7% 58 20,1% 89 30,8% Mesorregião de residência RMR 67 23,2% 103 35,6% 170 58,8% Agreste 6 2,1% 19 6,6% 25 8,7% Sertão 9 3,1% 13 4,5% 22 7,6% São Francisco 2 0,7% 17 5,9% 19 6,6% Mata Meridional 1 0,3% 15 5,2% 16 5,5% Não informado 16 5,5% 21 7,3% 37 12,8%
Tipo de deficiência / transtorno(1)
Física 21 7,3% 37 12,8% 58 20,1% Mental 38 13,1% 73 25,3% 111 38,4% Visual 3 1,0% 8 2,8% 11 3,8% Auditiva 4 1,4% 9 3,1% 13 4,5% Transtorno Mental 21 7,3% 46 15,9% 67 23,2% Transtorno Comportamental 28 9,7% 48 16,6% 76 26,3% Outra 21 7,3% 30 10,4% 51 17,6% TOTAL(1) 101 34,9% 188 65,1% 289 100,0%
(1): Considerando que um mesmo indivíduo poderia apresentar mais de um tipo de deficiência as frequências não representam o total de pesquisados.
A figura 1, ilustra a taxa dos tipos de violência física, psicológica, sexual e negligência nas mesorregiões de Pernambuco no período de 2009 a 2013. A região metropolitana do Recife apresentou a maior taxa (286) seguido do São Francisco (223) e Sertão (120).
Figura 1. Taxa de Violência contra adolescentes com deficiência no Estado de Pernambuco
por mesorregiões, no período de 2009 a 2013.
Fonte: Calculado com base no censo do IBGE.
No estudo de associação entre cada tipo de violência com a mesorregião da ocorrência pôde ser verificado que apenas a violência sexual e negligência foram significativas (p < 0,05) e para todos os tipos se destaca que: os percentuais de casos registrados que sofreram violência física foram mais elevados entre as ocorrências no Sertão (76,2%) e menos elevado na Mata Meridional (40,0%); Já a prevalência de violência psicológica foi mais elevada na região do Agreste (41,7%) e RMR (37,3%) e menos frequente no Sertão (4,8%); A negligência, por sua vez predominou na RMR (31,4%) e foi quase insignificante no Agreste (4,2%) e Zona da Mata (6,7%); já para a violência sexual, a Mata Meridional prevaleceu com (73,3%). A menor incidência da violência sexual ocorreu no
Legenda: Taxa:
Taxa de violência contra adolescentes com deficiência por mesorregiões de Pernambuco, 2009-2013.
Sertão com (9,5%). Em relação aos outros tipos de violência foram verificados maior número de casos na Região do São Francisco (15,8%) (Tabela 2.)
Tabela 2 – Avaliação do tipo de violência sofrida segundo a mesorregião do local da agressão. Mesorregião do local da ocorrência
Tipo de violência RMR Agreste Sertão S. Francisco Mata
Meridional Grupo Total Valor de p
N % n % n % n % n % n % TOTAL 169 100,0 24 100,0 21 100,0 19 100,0 15 100,0 248 100,0 Física Sim 82 48,5 15 62,5 16 76,2 9 47,4 6 40,0 128 51,6 p(1) = 0,099 Não 87 51,5 9 37,5 5 23,8 10 52,6 9 60,0 120 48,4 Psicológica Sim 63 37,3 10 41,7 1 4,8 6 31,6 5 33,3 85 34,3 p(1) = 0,051 Não 106 62,7 14 58,3 20 95,2 13 68,4 10 66,7 163 65,7 Negligência Sim 53 31,4 1 4,2 3 14,3 2 10,5 1 6,7 60 24,2 p(1) < 0,004* Não 116 68,6 23 95,8 18 85,7 17 89,5 14 93,3 188 75,8 Sexual Sim 63 37,3 9 37,5 2 9,5 10 52,6 11 73,3 95 38,3 p(1) = 0,002* Não 106 62,7 15 62,5 19 90,5 9 47,4 4 26,7 153 61,7 Outro Sim 9 5,3 1 4,2 0 0,0 3 15,8 1 6,7 14 5,6 p(2) = 0,254 Não 160 94,7 23 95,8 21 100 16 84,2 14 93,3 234 94,4
(*): Associação significativa ao nível de 5,0%. (1): Através do teste Qui-quadrado de Pearson. (2): Através do teste Exato de Fisher.
Em relação ao tipo de deficiência por mesorregiões verificou-se que a região do Agreste em sua maioria foi composta por adolescentes com transtorno mental (2,77%) e transtorno comportamental (2,42%). A região da Mata Meridional apresentou mais deficientes mentais (2,42%); já a RMR teve as maiores frequências em todos os tipos de deficiência/transtorno, com as respectivas porcentagens: deficiência mental (21,80%), deficiência física (10,38%), deficiência auditiva (2,42), deficiência visual (1,04%), transtorno comportamental (19,72%) e transtorno mental (16,51%). O São Francisco por sua vez teve as
maiores porcentagens de deficientes mentais (3,11%), e físicos (1,73%) e o Sertão maior frequência de adolescentes com deficiência física (Tabela 3.)
Tabela 3. Avaliação do tipo de deficiência dos adolescentes por Mesorregiões de
Pernambuco, 2009-2013.
Mesorregião
Tipos de Deficiência
Def. Física Def. Mental Def. Visual Def. Auditiva
Trans.
Mental Trans. Comp Def. Outros
N % N % N % N % N % N % N % Total 58 20,07% 111 38,41% 11 3,81% 13 4,50% 67 23,18% 76 26,30% 51 17,65% Agreste 5 1,73% 9 3,11% 3 1,04% 1 0,35% 8 2,77% 7 2,42% 5 1,73% Mata Meridional 3 1,04% 7 2,42% 0 0,00% 0 0,00% 4 1,38% 2 0,69% 4 1,38% RMR 30 10,38% 63 21,80% 3 1,04% 7 2,42% 48 16,61% 57 19,72% 30 10,38% São Francisco 5 1,73% 9 3,11% 0 0,00% 3 1,04% 2 0,69% 2 0,69% 2 0,69% Sertão 10 3,46% 7 2,42% 1 0,35% 1 0,35% 2 0,69% 1 0,35% 2 0,69% Não Informado 5 1,73% 16 5,54% 4 1,38% 1 0,35% 3 1,04% 7 2,42% 8 2,77%
b) Um caso notificado pode ter mais de um tipo de deficiência/transtorno; os percentuais foram calculados considerando-se o total de casos com deficiência/transtorno. Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação/ Diretoria Geral de Informações e Ações estratégicas em vigilância epidemiológica /Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.
Quanto a violência psicológica todos os registros compuseram 95 casos, dos quais 40% representavam apenas as vítimas que sofrerem violência psicológica isolada e 57,89% as que sofreram violência psicológica e física concomitantemente. Destes a maioria eram na
RMR (38,95%), seguido do Agreste (6,32%). Já os que deflagraram todos os quatros tipos de violência representaram apenas 2,11% dos casos.
Figura 2. Distribuição da Violência psicológica em adolescentes com deficiência,
Pernambuco, 2009-2013.
FONTE: Sistema de Informação de Agravos de Notificação/ Diretoria Geral de Informações e Ações estratégicas em vigilância epidemiológica /Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.
Discussão
A caracterização do perfil dos casos de violência notificados nesse estudo correspondem a adolescentes com deficiência predominantemente do sexo feminino e da cor/raça parda, prevalecendo a faixa etária de 10-14 anos com percentual de diferença de
Agreste Mata
Merid. RMR São Franc. Sertão Não Inf.
Psicológica 4,21% 3,16% 26,32% 2,11% 1,05% 3,16%
Psicológica e Física 6,32% 2,11% 38,95% 4,21% 0,00% 6,32%
Psicológica, Física, Sexual e
Negligência 0,00% 0,00% 1,05% 0,00% 0,00% 1,05% 0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 35,00% 40,00% 45,00% P er ce n tu al